Desabafos Noturnos Sobre-Rodas
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 08/05/19 23:44
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 10min
Apreciadores: 0
Comentários: 1
Total de Visualizações: 44
Usuários que Visualizaram: 3
Palavras: 1211
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de dez anos
Notas de Cabeçalho

Um desabafo de madrugada no ônibus de viagem a caminho de "casa". Não sei o que pensar sobre. Apenas assenti.

Capítulo Único Desabafos Noturnos Sobre-Rodas

Há sensações mistas de desconforto e prazer.

Meus dois pés estão dormentes, o balanço do ônibus faz com que eu sinta o suor, o formigamento e o frio transcorrerem cada dedinho deles. O formigamento está sobindo para minhas pernas.

Excepcionalmente neste segundo, quero urinar. É a maior e mais plena vontade que já senti na vida. Meu ventre até está estufado como se uma cólica infernal estivesse prontinha para meter um belo chute na minha bexiga.

Quero ir até o fundo do corredor, abrir a porta velha e fedorenta e plenamente me arriscar sentando naquele vaso e fazendo o maior barulhão. Mas meus pés estão sem vida. Pressiono-os com minhas mãos inchadas sem sucesso de resposta.

Morreram.

Entre uma sensação e outra, a sensação mais contrastante é de uma leve pressão gélida neles, como se minhas mãos estivessem beliscando o braço de outra pessoa.

Sensações pelas quais se espera e não ao mesmo tempo.

Observo as colinas que correm fora da janela do ônibus, os ombros largos dos rios marrom-esverdeados, logo à frente, vaquinhas todas juntinhas e dormentes aos pés de um monte altíssimo, enquanto o céu já não está nem azul, nem roxo nem amarelo, e muito menos, ainda não escureceu, um perfeito impasse natural... É o momento que mais gosto do dia, quando tudo que é, deixa ligeiramente de ser...

Quando eu era criança, costumava crer que se eu pedisse para o motorista parar o ônibus, só pra eu poder subir essas colinas e montanhas, isso não seria nada exaustivo e que eu o faria tão rápido que os adultos ficariam impressionados ao repararem que não há canseira quando se cruza os campos, que o ar é fresco e que os joelhos não travam. Há uma aura especial nas paisagens naturais. Até mesmo quando não as adentro pessoalmente, em meu coração peço permissão para *entrar*. Entrar com o coração.

De certa forma, ainda costumo crer nisso.

Penso às vezes como é nojento e irritante andar até o trabalho sozinha na cidade, com o sol fritando meus olhos e dores pontiagudas nas costelas me fazendo ficar sem ar, mas que se a mesma distância estivesse por mim sendo percorrida nessas paisagens que vejo, seria um deleite.

Óbvio que, a vida adulta e a experiência de quem odeia sol, calor e andanças, me dá um tapa na cara e me faz acordar pra realidade. Sou sedentária e fraquinha, a natureza iria me triturar.

Tudo nesta Terra me tritura.

Parece que não tem saída.

Mas a verdade real é que estou farta de encarar minha carcaça destruída nos reflexos da cidade, aonde não tenho mais peso e nem cor, aonde as horas me corrigem e me levam para os lugares mais tristes aonde minha dor habita.

Eu me sento, e me deito rolo junto com o sal marinho que tempera meus olhos e desaguo sozinha com o peito queimando grosseiramente dentro de mim.

Grosseiramente, venho resistindo assim.

Não tem saída. - volto a assentir, enquanto a dormência nos pés já passou e tudo que me impede de ir ao banheiro é apenas preguiça, e a dor na bexiga já se torna nauseante.

Por quê eu sempre faço isso? Por qual razão vou até o meu limite, até que eu desmaie e role implorando aos céus por piedade, quando primeiramente, eu é quem sou a minha própria carrasca...?

É solitário... É confuso...Viver.

O pranto é solitário. Nunca me sinto bem ao chorar sozinha, e sempre me sinto um fardo quando preciso chorar no colo de alguém. Já chorei no colo de alguns clientes.

Foi quando eu percebi que eu tinha de mudar - antes de acontecer alguma catástrofe. Algo maior.

Me lembro claramente da dor. De todas elas. As mais agudas e profundas. E até mesmo as mais leves e sonolentas.

Sou uma pessoa dolorida.

Me sinto triste toda vez que me lembro que já admiti isso à minha mãe. Minha maravilhosa mãe que com certeza se culpa em segredo, por um sofrimento do qual ela não pode fazer absolutamente nada.

"Eu sempre amei ser mãe, adoraria ser avó, mas você não quer ter filhos..." - me lembro dela assentindo minha afirmação dando uma risada desgostosa, como de quem sabe que não tem escolha.

"É egoísta demais trazer alguém para este mundo, quando ela já está em paz sem existir. É egoísta querer trazer mais uma vida para sobreviver, quando muitas já existem e estão duramente lutando por isso." - minha resposta sempre que qualquer pessoa me pergunta sobre maternidade.

O espanto e a tristeza dessas pessoas, geralmente familiares ou mães ao ouvirem isso, me faz sentir como um monstro que diz " sim, vocês estão acabando com o mundo tendo tantos filhos, é árduo pra eles, sintam vergonha".

Não é isso que eu quero dizer. Óbvio que não. Mas é de fato, uma possível interpretação.

A verdade verdadeira, é que, não quero ser mãe pra poupar mais pessoas de conhecerem minha destruição.

Eu sempre desmorono corroendo tudo com agonia. Um filho não merece isso, não fui abençoada com os dons sublimes que minha mãe tem de fazer tudo se acalmar, se reinventar e de ficar bem.

Espero que ela tenha uma vida linda. Espero que eu não dificulte isso.

Que horas são?

Preciso ir ao banheiro.

A viagem nunca acaba...

Não sei qual é meu real destino de vida. Quero ajudar as pessoas a encontrar amor. Mas eu mesma, sou uma catástrofe, antigamente, resolver os problemas dos meus amigos e até de desconhecidos, me ajudava a balancear os meus próprios, mas atualmente, nem para isso sou mais útil.

Eu sempre ajudava, crendo em algo maior. Que elas - as pessoas - tem um destino maior, e que eu, seria recompensada e que meus pecados seriam perdoados se eu fosse boa e compreensiva.

No final, sou oportunista. Não que eu não dê suporte a alguém de bom coração ou esperando por reconhecimento.

Eu sempre só cri em que eventos maiores e melhores, pudessem resultar dessas boas ações, e que a vida, de alguma forma, pudesse esquecer que eu sou má. Um pecado paga outro.

A necessidade de ser útil e boa e sensata, me faz enlouquecer, me faz fazer o total oposto.

Não sirvo nem para seguir meus próprios comandos.

Talvez eu não sou mesmo nada.

O ônibus fez uma parada. Em um restaurante sujo e com brinquedos feios sendo vendidos.

Não sei aonde estou.

No mundo.

A única coisa que sei, é que preciso sobreviver, pois sou amada. Sou amada e não mereço amor, mas, os anjos que me amam gratuitamente, não merecem a culpa de sentirem que não fizeram o suficiente, que podia ter sido de outra forma...

Então, continuarei sobrevivendo, correndo com as árvores, socorrendo a mim mesma, tentando enxergar constelações e chorando em meus próprios ombros.

Meus pais estavam certos quando imploravam para eu aproveitar a infância e, enquanto eu ainda pudesse dormir.

Pois, a única verdade que eu conheço no momento, é que a vida adulta dói. Lateja. Dilacera.

Ou, eu é que sempre fui assim.

Há saídas.

Mas sou míope demais para encontrar as placas indicativas, e penso demais em tudo, para tomar apenas uma decisão.

Estou em casa... Em várias. Sou várias.

Algum dia, creio eu, conseguirei me decidir, mas, até lá, sobreviver será a única coisa que vou conseguir.

Eu espero...

❖❖❖
Notas de Rodapé

Agradeço aos seres de coragem que leram mais um texto muito semelhante à outros cinquenta outros.

Apreciadores (0) Nenhum usuário apreciou este texto ainda.
Comentários (1)
Postado 04/06/19 17:45

Profundo , intenso e muito, muito bem construído. Digno de nota e admiração. Realmente impressionante.

Outras obras de 6 de Janeiro

Outras obras do gênero Aventura

Outras obras do gênero Cotidiano

Outras obras do gênero Crônica

Outras obras do gênero Drama