Quero ser uma fada!
Monise
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 14/10/20 23:55
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 11min a 15min
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[Texto Divulgado] "A sociedade mata por " Torturando três garotas, Lobo Negro faz elas sentirem na pele as agonias da alma e mostrando os monstros da sociedade em que se vive.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Quero ser uma fada!

Aquela velhinha vivia isolada, havia uns, uns, nem ela sabia... Uns setenta anos! Será que era isso?!

Era casadinha de novo, diziam que o marido era mulherengo, mas o que ela com seus 15 anos haveria de fazer?! Naquele fim de mundo, poucas casas na vila, o jeito era fingir que não via, nem se incomodava...

Seis meses passaram voando e logo descobriu que estava grávida! O marido todo feliz a chamava minha rainha...

Sua mãe adoeceu e ela correu a acudir, filha única, nenhum outro parente, a mãe viúva...

O marido deixou, é claro, fique o tempo que precisar, minha rainha!

Ela saiu e ele curtiu, mulherada ia e vinha, mas se engraçou com quem não devia, a mulher do coronel...

Dois meses se passaram e ela voltou para casa barriga grande, coração pequeno e apertado... Ficara órfã, a mãe tinha partido...

Ao chegar na vila, quê alvoroço era aquele na sua casa?!

Não entre senhora!

Minha casa, entro sim!

Cheiro estranho... O quê era aquilo?!

Tinha gente no seu quarto?!

O marido ia ficar uma fera!

Mas o quê?! Era o delegado???

Senhora, sinto a sua perda... É melhor nem ver... Não entre...

Como não?! É meu quarto! Sai da minha frente!!!

Meu Deus do céu...

Sangue, horror, dois corpos na cama...

Os miolos do marido espalhados pela parede...

Tonteou, vomitou, a barriga doeu muito...

Tudo ficou escuro...

Muita, muita dor...

Estava fazendo xixi na calça?!

Não!!! Sangue... Meu bebê...

Desmaiou.

Quando acordou, tinha umas beatas com rosários ao pé de sua cama.

O que aconteceu? Tive um sonho tão estranho...

Pôs a mão na barriga, ué, cadê?

Não era sonho?!

Meu bebê!!!

Oh, querida! Que bom que você acordou! Finalmente a febre te deixou! Tem quase um mês que você luta pela vida...

E meu filho?!

Oh, meu amor! Sentimos muito a sua perda...

NÃO!!!

Como a vida era ruim, perdeu tudo de uma vez: mãe, marido, filho...

Sentia tanto, mas tanto que nem conseguia sentir nada!

Perdeu o gosto das coisas, o gosto pela vida e principalmente por estar com as pessoas...

Sua situação era terrível, por onde passava só cochichos: pobrezinha, coitadinha, chifruda mansa, azarada, amaldiçoada e coisas assim...

Alguns diziam que ela devia ser um ser muito ruim para atrair tanta desgraça!

E assim as mães previniam seus filhos, não fiquem com ela, ela é amaldiçoada, ela deve ser muito má, ela dá muito azar... E os homens da vila evitavam chegar perto dela.

Foi pegando nojo de gente... Viu com o tabelião, sua situação financeira não era ruim, tinha a casa da cidade, com um imenso terreno e a fazenda a uns 30 km mata a dentro...

Foi com o tabelião visitar a propriedade, que lugar lindo! Que lugar de paz!

Ia se mudar para lá, imediatamente.

Mandou derrubar a casa da cidade e vendeu o terreno para um empresário que iria abrir um comércio ali.

Se mudou para a fazenda, tinha a casa com cinco cômodos, a casinha do caseiro, uma capela, uma estufa, um pequeno lago, pequenos canteiros com cultivos, era o que precisava para ocupar sua mente e tomar seu tempo...

Os caseiros seu Jerônimo e dona Maria lhe fariam companhia, eram sozinhos, sem Deus no mundo e já idosos, seria bom.

Já que todos tinham medo dela, então que ficassem bem longe mesmo!

Combinou com seu Joarez da venda para levar mantimentos a cada 15 dias e toda semana ele buscaria queijo e o fruto da terra.

E assim os anos foram passando, as pessoas da vila se esqueceram dela e ela deles. Morreram dona Maria e seu Jerônimo, ficou só.

Seu Joarez morreu e o filho Toninho continuou com o acordo, o Toninho morreu e o Carlos continuou com o acordo.

Ela vivia uma vida simples, conversava com seus bichos, cuidava da terra, rezava, comia o que queria, passeava por suas terras e os anos foram passando...

Algo estranho acontecia!

Quase um mês e nada do Carlos aparecer... Teria de ir na vila... Será que as coisas tinham mudado muito?!

Tinha saúde de ferro, nunca mais pusera seus pés ali. No começo o padre Jarbas até tentou fazê-la voltar, mas aquele povo a desprezava tanto e falava tantas coisas, que ela acabou por desanimar por completo.

Bom, não tinha jeito, precisava ir...

Pegou um embornal, pois o vestido mais novo que tinha, devia ter só uns 15 anos de uso, e foi andando pela estrada...

Nossa a vila era mais longe do que pensava... Ou será que era porquê já tinha uns 80 anos?!

Quase cinco da tarde e nada, que bom que trouxe uma broa, um pouco de queijo e uma moringa dágua!

Sentou comeu e andou, andou e andou. Teria se perdido?!

Viu uma luz bem longe e correu em direção a ela. Era a cidade com certeza!

Mas a luz foi se afastando, chegou num chão estranho, duro, preto... É, parece que as coisas tinham mudado muito mesmo...

Era cabeça-dura que só ela... Quando vinham contar as novidades, nunca quis ouvir, sempre atarefada cuidando de suas terras...

De repente viu uma luz e correu prá ela, mas a luz vinha muito rápido e sentiu medo.

Escutou algo se arrastando, um clarão, um solavanco, caiu desacordada...

O casal assustado desceu do carro. Que velhinha doida! Onde já se viu andar na BR e no escuro, mal deu tempo de desviar... Rápido, vamos levar ela até a vila! Alguém deve saber quem é ela...

Ela estava mal, parecia ter quebrado algo, o pequeno posto de Saúde fez o que podia, mas teriam que mandar ela para a capital e o pior é que ninguém sabia quem era e ela não tinha documentos!

O casal foi seguindo a ambulância, quando chegaram no hospital, ela foi direto para a cirurgia, tinha fraturado a perna e o quadril.

Quando ela acordou, só tinha estranhos ao seu redor.

Que bom que a senhora acordou! Nos deu um grande susto! Onde já se viu andar na BR sozinha, a noite e sem lanterna! Tentamos desviar mas o carro a pegou de lado...

_Quem é você? - perguntou estranhando tudo ali.

_Meu nome é Amabile e Meu esposo é o Rafael, logo a senhora conhece ele. E qual o seu nome?

_Sou Angelina Silva e Souza, sua criada!

_Que isso, dona Angelina! Agora a senhora pode me passar o telefone da sua família? Eles devem estar preocupados, faz dois dias desde o acidente...

_Ah, aquela luz, eu senti e cai... Muita dor, não vi mais nada...

_Pois é, sentimos muito, a senhora fraturou o quadril e a perna e teve de ser operada, vai ficar um bom tempo no hospital ainda... Mas não se preocupe, iremos pagar todas as despesas, dinheiro não é problema!

_Hospital... Tinha ouvido falar... Aqui é um hospital... Bonito, branquinho, né?!

_Então, dona Angelina, pode me passar o telefone dos seus parentes? - disse Amábile.

_Não tenho nenhum parente! Sou só eu, minha terra e meus bichinhos. Dona, alguém tem que ir dar comida para as minhas vacas e galinhas!!! - disse dona Angelina querendo levantar da cama.

_Quietinha, dona Angelina! Vou ver se arranjo alguém. Onde fica seu sítio?

_Minha fazenda fica a 30 km da cidade na direção leste. Moro sozinha lá faz uns 70 anos mais ou menos -disse dona Angelina.

_Tudo isso! Então quantos anos a senhora tem? - perguntou Amábile surpresa.

_Ah, sei lá, acho que 89 ou 93 anos... É por aí... Parei de contar já tem um tempo...

_Está bom de conversa, é melhor a senhora descansar! Quer que eu ligue a TV? - disse Amábile com o controle na mão.

_O que é TV? Acho que nunca ouvi falar... Sabe, depois que fui morar na fazenda, nunca mais quis saber da cidade, então não conheço essas novidades...

_Essa é incrível! Vamos lá, deixa eu mostrar e explicar como funciona o controle remoto. - disse Amábile rindo.

Acabaram ficando amigas e dona Angelina conquistou todo o pessoal do hospital. Como ficou muito tempo isolada, agora, aos 93 anos tinha sede de gente, de falar,de descobrir o mundo!

Não gostava dos noticiários, só tinha notícias ruins, aí ficava o dia todo vendo a programação infantil.

Ficou apaixonada pelo filme da Tinker Bell, como criança contava pra todo mundo a história e falava que queria ter nascido fada.

As enfermeiras resolveram fazer um agrado para aquela velhinha tão sofrida, todos já conheciam sua história de vida.

Dona Angelina iniciou a fisioterapia e já estava dando os primeiros passos sem o andador, foi até perto do quarto de descanso das enfermeiras e ouviu o plano:

_Amanhã, lá pelas quatro da tarde a gente faz uma festinha prá ela.

_Dona Angelina é um doce, merece esse carinho! Minha mãe já está fazendo o bolo - disse uma - bem lindo e vai ter papel de arroz da Tinker Bell!

_Minha tia fez a roupa de fada pra ela, olhem!

_Nossa, muito linda! Dona Angelina vai chorar de emoção!

_Vou deixar pendurada aqui no banheiro prá não amassar...

_Pessoal, chega de conversa, quase hora da medicação das 17h, andem!

Dona Angelina ao ouvir isso, saiu dali o mais rápido que pode. Não queria estragar a surpresa delas... Mas era tão emocionante, festa, bolo e uma roupa de fada! Mal podia esperar, iria ser uma fada!!!

Naquela noite dona Angelina sonhou que era uma linda fada e que voava e ajudava as crianças no hospital. Que sonho lindo!

Acordou radiante! Era o dia da sua festa! Viu as enfermeiras de conversinha, um entra e sai do quarto de descanso, ninguém deixava ela caminhar lá perto...

Ficou no seu leito, viu mais uma vez o filme da Tinker Bell, ah, queria ser uma fada como ela e salvar as crianças!

Já era três e quarenta! Ouviu uma gritaria, cheiro de fumaça, será que tinha algo pegando fogo?

De repente viu as enfermeiras correndo, carregando crianças nos braços, empurrando cadeiras de rodas...

_Vamos dona Angelina! O hospital está pegando fogo!!!

E agora, o que seria da sua festa?! Sentia-se culpada por pensar assim, mas queria tanto...

_Pode deixar que vou saindo, salve as crianças primeiro, rápido! - falo enérgica a dona Angelina.

E eles foram rápidos buscar mais crianças e ela, aproveitando o tumulto, conseguiu entrar na sala de descanso das enfermeiras.

Estava tudo muito lindo, bexigas, enfeites... Fez como criança, enfiou o dedo no bolo, ninguém ia ver mesmo...

Seus olhos se enchiam de emoção e sua mente viajava no sonho da noite anterior...

Onde estava sua roupa de fada?! Ah, no banheiro! Entrou trancou a porta e foi se trocar, a roupa era muito linda mesmo. Viajou tanto em seus pensamentos que nem ouvia mais os gritos de desespero.

Dona Angelina era criança novamente, vestida de fada dançou, cantou, comeu o seu bolo e voou, voou para as nuvens, toda a sala eram nuvens e ela estava sendo envolvida por elas, foi ficando com sono e adormeceu.

Quando os bombeiros finalmente chegaram naquele andar, ao entrar na sala, acharam dona Angelina morta, asfixiada, vestida de fada.

Seu rosto era calmo e tranquilo, havia um belo sorriso em seus lábios...

Agora era fada, era anjo, era um ser de luz no outro mundo...

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Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 15/10/20 00:30

Bem que você me avisou que eu iria chorar... Pobre dona Angelina... Ao menos, teve um fim singelo e bom. É triste como as mulheres precisam lutar oitenta vezes mais para que as coisas deem certo...

Sua história é genial, linda, emocionante e surpreendente!

Obrigada por aquecer meu coração ao mesmo passo que o despedaça com este conto tristemente lindo...

Parabéns por mais uma obra maravilhosa, surrealmente boa, pura...

Obrigada por ter postado, de verdade!

Postado 16/10/20 00:05

Obrigada você pelo carinho, presença e gentileza!

Postado 16/10/20 15:40

Meus olhos se encheram de lágrimas conforme fui fazendo a leitura... É uma obra que nos toma com uma intensa reflexão ao término da leitura e é impossível continuar o mesmo após lê-la. O final da protagonista me trouxe um pouco de paz, mas meu coração ficou apertado...

Obrigada por compartilhar esse texto conosco!

Parabéns, Monise ♥​

Postado 16/10/20 23:22

Fico feliz que a tenha emocionado.

Obrigada pelo carinho e apoio!

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