meu talento é respirar
Tháiza Lima
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/02/17 00:46
Editado: 27/02/17 01:06
Gênero(s): Cotidiano Drama
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 14
Comentários: 5
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Palavras: 423
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Quando eu penso que estou colocando as notificações em dia, na verdade, elas parecem nunca diminuir '-'

Boa leitura o/

Capítulo Único meu talento é respirar

Eu vejo as pessoas fazendo coisas tão diversas, tão distintas umas das outras. Uma menina da minha sala tem as características de quem vai passar direto em Medicina, a outra tem pernas de bailarina, o menino que senta na última carteira resolve todos os desafios de matemática e o casal que se esconde na cortina de apostilas é uma dupla tão gostosa de se ouvir cantando na praia.

Eu vejo as pessoas ao meu redor e elas correm como abelhas de um lado para o outro carregando suas vidas e preocupações e sentimentos estampados nas testas majoritariamente expostas pelo cabelo lavado naquela manhã. Eu vejo as pessoas voando pelas escadas com suas mochilas de dois anos atrás sem um rasgo sequer, vejo os alunos enchendo o caderno de post-it e os professores com suas vozes sonoramente apreciáveis e letras de dar orgulho. Vejo o coordenador passar de sala em sala com um comentário sarcástico e coração de pai, vejo meus colegas se amontoando em um canto na hora do intervalo compartilhando seus lanches trazidos de casa ou comprados na cantina, vejo os gatos pingados que continuam sentados e vejo meu reflexo nas canetas transparentes que estão desorganizadamente jogadas no estojo.

Eu vejo as pessoas e observo suas maneiras e elas são tão diferentes e tão únicas e tão em harmonia com o mundo ao redor delas. Eu ouço as pessoas com suas vozes uma sobressaindo à outra e escuto suas melodias tomarem forma nos nomes chamados em todos os pontos do corredor, da escadaria e da sala de aula. Eu aprecio as pessoas com todas as suas cores e tons de pele e tons de cabelo de loiro a violeta e tons de íris como castanho, verde e caramelo. Eu vejo as pessoas lapidando seus talentos e vejo a mim mesma sentada na biblioteca após o horário colocando matéria em dia e voltando para casa com dúvidas que não tive coragem de perguntar ao professor com seu carisma desejável.

Eu vejo as pessoas e observo seus passos e refaço meus erros ano após ano e andar acima de andar e me pergunto por que continuo na mesma cadeira azul com o uniforme branco e azul e sentindo-me azul enquanto inalo o ar violento dessa cidade ladeada por um oceano cor de petróleo. Eu inalo o oxigênio. Expulso o gás carbônico. Minhas células respiram em conjunto, meu coração bate compassado, meu pulmão expande, o diafragma comprime e meus órgãos trabalham em sincronia.

Nesse ínterim percebo: o meu talento é respirar; o das pessoas, existir.

❖❖❖
Notas de Rodapé

A gente para num momento para observar o mundo e volta para casa com o sentimento de que viemos a esse mundo para nos sentirmos inúteis. A verdade não é essa. Até mesmo quem cria cogumelos mofados dentro de casa está fazendo algo, mesmo que seja somente respirar.

É que tem aqueles dias que tudo o que você faz parece não estar certo, ou estar medíocre demais, ou simplesmente não faz diferença :/

Só me senti num desses dias hoje/ontem, mesmo fazendo um ano desde que postei meu primeiro texto aqui ^^

Comentários (5)
Postado 27/02/17 02:29

Eu só posso e irei falar por mim, baseado em minha pouquíssima e preciosa experiência pessoal: o seu talento, Srta Tháiza, é o de encantar as pessoas com seus textos de modo a agregar conhecimento mediante qualidade e maestria. É arremeter os leitores à reflexão com uma abordagem incisiva em temas interessantes. É o de contribuir para que o dia/um momento da vida de quem teve/tem o privilégio de conversar com a senhorita se torne mais agradável. Mais tolerável. Mais gratificante.

Acredito que muitos que irão ler esta obra magnífica irão se identificar demais com ela. Raras são as pessoas que nunca, pelo menos uma vez durante suas vidas, não duvidou da própria capacidade/escolha, da validade de sua própria existência. Eu mesmo vivo (com toda a culpa e remorso) o lado ruim deste texto.

Chafurdando no fracasso de enxergar qualquer dignidade ou validez no ato talentoso de continuar a inalar e expirar, comer e defecar, acordar e dormir até que um dia as pálpebras se fechem de vez.

Magnífica obra, Srta Tháiza. Quase tanto quanto a autora o é para mim. Bravíssimo! Bravíssimo!

Atenciosamente,

Um ser totalmente desnecessário neste mundo desde o ventre, Diablair.

Postado 27/02/17 09:31

Se a senhorita tem dias em que se sente assim, o que devemos fazer nós, reles mortais, que não cantamos, tocamos instrumentos ou possuimos a capacidade de realizar tão sensibilíssimas metáforas?!

De qualquer modo, é normal não se sentir bem consigo mesmo o tempo todo, afinal, temos todos a capacidade de melhorar, não? Mas mesmo no dado estado em que nem tudo que faças seja do teu agrado ou sinta que o que escreveste possa não importar, jamais denome ordinário ou mediano, deixe o ordinário para quem se sente em ordem e o mediano para quem se encaixa bem no meio, triste ou feliz demais, obra tua alguma é mais ou menos, ou em ordem demais, és um complexo de extremos e, indepentemente do sentimento, ser mediana não encaixa com tua capacidade, sensatez ou personalidade, se isso vem em questão, és excepcional, seja o texto blues ou jazz. ^^

Postado 27/02/17 15:58

É um belo texto. Mais um por sinal, Thá!

Se orgulhe desse talento tão bons que tem (falo da escrita, não só de respirar, hehe).

A vida é cheia de altos e baixos. Respira fundo e vamos que vamos!

Postado 29/04/17 22:13

Se eu escrevesse tão incrivelmente assim, nunca seria um problema ter como talento apenas respirar.

Que tocante, sinceramente! <3

Postado 06/08/17 16:43

Se seu talendo além de escrever textos é respirar, meu talento ao ler esses textos é chorar.

Senhorita, não tenho palavras suficientes para expressar o quão lindo e intenso foi esse texto maravilhoso que você escreveu!!!

Tudo foi perfeitamente incrível... tão verdadeiro, tão real... tão triste...

Meus mais sinceros parabéns pela belíssima obra...

Um abraço!

Meiling!