O túnel do tempo
Nilton Victorino Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 06/01/21 14:57
Avaliação: Não avaliado
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[Texto Divulgado] "Iminnar" Tudo o que ela precisa é completar o treinamento e se provar, para si mesma e o fantástico mundo que lhe cerca.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único O túnel do tempo

As propagandas anunciavam uma nova era, 1980 começou a nos desprender dos grilhões da ditadura e a aceitação dessa mudança era gradativa, lenta mesmo.

A grande maioria dos funcionários do Educa ainda se trajava com roupas das décadas anteriores, o seu Roque usava calças, camisas e botinas dos anos 50, o paletó do irmão José era remanescente dos anos 40 e o seu Tinoco usava sapatos de bico fino, combinados com as polainas dos anos 20 e, elas eram novas, bem como o chapéu de feltro, que ele comprava na rua José Paulino.

A dona Djalmira ainda mandava aos pavilhões calças e camisas de rações, as mesmas que foram confeccionadas na fundação do colégio e o engraçado do Turquinho ajeitava seus óculos de fundo de garrafa e, de quando em quando, puxava do bolso do colete, um grosso relógio com corrente, dava dois trincos no vidro grosso e dizia a hora exata.

O Travolta já havia dançado, anos antes, nos “Embalos de sábado à noite”, muitos meninos andavam com camisetas negras, sem mangas e outros usavam sapatilhas de Kung Fú.

O emergente Camargo e seu amigo Luiz Matos (filho do seu João do forno), se trajavam na última moda, calças grossas de Jeans ou Brim com vinco, combinados com camisetas Hering e os sapa tênis de camurça, isso contrastava com as calças sociais do Paraná e do seu Felipe e o chapéu quadriculado do seu Deoclécio.

Muito embora, o colégio se localizasse dentro da capital de São Paulo e, essa cidade se desenvolvesse à passos rápidos, o Educandário era uma ilha, alheia a qualquer ideia de crescimento.

Os meninos que tinham suas famílias, em fins de semana, travavam contato com a modernidade, os outros se quedavam nesse verdadeiro túnel do tempo e, a vida escorria lenta.

Vivíamos, em termos de tecnologia, a era A.S (Antes de Spielberg), o máximo de ficção científica a que tínhamos conhecimento, vinha dos gibis da Marvel.

Com medo de ser vítima de um cobreiro, o Adilson costumava pendurar a camisa na forquilha da trave do campo do 14, os outros as jogavam na grama, o Adilson tinha fobia a aranhas.

Essa mania do amigo me foi de muito lucro, sempre que eu chutava uma bola, tentava derrubar a camisa dele, mesmo para aborrecê-lo e então, quando veio o campeonato interno, na hora de bater uma falta, eu imaginava que a camisa do Adilson estava na forquilha e eu tinha que derrubá-la de lá, um gol mais lindo que o outro.

Voltando ao campo do 14, às duas e meia em ponto, os meninos se recolhiam, se lavavam e sentavam-se na sala do pavilhão e, religiosamente, assistiam a mais um episódio de “Jornada nas estrelas”, com o capitão Kirk e seu meio sorriso cativante, a tenente Uhura, o imediato Sulu e o nosso ídolo maior...o senhor Spock, o Vulcano que podia ficar bem no Educa, a cada besteira que disséssemos, ele diria:

_. Fascinante.

Findado o episódio, os meninos do 14 tiravam de suas cabeças, qualquer conceito futurista e a grama do campo voltava a voar.

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