O Monstro do Reflexo
Azurisky
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/10/20 15:37
Avaliação: 9.76
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 7
Comentários: 6
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Palavras: 422
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso Macabro - Monstro" Te convidamos a olhar debaixo da cama e nos contar qual monstro está escondido aí. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dez anos
Notas de Cabeçalho

Utilizei a imagem do desafio das imagens ocultas como inspiração. Queria muito participar desse concurso e estou tentando conseguir o emblema desse mês hahaha. Será? Boa leitura.

Capítulo Único O Monstro do Reflexo

Eu não gosto de espelhos, não gosto de olhar para o fundo do copo quando tem água, não gosto de piscinas e muitas vezes odeio a tela do meu celular apagada, deixo ele sempre ligado. Odeio vidros claros, vidros escuros, vidros espelhados. Odeio o brilho no meu guarda-roupas quando a janela está aberta, por isso nunca movo as cortinas de lugar. Odeio o piso da minha sala, branco com detalhes cinzas que refletem o brilho que vem da janela, passo por esse cômodo de nariz empinado para não ter que ver nada. Odeio a parte frontal do microondas que reflete a cozinha, preciso consertar isso de alguma forma, nem que seja colando jornal.

Mas tem uma parte em específico que eu odeio mais que tudo o que já citei, e o mais "engraçado" é que eu me torturo diariamente com esse reflexo. No meu banheiro cinza de imundice há uma janela entreaberta, não consigo ver nada, felizmente pois está coberta em lodo, mojo e sujeira. O piso também não reflete nada, pois está cercado de vômito, sangue e fezes. Há um ralo enorme que está aberto, o odor de esgoto amargura até alma. Logo a frente dele há uma banheira, completamente limpa, tão branca como algodão, seu cheiro é a única coisa agradável. Tem cheiro de produto de limpeza de lavanda... Os pés da banheira são dourados e brilham forte como se o objeto tivesse sido comprado e instalado ontem.

Por que é uma tortura diária? Simples, todos os dias às exatas cinco e meia da tarde eu caminho lentamente em direção a esse recinto, sem me importar com meus pés tocando aquela lama repugnante - não como se isso fizesse diferença, meus pés já tem crostas de sujeira mesmo. Quando eu me aproximo da banheira lentamente, como que se estivesse sincrozinado eu vejo mãos saindo daquela água límpida. As mãos cinzentas tateiam o objeto e só ouço o barulho da água a ser movimentada pelos membros sombrios. Eu vou andando e chegando perto e as mãos vão se levantando em minha direção até que uma agarra meu pescoço, outra meu pulso esquerdo, outra minha camisa, outra meu ombro...

Quando todas as mãos conseguem me imobilizar elas me puxam abruptamente para todo o terror que eu vivo diariamente, todo o terror que eu evito encarar em todos os objetos com superfícies reflexivas: elas me forçam encarar a mim mesmo, todas as minhas ações, todos os meus pensamentos impuros, atitudes egoístas...

Eu vejo no reflexo a mim mesmo...

Eu sinto culpa no que vejo.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Culpa é um monstro terrível, não adianta evitar.

Apreciadores (7)
Comentários (6)
Postado 26/10/20 16:13

Fantástico! Que final inusitado...

A gente no crescendo do texto e nossa mente já faz o filme do que virá a seguir e aí você nos surpreende...

Parabéns! Gostei muito!

Postado 26/10/20 16:26

Muito obrigada por ler <3

Postado 26/10/20 17:30

Hoje não estou tendo um bom dia e ler essa obra, com certeza e por incrível que pareça, trouxe um pouco de paz ao meu coração... Justamente porque é sempre bom ler e encontrar nas palavras algo que transborda em nosso coração. A narrativa é macabra e intensa, gostei demais!

Obrigada por compartilhar conosco!

​Parabéns, Joy ♥

Postado 08/11/20 01:50

Realmente a culpa é um monstro interno difícil de lidar. Não há como escapar, tentar uma gambiarra ou até mesmo fingir que não existe; em quaisquer lugares ele dará um jeito de te encontrar, de sufocá-lo com verdades mesmo após pedir por clemência. Ele te fará lembrar de todas as consequências por atos inadvertidos e até mesmo propositais, na intenção de desvirtuar um outro alguém.

O reflexo demonstra tudo aquilo que queremos esquecer; olhá-lo denuncia tudo que está em nosso âmago, ainda mais quando as paranoias da culpa já corroeram nossa alma. Todo o reflexo contido nessa narrativa é cruel e verdadeiro; a verdadeira face do monstro existente em nós.

Eu só senti um pouco a ausência, talvez explicar o porquê dessa culpa que o nosso protagonista carrega em si enriqueceria mais a sua obra. Mas a narrativa está perfeita, cada descrição muito bem redigida, com uma melancolia presente em cada ato e desabafo do narrador.

Parabéns pela excelente obra e muito obrigada pela participação ♡

Postado 14/11/20 09:27

Nem sempre estamos prontos para nos encararmos de frente; parar olhar no espelho e aceitar, de braços abertos, que a imagem ali refletida é a mais pura verdade. Nossos atos trazem consequências e, muitas vezes, preferimos tentar fechar os olhos e cobrir os espelhos. Não é fácil encarar a vida de frente, nunca foi e nunca será.

Que monstro cruel, dona Joice. Aterrorizante e psicológico. Gostei da forma como abordou o tema.

Parabéns!

Postado 28/11/20 21:08

Se um texto da Joy não for incrível, então não é um texto da Joy... simples assim u.u

Lendo o começo eu nunca iria imaginar como que tudo isso iria terminar, socorro, isso foi criativo demais!

Amei especialmente toda a descrição da imundície do banheiro, foi um ótimo toque ao texto como um todo!

E adorei o modo como o narrador sofre tanto psicologicamente durante todo o texto, e esse final foi uma grata surpresa, pois no fundo ele sentia culpa...

Culpa de que? Esse mistério bem que poderia ser resolvido em um outro textinho, rsrs.

Parabéns, Joymaravilhosa <3

Um grande abraço <3

Postado 12/01/21 21:13

Olhar para si mesmo é algo tão intímo e as vezes, como no texto, pertubador. Realmente ficou muito mais do que incrível, agora estou com vontade de te chamar para uma participação especial em uma de minhas novels. Será que rola? rsrsrsrs Meus parabéns pelo texto.

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