Incompleto
Sorelly
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 01/09/17 16:50
Gênero(s): Drama LGBT
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 7min a 10min
Apreciadores: 6
Comentários: 6
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Palavras: 1243
[Texto Divulgado] "O Fracasso do Êxito" Como poderia alguém fracassar tendo êxito? Eu sei, o título parece um tanto quanto contraditório. Mas acredite, fará sentido à medida que definirmos alguns conceitos...
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Oi, tudo bom? ♡

Capítulo Único Incompleto

As pessoas gritavam, mas era um som tão distante que suas palavras soavam desconexas para mim. O aro estava bem na minha frente e Henrique se encontrava totalmente livre, então por que essa sensação esquisita de impotência? Era só passar e marcaríamos mais um ponto, certo? Errado.

Por causa de um deslize o time adversário acabou roubando a bola e fazendo uma cesta de três pontos. Todos, sem exceção, olharam para mim. Tsc, era ridículo, será que ninguém nunca me viu errar um passe?

- Tempo! – o árbitro gritou. Mau sinal.

- Lucas, você está fora do segundo tempo.

Merda. Pelo menos não fui o único a ficar surpreso pela decisão repentina do nosso técnico. Henrique tentou argumentar, mas o treinador fez pouco caso e continuou repassando a estratégia para o segundo tempo.

- Treinador, posso ir embora? Não estou me sentindo bem.

- Claro, mas não se esqueça do treino de amanhã, Lucas.

- Pode deixar. – Apenas peguei a minha bolsa e saí do banco, ignorando todos os olhares dos meus companheiros. Eles sabiam que eu estava mentindo, mas nada disseram. Todavia, antes de sair da quadra dei uma última olhada na esperança que ele estivesse ao menos demonstrando uma mínima porcentagem de preocupação. Grande engano.

Rafael continuava com seus olhos inexpressivos e fixos no adversário, e apesar de não transparecer, ouvia atentamente as novas ordens do treinador. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que a única preocupação presente em sua mente era dos pontos a serem recuperados. Pontos esses que foram perdidos por minha causa.

Meu coração parecia ter ficado apertado em meu peito, e antes que as lágrimas se fizessem presentes, virei e continuei caminhando para fora do ginásio. Ele não se importava. Nós havíamos de fato se tornado dois estranhos.

Senti a brisa gélida bater em meu rosto ao me dirigir às ruas, e isso de alguma forma foi reconfortante. A lua pairava no céu, quase coberta pelas densas nuvens, sinal que a previsão estava mais do que correta: iria chover forte. No entanto, não me importei e continuei andando lentamente, pouco importando se demoraria mais de uma hora para chegar em casa. Ninguém estaria me esperando, então qual seria o problema?

Sozinho. Era dessa forma que eu me encontrava novamente. Depois de hoje tive a certeza de que realmente perdi tudo o que me motivava, e a sensação dessa perda é tão medíocre que chega a ser irônico. Eu não havia de fato perdido tudo, afinal, a pessoa responsável por essa sensação não havia desaparecido, apenas se tornado inalcançável.

Essa pessoa nada mais é do que Rafael Oliveira. Meu antigo melhor amigo, meu ex-amante.

- Lucas, aconteceu algo?

- Não, por quê? – aquela pergunta repentina me fez parar no meio da rua para encará-lo. Rafael nunca demonstrou preocupação comigo.

- Você está estranho.

- Não é nada, deve ser apenas paranoia sua, Fael. Não precisa se preocupar.

- É claro que me preocupo. Como não posso me preocupar com alguém... Especial para mim?! – essa última parte saiu mais como um sussurro, e se eu não estivesse prestando muita atenção não teria ouvido. Fael estava se preocupando comigo? Mais do que isso, eu era alguém especial? Apenas me limitei a sorrir igual um idiota.

Sim, eu era extremamente idiota de ter acredito em suas palavras. Todavia, o que eu poderia ter feito na época? Eu estava – e ainda continuo – apaixonado por ele. E quando começamos a namorar, foi como se tudo estivesse se encaixando novamente em minha vida.

- O que você disse, Rafael?

- É isso o que você, idiota, não me faça repetir a mesma coisa!

- V-você me ama? – eu ainda não conseguia acreditar, o grande realmente havia se declarado para mim? Os meus sentimentos de fato estavam sendo correspondidos?

- Tsc, como não poderia amá-lo?

Não consegui evitar as lágrimas e nem o impulso de abraçar Rafael, o meu Fael. Os sentimentos que antes estavam ocultos pela consciência de não serem correspondidos emergiram do esquecimento quando finalmente pude estar nos braços da pessoa que eu mais amava e admirava.

Pela primeira vez eu havia ficado plenamente em paz. Não havia mais problemas, treinos, Henrique gritando conosco, não havia mais nada. Apenas eu e ele. Então por que tudo teve que terminar assim? Novamente pude sentir o vazio se estender em meu âmago, e só agora havia percebido que ele nunca havia ido embora. Lá no interior do meu subconsciente eu tinha certeza de que esse vazio voltaria; que seria passageira a ausência dele. Eu sabia, só não me permiti acreditar.

Estava tudo indo bem demais. E quando a vida começa a dar tudo certo pode ter certeza que ela está te preparando para enfrentar uma situação demasiada difícil. E por que seria diferente comigo?

- Lucas, por favor, me deixa explicar.

- CALE-SE, FAEL! – pude notar a súplica em sua voz, no entanto, a raiva falou mais alto. Ele havia me traído, o que mais tinha para ser explicado?

- Lucas, eu juro que não queria que isso tivesse acontecido. Por favor, acredite em mim...

- ACREDITAR EM VOCÊ? POUPE-ME, FAEL! – respirei fundo e tentei em vão controlar as lágrimas. – Tudo que fiz durante esses sete meses foi confiar em você. Ou acha que é fácil aguentar as meninas dando em cima de você descaradamente toda porra de aula? Eu confiei, te amei e fui fiel. E o que recebo em troca? UMA PORRADA DE MENTIRAS.

- Eu realmente queria que tivéssemos dado certo. Tínhamos tudo para dar certo, mas...

- Mas você resolveu aceitar ser agarrado pela Naomi, não? Aceitou essa porra de casamento arranjado e achou que pedindo desculpas iria me fazer sentir melhor?

- Você precisa seguir o seu caminho, Lucas, e precisa esquecer o amor que você sente por mim.

- Nada do que passamos juntos foi real, não é? Nada realmente importou para você.

- Luc...

- Vá embora, Rafael. E por favor, não volte nunca mais. Vá ser feliz com a sua noiva. – e quando o silêncio predominou, ouvi a porta se fechar e novamente a sensação de solidão me dominou. No final das contas, eu sempre estive sozinho, não é como se algo tivesse de fato mudado.

O que mais me magoou não foi o fato dele ter me escondido o seu casamento arranjado e ter feito com que eu descobrisse da pior forma possível: vendo-o aos beijos com Naomi no parque. Não. A maior mágoa vem da ilusão de que poderíamos ter sido felizes juntos.

Acredite, nós tínhamos tudo para dar certo. Estávamos em perfeita sintonia tanto fora quanto dentro da quadra. Ele me completava; era a perfeição e a rotina que faltava em minha vida, a organização que necessitava para ser feliz. No entanto, descobri da forma mais drástica que ter tudo não significa nada. Não demos certo. Nós nos tornamos um nada.

Depois daquele dia, ele começou a me ignorar totalmente, já não conversava comigo, muito menos respondia as minhas mensagens. E agora, três meses depois, tudo que um dia nós fomos se tornou meras lembranças de algo que nunca mais voltará.

Tentei seguir em frente como se nada tivesse acontecido, como se eu não o tivesse conhecido, como se eu continuasse feliz, completo. E de fato está dando certo. Só que ninguém precisa saber da verdade, não é? Ninguém precisa saber que apesar de tudo, sem você do meu lado eu continuo incompleto, Fael.

Ninguém precisa saber que não tenho um coração inquebrável como demonstro. Eu voltei a estar sozinho e terei que aprender a viver com a minha solidão. Aprender a viver sendo incompleto novamente.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Yeah, essa era uma fanfic de KnB. E eu pretendo fazer um romance futuramente com ela, talvez. Espero que gostem. Não brinquem com os sentimentos dos outros, pensem antes de tomarem algumas atitutes e lembrem-se que tudo volta, menos o tempo. Amo vocês, meus bolinhos de mel; até algum dia ♡

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Postado 02/09/17 01:12

Estou triste num nível tão grande, que me é impossível comentar. Só me restam lágrimas e um aperto forte no peito. Aquele aperto que só quem sabe o que é ser deixado, é capaz de sentir. Não existe dor maior do que a do abandono, da traição e da saudade de tempos que não se pode viver novamente. Li esse texto com uma angústia azeda tomando-me a alma e o espírito, pois mesmo a vida seguindo em frente, existem marcas do passado que simplesmente não somem, não curam e não desaparecem. É doloroso ser o espectador de uma situação que seu coração conhece tão bem. É triste ser mestre na arte de se acostumar com a solidão.

História maravilhosa e dolorosa. Amo essa tua capacidade de tocar no profundo do âmago com sentimentos que conhecemos tão bem. Parabéns, Pãozinho da Fofura!

Postado 03/09/17 20:06

Awwwn, eu fico tão feliz com os seus comentários e da forma como interpreta cada história que crio; é uma felicidade imensa para um autor. E de fato, a dor desse abandono é horrível, porque a gente se doa para determinada pessoa para, no fim, não haver mais um nós.

Muito obrigada, Brina! ♡

Postado 01/09/17 21:40 Editado 01/09/17 21:41

Srta Pam, eu me recordo exatamente como nós dois nos conhecemos e um dos motivos foi um pedido de ajuda. E ironicamente hoje, ao ler esta obra impecável, nossa história se repetiu, muito embora a senhorita não saiba de que diabos estou falando.

Sobre sentimentos, relacionamentos e afins, não me atrevo a comentar: sou um completo ignorante e nem um pouco entusiasta do assunto. Minha visão não é das mais apropriadas. Ademais, minha imaginação doentia foi bem além da superação e da resignação, então deixemos o pobre Lucas amargar as consequências desse veneno que começa com "A".

Agora, sobre a parte técnica do conto, o nível de detalhes, a carga emocional, as descrições, a narrativa... Ora, é de uma criação da senhorita Pam que estamos falando! Não há como esperar menos que o surpreendente! É sempre gratificante ler algo de sua autoria e, como disse antes e repito, apesar de minha aversão a romances, esta leitura me beneficiou de uma forma incrível! Meus sinceros parabéns e muitíssimo obrigado!

Atenciosamente,

Um ser que nasceu, viveu e morrerá (in)completo, Diablair.

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Postado 03/09/17 20:01

Eu nunca consigo responder dignamente os seus comentários. De verdade. Só fica o meu agradecimento pelo seu apoio sempre e sempre, e pelas suas palavras. Obrigada, Manu! ♡

Postado 02/09/17 00:34

"Ele me completava; era a perfeição e a rotina que faltava em minha vida, a organização que necessitava para ser feliz".

Acho que a questão, ao meu ver, é trabahar para o nosso auto conhecimento, sermos a organização, os tons bonitos, as horas repletas e a perfeição em nossa rotina, temos de ser o amor de nossas vidas e só assim, outra pessoa poderá entrar e participar disso tudo. Esse texto retratou a verdade temporária de muitas pessoas, tenho certeza, esse amor injusto, esse abandono, essa caos, esse brincar com os sentimentos, é realmente terrível. Mas eu penso que quando nos amamos mais, escapamos destas ciladas, e se não escaparmos, como é inevitável, conseguimos nos reerguer mais facilmente. Focar em quem verdadeiramente nos ama, seja amigo, seja parente, seja bichinho de estimação, seja um deus que te protege ou alguém que tu quer ter entre os braços e as coxas. Quando é amor, amor real ele vem de todas as formas e não só da forma romântica.

Sei que esta não foi a ideia que tu quis passar, mas inevitavelmente tive de falar sobre. Um texto excelente, real, visceral. Parabéns para uma das melhores, que me inspira e que me levanta.

Você é demais. E desculpa pela viagem... HAHAHA

Postado 03/09/17 20:04

Apesar de não ter sido essa a minha intenção, eu gostei bastante da sua interpretação. De fato, se amamos nós mesmo mais do que pensamos ou falamos, esse sentimento amargo não ficaria e muito menos predominaria. Todavia, o pior do amor é esse: desperta, também, os piores lados da pessoa. E nesse caso, os sentimentos negativos; a falta de algo que deveria estar mais não está.

Obrigada, Ana! ♡

Postado 05/09/17 21:52

Tenho quase certeza de que já li esse texto. Se não ele todo, mas pelo menos alguma parte. Não sei bem.

O que dizer quando a minha Pami baixa o drama e deixa ele correr solto pelo papel (tela do pc)? É meio difícil arrumar palavras para isso, principalmente depois de todos esses comentários divos... E eu nem vou detalhar muito a parte de eu ter um coração de pedra e não ligar com a solidão (ou algo desse tipo...)

Acho que eu sei quem seriam eles se fossem de KnB. Ou não. Ou sim. Ou talvez. Eu ja cheguei a falar que eu realmente sou uma confusão quando o assunto é comentar? Não? Pois bem, falo agora: Eu sou uma confusão. *3*

Eu amo muito a forma como você detalha tudo e como nos faz sentir cada emoção. É realmente maravilhoso. Parabéns, Pami!

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Postado 07/09/17 21:23

Yeah, você já leu sim, minha primeira fic de MidoTaka ♡

Owwnt, muito obrigada, Gema ♡

Postado 10/02/18 17:01

Esse poema foi bem doloroso de ler, mesmo assim, ainda é maravilhoso por ter sido tão bem escrito. Quase chorei (se eu tivesse lido ontem, por exemplo [eu li já faz uns dias], provavelmente tinha me acabado no choro HUAUHAUHAA tristeza)

Parabéns <3

Postado 10/02/18 21:42

kkkkkkk awn, vemk, não chore.

Obrigada, babe ♡

Postado 25/02/18 17:21

Essa história realmente partiu meu coração de uma forma que não posso explicar.

A dor de ser deixado realmente é grande e com a traição como bônus chega a ser insuportável, mas o que deve doer mais nisso é não ter aquela pessoa para contar sobre os seus dias, seus medos e suas alegrias e perceber, também, que essa mesma pessoa não confiou em ti o suficiente para contar a verdade, seja por medo seja por qualquer outro motivo.

Infelizmente, doar-se sem receber nada em troca não é para todos, apesar de ser algo muito bonito e que nesse caso, doloroso.

"Ninguém precisa saber que não tenho um coração inquebrável como demonstro. Eu voltei a estar sozinho e terei que aprender a viver com a minha solidão. Aprender a viver sendo incompleto novamente."

Esse trecho final foi o que mais me abalou em certos termos. porque quando doamos todo o nosso ser -por assim dizer- para que aquele relacionamento dê certo, deixamos um pouco de nós quando este acaba. E assim surge esse sentimento de vazio.

Eu realmente adorei essa história! Estou chorando, mas adorei hahaha

Parabéns ! <3

Postado 03/03/18 20:50

Ahh, meu coração, não sei nem como responder direito esse comentário tão lindo. Só tenho a agradecer, por captar cada mensagem e sentimento. Obrigada ♡