Azurepmis (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 27/01/16 09:29
Editado: 01/10/16 01:12
Qtd. de Capítulos: 10
Cap. Postado: 24/05/16 11:54
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 12min a 17min
Apreciadores: 5
Comentários: 2
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Palavras: 2054
[Texto Divulgado] "Eternizar-te-ei" Eu sinto muito por não ter te avisado o que é ser amado por mim, mas não vou pedir desculpas por fazer o que deve ser feito: Eternizar meu amor por ti.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Azurepmis
Notas de Cabeçalho

"Tu, porém, segue o teu cainho até o fim; pois descansarás e, ao fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança." - Daniel 12:13

Ato IX Ceifado Por um Sentimento

Demoro algum tempo para recuperar minha visão após o fulgor esmeralda que se sucedeu ao que acredito ter sido minha última cura. Quando consigo enfim enxergar alguma coisa, não estou mais naquele cômodo escuro e imundo. Agora estou naquele mesmo lugar onde Azurepmis e eu conversamos ao pôr-do-sol, embora a luz alaranjada tenha dado lugar ao brilho prateado da lua cheia que se ergue majestosamente no firmamento forrado de estrelas.

As correntes e os grilhões sumiram, bem como minha imundície. Não estou mais nu; agora me encontro trajado em um conjunto moletom cinza, como se meu corpo tivesse sido banhado e exalando um aroma agradável semelhante a perfume. Não sinto fome ou frio, apenas a estranha sensação de que não é um sonho, embora provavelmente seja. Meu coração está tão rápido que chega a me causar aflição dentro do peito. Olho para os lados, para cima, para baixo e nada vejo além de uma árvore bem parecida com a daquele dia atrás de mim, mas sem as milhares de borboletas. Não estou entendendo nada...

— No que estavas pensando quando fizeste aquilo? — indaga alguém ou alguma coisa de voz encantadora, porém cheia de autoridade detrás da frondosa planta.

— Az? Az! Você está bem, não está?! — retruco em seguida, me aproximando feliz e às pressas do local de onde vinham aquelas palavras.

— RESPONDAS À PERGUNTA! — brada Azurepmis a plenos pulmões, me fazendo parar no ato.

— E-Eu não sei! Eu só não queria te ver daquele jeito! — confesso de imediato, encarando o horizonte e uma parte do céu logo adiante. — Juro que só quis o seu bem, Az! Nós somos amigos e eu não podia ter te machucado tanto!

— Acaso achas que aquilo me causava algum incômodo? Acaso pensas que precisava de ajuda? — as perguntas soam mais como acusações, como se eu lhe tivesse ofendido ou algo assim. — Eu não te disse que tudo na Criação tem um preço?

Eu fico calado, sentindo meu sangue ferver com o questionamento agressivo. Uma brisa leve passa por mim, causando-me um arrepio e trazendo um odor que normalmente os humanos jamais distinguiriam no ambiente. Mas eu sim, pois experimentei uma versão milhões de vezes mais concentrada de tal fragância e meu desejo me dotou de algumas melhorias sensoriais. Como meu destino está traçado e não tenho mais nada a perder, decido abrir o jogo e expor tudo o que eu de fato pensava acerca de Azurepmis e aquele bizarro método de avaliação existencial no qual eu havia me envolvido.

— Eu não acho: eu tenho certeza, Az! Você estava sofrendo sim! — afirmo com toda a convicção de meu âmago enquanto crio coragem para avançar outra vez. — Mesmo sendo algo superior ao Homem, sua ligação com Plano Proposital e Material te fazem parte deste mundo! E para nos compreender, você tem que sentir como nós sentimos, coisa que eu duvido que Deus ou Lúcifer fariam!

— Graças ao poder que você me deu, eu fui capaz de sentir o quanto tudo isso lhe custou até hoje! Por isso você só ressurge uma vez por Milênio, porque cada desejo deve lhe consumir quase ao ponto da sua própria destruição! — continuo a falar enquanto caminho novamente, sem deixar que Azurepmis se pronuncie. — Aposto que faz um esforço monstruoso para manipular aquela energia e alterar as leis do Criador, mesmo com o consentimento dEle! Você... Você ia morrer depois da tal Ceifa por causa do que eu fiz!

— Eu te devo tudo, Az! TUDO! O que esperava que eu fizesse, hã? Que eu fosse um tremendo filha da puta que morreria feliz sabendo que quem me fez tanto bem iria seguir o mesmo caminho que eu?! — indago um tanto descontrolado, parando próximo de onde Azurepmis me escuta em completo silêncio. — Eu fiz a única coisa que podia fazer, caramba! Eu tinha que tentar te ajudar, amigos fazem isso aqui nessa merda de mundo!

— Já basta. Por favor, não digas mais nada. — sua voz contém tamanha delicadeza que acabo ficando pasmo. — Eu já ouvi o suficiente.

Um som estranho, um reluzir esverdeado e então, para meu total espanto, surge a mulher mais bonita que poderia ter nascido do ventre de uma mortal em qualquer época que passou ou há de passar, sua beleza maculada apenas pela singela lágrima que lhe escorria pelo rosto perfeito e cujo odor único eu havia sentido naquela suave brisa durante nosso debate. Fico paralisado perante tamanha exuberância enquanto tento acreditar no que meus olhos gentilmente me mostram.

Ela é apenas alguns centímetros mais baixa do que eu, tem a pele levemente bronzeada e traja um vestido cinza simples que lhe encobre os seios médios e de aparência firme. A peça única lhe acentua o quadril bem feito, bem como as coxas torneadas. Seus olhos são de um castanho que parece brilhar enquanto me fita, seu rosto de feições delicadas e gentis ornamentado por um longo e liso cabelo preto que ultrapassa-lhe os ombros. Os lábios carnudos estão sem batom, assim como sua face não possui nenhum tipo de maquiagem. Sua presença é um misto perfeito e injusto de graciosidade e sensualidade sem que em nenhum momento ela parecesse vulgar, cada movimento que executa para se aproximar de mim fazendo com que o suave aroma de seu corpo me encantasse as narinas.

Ao meus olhos, ela é a garota ideal, a musa dos meus sonhos, a lendária nota onze.

— A-Azurepmis...? Mas eu pensei que... — a lembrança daquela figura infantil, masculina e deformada me veio à mente de imediato.

— Aquele-Acima é o que é. Aquele-Abaixo é o que nunca deveria ter sido. Eu sou o que bem entender. - responde a beldade cuja voz tem um leve e gostoso sotaque pernambucano, se aproximando tanto que ficamos a apenas um palmo de distância um do outro. — Esta é a tua definição de fêmea ideal, nos mais ínfimos detalhes. Quão sublime combinação de qualidades! E além do quê, de fato existe beleza na simplicidade. — ela enxuga o rosto e sorri, exibindo uma pequena e apaixonante alcova em cada bochecha.

Eu tento falar algo, mas Azurepmis coloca delicadamente o dedo indicador em meus lábios, silenciando-me. Mantendo o ar de riso, ela continua a falar:

— Foste mais longe do que qualquer um dos Eleitos que vieram ante de ti, tanto pelo teu desejo em si quanto pela afinidade para comigo. — ela baixa os olhos e maneia de leve a cabeça, fazendo meu coração se arrepiar na medida em que sua cabeleira escura se move como uma pluma sobre seu rosto. — Somente uma pequenina alma mortal chegou tão perto de mim e eu dela. E decerto nenhum Filho de Eva jamais salvou ou poderia salvar minha existência.

— Entretanto, ao tocar meu coração também me abriste o teu, Manu. Agora sei tudo sobre ti: os segredos, os pecados, os erros, os arrependimentos, as frustações e as privações. — eu fico extremamente envergonhado e até me sinto um pouco mal quando ela fala isso. — E antes que se realize A Ceifa, quero realizar um outro desejo teu. Um bem mais egoísta e sufucado no cerne de teu coração.

Ela então me beija, a princípio devagar e depois com mais furor que é devida e intensamente retribuído. Eu passo meus braços por trás de suas costas e ela me imita, o movimento de nossas línguas e o atrito aquecido de nossos corpos nos deixando cada vez mais excitados. Ela realmente sabe o que mais me agrada e aos poucos me deixa louco de paixão e tesão enquanto se entrega a mim completamente. Quando me dou conta nossas roupas já estavam jogadas pela grama fazendo as vezes dos lençóis para o casal mais improvável do Universo. O início é tão idílico quanto um romance, mas depois uma incontida selvageria com um toque único de devassidão nos envolve conforme vamos desvendando um ao outro da forma mais prazerosa, vívida e verdadeira que julgo ser possível.

Horas depois, estamos banhados em nossos próprio suor, o almíscar da cópula praticamente onipresente nos fazendo sorrir um tanto constrangidos e plenamente satisfeitos. Ela permanece com a cabeça deitada sobre meu peito, ouvindo as batidas felizes do meu coração enquanto eu aliso o seu crânio tal qual minha mãe fazia comigo quando em seu colo eu me refugiava. Meu corpo está cheio de marcas feitas pelos dentes e unhas dela, mas nem ligo. Não eram necessárias quaisquer palavras entre nós, apenas ficamos ali deitados, observando o céu ir clareando vagarosamente: meu tempo está no fim.

— Az... Aqui é o Plano Material, não é? — pergunto por fim ainda um tanto incrédulo quanto o presente de despedida que havia ganho, beijando-lhe ternamente o topo do crânio.

— O que fizemos e vivemos esta noite foi real, Manu. E foi deveras delicioso, se queres saber! — afirma categoricamente a encantadora mulher, movendo-se de forma a alcançar meus lábios com os delas e beijar-me novamente. — Ao menos para mim o foi.

— Obrigado, Az... Foi simplesmente perfeito! — respondo em seguida, roubando-lhe um sorriso e outro beijo ardente. — Posso... Só lhe fazer uma última pergunta?

— Faças. — sua voz fica um tanto apreensiva ao fitar o céu adquirindo novas tonalidades. — O tempo... Teu tempo urge.

— Porque o... Anagrama? — questiono bastante curioso, sentindo uma incômoda e profunda fisgada no estômago enquanto a divindade em forma de mulher se levanta e fica de costas para mim. — Azurepmis quer dizer... Impurezas, não é?

— Realmente és bastante perspicaz, Manu. — ela começa a mudar de forma enquanto uma sensação muito ruim vai tomando conta de mim. — Aquele-Acima me criou, mas Aquele-Abaixo foi quem me imputou tal denominação. Pois seria através de vós, que segundo ele são as Impurezas da Criação, que eu iria contestar a soberania e sabedoria do Criador.

— Acho que... Ele tá quase conseguindo então... — eu começo a sentir tanta dor que minha visão embaça, deixando tudo cinzento de repente. Não consigo saber no que Azurepmis se transformou, mas o que agora me encara é algo de poder indescritível. — Mãe... Chegou a hora. Eu... Amo a sen... 1 a intensidade do suplício me interrompe de repente e tudo o que sinto é dor.

Nos meus derradeiros e vociferantes momentos, me é revelado o que será A Ceifa: tudo o que escutarei em breve serão meus gritos, tudo o que experimentarei será o sofrimento de todos os que curei, cada doença ou ferimento sendo repassados no meu corpo um por um em uma veloz e cruel sucessão: tudo o que acomete Azurepmis para que um sonho se realize, o Eleito do Milênio deve compartilhar. Enquanto tal processo se realiza, minhas memórias, pensamentos e sentimentos serão drenados para dentro da entidade e quando eu finalmente for apenas uma carapaça de carne novamente normal e fisicamente consciente, serei devorado até o último fio de cabelo. Nessa hora, a realidade será alterada de forma que minha estadia neste mundo seja apagada. Ninguém jamais lembrará que um dia eu vivi ou sequer existi.

Nem mesmo minha mãe, por quem sacrificarei a minha existência aos prantos enquanto gritarei insanamente por ela em meio à minha versão particular do Inferno.

***

Eu ainda sinto o gosto de tua carne macia em minha boca, Manu. Tua tenra pele negra e teus ossos fortes foram consumidos com deleite e me embriaguei completamente com teu encorpado sangue. O sabor de tuas lágrimas inunda minha língua de forma indelével. Há tempos não me banqueteio com tão rara iguaria que teu invólucro carnal me proporcionou, muito embora o ato de te consumir tenha me soado perfeitamente idêntico ao do livrinho do anjo.*

Todavia, são as outras coisas preciosas que te compuseram que em verdade me importam e as quais guardarei com carinho e tristeza até o Final dos Tempos. Para teu saber e glória, foste o segundo Eleito a me fazer chorar e o único a quem amei tão intensamente, tanto em Matéria quanto em Espírito. Ainda que estiveste longe de serdes perfeito, tua Ceifa foi a mais difícil e solene já realizada desde que Aquele-Acima me incumbiu para tão excruciante tarefa.

Pelo imenso bem que fizeste a mim e a teus semelhantes, e a despeito de tua desobediência para com o Criador ou da inconsequência de teu ato, desejo que tua alma insatisfeita, todavia grandiosa esteja no Paraíso que dizem haver em algum lugar. Ao menos isso eu acredito que mereças, Filho de Maria. Oxalá! Tua mãe ficaria deveras orgulhosa de ti, meu amado Eleito! Foi um privilégio ter te conhecido.

Vá em paz, Manu.

❖❖❖
Notas de Rodapé

* Para mais informações, vide Apocalipse 10: 10.

Muito obrigado pela leitura e por quaisquer reviews!

Apreciadores (5)
Comentários (2)
Postado 23/06/16 18:28

Sensacional esse ato, simplesmente fantástico. Olhando de modo geral para as três criaturas: Aquele-Acima, Aquele-Abaixo e Azurepmis, se assemelham poucamente aos trigêmeos que criei a um mês a trás, que por consequências do estudo, se modificaram e irá ser um livro, mas cara, foda seu texto.

Postado 29/06/16 03:00

Há um bom tempo atrás eu ouvi um podcast sobre literatura fantástica no Brasil e seu comentário me fez lembrar de um trecho que falava justamente sobre isso: ideias semelhantes sem que os autores tivessem conhecido as obras/personagens/however um do outro... Eu assumo que ao menos os "Aqueles" são nada mais, nada menos que uma versão das famigeradas entidades da mitologia cristã. Somente Azurepmis é algo "novo", por assim dizer.

Desde já lhe desejo toda a sorte, inspiração e sucesso com o seu livro (que certamente há de ser espetacular, tenho certeza!), Sr Thomas!

Muitíssimo obrigado pela leitura, elogios e feedback!

Postado 13/09/16 16:41

Muita hora nessa calma! Essa capítulo! Esse título! Esse ato! Esse autor! Não sei mais nem que eu sou depois dessa!

Postado 04/12/16 10:15

Moça, calma. Respire fundo e relaxe... Vai acabar logo este esturpor inesperado...

Muitíssimo obrigado, de todo o meu maldito e enegrecido coração!

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