Ar Poluído
Romão de Fonseca
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/08/17 02:00
Gênero(s): Cotidiano Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min
Apreciadores: 5
Comentários: 4
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Palavras: 326
[Texto Divulgado] "Sutiã" Todo sutiã que se está usando a muito tempo deixa marcas. E no final, sua relação era igual a um sutiã.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

https://www.youtube.com/watch?v=u-e7_RaUePM dê play, o texto é secundário

Capítulo Único Ar Poluído

Já era tempo de deixar o passado, as mágoas, os arrependimentos para trás. Já era tempo. As discussões, as alegrias, as trocas de carinhos, os desejos mais sóbrios e os mais ébrios que findados ao mais alto de seu inconsciente agora aflora num despertar. Já era tempo. Enquanto na cidade as pessoas riem, choram e também discutem quase que com o mesmo vigor, aqui, onde se está, tudo é deveras estranho, pesado e cansado. Os gatos fedidos andam para lá e para cá, os cães igualmente mau cheirosos e raivosos correm atrás daqueles que não puderam ter a chance de descansar mais.

Nessas estruturas estranhas, concretas e cinzas, o sentimento é, aparentemente, deixado de lado, quase como uma tentativa constante de homicídio contra o devir. Na figura do relógio, ele que não perdoa nem os mais felizes e alegres seres humanos: o próprio tempo. E a cada tic, um rim, tac, fígado, tic, pulmão, tac, coração. Quando você menos percebe, tocou-se o sino, morto. Essa dor maldita na lombar que não passa, tic. Essa vontade louca de ir além, tac. A necessidade de nunca mostrar-se fraco, tic. E um grande abraço na despedida, tac.

Para além do mundo existente: aquilo que não percebemos, ainda que necessariamente estejamos infimamente ligados – o inconsciente. A cada piscada dos olhos, um sinal de que algo passou, desapercebido, despercebido, inquieto e a certeza, de que perdeu-se algo, só num piscar. O sorriso falso necessário para socialização com esses outros diferentes e estranhos malucos que não param de se gostar. A virada de rosto para os que não sabem ignorar. E o eterno não com aqueles que tentam, por algum motivo, aproximarem-se.

No dia, na tarde e na noite, sob os olhares medonhos desses carros, que piscam e fazem tanto barulho. A gritaria da rua açoita os ouvidos dos que não têm nada com isso. Andar já não é tão prazeroso, respirar dói. E eu nem sei o porquê. Que ar poluído.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Desculpem pelo texto ruim.

Obrigado e obrigado.

Apreciadores (5)
Comentários (4)
Postado 28/08/17 14:35

Como assim desculpar pelo texto ruim? Onde está esse texto ruim? Tudo que vejo aqui é simplesmente maravilhoso.

De tudo, o que mais me encantou foi o tic, tac. Talvez por eu ser uma amante de textos que falem sobre o tempo, em particular sobre esse barulhinho que fica ecoando nos ouvidos.

"Andar já não é tão prazeroso, respirar dói. E eu nem sei o porquê. Que ar poluído."

Verdades. Verdades. Verdades.

Parabéns!

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Postado 29/08/17 09:52

Olá.

Fico feliz que tenha gostado. Também me faz algum sentimento de curiosidade quanto a esse barulhinho.

No mais, achei o texto ruim mesmo, mas é sincero de coração.

Obrigado e obrigado pelo caridoso comentário.

Postado 13/11/17 14:28

Não se desculpe pelo texto ruim, de forma nenhuma. Foi uma leitura agradável, com períodos e frases que fluem de uma forma coesa, unida e inseparável — e é exatamente por isso que recebe o título de agradável. Parabéns!

Seu texto tem uma sonoridade agradável, uma atmosfera triste e cinza, cor de cidade triste, como todos esses ambientes urbanos em que vivemos hoje. O modo como a fugacidade do tempo e da vida foram mostrados aqui foi espetacular, e acho que olhar para o infinito enquanto reflito a respeito é a melhor opção.

"E a cada tic, um rim, tac, fígado, tic, pulmão, tac, coração. Quando você menos percebe, tocou-se o sino, morto." — um destaque especial para essa frase, a minha favorita.

De novo, parabéns pelo texto!

Postado 13/11/17 16:32

Olá.

Felicíssimo por ter apreciado meu texto. Eu não sou bom em responder à altura de um comentário tão gracioso, resta-me, então, as felicitações e agradecimentos.

Obrigado e obrigado!

Postado 13/11/17 19:38 Editado 13/11/17 19:43

A única coisa ruim desse texto é o fato dele ter chegado ao fim. Cada palavra fisgou meus olhos com tamanha maestria, que me surpreendeu. Cada palavra tem seu tom de melancolia trouxe uma visão nova sobre como a vida e o tempo, são findos para os que caminham para o fim.

A sonoridade presente torna cada frase uma melodia estonteante. O uso do tic-tac cativou-me completamente. Quando notei já estava me deleitando nestas palavras tão reais e palpáveis que tu compartilhou conosco, com o som de Chopin trazendo ainda mais profundidade para a obra.

Parabéns pelo texto! Obra maravilhosa!

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Postado 14/11/17 00:10

Olá!

Novamente um comentário bastante caloroso, do qual, resta-me as felicitações e agradecimentos!

Obrigado e obrigado!

Postado 19/11/17 22:22

Concordo com todos os meus ilustres colegas em seys comentários e acrescento: se existe alguma coisa ruim aqui, é o sentimento visceral que esre texto fez (e ainda está fazendo) retumbar aqui no meu peito. Não é algo inédito esta coisa que me assola, pelo contrário. Todavia, esta leitura só fez a coisa toda ficar mais exposta.

Existe como explicar racionalmente uma sensação de "desperdício vital(ício)" misturado com "miserabilidade existencial"? Pois, ao ler e refletir, o que restava deste naco podre cardíaco se fez contrito pela veracidade inegável e inexorável que o texto, feito espelho, esfrega na minha maldita cara feia e entristecida.

Perdão. Perdão. E obrigado... E parabéns, claro. Sempre...

Atenciosamente,

Um ser poluído, Diablair.

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Postado 22/11/17 19:36

Olá

Mr. Diablair. Novamente, muito obrigado pelo comentário esplêndido! Um ode aos seus comentários, que conseguem, por vezes, serem tão profundos quanto os textos daquele que o escreve.

A conclusão é inócua, a vida nos esfrega e esfrega e esfrega a nossa realidade medonha.

Obrigado e obrigado, sempre!