Remendos
Mauricio da Fonte Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 19/10/16 09:32
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 14min a 18min
Apreciadores: 9
Comentários: 3
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Palavras: 2240
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween" No Concurso Oficial de Halloween da Academia de Contos, apoiado pela DarkSide Books, convidamos os participantes a escreverem textos no estilo "creepypasta", ou seja, obras detalhadas de terror escritas com o objetivo de assustar os leitores e deixá-los se perguntando o que é real e o que é ficção na história. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Remendos

O trabalho não poderia ser mais fácil: o velho nunca deixava o casarão. Na verdade, durante a semana que ficou de tocaia, Ricardo não viu sinais de que houvesse ninguém no interior da mansão arruinada: não havia visitas batendo à porta, não havia jardineiros cuidando do jardim decrépito por detrás das grades enferrujadas, e nenhuma luz se acendia nos cômodos da casa.

“Menos mal”, pensou Ricardo.

O casarão estava morto: tão morto quanto o velho estaria ao final daquela noite.

***

Ele era um dos melhores naquilo que fazia, e seu histórico de mais de cem execuções bem-sucedidas, realizadas no Brasil e no exterior, era suficiente para comprovar este fato. Políticos, religiosos, mafiosos: nenhum trabalho era impossível, se realizado com os meios necessários e planejado com a devida cautela.

Aos 32 anos de idade, já tinha dinheiro suficiente para se aposentar e viver confortavelmente pelas próximas cinco décadas, mas a realidade é que gostava daquilo que fazia: não é que fosse um sádico que sentisse prazer em tirar todas aquelas vidas, por Deus, não.

Era a adrenalina que precedia o momento do clímax que o viciara.

Acostumado a ser contatado por gente absurdamente rica, não foi sem surpresa que aceitou o contrato para dar cabo do velho. O contratante, tão velho quanto o seu alvo, era um doutor da Universidade Federal de Pernambuco (Ricardo não lembrava exatamente em quê), e todas as negociações foram travadas em sua casa de dois andares no bairro de Casa Forte.

Ricardo suspeitava que o professor não fosse completamente são (o quarto abarrotado de livros velhos e papéis empoeirados e o fato de que olhava por trás dos ombros como se alguém o espreitasse apoiavam esta ideia), mas dinheiro era dinheiro, e tirando alguns delírios do idoso, as informações que lhe foram passadas eram precisas.

Aceitou o trabalho, assegurando ao professor que as suas orientações seriam cumpridas.

***

Agora, de frente para o casarão caindo aos pedaços, no Poço da Panela, Ricardo atravessava a rua deserta, repleta de casas tão abandonadas quanto aquela: era como se a mansão fosse uma infecção que tivesse se espalhado, sufocando aquela quadra em um miasma de esquecimento.

Com os postes de iluminação quebrados, o brilho doentio de uma pálida lua cheia era a única fonte de luz naquela madrugada. O portão estava trancado com um pesado cadeado, mas entrar na propriedade não seria um problema.

Com agilidade, Ricardo escalou a mangueira imensa que se erguia acima das grades que cercavam o casarão, transpondo-as com facilidade.

Saltando de um dos galhos da árvore secular, aterrissou sem fazer nenhum barulho no matagal inóspito que era aquele jardim malcuidado: a grama batia em sua cintura, e um cheiro enjoativo de flores e frutas em decomposição infestava o ar estagnado.

Passando sob as copas de árvores carcomidas por fungos e cupins, prosseguiu até os fundos da casa sem ser visto. Somente quando chegou até a porta da cozinha (como havia lhe instruído o professor) foi que se deu conta de que tudo estava imerso no mais absoluto silêncio.

Não ouvia o canto de nenhuma cigarra, nem de algum pássaro noturno; não havia morcegos voando junto a casa, nem mesmo ratos se escondendo em meio ao mato.

Um arrepio percorreu o seu corpo, mas não pôde tirar o sorriso dos seus lábios: a ansiedade em momentos como aquele era o que fazia tudo valer a pena.

Cuidadosamente, destrancou a porta com a chave que o professor lhe entregara e adentrou no casarão.

***

Segundo as orientações do seu contratante, o velho estaria vivendo no porão daquela casa. O professor entregara a Ricardo algumas plantas do local, e para chegar ao seu destino teria que caminhar até o hall de entrada, onde uma escadaria poderia conduzi-lo até o primeiro andar da mansão ou então para o subsolo. Lá, percorreria um longo corredor, ao final do qual se encontrava outra escada que o levaria até o porão.

A cozinha, assim como o resto da casa, era um mar de poeira e de mofo. Teias de aranha cobriam móveis e quadros, conferindo-lhes contornos bizarros.

Ricardo deixou a cozinha para trás. Caminhou silenciosamente por corredores imersos na mais completa escuridão, empunhando a sua pistola com um silenciador. Os cômodos pelos quais passou estavam vazios.

Chegou, enfim, ao hall de entrada.

A escadaria, há muito desabada, impedia o acesso ao primeiro andar e ao subsolo.

“Porra... Aquele doido me garantiu que as plantas estavam atualizadas... Vou ter que encontrar outra forma de...”

Um movimento à sua esquerda chamou a sua atenção.

Uma sombra, uma pessoa, o observava, agachada, no umbral de um outro corredor.

Ricardo não pensou duas vezes e disparou. O alvo permaneceu inerte. Chegando mais perto, percebeu: era uma cadeira coberta com lençóis velhos.

Riu do seu próprio susto. Aquele lugar estava mexendo com seus nervos.

O seu coração congelou em seu peito quando, pelo canto do olho, viu quando algo correu pelo corredor, em direção a uma porta entreaberta.

Uma coisa que aprendera em seus doze anos como assassino profissional era que não podia haver testemunhas. O professor havia lhe assegurado que a única pessoa na casa era o velho, mas ele havia se enganado.

Agora Ricardo precisaria consertar esse erro.

***

O quarto era uma biblioteca como Ricardo só havia visto em suas viagens para a Europa: as paredes completamente recobertas por estantes repletas de tomos, preenchendo o térreo e o primeiro andar daquele cômodo de formato circular.

As estantes no piso superior podiam ser acessadas por uma escada de metal, que conduzia até uma passarela que circulava todo primeiro andar daquele quarto, permitindo que a claraboia do teto iluminasse os dois andares.

A biblioteca estava completamente vazia.

Ricardo caminhou até uma escrivaninha situada no centro daquele círculo. De frente para o móvel, uma estante havia sido afastada da parede, revelando um pórtico de concreto e, para além deste, uma escadaria que se perdia nas trevas.

Ricardo sorriu. Havia acabado de encontrar uma forma de chegar ao porão. De toda forma, deveria ser cuidadoso. Quem sebe o que poderia haver lá embaixo?

Perdido em pensamentos, foi pego de surpresa por uma risada que vinha da passarela no primeiro andar: hihihihihihihi...

Antes que pudesse esboçar qualquer reação, sentiu sobre si o peso de algo que havia se lançado da balaustrada da passarela e, em um segundo, lutava pela sua vida contra um cão que o atacava.

O animal cravou suas presas na mão esquerda de Ricardo, esfacelando ossos e ligamentos.

Ricardo gritou de dor, enquanto lutava para evitar que o cachorro alcançasse a sua garganta.

Com muito esforço, sacou a faca de combate que trazia escondida em sua bota, e a enfiou no pescoço do bicho, que caiu enfraquecido no chão.

Coberto pelo sangue escuro do animal, Ricardo apanhou a arma que havia escapado de suas mãos, e desferiu um tiro contra o que imaginava ser o crânio da fera.

Com a arma em punho, voltou-se para a passarela do primeiro andar, procurando por quem dera aquela risada, e provavelmente instigara o animal a atacá-lo.

Não havia ninguém lá.

Atrás de Ricardo, uma mistura de riso com gorgolejar, o gorgolejar de uma pessoa que se sufoca com o próprio sangue após a degola.

Iluminado por uma lua que ressurgia por detrás das nuvens, lançando seus débeis raios pelo vidro sujo da claraboia, o corpo de um cachorro.

E costurada ao corpo, uma cabeça humana, que ria enlouquecidamente, enquanto a existência daquela coisa que nunca deveria existir se esvaía.

Ricardo mal pôde compreender o que estava diante de seus olhos. No corredor que percorrera para chegar à biblioteca, um coro de risadas chegou aos seus ouvidos.

Hihihihihihihihi...

Desesperado, correu em direção ao pórtico de concreto, fechando a estante atrás de si, descendo pela escadaria que o levaria a um destino desconhecido.

***

Por quanto tempo desceu por aquela escada, não fazia ideia.

Sua mente perturbada só conseguia pensar naquela aberração. A única coisa em que conseguiu pensar foi que a dor de sua mão esquerda destroçada o fizera imaginar a cabeça costurada ao corpo do cachorro.

Sentou-se em um dos degraus e respirou fundo. Precisava se acalmar. Doze anos de experiência jogados fora, e porquê? Por causa da porra de uma casa velha e de uns cachorros?

Sentiu-se mais confiante. Precisava avaliar os estragos e dar continuidade à sua missão. Ainda tinha a faca de combate e a sua arma, mas a sua mochila havia ficado no chão da biblioteca, e dentro dela munição, uma lanterna, as plantas da casa, e as coisas que haviam sido dadas pelo seu contratante.

Por um momento, pensou nas orientações que haviam sido dadas pelo professor, sobre o que deveria desenhar nas portas da casa com o giz, sobre o trecho do livro que deveria recitar antes de executar o velho, e sentiu a confiança fraquejar. Pensou nos cachorros, e naquela risada diabólica. Talvez o professor não fosse tão louco assim, no final das contas... E aquela passagem, convenientemente aberta, não seria uma armadilha?

Mas tinha uma missão para completar. Nunca conhecera ninguém que sobrevivesse depois de receber um tiro certeiro na cabeça, e feitiços e encantamentos eram coisa de gente supersticiosa.

Além disso, o único caminho possível era para baixo: ainda que estivesse armado, seria uma presa fácil para a matilha de cachorros com a mão esquerda destruída.

Continuou a sua descida pela escadaria interminável.

***

Depois daquilo que pareceram horas, chegou ao final da escada.

À sua frente, uma porta de ferro maciço. Pelas frestas, uma luz amarela e bruxuleante.

O porão.

Respirou fundo e empurrou a porta com dificuldade.

Feitas da mais pura pedra, as paredes daquele calabouço abrigavam uma biblioteca tão impressionante quanto a do andar de cima. Havia redomas de vidro empoeiradas por toda a parte, e Ricardo imaginou que abrigavam espécimes científicos.

Passando pelas estantes, viu livros com títulos incompreensíveis. De Vermis Mysteriis, Cultes des Goules, Liber Ivonis... A mera leitura desses nomes fazia o sangue de Ricardo gelar em suas veias.

Mas não se deixou distrair. Afinal, havia velas acesas por cima das mesas e espalhadas pelo chão, indicando que alguém havia estado ali recentemente.

Ricardo seguiu, com a arma em punho, pelo porão, até se deparar com uma porta entreaberta, e o cheiro que vinha de lá fez com que tivesse que segurar o vômito.

O quarto fedia a decomposição.

Ricardo prendeu a respiração e abriu a porta.

Sentado em uma poltrona, o velho esperava por Ricardo com um sorriso naquilo que restava de seus lábios.

“Ah! Finalmente! Já fazia algum tempo que esperava a chegada do meu visitante! Mas não seja tímido, se aproxime!”

Ricardo disparou duas vezes, atingindo o peito e a cabeça do homem.

O velho demorou alguns segundos para perceber o que havia acontecido. Quando olhou para o buraco em seu peito desnudo, uma mancha negra que não sangrava em meio a retalhos de pele costurados, começou a rir descontroladamente.

Ricardo atirou mais uma vez no velho, acertando-o em seu braço direito.

O velho continuou a rir.

“HAHAHAHA!!! V-você acha que pode me matar? Meu jovem, eu já estou morto! Quer dizer então que ele mandou alguém que nem se deu ao trabalho de tomar as medidas corretas para me conter... A idade o deve ter deixado senil... Mas não faz mal, não faz mal... Oh! Meus filhos estão chegando... Imagino que você já os deva ter conhecido...?”

Atrás de Ricardo, um coro de risos que vinha da escadaria, cada vez mais próximos. À sua frente, o velho se ergueu da poltrona, revelando um corpo formado por membros desconjuntados: um braço branco que terminava em uma mão negra com as unhas pintadas de vermelho; o outro, o braço que Ricardo havia acertado, musculoso e coberto de pelos.

Não havia como fugir.

Tomado pelo desespero, Ricardo começou a rir, enlouquecido, unindo-se às risadas do porão.

Ainda gargalhando, encostou o cano do silenciador no céu da boca e disparou.

***

O Homem Remendado sentou-se em sua poltrona. Lá fora, a lua cheia se punha, e a aurora despontava no horizonte. Depois de dois séculos de aprisionamento naquele casarão, finalmente o seu irmão havia falhado em renovar o ritual de confinamento.

Dois séculos preso naquela catacumba, porque o covarde do seu irmão discordava dos seus métodos para desvendar os mistérios do Sétimo Olho. O professor conseguira aprisioná-lo, é verdade, mas tudo não passara da mais pura sorte.

O velho imaginava que a idade finalmente devia ter derrubado o professor: por não ter forças para vir ele mesmo até o casarão, enviara um lacaio descrente para realizar um outro encantamento e pôr um fim a sua morte em vida.

Vendo o corpo do assassino caído à sua frente, rodeado pelos seus filhos, era evidente que até nisso o inútil do irmão fracassara. Era verdade que Tol’daim Sitrinos conferira grandes poderes aos dois, mas o professor sempre fora um mago medíocre, e deixara os anos roubarem a sua vitalidade aos poucos, enquanto que ele encontrara vigor em sua morte.

Nos últimos anos, o Homem Remendado sentira as barreiras místicas do seu cativeiro se enfraquecendo, e conseguira expandir sua consciência para além dos limites do casarão, atraindo pessoas e animais para o seu covil, criando inúmeros filhos, planejando e aguardando pelo momento em que as estrelas novamente estariam alinhadas e a sua prisão seria desfeita.

A hora enfim havia chegado: hora de deixar o casarão para trás e fazer uma visita ao professor.

Levantou-se e carregou o corpo de Ricardo para o laboratório.

Afinal, precisava estar bem vestido quando reencontrasse o irmão.

❖❖❖
Apreciadores (9)
Comentários (3)
Postado 19/10/16 20:13

Olá!!

Meu senhor, que história!! Adorei!! Está muito bem escrita! :D

Pega na realidade e envolve-a no sobrenatural de uma forma muito boa, gostei de como as coisas se vão desenvolvendo, até chegarmos ao Homem Remendado. Devo dizer que me assustou. o_o

Sério, muito bom!

Boa sorte no concurso!

Inteh! o/

Postado 19/10/16 21:34

Obrigado pelo comentário :))))

Postado 01/07/17 17:35

Esse texto poderia ter uma bela continuação, fiquei curiosa. Adorável.

Obrigado por criar este texto que tentarei não equecer (qualquer coisa releio, HAHAH).

<3

Postado 11/10/18 00:52

Eu juro que já tinha lido esse texto, apreciado e comentado semana passada! Mas acho que o site bufou legal e apagou tudo... Estranho.

Incrível! É muito impressionante e misterioso, com as facadas na nossa goela na hora certa! Eu não tenho estômago pra fazer o trabalho desse cara não hahaha, eu morria no primeiro barulho de risadinha gsjsgsjs

Enfim, extraordinário, imaginei um filme... As cores... As vozes dos personagens! Este conto tem uma qualidade excelente em tudo! Português, estrutura, clímax, idas e vindas de ápices, e toda a ansiedade que o envolve! Parabéns, que obra estupenda!

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