A Baía dos Cães Mortos
Holzwarth
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 11/08/17 14:51
Gênero(s): Terror ou Horror
Avaliação: 9.8
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 6
Comentários: 5
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Palavras: 661
[Texto Divulgado] "Espelho da minh'alma" Eis ai uma parte do que vivi, vi , morri e renasci. Sentimentos Versos Experiência Tudo numa coerência
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

um texto mais pessoal, feito após ouvir muito death metal falando sobre frio

Capítulo Único A Baía dos Cães Mortos

Na noite escura, uiva o lobo.

O vento gelado castiga nossos corpos fumegantes.

As línguas pendem das bocas, que expelem nuvens de vapor quente, condensado, que sobe e sobe, para muito além do céu, para muito além da noite escura. A noite é escura assim como está frio; está frio e nossos corpos fumegam, está frio e nossas pernas morrem.

O gelo cobre minhas patas machucadas, gruda em minhas unhas, gela meus olhos. Olhos tão azuis como a noite, tão azuis como o gelo, tão azuis como a morte.

Meus irmãos ofegam, arfam, sopram e fungam; choram e latem. Suas pernas morrem e o gelo cobre nossas patas machucadas. Ouço seus clamores, seus guinchos de súplica; olho em seus olhos e eles olham nos meus. Olhos azuis como o gelo que cobre nossas patas, olhos azuis como a morte.

A baía avança sobre nossas patas, sobre nossas pernas que morrem e queimam, sobre nossos corpos atados a cordas que esticam e que puxam. Em nossos ouvidos, uiva o vento. Na noite escura, uiva o lobo.

Doze latidos latem em coro; doze línguas pendem das bocas abertas, que latem e ganem e clamam. Os corpos fumegam na noite gelada, fumegam sobre a baía congelada, fumegam contra o vento cortante. Doze almas clamam pelo perdão, clamam a misericórdia do frio.

O gelo cobre nossas patas machucadas, que correm e morrem, que bambeiam e tropeçam. Duas dúzias de horas a fio para doze corpos cansados, fumegantes e cobertos de gelo, clamando pela misericórdia do frio.

Mas o frio não tem misericórdia.

Seus olhos olham os meus, olham o líder que os conduz pela baía; meus dedos queimam e sangram, e o gelo cobre o sangue de minhas patas. Seus choros choram e imploram, seus latidos pedem pela minha misericórdia.

Meu instinto treme; sacoleja o tutano de meus ossos exaustos, chacoalha meus músculos mortos. Num incrível lapso de energia, um espasmo sacode meu corpo, guiando-me pela baía, conduzindo-nos pelo gelo.

A grande baía, imersa na noite, lança-se diante de meus olhos cansados cobertos de gelo, gelo que cobre minhas patas sangrentas e machucadas. A gare da morte lança-se diante de meus olhos azuis, numa camada fina, frágil, mortal. Os ganidos clamam e os latidos imploram; seu instinto de matilha quer frear, e a inércia suicida se recusa a parar de correr.

Conduzo-os, guio-os, levo-os em silêncio, ouvindo suas súplicas que morrem no frio, ouvindo os passos e tropeços que seguem o Líder, quem lhes dará o golpe de misericórdia.

O gelo trinca sobre minhas patas machucadas; as cordas puxam, repuxam e esticam. Num frenesim insano, meus irmãos ganem, gritam, latem, enquanto o gelo trinca, quebra e se separa. As cordas puxam, enlaçam-se em minhas patas e me atiram ao chão; o gelo voa em meus olhos, espirra, estilhaça. O primeiro ganido de horror trinca a noite; o gelo se move sobre nossas patas, escorrega, desliza e se parte.

A grande geleira brame, ergue-se acima de minha cabeça com uma sombra; patas atingem meus olhos, meu focinho, meu corpo. As unhas espirram o gelo e a água; na noite escura, não enxergo mais nada.

Caído no chão, as patas pisam-me o corpo, as cordas puxam, sufocam e enforcam nossos pescoços, nossos corpos embebidos em pavor. A onda ruge; o trenó estala, tomba, fazendo voar o pequeno corpo compacto que lá se sentava. Os vultos lançam-se em minha visão; ganem e choram, gritam e latem. O gelo cobre meus olhos cegos.

A onda troveja, levanta e desaba; as placas descem e sobem. A baía trincada se partiu em mil pedaços, lançando gelo e água. O gelo e a água envolvem-me o corpo torcido, amarrado e enforcado.

Inerte, meus olhos acompanham os latidos de meus irmãos. Enrolados, sufocados, congelados; o gelo endurece seus corpos, que boiam na baía, guinchando por socorro, ganindo em desespero.

O frio me abraça, aperta-me o corpo, faz-me fechar os olhos. O gelo cobre meu corpo morto, que boia na baía dos cães mortos.

❖❖❖
Notas de Rodapé

são doze cães, o narrador é o décimo terceiro, mas ele não se considera um cão, tanto que não se coloca na contagem; por quê?

Apreciadores (6)
Comentários (5)
Comentário Favorito
Postado 13/08/17 14:08 Editado 13/08/17 14:11

Sr. Holzwarth, essa é minha primeira obra de sua autoria que tenho o imenso e insano prazer em ler!

Antes de mais nada, preciso dizer que o título foi genial, bonito, e angustiantemente triste! Ou seja, eu amei!

Agora, sobre o conto em si...

Moço... que obra mais maravilhosa!!!!

As palavras certas fizeram as frases ficarem completamente fascinantes!!!

Permita-me citar algumas dessas frases:

"Olhos tão azuis como a noite, tão azuis como o gelo, tão azuis como a morte." - frase linda e inebriante!

"A baía avança sobre nossas patas, sobre nossas pernas que morrem e queimam" e "O gelo cobre nossas patas machucadas, que correm e morrem"- essas palavras são hediondas e execráveis... lindas para serem lidas, horríveis para serem sentidas...

"Doze almas clamam pelo perdão, clamam a misericórdia do frio" - o frio não tem misericórdia de ninguém... O frio é abominável e cruel...

"matilha quer frear, e a inércia suicida se recusa a parar de correr" - palavras tão bonitas, para uma cena tão triste...

"A baía trincada se partiu em mil pedaços, lançando gelo e água. O gelo e a água envolvem-me o corpo torcido, amarrado e enforcado" - esse trecho me deixou com os olhos marejados de água... que coisa mais nefasta foi descrita aqui...

"Inerte, meus olhos acompanham os latidos de meus irmãos. Enrolados, sufocados, congelados; o gelo endurece seus corpos, que boiam na baía, guinchando por socorro, ganindo em desespero" - como o senhor é capaz de escrever com tamanha maestria?

"O gelo cobre meu corpo morto, que boia na baía dos cães mortos." - o texto foi fechado pela frase mais marcante e tocante de todas... triste... visceral... maravilhosa!!

Cada uma dessas frases citadas e comentadas, foram lindas, perfeitas, magníficas!

Senti um amor profundo por esse seu conto!

Ao lê-lo, lembrei-me de dois livros que já li: "O Chamado da Floresta" e "Caninos Brancos", ambos de Jack London. O primeiro trata de um cão doméstico foi que traficado para o Alasca, e sofre horrores, até ser tomado pelos seus instintos ancestrais de selvageria! O segundo trata de um lobo que passa por muitas coisas horríveis também, até ser domesticada por humanos... Ambos os livros são de uma violência extrema, cenas de partir o coração... Coisas hediondas, maléficas e repugnantes... Mas eu os amo demais!!!

E hm, sobre serem 12 os cães, mas o narrador ser o13°... Ele seria um lobo? Ou ele seria um cão já morte, em espírito?

Enfim, me perdoe por esse comentário gigantesco, mas eu precisa dizer o quanto eu amei esse seu texto!!!

Um abraço, Meiling!

Postado 14/08/17 19:44

Olá, Mrs. Meiling!

Foi um prazer imenso ler seu comentário, fico muito feliz em saber que gostou do meu texto mais querido! Isso fez o meu dia, definitivamente, obrigado! E, sabe, não precisa se preocupar muito com o tamanho do comentário; li ele todo, sorri do início ao fim.

Sobre os livros que você mencionou, estou para ler O Chamado da Floresta, só preciso terminar a fila que vem antes dele... Ah!, e esse sengundo livro me parece bom, acho que vou me aventurar, quem sabe!

O fato do narrador ser o 13° cachorro (mas não se considerar como um, de fato) pode tanto ser algo mais simbólico (que eu só notei depois de escrever o conto por inteiro) quanto pode ser algo que foi intencionalmente planejado; devo expor? Hum...

De novo, muito obrigado pelos elogios, eles significam muitíssimo para mim sz

Abraços, Holzwarth

Postado 28/08/17 14:53

"Em nossos ouvidos, uiva o vento. Na noite escura, uiva o lobo."

De todas as frases, essa foi a que mais me cativou. É perfeita!

Sobre o narrador, talvez ele realmente não seja um cão e muito menos um lobo. Eu arrisco dizer que ele é humano. Enquanto lia me veio à mente aqueles trenós que são puxados por cachorros. Acho que pode ser isso. O narrador se sente parte daquilo tudo, se sente como os cachorros, mas acaba não sendo um... Ou eu posso estar viajando. Vai saber.

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Postado 13/11/17 14:06

Depois de quase três meses, deveria me sentir envergonhado por enviar a resposta só agora.

Seria o narrador um humano em pele de cachorro? É uma boa hipótese, afinal. Uma conexão muito forte com os cachorros poderia levá-lo a pensar como um, a entender o seu lado e a tomar uma atitude tão extrema como essa.

Muito obrigado pelo comentário!

Postado 13/11/17 13:47

O que um bão Death Metal não faz, não?

O cão-narrador, é humano, de acordo com as vozezinhas na minha cabeça... Eu imaginei tantos tons e sons e intensidades do inverno enquanto lia esse conto completamente inspiracional!

É como uma canção de fim de batalha. batalha perdida.

Intenso. Parabéns!

Postado 13/11/17 14:10

Death Metal é o tipo de música que escuto quando estou triste, meio pra baixo ou sem ideias. É muito bom pra trazer de volta os pensamentos quando a cabeça fica vazia.

Será mesmo? Um humano, em outro plano, num corpo de um dos cachorros, assistindo a cena pelos seus olhos e dando consciência ao animal. Uma ideia interessante.

Perder a batalha para o Senhor Inverno e se curvar perante sua crueza primitiva é uma coisa sensata a se fazer, eu diria.

Obrigado pelo elogio e pelo comentário!

Postado 16/11/17 03:41 Editado 16/11/17 05:06

Eu imaginei uma assombração dessas que ficam repetindo o modo como se tornaram o que são, revivendo cada e todo sofrimento, indefinidamente. Essa ideia me foi reforçada pela repetição das palavras/frases, como um eco do terror que se abateu sobre o protagonista e seus cães...

E no fim, só restam o frio e a Morte. De novo e de novo e de novo...

Muito bom trabalho, Sr Holzwarth! Sua narrativa e descrição são de uma particularidade interessante, assim como sua obra! Parabéns!

Atenciosamente,

Um ser gélido e morto por dentro, Diablair.

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Postado 21/11/17 22:13

Eu nunca aprendo a lidar com suas obras. Sejam sobre qualquer tema, nunca me acostumo com o que posso encontrar e, assim, me encantar (Isso seria um tipo de crush literário? Não sei, rs).

Brincadeiras a parte...

A melancólia que ronda as palavras é tão densa, que parte-me o coração. Cada frase pareceu cortar minha alma, como o gelo trincou até o espírito desses cães. O título do texto já me sugeriu que eles morreriam; que tudo o que eu leria a seguir, seria o caminho deles até a morte. A atmosfera é pesada, pois entramos e sentimos juntamente com este grupo, a neve tocar a pele, o frio matar a alma e a geleira se rompendo, enterrando o corpo.

Eu acho que ele não se vê como um cachorro, mas sim, como um cachorro-líder. Sei que é estranho, mas tentarei explicar. Ele sente mais que todos os outros, os guia, mesmo ouvindo os murmúrios de dor e morre com eles, como um deles, mesmo sendo quem os leva até a morte. No fim, o cão-líder era apenas um cachorro com responsabilidade demais e não conseguia se ver como parte do grupo, porque ele era a base dele.

Talvez eu tenha falado abobrinha, então me desculpe.

Parabenizo tu pela obra! Está ótima como sempre.

Abraços da Ternura.

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