Louise
Denise Moraes
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/06/17 11:32
Gênero(s): Drama
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
Apreciadores: 5
Comentários: 4
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Palavras: 753
[Texto Divulgado] "Metamorfose. " Ele se olhou no espelho e não sabia mais quem era, ou o que estava fazendo ali, aos poucos, se viu mudar, seus braços ficaram firmes, seus pés se agarraram ao chão, sua cabeça gravitou num segundo - ele fez uma rotação ao redor do mundo; estava ele no mesmo lugar? Já não sabia dizer, mas, ele agora entendia, que não era mais o mesmo homem. Nunca mais.
Não recomendado para menores de doze anos
Capítulo Único Louise

Nunca acreditei que existisse amor à primeira vista, ria descaradamente de meus colegas que diziam que existia, e ainda por cima viveram algo intenso com alguém.

Sempre fui uma pessoa respeitável, andava sempre bem vestido, nada extravagante, mas sempre consegui uma boa aparência com o que tinha em meu guarda-roupa. Assim que pude me manter financeiramente deixei a casa de meus pais. Trabalhava dia após dia para cobrir as despesas da faculdade de medicina.

Em um dia fui arrastado pelos becos de Paris por alguns amigos, todos haviam conseguido boas notas nas provas, nada mais merecido que comemorar. Os segui até um bar que poderia ser considerado de quinta categoria. O crepúsculo iluminava as vidraças imundas daquele lugar, a bebida não era das boas, ainda assim fiquei pelo convite de meus colegas.

A noite se arrastou, eles caiam bêbados e volta e meia uma esposa vinha buscar um deles, decidi partir quando o último entrou em um táxi, infelizmente fui parado pelo dono do estabelecimento alegando que a conta era minha. Praguejei enquanto procura por trocados em minha carteira, achei uma nota de alto valor e dei, sentei-me novamente nos bancos do balcão para esperar por meu troco. Foi aí que a música começou a ser tocada e a mulher que roubaria minha sanidade e meu sono subiu ao palco.

Ela estava vestida da forma que muitas pessoas não considerariam decente, mas somente aquele vestido colado com um lascão em sua perna esquerda, foi o suficiente para me atrair, em seus cabelos negros, estava preso uma rosa. Os lábios eram vermelhos e formavam um belo sorriso chamativo e sedutor. Movia-se sensualmente, ao ritmo da música, com dois leques cobria volta e meia seu rosto, em outros momentos os usava para mostrar seus olhos perigosamente chamativos.

Pedi outra bebida, completamente hipnotizado por aquela mulher. O suor fazia seu rosto brilhar, rodopiava e sorria como se estivesse fazendo a melhor coisa do mundo. Quando terminou foi aplaudida de pé por todos os presentes. E posso jurar que por alguns segundos nossos olhares se encontraram, e parecia que naquele instante meu coração já não permanecia a mim, mas sim à dançarina.

A procurei, mas fui desprezado, ela estalava os dedos pedindo para me afastar como se eu não passasse de um cachorro sarnento. Irritado me afastei, e por muito tempo meu orgulho deixou-me longe, infelizmente o desejo acabou sendo mais forte.

Retornei ao bar semanas depois, dessa vez ela estava ainda mais sensual, o que vestia em seu busto era de cor branca, só cobria os seios avantajados, a saia era longa e repleta de cores, porém não cobria a beleza de sua perna esquerda. Ela se movia lenta e tentadora, como a música que tocava, as luzes do palco a iluminavam como uma deusa, ela exalava a luxúria, e enquanto o suor escorria por sua barriga morena exposta, eu conclui que queria aquela mulher somente para mim.

Chamavam-na de Louise, diziam que vivia assim, a dançar pelos bares de Paris, outros boatos alegavam que ela era esposa de um homem rico e para desafiá-lo dançava a noite. Descobri tantas versões de sua vida que já não poderia afirmar mais nada sobre ela. Quanto mais me aprofundava em suas falsas histórias, mais me encantava, mais a queria, mais a amava, mais sua dança se tornava parte de minha vida.

“Piedro, esqueça-a” — diziam meus colegas — “Logo você, caído de amores por uma fútil dançarina”

Mas não consegui esquecê-la, mesmo jogando-me ao seus pés e implorando por seu amor, Louise sequer olhava para mim, que aos poucos ia à ruína. Fui rapidamente à falência depois de gastar cada centavo naquele bar, perdi o emprego e minhas notas caíram. Minha amada dançarina me chutava como um cão que me tornei, completamente digno de pena.

Passei a observá-la somente das janelas imundas do bar, e em uma noite que não dançou, entrei em desespero, perguntei ao dono do lugar o que havia acontecido com ela.

“Ela partiu, talvez nunca mais volte!” — foi a triste resposta. O sabor amargo daquele amor me destruiu, rolava pelas ruas e becos atrás de migalhas, e se não fosse por meus amigos, jamais teria voltado a ser o homem que era.

Quem sabe Louise seria somente aquela que veio para mostrar que eu poderia me enganar com o amor, certamente jamais a esqueceria, mesmo que se passassem anos, sempre que ouvisse alguma música que ela dançou dançou naquele bar, a procuraria, só para vê-la dançar mais uma vez e pedir para ficar ao meu lado.

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Apreciadores (5)
Comentários (4)
Postado 02/06/17 15:06

Gostei desse texto :)

Eitaaa! Que "flechada" no pé, hein!

Esse é o pior dos amores. Amor platônico, não correspondido. Apesar que deve ter sido paixão. Ele ficou maluquinho.

Ainda bem que conseguiu se reerguer. Eis a importância de se ter amigos.

Postado 10/09/17 20:26 Editado 10/09/17 20:27

Os incrédulos são os que mais "apanham". Chega a ser engraçado ver aquela pessoa que prefere acreditar em aliens do que em algo do tipo "amor à primeira vista" sendo fisgado. Pessoas assim ficam ainda mais fissuradas que aquelas que acreditam.

Vai entender...

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Postado 14/11/17 16:52

Uau... que texto fantástico!

Tudo foi muito bem escrito, muito bem pensado!

E os personagens são sensasionais!!!!

E que me sirva de lição de vida, jamais me apaixanar por uma dançarina de bar...

Foi um texto amargo, triste, pesado...

As pessoas se tornam deploráveis por amor...

Parabéns pelo ótimo texto Srta. Denise!!

Eu simplesmente amo os seus textos!!! <3

Um abraço, Meiling!!

Postado 15/11/17 15:10

Que escrita cativante! Adorei seu estilo. Parece quase uma história real, hem? Tantos detalhes...

Enfim, parabéns!