Agressão
Sabrina Ternura
Tipo: Lírico
Postado: 30/11/17 01:27
Editado: 30/11/17 01:51
Gênero(s): Drama Poema Reflexivo
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 4
Comentários: 4
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Palavras: 446
[Texto Divulgado] "Espelho da minh'alma" Eis ai uma parte do que vivi, vi , morri e renasci. Sentimentos Versos Experiência Tudo numa coerência
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Agressão

Ele chega cambaleando totalmente bêbado,

Checa os armários e nota a falta do leite.

Procura um cheque para passar no mercado,

Sendo que no bolso não tem um centavo.

Ela está lavando o banheiro e me chama,

Implorando para que eu diga algo capaz de pará-lo,

Pois não teremos dinheiro

Para pagar um cheque no mês que vem.

Meus ouvidos são preenchidos pelos xingamentos

Que ele murmura enquanto procura.

No momento em que o vejo,

Sou tomada por um ódio

Extremo e quase diabólico,

Quando o ouço dizer que minha mãe quer matar.

Digo, sem pensar:

Não gaste o dinheiro que não temos, seu filho da puta.

Não nos afunde mais, seu merda.

Não é nem você que paga as contas, seu porra.

Um movimento rápido,

Um corpo contra o armário,

Um soco bem dado

E uma frase dita num tom macabro:

Do que você me chamou?

Um golpe certeiro no rosto dele é dado

E vejo chamas negras em seus olhos

Que emanam o mais puro ódio,

Enquanto meu corpo é arrastado

Pelo local que, anteriormente,

Transmitia uma atmosfera familiar.

Ouço passos apressados

Em meio ao gritar descontrolado dele.

Largue minha filha!

Alguém salve minha filha!

Ele vai matar a minha filha!

Ela grita desesperada

Se colocando entre eu e ele.

De repente, o alvo dele muda

E vejo-o empurrar minha mãe.

Num impulso sobre-humano,

O seguro e grito para ela:

CHAME AJUDA, ELE VAI MATAR NÓS DUAS!

Ela corre depressa para a garagem,

Mas esquece de pegar a chave.

Ele esperneia tentando escapar de mim

E eu grito novamente:

A CHAVE, MÃE, A CHAVE!

Ela continua a gritar

E deixa de me escutar:

Alguém salve minha filha!

Ele vai matar a minha filha.

O empurro para trás

E pego rapidamente as chaves,

Mas o vejo passando por mim

E indo até minha mãe.

PARE, PAI! PARE!

Mas ele não para.

Corro para a garagem,

Mas ele já pressiona minha mãe contra o portão,

Apertando seu pescoço e dando-lhe socos no rosto.

O vizinho da frente tudo vê,

Mas nada faz.

O vizinho da frente tudo ouve,

Mas nada escuta.

Abro o portão

E quando os gritos dela tornam-se desesperados,

Quando toda a rua sai para ver o espetáculo,

Quando o vizinho da frente age para ser herói,

Quando tiro minha mãe dele e ele é colocando contra a parede

Pelo mesmo homem que os observava sem fazer nada;

Quando todos olham minha desgraça,

Ouço ele dizer:

Ela bateu em meu rosto

E a outra desgraçou minha vida.

Estando totalmente exposta

E indo em direção a uma casa

Que não era a minha, penso:

Eu lhe bati no rosto,

Mas você me feriu a alma.

❖❖❖
Apreciadores (4)
Comentários (4)
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Postado 18/12/17 23:01

Me dá até tristeza de ter de apreciar uma obra que mostra tanta dor real. Dores que eu participei durante muitos anos da minha vida.

A gente ouvia o portão mexendo, desligávamos a TV e pulávamos todos pra cama, orando embaixo do cobertor, para que ele não fizesse nada horrível naquela noite.

É sempre muito difícil, um dia nós superamos, um dia nós aprendemos, e quando esse dia chega, pelo menos eu acabei vendo as razões para todo o sofrimento.

Nunca vi uma obra tão próxima de mim. Me chega a dar dor de cabeça. Obrigada por isso, por essa reconexão com meu passado. E agora que superei e perdoei, o que basta é agradecer a estes acontecimentos, pois eles me fizeram ser o que sou. Doeu para caramba, mas estou/estamos vivos, e seremos melhores do que foram para nós.

Espero do fundo do meu coração que o eu-lírico do conto, não seja a realidade da autora, mas se for... Sinto muito.

Parabéns, parabéns, parabéns pela coragem por escrever isso tudo.

Coragem que eu jamais tive.

Obrigada por isso!

Postado 19/12/17 02:15

Ah, moça, eu gostaria de dizer que nenhuma destas palavras é real. Somente de ver que recebi um comentário nesta obra, meu coração já disparou. Não por ansiedade, mas sim por medo. Pois todas às vezes que a leio, a dor deste dia não tão longínquo torna-se ainda mais palpável. Não há um dia que essa lembrança não permeie meus pensamentos, pois existem marcas na alma que não podemos esquecer.

Senti uma necessidade muito grande de escrever a respeito, justamente para me alertar de que não posso ser refém do medo. De que, em algum lugar, alguém entenderia e sentiria cada palavra. E, de fato, existe alguém.

Resta-me te agradecer por se identificar com a obra, mas, acima de tudo, preciso te dizer que espero um dia poder olhar para toda essa situação da mesma forma que você.

Obrigada, moça, de coração.

Postado 30/11/17 05:37 Editado 30/11/17 05:38

...

Normalmente, eu faria um comentário entusiasmado sobre este tipo de obra, enaltecendo tanto ele quanto talento da autora, bem como incluiria uma reflexão e/ou crítica sobre o tema abordado.

Mas, não posso. Não hoje. Não com este texto.

Perdão.

Atenciosamente,

Um ser subitamente contrito e sem palavras, Diablair.

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Postado 02/12/17 16:00

Tudo bem, meu estimado amigo. Eu entendo, mas também lhe agradeço, tendo em vista que sabes bem o que essa obra significa em essência.

Obrigada!

Postado 08/12/17 01:08

Eu comecei a ler e cada vez eu queria correr mais, acelerar a leitura, ir no ritmo do desespero. Foi até meio estranho isso (e não é culpa dos remédios, pode ter certeza).

Brina, acho que vou te atribuir mais um T, o T de Tensão. Sério, foi sinistro!

Parabéns!

Postado 09/12/17 01:12

Eu acho que a intenção da obra e justamente provocar essa leitura rápida, porque diante da situação (que aconteceu bem rápido) o leitor deve correr com a leitura tanto quanto o eu-lírico e a mãe dela.

Tensão eu gosto. Só não gosto de quando a tensão se aplica à realidade.

Obrigada

Postado 12/03/18 13:30

Mana, esse poema é chocante. Eu comecei a ler ansiosa, imaginando todas as cenas, o que se passava na cabeça do eu-lírico... o final foi uma mistura de alívio com um aperto no coração.

Parabéns por um poema tão bom sobre algo que recorrente na sociedade.

Postado 28/05/18 16:19

Obrigada, mana!