Mãe, sou lésbica e parcialmente feliz
Maria Vitoria
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/06/17 13:12
Gênero(s): Crônica LGBT
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 9min
Apreciadores: 2
Comentários: 2
Total de Visualizações: 84
Usuários que Visualizaram: 6
Palavras: 1180
[Texto Divulgado] "Um Pouco de Mim" Nascendo com o peso de uma grande responsabilidade que passaria na sua vida, junto com a paz sendo limitada á tanto trabalho à se fazer.
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho
Capítulo Único Mãe, sou lésbica e parcialmente feliz

Lembra aquele dia que você me obrigou a usar um vestido justo e curto e verde de alças finas, e eu chorei como se o mundo fosse acabar numa morte trágica e fatídica, então, mãe?

Olha, eu nunca te expus a certas verdades e a certos fatos da minha vida, nunca fui de levar problemas para você. Sim, eu sempre fui ótima em esconder certas coisas, ainda mais quando tais coisas se tratavam da minha vida afetiva ou da minha sexualidade. Você sabe, nunca falamos de sexo, você tem vergonha né?

Nunca falamos de dramas, você não gosta né? Nunca falamos de como você se sente, você é frágil né? Nunca falamos de como eu me sinto, você não me conhece né?

Então, primeiramente mamãe, olá, como vai você? Eu? Eu vou indo, vou quebrando nozes nos vãos das portas e olha, eu nem gosto de nozes. Há, me desculpe isso é outra coisa que você não sabia sobre mim.

Mamãe, eu nem sei bem como te deixar a par dos fatos, afinal, eu sempre fui sua garotinha tão esperada, tão mimada, tão querida... Você sempre sonhou tão alto por mim, sempre fez planos gigantescos, bem maiores que meus próprios sonhos. E isso não é ruim, entenda. Mas sabe, são apenas os seus próprios sonhos utópicos derivados de uma vida que foi roubada de si mesma.

Mamãe, te entendo, você sofreu tanto, sua vida foi uma completa tragédia, uma constante senzala, mas sabe mãe, apesar de seu desejo efêmero de sermos eternas melhores amigas para sempre, sempre, e eu disse sempre... Sempre estaremos sós, buscando uma ligação inexistente. Sinto muito por isso, mas é que a vida roubou tanto minha própria identidade que até hoje, com quase vinte e sete anos, ainda procuro ser o que talvez jamais serei.

Estava aqui pensando comigo mesma, lembra aquele dia que eu disse a você que não gostava de garotos e que minha paz estava na companhia das garotas? Ou naquele dia que eu toquei na mão de outra mulher, que era minha namorada na época e você sabia e mesmo assim você me repreendeu e exigiu que eu me escondesse do mundo? Ou naquele outro dia que você me ouviu dando um beijo em outra mulher e ficou sem olhar na minha cara por uma semana. Ou até naquele dia que você pediu para eu ir viajar sem minha aliança porque nossa família não poderia saber que eu amava outra mulher. Sabe mãe, aquele dia eu desejei te odiar por você me impedir de ser apenas eu mesma, mas não era certo, você me ensinou a não odiar porque o ódio é um ato pecador.

Mamãe, você não sabe, mas eu já me relacionei com tantas mulheres e com tantos homens, mas isso não define nada, eu apenas me relacionei com pessoas e isso não tem nada a ver com sexualidade ou questões de gênero, tem a ver com escolhas de compatibilidade e escolhas do coração. Sabe, nada contra os homens, mas eu amo mesmo de coração as mulheres. Mulheres e suas particularidades, mulheres e suas maneiras de abraçar a vida como quem tem apenas um minuto de estadia na terra antes da morte.

Eu as amo mamãe. Amo seus sorrisos, seus jeitos meigos e gentis, suas posturas, seus modos de destruir um coração complacente de culpa, suas perspicácias, seus olhos sorridentes, suas bocas brilhantes, seus corações carentes, seus dramas eternos, seus jogos de polícia e ladrão, seus corpos gloriosos, suas mãos macias, suas vozes doces, seus afagos serenos, seus sonhos gigantes, seus empoderamentos, enfim... Eu amo o fato das mulheres serem elas mesmas e isso é tudo o que eu tenho.

Eu nunca amei ninguém perdidamente, mas sim, me apaixonei por algumas. Se bem que toda minha falta de amor e entrega é derivada do fato de ter medo de ser apenas eu. Do medo de caminhar as ruas e reparar nos olhares, de tocar e ser repreendida com alguma praga religiosa, de olhar e ser xingada, de dizer que amo e ser esbofeteada ou pelo fato de me olhar no espelho e não me sentir completa e feliz, ou ainda, pelo simples fato de sempre te ouvir dizer:

- Você parece um homem.

- Muda essa roupa.

- Arruma esse cabelo.

- Ajeita essa postura.

- Coloca um vestido.

- Bota uma maquiagem nessa cara.

- Isso é só uma fase.

- Meu sonho é te ver de branco na igreja e com filhos.

- Você só fala merda.

- Você não sabe o que quer.

- Eu preferia não ter tido você.

- Você só me dá desgosto. Porque você não nasceu normal?

- Para de trazer mulher pra dentro de casa. Vai ficar com essas garotas na rua, num motel, bem longe daqui.

- Todo mundo vai ficar comentando; olha lá, a filha da fulana, que sapatão.

- Se você é tudo bem, mas ninguém pode ficar sabendo.

- Pra que ficar postando foto, escrevendo coisas, as pessoas comentam e isso me deixa triste.

Sabe mãe, isso também me deixa triste e frustrada, porque a senhora não faz ideia de tudo o que eu tive que passar e do caos que eu tive que enfrentar para chegar até aqui e tentar dia após dia ser o que eu realmente sou. Você não sabe quantas ameaças eu sofri, de quantas coisas eu fui xingada, de quantos olhares de reprovação eu recebi, de quantas mulheres eu tive que abrir mão, de quantos empregos eu perdi, de quantos "amigos" que se foram, de todas as vezes que tentaram me corrigir, de quantas vezes as pessoas me disseram que eu ser eu era errado, de todas as vezes que a depressão falou mais alto e de quantas e quantas vezes eu pensei em me matar e desistir, porque eu estava sozinha e você nem ninguém estavam nem ai, afinal, eu, a problemática, a estranha, a dramática, enfim... A invisível.

Você não sabe como é olhar no espelho e se sentir bem e confortável, mas ter que se restringir a isso porque alguém não gosta do jeito que você é ou da maneira como você se aceita. Quantas e quantas vezes eu pedi a Deus para me livrar de todo esse fardo que era ser homossexual, mas ele não me atendeu e eu segui sendo o que de fato sou. Muitas pessoas me odeiam sabe? Você diz que me ama, que não entende o que eu sou, mas que aceita, naquelas... Mas ambas sabemos que você é como todas as outras pessoas que veem apenas carcaça antes de enxergar a plenitude de nós mesmos. Mas tudo bem, eu sigo levando, afinal tanta coisa já aconteceu comigo que eu nem sei mais o que falta pra acontecer. Suicídios vieram, depressões se foram. Mulheres vêm e vão. Infelicidades são constantes. Lágrimas são frequentes e solidão, a solidão... Essa é a minha melhor amiga, para todo sempre.

Se tem uma coisa que eu aprendi com você mamãe, é ser uma mulher forte. Seja apenas por ser eu mesma ou por esconder parcialmente minha felicidade pelo resultado da soma de nossos sonhos.

Enfim... Mãe, eu sou lésbica e parcialmente feliz.

Com amor, estranhamente.

❖❖❖
Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 09/07/17 14:34

Gostei muito, discutir genêro em qualquer aspecto me motiva.

Postado 05/12/17 21:04

As pessoas esquecem que amor é amor, independente de quaisquer aspectos, e que o coração não pede a nossa opinião para agir. A sociedade tenta impor em cada um o que devemos ser, como devemos agir; a mídia manipula, a população torna-se cega. Tudo se resume em um padrão insignificante, e quem não o segue torna-se o esquisito, aquele que quer chamar atenção, a aberração.

Esquece-se que dentro de cada um possui um coração, com sentimentos, sonhos... Tudo em comum. E por que mudar? Apenas para agradar? Por medo? É tão triste ter que deixar de ser quem de fato é por receio, medo da simples ignorância de um outro alguém.

Poderia dizer mil e uma coisas, mas o seu texto resume tudo que queria expressar. Meus parabéns!