A lua
Calígula
Tipo: Lírico
Postado: 07/06/18 22:31
Editado: 07/06/18 23:18
Gênero(s): Poema Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 1min a 2min
Apreciadores: 4
Comentários: 5
Total de Visualizações: 242
Usuários que Visualizaram: 10
Palavras: 289
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Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Devo ter lido Calígula, a peça de Albert Camus, umas dez vezes nos últimos dois meses. Alguma coisa precisava sair disso, ruim ou péssima que fosse.

"Os homens morrem e eles não são felizes."

Capítulo Único A lua

Dê-me a lua

ou a felicidade

ou qualquer outra coisa

Dê-me o amor

dê-me aquilo que imploro

aquilo que jamais terei

minha falta e minha doença

mal dos céus

flagelo da terra

impossível lamentando sobre outro impossível

Dê-me a lua

dê-me a vida

dê-me aquilo que fará as coisas serem como devem

dê-me aquilo pelo qual rastejo

pelo qual faço os outros lamentarem

minha força e minha anemia

meu grito e meu júbilo

meu tratado logicamente sem sentidos

meu punhal banhado em desprezos

minha voz verminal

minha alma ulcerada

Dê-me a possibilidade

o céu se pondo ao leste

a beleza sendo escarnecida

o riso em cada tragédia

os suspiros que não mais cessarão

Dê-me a liberdade

dê-me uma imortalidade

faça com que não morram

com que sejam felizes

com que percebam e aprendam

ou que tudo acabe aqui

faça com que louvem o repulsivo

que apedrejem o divino

que me esfolem

que me enforquem

que me estripem como devem ou não fazer

Dê-me a lua

dê-me a tempestade

dê-me a revelação das piores coisas

o descobrimento de mim mesmo

faça meu coração ser profundo em todo mal

faça meu coração entender todo o bem

e não o tocar

e não o suportar

e não idolatrar

mas esmagá-lo em sua própria miséria

aniquilar-se em minha própria perfídia

Dê-me a lua

e dê-me ainda algo mais

dê-me o que mereço

um rio de ódio e de rancor

dê-me a espada

a lança ou a flecha

o veneno ou a tortura

dê-me aquilo que me iguala

aquilo que é horror

aquilo que me sustenta e devora

dê-me o que não posso mais não possuir

um último segundo

um último reflexo

último desejo

faça-me mais

ou faça-me morrer

e sentir que estou morrendo

❖❖❖
Apreciadores (4)
Comentários (5)
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Postado 02/10/18 14:18

É um poema maravilhoso, Pablo.

Postado 02/10/18 16:59

Muito obrigado, Ísis. Estas palavras me fizeram um bem sem tamanho...

Postado 07/06/18 23:00

"faça meu coração ser profundo em todo mal

faça meu coração entender todo o bem

e não o tocar

e não o suportar

e não idolatrar

mas esmagá-lo em sua própria miséria

aniquilar-se em minha própria perfídia"

Oh, Satã... Meu Mestre/Irmão regressou no melhor/pior momento possível... Como fez-me falta este tipo de obra, tão visceral e imersa em malevolência, em angústia, em uma maldita beleza que somente poucas almas podem contemplar e degustar como a mais deleitável e profana das dádivas!

É disso que este site precisa. Sim! Oh, meu Mestre/Irmão, como pôde se ausentar por tanto tempo e privar a nós, os Doentes, de sua ilustre e insidiosa presença? E que retorno estupendo, digno do prôprio Inferno, foi este?! Certamente uma de suas mais intensas, belíssimas, tétricas e inspiradoras obras, com toda a certeza que flameja e empolga o aue me resta de alento na alma!

Muito obrigado, de todo o meu repugnante e incompreendido coração, por voltar a este antro nefasto com toda a potência de um ser expulso de seu lar celestial! Por uma vez mais me apontar o caminho tortuoso e inevitável. Por manter toda a desgraça exposta à toda viv'alma que ousar se aventurar nesta escuridão tão verdadeira que é esta obra e a própria existência humana!

E parabéns! Mil vezes parabéns por mais uma obra-prima (e qual das suas insólitas criações não é?!)! Eu o saúdo e o reverencio, Mestre/Irmão!

O senhor fez falta demais aqui!

Atenciosamente,

Um ser que também deseja, lamenta e por vezes aguarda seja o que vem no fim, Diablair.

Postado 07/06/18 23:28

Somos mesmo como Lúcifer, irmão. Essa é a nossa queda, esse é o nosso mal.

Obrigado por tudo.

Postado 08/06/18 14:55

Puta que pariu! Estou em êxtase pelas palavras que acabei de ler. Que obra foi essa?

O eu-poético tão intenso disponibiliza ao leitor nesta obra, um pedaço de sua alma. Ele expõe de forma minuciosa seus desejos, declara suavemente palavras que se fixam na alma e ainda, consegue elevar todos ao auge de sua prece. Sim, uma prece que transcende o divino, o imaginável e o que só vem através da fé.

A escolha de palavras, a estrutura em que a obra se encontra e a intensidade do eu-lírico é o que torna esse poema uma obra prima. Sabes bem a minha admiração por teu talento como escritor e a cada leitura nova de suas obras, aprendo mais um pouco.

Agradeço muito por ter compartilhado essa obra conosco. É sempre uma honra ler tuas artimanhas poéticas.

Parabéns ♥

Postado 11/06/18 08:55

Muito bom, parabéns!

Postado 05/10/18 00:07

EXTRAORDINÁRIO! Fiquei curiosa para ler essa peça, pois apenas uma obra prima inspira outra!

Me pego sempre implorado as mesmas coisas à mim mesma. O processo de cura, sobrevivência e compreensão humana, reabre muitas tumbas, arranca muitas vísceras, perturba todos os nossos sonhos.

Que obra incrível! Sou grata pois ela existe e me descreve perfeitamente, num misto muito conveniente de todos os sentimentos e alegorias aos quais eu pertenço. Parabéns! Sua mente, seu dom, suas palavras e sua alma são incríveis! Estou arrepiada.