O Buraco nas Costas
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 10/10/20 15:10
Avaliação: 9.73
Tempo de Leitura: 13min a 18min
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[Texto Divulgado] "A Aparência Autêntica-Amedrontadora " Um homem de meia idade se vê apavorado ao escutar um sussurro na noite escura. Embora estivesse voltando do trabalho, por algum motivo, ele esperava por isso. Existe forma de adiar o chamado de uma voz que galanteia ao pé do ouvido?
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Vocês já sabem quem eu sou.

Acham mesmo que eu visito apenas humanos? Vou mostrar-lhes as facetas de um ser divino, que não sabe que o é. Essa historinha aconteceu nos arredores da Alemanha. Sim senhores, o Assalto-Pesadelo também é internacional.

O que acontece quando uma mulher talentosa e forte descobre que também tem super-poderes? O que aconteceria se essa mulher nascesse nos anos 2000? Provavelmente se tornaria blogueirinha... Mas, vocês com certeza sabem o que ocorreu, já que no caso, ela nasceu em 1535...

Nesta história, eu sou apenas um observador, de nada tenho real culpa, mas talvez, haja um fantoche... Vamos conhecer... O Buraco nas Costas.

Capítulo Único O Buraco nas Costas

Fui como um bom amigo para ela, todas as noites a jovem saía escondida de casa e era guiada pela floresta, seguindo um rastro limoso (que vocês bem sabem qual é). Me lembro da primeira vez que nos encontramos em um pesadelo sobre maçãs.

Era um caldeirão cheinho de maçãs, mas as maçãs, se pareciam mais com cabeças encolhidas, a jovem era obrigada a comer cada uma das cabecinhas, ainda quentes. Queimando a língua, a boca, a garganta, queimando o coração e todo o corpo, após sua refeição em chamas, um buraco se abriu em suas costas e todas as cabeças que ela acabara de engolir agora estavam sendo expelidas, jorrando em branco e vermelho, como quando se pisa em um besouro e ele explode.

Desde aquela noite, ela nunca mais comeu maçãs e passa mal sempre que vê uma copa de árvore que possui uma cratera.

Com o passar dos anos, induzi seu subconsciente para que essas visões aderradoras aparecessem apenas como um bater de asas em seus sonhos, não o suficiente para que ela se recorde ao longo do dia, no entanto, suficiente para que ela jamais esqueça.

Encontrei outras formas de atormentar sua doce mente esquelética, mente esta que é tímida demais para se dar ao luxo de reclamar de pesadelos, mas com grande força ela resistiu a cada uma de minhas cruéis investidas.

Foi quando conversei com o Ser Superior, e então Ele me disse que o destino dela, teria de ser diferente. Desde então, September e eu, somos confidentes.

Quando ela me viu materializado como uma grande aranha peluda e falante, quase ateou fogo em mim, mas então, ela reconheceu que temos TANTO em comum... A destruição eminente, a dor e a insufiência, o abandono e a timidez... Reconheceu por fim, que eu era seu anjo enviado dos céus.

Tolinha...

"Querida Aranha, me sinto cada vez pior. Sinto que sou tão forte... No entanto, posso me quebrar com tanta facilidade... As pessoas na vila não me compreendem... Talvez se soubesse que você existe, elas pudessem finalmente ver..." - ela abriu o coração com avoz trêmula e as lágrimas travadas, como uma corrente em sua garganta.

"Doce September, eles sabem que eu existo, mas eles, assim como você, precisam fingir ser o que não são. Mas eles fingem mal." - eu disse duramente.

"Não compreendi muito bem o que disse... Eles fingem...?" - ela se assustou.

"Criança... É claro que eles fingem. São todos maus. Matam, roubam, estupram, enganam, escondem, ameaçam, prendem, abusam... Tanto quanto você. Precisamos fazer algo." - calmamente acariciei seu rosto de porcelana com uma de minhas oito perninhas.

"Meu sonho... Aquele que eu sonhei uma vez... Está se tornando real... - pude sentir seu coração pegando fogo - Eu sinto, Aranha... Que preciso devorar a cabeça deles!" - ela confessou seu pecado, olhando diretamente para meus olhos.

Passei minha língua por sobre os lábios e sorri com orgulho.

"Mas... Não eram apenas maçãs...?" - eu pestanejei.

"Não... Eu percebo que resquícios daquele sonho me aparecem toda a noite... A sensação... A sensação do sabor amargo do sangue e entranhas em minha boca, o formigamento em minhas costas, às vezes sinto desejos, como as grávidas... Desejo de comer um caldeirão cheinho de cabeças, como no sonho." - ela confessou em meio à lágrimas.

Virei minha cabeça de lado e andei pelos fios da teia, observando-a com meus pares e pares de olhos... Ela realmente não sabia o que era. Não sabia que era uma Huldra, no entanto, talvez saber não fosse preciso. Se ela continuasse ignorante, eu poderia usá-la para espalhar os pesadelos pela vila... Minha heroína.

Decidi revelar minha identidade à esta pequena Huldra sem personalidade. Revelei-me como um mago foragido, que estava na vila em busca de justiça, fiz surgir de minhas entranhas, o caldeirão cheio de cabeças encolhidas que se pareciam com maçãs, seu pior pesadelo. Para minha surpresa, ela não correu, não hesitou, não fugiu ou se escondeu. Apenas fitou o caldeirão e o banquete dentro dele.

"Cada uma dessas pessoas fez algo mau, querida September. Você vai caçá-los". - dei as ordens.

"Mas... O que ganho com isso?" - ela realmente já havia entrado no jogo.

"Diversão.". - eu sorri.

Nossos encontros tornaram-se mais frequentes depois deste combinado, todas as noites ela invadia os quartos das casas dos aldeões, arrancava-lhes as cabeças, mascava como folha de hortelã, incendiava as casas, matava o gado, matava bebês e assombrava crianças. Se tornou o demônio mais temido do país, vigílias eram feitas todas as noites, grupos de reza, caçadores, padres, exorcistas... Nada podia detê-la.

No decorrer dos feitos, ela se divertia muito, tinha todas as cabeças que queria e eu, todos os pesadelos, sem mover um só dedo. Ela corria e voava, materializava-se em raposa, cão, gato, ficava invisível, e então reaparecia e ZÁS...! Cabeças rolando, apenas com um fino corte de suas unhas.

Era meu mundo perfeito!

Até que um dia, surgiu-me um barulhinho na orelha... Um pesadelo novo e realmente assustador. Deixou-me arrepiado.

"O que preciso fazer a seguir?" - ela entrou na caverna, ao mesmo tempo que o sussurro - "Já tornei o pesadelo de todos eles reais demais... Qual é o próximo passo, Aranha?"

"Há um burburinho, que ainda preciso decifrar. Descanse por enquanto. Eles estão à sua procura."

"Mas eu sou invencível...! Eles não tem as mínimas chances contra mim!" - ela respirava fogo.

"Faz tempo que você não dorme, querida... Durma..."

Ela se irou e socou as paredes da caverna, que se abalaram como se fossem uma pilha de gravetos.

"Você não vai mais me controlar, Aranha, eu não vou dormir!!!" - ela bradou e um trovão estourou no céu.

Ao passo desta mal criação, desci de minha teia e quando minhas patas encostaram-se ao chão, mostrei-me à ela.

O que surgiu foi uma grande esfera arroxeada, com olhos e dentes, viscosa, brilhante, borbulhante, nem quente nem fria, apenas o que se é. Ela não esboçou nenhuma reação.

"Eu já sabia... Me lembro de você." - ela cuspiu - "Sabe, Aranha... Não vou te permitir que tenha poder algum sobre mim, seremos apenas amigas e nada mais!" - ela deu de costas para mim.

Talvez eu não saiba mais ter paciência com jovens Huldras perdidas... Atormentar as que já sabem de sua identidade é tão mais fácil... E eu, sou um ser divinamente preguiçoso... Sou a junção de todos os pecados, de todos os crimes, e existe algo mais preguiçoso do que o mal?

Eu tornei-a viciada em fazer o mal. Mas, o pior medo de todos, jamais foi o caldeirão, aquilo era a isca... O maior medo de todos é...

"Nunca saber quem se é... Ou... Aonde é pertencente... Qual é sua história... September?" - me assentei sobre uma grande rocha, imediatamente, ela se virou novamente de frente para mim, congelou, como todos congelam quando se dão conta de que eu sou mesmo verdadeiro.

"O que disse?"

"Você foi achada quase que morta em Setembro, há mais ou menos uns dezenove anos atrás, desde cedo submetida à trabalho, dor e sofrimento, nunca teve a oportunidade de saber quem é... Você é uma pessoa...? Você é um demônio?"

"Eu me contento em ser um demônio!" - ela sorriu falsamente.

"Não... Não se contenta, pois você não é isso, September. Eu sei o que você é!"

"Então me diga..."

"Eu lhe mostrarei".

Num piscar de olhos, eu a abocanhei, adormecida em meu estômago pantanoso, arrastei-me rapidamente até o antro das Huldras no seio da floresta e a cuspi ali... A lama tóxica em meu organismo, derreteu as roupas da jovem, que se envergonhou... Contudo, quando olhou ao redor, se deparou com tantas mulheres nuas, que possuíam rabos e crateras em suas costas... Foi um real momento de elevação. O rosto da jovem Huldra se iluminou.

"Pesadelo???" - a líder das Huldras cravou seus pés na Terra, me impedindo de arrastar-me por mais um centímetro sequer.

"Quanto tempo... Como andam os pensamentos, Sollen?" - eu sorri.

"Volte para o seu buraco, criatura detestável, fique longe de minhas meninas!" - ela pensou que gritar fosse o suficiente.

"Sollen, se eu fosse você, não me irritaria, pois com um estalar de dedos, posso fazer de todas as suas fortes meninas, criaturas tão deploráveis e inúteis que vocês jamais verão a luz do dia novamente, sem sentir o ardor da vergonha". - esbarrei nela, e ela me deixou passar, apavorada.

Todas as mocinhas nuas congelaram aonde estavam e me observaram passar...

"Quantos buracos nas costas, você percebeu, September?" - gargalhei.

"Meu sonho..."

"Sua realidade..." - eu apontei.

September se levantou e tentou limpar-se do muco - em vão. Observou sua espécie, frente a frente.

"O que vocês são?" - ela indagou a plenos pulmões.

"Somos Huldras querida... Suponho que você também seja..." - disse a líder.

"Mas... Aonde está o meu rabo... E a cratera nas costas, como vocês..."

"Você não deve ter participado de um mundo muito mágico durante sua vida... Por isso não pôde se desenvolver..." - uma outra Huldra disse, no meio da multidão.

"E o que faço agora...?" - ela indagou, com o coração partido e a cabeça completamente vazia pelo banho de realidade.

"Fique com elas... Ora, ora... Te trouxe aqui para isto, minha amiga. Agradeço sua ajuda, esta é sua família." - a libertei.

September me abraçou e beijou-me, como se eu fosse o mais belo dos anjos. Foi logo sendo acolhida pelas Huldras e eu já ia embora, quando a líder me parou:

"O que você ganha com isso, Pesadelo???" - ela rosnou.

"Ela me ajudou, estou ajudando-a agora. Mas se quiser que eu fique..."

"Não! Jamais apareça novamente!" - com um gesto de mãos, ela fechou o portal à minha frente e de repente, eu estava solitário, em minha caverna novamente.

Podem ter se passado anos, continuei exercendo meu cargo, tão bem quanto antes. Mas aquele burburinho que certa vez me cutucou, de vez em quanto cutucava novamente... Mas eu ainda não tinha terminado com a jovem September, eu nunca faço nada pela metade!

Então, assoprei para o vento, uma carta encantada...

Não demorou muito e a Huldra veio ao meu encontro.

"As Huldras são más, September... Você também não se encaixa lá..."

"Está maluco? É meu lar... Veja só meu rabo! E olhe para este buraco... Cheio de aranhas como você...! Estou em casa, Pesadelo... Eu sei o que você é!" - ela estava mudada, decidida, talvez, achara sua personalidade.

"Elas não incentivam seu banquete de cabeças, não é... E ainda por cima, o trabalho que elas oferecem, não é nada prazeiroso. Comigo, você era uma doce mordida de pesadelo, com elas... Você é apenas uma prostituta que mata quando não chega ao ápice do prazer... Patética... Inútil." - cuspi as palavras nos ouvidos dela.

Ela começou a chorar.

"Você tem razão... De novo! Como você pode saber de tudo assim?" - ela deitou-se entre minhas patinhas e chorou, fazendo uma tempestade também, fora da caverna.

"Elas precisam queimar... Você sabe que sim... Elas e essa... Floresta... Que merda é a magia? Tudo é força, é raiva, é agora ou nunca, September... Magia demora... A vida, os instintos, os impulsos... São tão mais saborosos..." - beijei seu pescoço. Plantei a semente.

Prontamente, ela se levantou e sem dizer mais nada, saiu correndo.

Observei-a ao longe, começando a festa.

Como uma faísca, ela saiu quicando entre as folhas secas, um foco de fogo aqui e ali e de repente... Toda a floresta estava em chamas. Os animais se carbonizaram, as árvores viraram pó, os rios secaram, tudo quase que instantenamente. Como um longo e caótico pesadelo, do qual ela não conseguia mais sair.

Foi quando surgiu o panteão de Huldras, com um só sopro uníssono e conjunto, afastaram as chamas e emboscaram September.

A September incendiária, era como uma fera, mas a September cativa, se parecia como um passarinho que caiu do ninho, nua, despenada, cega, medrosa.

"O que você fez... Te aceitamos como irmã e você incendiou a floresta?!" - uma das Huldras socou-lhe a face.

Enquanto uma cena afrodisíaca de luta corpórea entre mulheres nuas ocorria, September quase desfalecia, era como se cada osso de seu corpo, fosse moído por pancadas e mais pancadas.

"Chega!" - a líder pôs um ponto final á ira conjunta.

Calmamente, a Huldra-Mãe, caminhou até a traidora. Cheirou seu corpo todo, por fim, lambeu-a de cabo a rabo, cuspiu o gosto de merda de seus lábios e levantou as mãos para os céus, iria pronunciar.

"September... Vejo que você é um daqueles seres que não é ser nenhum... Você vagará sozinha para sempre. Sem bondade. Sem perdão. Seus poderes são seus, mas ele logo te consumirá e você será nada. Retiro minha benção. Você não existe." - dito isto, num tufão de vento todas elas se foram.

E ali estava o maior medo de todos.

Ser tão intensa e poderosa, que perderia o controle.

Ser tão intensa e distinta, que não passaria de um pensamento.

Ser tão intensa e destrutiva, que se auto engoliria.

Pouco a pouco, o buraco nas costas da Huldra, começou a sugar sua pele, seus cabelos, cada veia, músculo, ossos, células, glóbulos, alma e espírito.

Vi tudo acontecer ao longe, que criação divina eu criei! A mais criativa! Que orgulho.

Ela viveria para sempre com essa sensação de que é nada... Para sempre sendo nada, para sempre não sendo coisa nenhuma.

Nem um grão de poeira.

Nem uma bactéria.

Nem um átomo.

Nem um quack.

Qual será o gosto na garganta? O sentimento na pele, de não existir...

Oh... Que bela sinfonia...

❖❖❖
Notas de Rodapé

Sinto muito, mas como vocês puderam ver, eu não fiz nada.

September que destruiu tudo e a Huldra-Mãe que bateu o martelo, apenas fui um bom conselheiro...

Apreciadores (4)
Comentários (4)
Postado 10/10/20 19:25

Huldra, sua criatividade lhe precede, especialmente no tocante à sua espécie e as histórias sempre fascinantes que eclodem de sua mente inventiva e genial... E, pelo Inferno, se este Pesadelo não for uma das melhores representações do próprio Mal, em toda a sua astúcia e malícia, quero ser consumido até ter o mesmo destino que September.

Eu senti um imenso pesar pela pobre Huldra, tão manipulada e desgraçada que foi em sua obra, cuja narrativa me encantou do início ao fim. O modo como você cria e conta histórias é de uma qualidade e singularidade tão deleitáveis que me fazem querer reverenciá-la para sempre, Huldra!

Belíssimo trabalho, Hudra Suprema! Bravíssimo, bravíssimo! É para o Inferno glorificar de pé para todo o sempre!

Atenciosamente,

Um ser aue se sente como se nada fosse, Diablair.

Postado 10/10/20 20:20

A cada texto você tem se superado! Menina, eu fiquei toda arrepiada lendo! LENDÁRIA PRA CARALHO!!!!!!! É uma narrativa triste e pesada, definitivamente... Mas por mais que o medo nos encha, é impossível parar de ler!

Obrigada por compartilhar conosco!

Parabéns, 6 ♥

Postado 16/10/20 20:44

Aninha, você precisa sair da AC - Academia Chorosa e embarcar de cabeça na AC - Academia da carnificina. (Opoh, percebi o trocadilho estranho com cabeças... sorry).

Que obra maravidiva! Estou amando ler os textos que você está escrevendo para o desafio!

Parabéns!

Postado 16/10/20 20:50

Eu estou profundamente triste com essa leitura... Senti muita compaixão pela coitadinha da September.

Eu acho que ela não tem culpa de nada, e esse narrador não confiável está tentando induzir os leitores a não culpá-lo por seus crimes.

Preciso admitir algo estranho, durante o texto todo cheguei a shippar muito o Assalto-Pesadelo com a pequena Huldra. Mesmo sabendo que isso é um absurdo completo...

Mas nossa, fiquei muito brava com ele no final, viu o circo todo literalmente pegar fogo, e adorou ver a menina sofrer.

O Assalto-Pesadelo é realmente do mal...

Mas eu amei completamente esse triste texto com essa triste história!! Sua criatividade é incrível, senhorita 6 * - *

Um grande abraço <3

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