A Garota Vegetal
MS Fernandes
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/07/18 14:09
Gênero(s): Drama
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 14min a 19min
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Capítulo Único A Garota Vegetal

Todo o sábado ela fazia a mesma coisa.

Voltava do trabalho no finzinho da tarde e ia ao Café. Pedia seu espresso com bastante espuma e se sentava no balcão sentindo o copo plástico aquecer sua palma. Aí ela abria um pequeno sorriso de satisfação, quase que imperceptível e o simples gosto do café descendo fresco pela garganta fazia todo aquele dia ter valido a pena. Era o mais próximo que Darla conseguia chegar da felicidade.

A jovem mulher era como uma caixa vazia, sua vida não tinha surpresas, nada de interessante lhe acontecia. Os dias eram os mesmos, e sua existência tornava-se cada vez mais medíocre e vulgar. Era só alguém entre 7 bilhões no planeta, alguém sem importância que vivia entre o apartamento e o trabalho, o apartamento e trabalho, apartamento e trabalho. Viagens? Não. Viajar para quê? A coitada nunca tinha companhia. Os pais estavam mortos, os amigos eram imaginários e sua boca sequer havia experimentado o beijo solene de um namorado. Que vida era aquela, afinal?

Por vezes Darla pensou que talvez morrer não fizesse tanta diferença assim. Mas ela nao tinha motivos para se suicidar. Não era depressiva, embora solitária, não estava indo a falência, nao havia sido traída, não usava drogas. Ela não tinha motivos para acabar com tudo, tinha um bom emprego, uma boa residência e vestia roupas decentes. Se matar sem uma razão só tornaria tudo ainda mais banal, ninguém sentiria sua falta e não haveria uma única gota de drama naquela atitude, simplesmente ela desapareceria do universo. Então sua existência realmente seria algo sem sentido.

Darla gostaria tanto de ter um motivo.

Sua única felicidade, além do espresso das cinco horas, estava em conseguir sonhar com Ângelo. Um músico de cabelos vermelhos e rosto belíssimo que vez ou outra aparecia em seus sonhos tocando algum rock melancólico, contando-lhe coisas engraçadas e sempre fazendo algo surreal. Darla não o conhecia, Ângelo só existia em alguma parte oculta de seu subconsciente. E mesmo que ela não o visse, sabia que estava começando a se apaixonar.

Meu Deus, o copo já estava ficando vazio, como o tempo voava. Ela logo teria que sair dalí. A garçonete parecia irritada com alguma coisa, secava os copos as pressas olhando o relógio, talvez o mal humor dos atendentes não fosse uma lenda urbana, afinal.

Já sentindo seu corpo amolecer na cadeira, a jovem deixou o balcão e olhou naturalmente ao redor de si vendo pessoas conversarem, rirem, discutirem em voz baixa, enfim... vivendo. A abrupta invídia a fez desviar o rosto rapidamente, assolada pelo leve ódio que tinha dos outros e de suas vidas movimentadas, significativas. Nunca teria nada assim, e não podia fazer nada a respeito.

Foi então que ao pôr a alça da bolsa sobre o ombro, percebeu alguém entrando no Café. De inicio, Darla não prestou bem atenção, mas quando dirigiu-se a saída, deu-se com o sujeito.

Era ele. Os mesmos cabelos ruivos, a mesma face pura, o mesmo violão nas costas, a mesma camisa. A moça imediatamente paralisou no tempo sentindo-se tonta. Pensou estar sonhando, ou em alguma peça de mal-gosto. Mas depois de sacudir a cabeça como uma vadia dopada, retornou a encará-lo e percebeu que tudo aquilo era muito real. O rapaz, no entanto, nem sequer a notou, passou por ela deixando o perfume neutro no ar e foi-se para o balcão pedir donuts.

Ela só ficou estacionada no meio do estabelecimento, olhando ele e admirando cada movimento. Mal conseguia esboçar sua surpresa:

-... Ângelo... - foi o máximo que saiu de sua boca.

Seria possível finalmente algo estar lhe acontecendo? Seu primeiro impulso foi de dar as costas e ignorar aquela situação estranha, mas de alguma forma, não conseguia. Seria desperdício deixar aquilo de lado, algo interessante estava acontecendo e ela poderia nunca mais voltar a vê-lo. O destino enfim lhe dera alguma atenção.

Sendo isto, escondeu os dedos trêmulos no bolso do blazer machucado, e foi andando lentamente até ele. Ao chegar perto, quase vomitou, tomada por um embrulho no estomago e uma ansiedade aguda, que lhe tirava toda a coragem.

Após fechar e a abrir a boca umas tres vezes sem nada dizer, decidiu por fim que seria melhor recuar. Todavia, a garçonete já havia notado sua presença atrás dele.

- Quer mais alguma coisa, moça?

- O quê? Não, não, obrigada.

Ângelo virou-se para ela, e Darla teve ainda mais certeza. Era ele. Seu rosto perdeu a cor no mesmo instante.

- Você tá bem? - perguntou o rapaz, a fitando - Tá bem pálida.

- Sim, estou. Desculpa, mas qual o seu nome?

- Meu nome? Ângelo. Porque?

Os olhos de Darla nunca pareceram tão acesos como quando ouviu aquilo. Era mais do que coincidência. Era um sinal do destino. Não se sonha com uma pessoa desconhecida e depois a vê em carne e osso, assim de repente. Tinha que ser o destino. Entretanto, tamanha surpresa acabou deixando-a com medo, Darla não conseguiu pensar numa frase que desse continuação aquela conversa e logo afastou-se, tentando não soar tão ridícula:

- Ah, não é nada. Eu devo ter te confundido com outra pessoa.

E assim, foi saindo de perto dele, hesitante.

Mesmo após cruzar a saída do café, Darla não conseguiu ir embora. Sua alma estava risonha como num desenho animado. Que coisa. Então era essa a sensação que as pessoas tinham quando se apaixonavam? Sentiam o coração perder o ritmo, a pupila dilatar, a boca se entreabrir num respirar mudo e um breve constrangimento surgir no âmago? Ajeitou rapidamente os cabelos e verificou se estava apresentável. Então ficou ali, encostada do lado de fora, esperando seu amado sair.

Já eram quase seis horas quando Angelo deixou o estabelecimento. Darla assim que o viu, pôs-se a segui-lo discretamente.

Alguns postes já começavam a se acender, iluminando as ruas para quando viesse a noite. O lusco-fusco vinha acompanhando Angelo e Darla pelo caminho todo e dividindo o céu em roxo, laranja e azul. O rapaz vagava pela ponte do viaduto, fascinado com as cores do fim de tarde, e não demorou nada para tirar o violão das costas e começar a afiná-lo, inspirado pelo entardecer.

Enquanto cantarolava andando na calçada, Darla o seguia silenciosamente, somente a apreciá-lo. Não queria estragar nada.

Quando Angelo já se cansava da caminhada, parou e tomou assento num banco, protegido por ipês murchos. Darla hesitou em algum instante, até que decidiu sentar-se também, fingindo-se distraída. O rapaz a olhou seriamente, a percebendo, mas depois sorriu para ela.

E enquanto o céu ia azulando toda a paisagem e fazendo os cabelos dele parecerem puro vinho, Angelo começou a tocar “Hey There Delilah” num tom de voz taciturno, como que para si mesmo.

- Voce toca muito bem. – disse ela, assim que ele terminou, sem conseguir encará-lo.

- Obrigado.

- Meu nome é Darla... Quase Dalila.

O rapaz não conseguiu encontrar uma resposta. Ela, contudo, estava cheia de tensão na voz.

- Acredita em destino?

- Acho que sim.

- E... o que acharia se eu te dissesse que sonho com voce quase toda a noite?

Antes que pudesse dar conta do que acabara de falar, notou que ele riu de leve, naturalmente achou tratar-se de uma cantada, no entanto, Darla permanecia o encarando, impassível.

- Ah é? – gracejou o rapaz - Bem, e o que voce sonha?

- Várias coisas. Voce sempre toca musicas para mim, me leva para passear e depois faz algo surreal.

Angelo então parou de cantarolar e a fitou, desesperadamente curioso. Ela prosseguia com os olhos fixos no horizonte:

- Por exemplo, da ultima vez, lembro que o céu estava congelando. Então voce usava uma escada extensiva para subir até ele. Daí desenhava várias criaturas fantásticas no céu, mas elas acabavam criando vida e desciam do alto para nos devorar. Depois nós saíamos correndo feito loucos.

- Puxa, faz sentido. Mas é fantástico demais.

- O que acha que significa?

Ele parou pensativo, fixando nas cordas:

- Não sei.

- Talvez voce deva ser o meu namorado.

- Que bobeira.

- Não é bobeira. Coisas assim não acontecem todo o dia.

- Está mentindo, só para transar comigo. Aliás, eu tenho namorada.

- Então deve terminar com ela.

- Só por causa dos seus sonhos?

Darla tentou conseguir um argumento melhor, porém não encontrou. E vendo que ele a encarava a espera de uma resposta, perdeu o medo e beijou sua boca.

Angelo não se moveu naquele momento. Esperou que ela se afastasse, e então num gesto melancólico, largou o violão e ficou observando os raros cidadãos que iam e vinham na estrada.

- Voce tem gosto de maçã verde. – declarou a moça, quebrando o silencio.

O rapaz só pôde confrontá-la por um curto instante, não encontrava respostas para aquilo. E sua expressão continuou confusa por vários minutos, tentando em vão entender aquela garota estranha. Darla por sua vez, virou-se também para frente. Acho que ele gosta de mim.

Até que um grupo de amigos passou pela calçada estragando todo o humor da jovem, que sem perceber fechou a cara os fulminando com os olhos. Angelo pareceu pensar a mesma coisa, pois não demorou para decifrar sua mente:

- Dá vontade de matá-los, não é?... Olhe só para eles, com suas vidas imperfeitas, cheias de estresse, mas com algo para se importar. – respirou bem fundo - Tudo acontecendo enquanto nós vegetamos.

Por um instante, pareceu que Darla não diria nada, mas logo a abilolada soltou, como quem diz num coquetel:

- Porque não podemos matar, roubar ou andar descalços?

Angelo tirou o cacho vermelho da frente da testa:

- Simples. É errado.

- Errado... errado... errado... – Repetia vendo graça na palavra – É estranho. Aprendi desde sempre que temos que ser bem-sucedidos, fazer faculdade, ter filhos e um bom casamento. Isso é o certo. Mas porque? Porque isso é tão importante? Nunca se perguntou?

- Porque é o objetivo. É o que dá sentido a tudo.

- Puxa, então eu gostaria de ser louca.

- Como assim?

- Porque os loucos não precisam fazer sentido.

- Nisso voce tem razão, se fossemos loucos, poderíamos matar qualquer pessoa que ameaçasse nosso equilíbrio emocional, e não sentiríamos nenhum remorso.

- Mas sentimos. E bem... se eu não posso matar, talvez eu devesse morrer. Dar fim à isso tudo. À essa minha... não-existencia.

- Voce fala de coisas que não entende, sabia? Se morrer agora, como vai saber o final de sua série preferida? E se algo de bom estiver para te acontecer amanhã? Não pode interromper sua historia desse jeito. Além do mais, e se doer muito na hora da morte? Ou pior, existir mesmo o céu e o inferno? Pra onde voce iria? De qualquer forma estaria estragando o final das coisas.

- Eu sou um vegetal, Angelo. Viver ou não viver é algo indiferente.

- Para com isso. Olha para mim, eu também sou um vegetal.

- Não é não. Voce ganha a vida cantando. Isso é artístico.

- Ser artista é um saco, eu me deprimo o tempo todo pela falta de dinheiro. Fico questionando o meu valor. É um tormento.

- Seja como for, voce existe mais do que eu. Porque sofre, e sofrer é viver. Te invejo.

O grupo já tinha ido, mas os dois permaneciam fincados em suas misérias internas sob aquele entardecer que nunca terminava. Angelo estava praticamente esparramado no banco, e quando seu jeans escuro encostou na perna de Darla, ela estremeceu, sentindo o vento espalhar o perfume dele, aquele perfume nostálgico que só ela entendia, e que a fazia sorrir.

- Voce quer fazer loucuras comigo, agora? – perguntou o rapaz.

- O que?!

- Podemos andar nus sobre a ponte, se quiser.

- Porque eu faria isso?

- Porque voce disse que quer sentir que existe. Pois então, assim que notar todos te olhando, vai perceber que fez algo de insano e significativo na sua vida, algo que gerou reações. Isso é ser. É existir.

- Eu não posso andar nua sobre a ponte, Angelo. Está frio e eu sou virgem.

Angelo levantou-se e deu alguns passos para frente, estendendo a mão para ela:

- Loucos não pensam, Darla. Anda, vem comigo.

- Vai você.

- Nem pensar. Ou seremos loucos juntos ou nada feito. Anda, vamos enrubescer toda a cidade.

- Não.

- Anda logo, porra.

- Tá legal, eu vou. Mas voce vai me deixar te beijar de novo?

Ele fez corpo mole, revirando os olhos como um universitário:

- Porque quer me beijar?

- Oras, porque é melhor do que beber café.

Estreitando os olhos, o rapaz finalmente assentiu, e enterrou as mãos no bolso da calça a espera dela.

- Tudo bem, prometo que deixo. Agora vem.

E ela foi.

No final das contas, não era tão ruim assim estar pelada. Em verdade, sentiu-se extremamente bem quando percebeu o próprio corpo despido da vergonha. Angelo estava divino sem as roupas, e já havia agarrado seu violão novamente. Pegou na mão dela e juntos correram pela rua até encontrarem a ponte do viaduto novamente. Lá o crepúsculo estava mais belo e intenso, tingindo seus corpos de laranja e camuflando os cabelos de Angelo com os últimos raios de sol, o fazendo parecer um demônio cheio de luz.

E quando subiram na ponte, Darla não conseguiu mais parar de sorrir. Ele cantava e tocava folks alegres, enquanto ela passeava sobre o parapeito na ponta dos pés.

Foi naquele tempo tão curto, que viu todos a olharem estupefatos, alguns gritavam, outros riam e outros tapavam os olhos. Mas quando a policia chegou, era tarde demais. Darla só conseguiu ouvir a sirene e sentir o braço de Angelo empurrá-la para baixo. Quando deu por si, estava do lado de fora do seu quarto, trajada numa camisola cor creme e andando sobre o corrimão da varanda.

Não havia ponte, nem carros, nem Angelo, nem musica, nem nada. Somente o Tic Tac da madrugada. A morte já a esperava lá embaixo de braços estendidos, e ela tinha o rosto de Angelo.

Os pés de Darla vacilaram por causa do susto...

Ela existiu.

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Comentários (1)
Postado 02/07/18 23:43

É... É... É...

Se não fosse um sonho, não poderia ser mais nada. Aconteceram várias coisas surreais no texto para ser real, hehehe.

Então, gostei da ideia do texto. O enredo é interessante e tem algumas expressões que valorizam a obra.

No entanto, achei a narrativa meio entediante. Sei lá, acho que a narrativa se focou nos detalhes errado, o que fez ter informação de mais e de menos simultanenamente. Além disso, tem alguns erros de português que devem ser revistos como o uso de hífen e não de travessão, falta de acento e outros mais.

Ah, teve outra coisa que me chamou atenção: "

gosto do café descendo fresco". Não consigo imaginar um café amargo e quente descendo fresco, heheh.

Parabéns pela obra e obrigado por compartilhar.

Postado 03/07/18 18:21

Obrigada pela análise, Francisco. Valeu.

A narrativa é propositalmente entediante, é pra passar o sentimento de inutilidade que os personagens sentem.

PS: Ah, quando eu digo "fresco", quer dizer "pronto na hora" kkkkkk

Mais uma vez obrigada por comentar. Abraço.

Postado 03/07/18 18:43

Hehehe. Está certo. Mas é uma estratégia perigosa. Pode ocorrer de uma pessoa começar a ler, achar entendiante e parar de ler.

Postado 03/07/18 21:39 Editado 03/07/18 21:44

Ainda bem que existem leitores como você rs.