Último paciente do dia
Shizu Devastir
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/08/20 23:54
Editado: 21/10/21 00:12
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 11min a 15min
Apreciadores: 3
Comentários: 3
Total de Visualizações: 840
Usuários que Visualizaram: 10
Palavras: 1806
[Texto Divulgado] "Flegetonte - O Rio da Cura." Condenada a despertar no Tártaro sem lembrar como ali chegou, uma alma ferida percorre os rios do submundo em busca de redenção. Entre o Estige dos juramentos quebrados, o Cócito das lamentações eternas e o Aqueronte das travessias impossíveis, ela revisita pactos, dores e desistências que marcaram sua existência. Movida pela esperança de purificação, encontra o lendário Rio da Cura: o Flegetonte. Diante da luta pela cura e da repetição infinita da dor, resta-lhe uma última escolha.
Não recomendado para menores de doze anos
Notas de Cabeçalho

ULTIMAMENTE SINTO QUE NÃO FAÇO QUALQUER SENTIDO!!

Participando do desafio, texto inspirado naquela imagemzinha do balancinho com pôr-do-sol no fundo (creio ser a 07, não lembro).

Nota: Intimidação e Insinuação/Tentativa de Estupro, Cuidado ao ler!

Beijinhos, ( ; 3 ; )

Capítulo Único Último paciente do dia

Era final do dia e seu último cliente já esperava no corredor, a mulher de cabelos negros abriu a porta do consultório e chamou-o: – Max Carvalho Almeida. Por favor, entre.

O homem de terno cinzento e gravata vermelha pegou suas coisas e foi em direção a doutora: – Sim, Senhorita – sorriu segurando seu chapéu contra o peito e adentrando a sala.

Os dois sentaram de frente um ao outro e a consulta começou: – Já faz algum tempo, Senhor Max. Como tem estado?

– Oh! Estou bem, Doutora, obrigado por perguntar. E você? Bem, posso imaginar – soltou uma olhada por toda a Mulher.

– Sim, obrigado – respondeu seca e tediosa. – O Senhor lembra aonde paramos na última visita?

– Acredito ter sido na origem ou infame infância, não?

– Sim, está certo. Por favor, conte o que lembra sobre sua infância, Senhor Almeida.

– Por favor, não use esse sobrenome. Só Max Carvalho está mais que bom, pretendo tirar esse sobrenome de minha nomeação – e sorriu ao final como se desejasse não ser mal interpretado.

– Claro, como sentir-se melhor – olhou a ficha e retomou – O senhor lembra de como era sua casa? Por exemplo.

– Sim, lembro bem... – Observou a paisagem depois da janela aberta.

A Mulher esperou por um instante, sem sinais de continuidade da frase ela vou a falar: – Pois, conte-me.

– Não, não quero falar sobre isso. Seria uma perda de tempo, mal passei por lá – puxou as calças cruzando as pernas – Que acha de falarmos sobre um amigo meu?

A Doutora analisou por um momento a proposta olhando sem desvio seu olhar do paciente para assentir com a cabeça que continuasse.

“Eu não sabia muito sobre ele na primeira vez que o enfrentei cara-a-cara, só as coisas que falavam dele eram de meu conhecimento, como a cor prata de seus cabelos que não guardavam melanina alguma ou boatos toscos sobre ser uma criatura sobrenatural. Seria idiota acreditar em quaisquer daquelas fofocas – muitas vezes maldosas – mas eu dizia crer para no fundo gritar que só as suportava. Contudo, a primeira vez que meus olhos pousaram em seu ser chamativo, principalmente para um rapaz, todos os mal-ditos vieram como tsunami abalar minha razão.

– Aquele seria o Feliz Cruzeiro Montanha Alguma Coisa?! – o rapaz que me acompanhava riu e confirmou minha suspeita.”

– Félix Monte Cruz Almor, eu acho tão engraçado minha dificuldade de lembrar seu nome naquela época! – riu de suas memórias.

– Sim... – respondeu vagamente a doutora que escrevia na ficha de Max, concentrada.

O homem calou-se e fixou seus olhos na mesma até que terminasse suas anotações desnecessárias no seu ponto de vista; só quando a Doutora sessou sua escrita, ele voltou a contar a história.

“Como dizia, meu amigo confirmou a identificação. Félix estava sentado as sombras de uma árvore e observava as crianças brincarem na praça comunitária à frente. Ver ele sozinho e desejoso despertou algo em mim que me cativava a atenção até meu companheiro chamar-me para continuar nosso caminho. Não lembro bem, mas algumas piadas surgiram sobre o garoto naquele dia... Por minha culpa”

– O Senhor ficou com raiva dos garotos naquela época? Ou fica agora?

– Doutora, eu não o conhecia, então encarava como brincadeira. Atualmente vejo como imaturidade, afinal éramos jovens demais para entender o poder das palavras sobre os outros, pelo menos até... – ficou pensativo em seu próprio mundo.

– Sim, entendo – chamou a atenção de seu cliente. – Mas “até”?

– Até acontecer com a gente é claro – exclamou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

“Depois daquele dia, eu sempre passava observando discretamente a praça e a nomeada por mim: “Árvore do Félix”. Decorei os dias que aparecia e mesmo querendo ir falar com ele, eu estava ocupado demais com meus amigos e nossas aventuras. Bem, até notarem meu interesse no garoto, parece que eu não era o ninja discreto que imaginava ser.

E assim sem mais ou menos, sem qualquer aviso prévio ou sinal; eles me encurralaram no banheiro. Eu ainda lembro o quanto suei frio naquele dia.

– Do que estão falando?! – eu sabia o quanto assustadores aqueles mais de dez rapazes podiam ser.

– Achou que a gente não ia notar as olhadas que dá toda vez que passamos pelo bosta do Félix? Bixinha! – empurrou-me, Carlos.

– É bixa! Quer beijar aquele esquisitão? – Todos riram quando Garcia comentou.

– Eu não... Não sou “bixa”! Qual é, Galera!?

– Acho que é isso que todos falam, não é mesmo Pessoal?

– Olha, eu acho que é isso mesmo, tipo o Oliveira!

Todos entre olharam-se e riam como se lhes trouxesse boas memórias. Deixando meu eu de quatorze ou quinze anos tremendo até a alma, não tinha saída.

– Talvez a gente devesse te satisfazer, você já olhou com desejo para todos nós? Quem já foi homenageado com uma batidinha?

– Carlos! Que nojo! – disse Gerônimo com desprezo por mim.

– Cala a boca! Merda! – Berrou, Carlos.

– Eu não fiz isso... Não quero que me toquem... – Carlos é um ou dois anos mais velho que eu, além de na época ser mais alto e maior. Conseguiria sair dali se não estivesse participando, mas a situação era diferente com ele apresente.

– Vamos te comer gostoso, mas não como uma mulher, vai ser bem bruto. Afinal somos amigos, não? – enquanto falava isso, segurou-me contra a parede tirando meus pés do chão. Indefeso, puxou minha bermuda e mijei-o todo.

O grupo de garotos começou a rir tanto que alguns até chegaram a chorar, humilhado e sem paciência, Carlos jogou meu corpo no chão e iniciou um espancamento que foi seguido pelos demais contra mim. Ainda posso ouvir – mais claro que nunca – alguém perguntar: – Você ia mesmo fazer sexo com ele?

Uma gargalhada alta e a resposta: – Claro que não, eu estava só assustando ele. O que um bixinha quer andando com a gente?”

– Até hoje tenho dúvidas sobre isso...

– De onde vem essa dúvida, Senhor Max?

– Os olhos dele desejavam fazer aquilo e... – hesitou em terminar.

– Max, quero que saiba, nada que falamos sai dessa sala. Não tenha medo em contar-me, pode confiar em mim.

O homem observou o gesto da mulher ao desvia seu olhar pela sala continuou: – Bem, Carlos foi preso por assediar e estuprar um garoto tempos depois, outros se pronunciaram mais tarde – desconfortável ele pausou sua fala. – Talvez eu deva agradecer minha bexiga – riu destruído.

Os dois nada disseram por alguns momentos, então a Mulher perguntou: – Quem era Oliveira, Senhor Max?

– Oh! Oliveira era um garoto homossexual, pergunto-me se ele realmente gostava de garotos ou só fingia? – pegou um cigarro de suas coisas – Posso?

Um leve movimento da Moça pode ser sentido pelos olhos afiados do Homem: – Sim.

Acendeu, tragou analisando sua própria pergunta e continuou: – Eu não sei muito sobre a abordagem que deram nele, estava doente nesse dia e eles nunca comentaram sobre o assunto comigo, era segredo.

– Havia muitos segredos?

– De fato alguns, mas não sei quantos. E pensando nisso, prefiro não saber – sorriu de canto – Voltando a história principal.

“Eu não tinha mais nada para ocupar meu tempo livre, por isso as chacotas e brigas afetaram muito mais todo meu ser. Comecei a esconder-me, dormindo boa parte dos dias até cheguei a estudar! Pode imaginar isso? Um garoto de quinze estudando em seu tempo livre!

De toda forma, minha história e boatos foram esquecidos, recuperei-me dos ferimentos físicos – que deixaram várias cicatrizes e ossos quebrados – batendo de frente com meu demônio, como comentei antes: eu não o conhecia e fico feliz de não ter o encontrado antes. No primeiro momento explodiu em meu interior o desejo de quebrar a cara do Félix, mas que culpa ele tinha?”

– Qual seria a culpa? Nascer lindo ao ponto de apaixonar os adolescente de quatorze?

– Está me dizendo que estava apaixonado por um garoto, Senhor Max?

– Talvez, Doutora – observou os olhos da mesma – A Senhorita vai escutar minha história se eu dizer que “sim”?

– Talvez, o Senhor vai pagar hora extra?

– Um cigarro seria suficiente?

– Não... Mas estou curiosa para saber o que aconteceu.

O homem alcançou um cigarro a mulher e continuou a falar, enquanto acendia o mesmo: – Melhor a respondendo, naquele momento eu não sei o que sentia mas eu sentia algo sem cunho sexual.

– Entendo, algo puro.

– Não sei dizer e recuso-me a pensar podendo estragar o mesmo.

“Conforme aproximava-me do garoto, toda minha raiva e coragem esvaiam-se e eu encontrava minha cabeça cheia do mesmo. Os questionamentos que vieram conforme observei-o antes estavam novamente ali e sem perceber falei: – Por que está só?

Os olhos verdes esmerada olhavam para mim, toda sua atenção era mim, um estranho. Mesmo assim, ele respondeu a minha pergunta: – Porque ninguém estava aqui comigo.

Eu sorri de canto ao escutar seu comentário maldoso, afinal ele tinha algo além daquela cara de peixe morto. Sentei-me ao seu lado: – Sim, estava.

Ficamos ali por curtos minutos sem dizer uma única palavra, as crianças corriam e gritava a nossa frente. Era um caos externamente e outro internamente, os batimentos e toda a emoção que assombrava meu ser.

– Quem é você?

– Max! Max Carvalho Almeida. E você é Felix, não é?

–Sim. Félix Monte Cruz Almor – sua pausa fui curta e antes que eu falasse, ele continuou – O que você quer?

Ao primeiro momento olhei-o confuso, mas fazia sentido. Se minhas intenções não fossem maldosas, só poderiam ser curiosas.

– Oh! Olha, os balanços estão vazios! Vamos neles? – levantei-me e corri ao brinquedo, chamando seu nome empolgado.

Claramente estava envergonhado, mesmo assim foi se divertir comigo. Tardamos a ir aos nossos quartos dormir, as conversas foram ficando mais longas conforme conhecíamos um ao outro. Contudo, meus sentimentos foram mudando e eu ficava cada vez mais perdido.”

– Era meu melhor amigo e eu estava apaixonado por ele, um jovem não pode entender bem sua primeira paixão e eu não entendi.

– Ele descobriu?

– Só agora – sorriu antes de continuar – Sabe, eu aprendi muito com ele, como atrair uma mulher e tirar dinheiro dela, como conseguir acabar com alguém muito maior que você, como esconder-me dos outros, como fugir de uma prisão, entre outras. Algumas mais prazerosas que outras.

“– Max? – Chamou-me – você tem certeza disso?

– Até parece que importa-se comigo – ri, brincando com meu cumprisse.

– Mas eu sempre me importei. Eu sempre gostei do quando sincero você pode ser com teus pensamentos – suspirou – Queria que mudasse de ideia, deixa que eu vou no seu lugar.

– Parece uma confissão de amor – ri juntando minhas coisas.

– Mas é...”

O homem alevantou-se pela primeira vez desde que entrou no consultório, caminhou observando toda a sala, tirando algumas coisas do lugar e parou a janela.

– Achei tão engraçado terem deixado a janela aberta, como se eu pudesse fugir – olhou a Doutora esperando sua fala.

Esta tirou seus óculos massageando sua têmpora: – Fica mais fácil se você já sabe, podemos ter conversar mais séria agora?

– Podemos.

–Então, vamos começar – vários homens armados apareceram.

–Primeiro – olhou a mulher, afastando-se da janela – Primeiro deixe meu amigo entrar...

❖❖❖
Apreciadores (3)
Comentários (3)
Postado 31/08/20 13:28

Nossa, senhorita Shizu, estou em choque completo!

A história é muito pesada... Adorei sua criatividade para pensar sobre essa imagem da balança!

Tudo foi tão triste, é incrível como os preconceitos podem fuder a vida de uma pessoa, que tão novo quase foi estuprado só porque era "bixa". É horrível pensar que isso ainda deve acontecer aos montes mesmo hoje em dia... infelizmente.

Gostei do modo como você estruturou a história, dentro do consultório! Foi bastante dinâminico, uma ótima leitura!!

Me embananei ali no final, o Max matou o Félix? Ou o Max virou um estuprador? Entrei em choque hora que os policiais apareceram para prender ele!

Parabéns pelo ótimo texto <3

Um grande abraço <3

Postado 01/09/20 09:04

Aaaahh! Olá, sua fofa!

Fico muito feliz em receber um comentário seu e obrigado pelos elogios.

Sim sim sim, as crianças podem ser muito assustadoras!

Bem, a última conversa que Max se lembra ao final e dele com o Félix, quando descobre dos sentimentos mútuos.

Ele não matou o Félix, se entenderam. Mas ele fez outras coisas errados. (ب_ب)

No caso, tudo planejado... Hahahah.

(Desculpa o final confuso)

Grande abraço (・ω・)つ⊂(・ω・)

Postado 11/10/20 17:32

Gostei dessa mulher. Me fez lembrar uma amiga. Uma mulher do tipo "não enche o saco". Adorei a personagem.

Agora, sobre o texto... Vou ter que ler de novo, porque buguei. Tipo, óbvio que o cara cometeu um crime. Mas qual? Eu tô tentando entender quem ele matou... Ou coisa assim...

Postado 13/10/20 01:02

Ela é uma personagem sem nome ou características fisícas evidentes, além de ser mulher, ter cabelos pretos e usar óculos, mas sua personalidade ficou muito legal, né? Fico feliz que gostou dela :3

O texto ficou muito confuso, concordo. E os crimes, bem foi o que ele aprendeu com o Félix: "atrair uma mulher e tirar dinheiro dela, como conseguir acabar com alguém muito maior que você, como esconder-me dos outros, como fugir de uma prisão, entre outras. Algumas mais prazerosas que outras", entre outras coisas erradas perante as leis, hihi~

Muito obrigado por ler e cometar, fico muito feliz :3

Assinado uma pequena vampira, <3

Postado 02/09/21 02:16

Heheheh!!!