E se a gente se beijasse na cantina abandonada?
Sena
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 25/03/21 11:24
Editado: 26/03/21 14:19
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 11min a 15min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
Total de Visualizações: 461
Usuários que Visualizaram: 8
Palavras: 1844
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Muitíssimo inspirado pelos dois textos de terror da Mariana Heloise, Terceiro Andar e Ritual. Espero que tenha conseguido chegar aos pés deles.

Capítulo Único E se a gente se beijasse na cantina abandonada?

A regra era clara e rigidamente observada: absolutamente ninguém, com exceção do diretor, deveria entrar na cantina abandonada. Isso era tão importante, na verdade, que apesar de haver pouquíssimo movimento no subsolo da escola (além da tal cantina, havia lá apenas uma espaçosa garagem pouco utilizada, que antes costumava servir de refeitório), o diretor havia posto lá dois guardas, com ordens de barrar qualquer um que tentasse, sem autorização, entrar na cantina. Naquele dia em específico, o diretor fez questão de repetir, em voz alta, esta regra:

NINGUÉM ENTRA NA CANTINA ABANDONADA, REPITO, NINGUÉM.

Ninguém sabia bem os motivos para essa proibição. Sabia-se, apenas, que ela era bizarra, afinal de contas:

– O que é que pode ter de tão importante numa sala vazia para não deixarem a gente entrar? – Perguntou a representante, sentada na cadeira dos professores, que ainda não haviam chegado na sala.

– Ouvi dizer que é pra ninguém transar lá. – Um aluno sugeriu. Não demorou a ser refutado por outro:

– Mas temos várias salas vazias por aqui, e o diretor nunca fez nada sobre isso. – Era verdade; inclusive, camisinhas usadas costumavam ser retiradas dessas salas aos punhados.

– Talvez, – teorizou o nerd da sala, – haja alguma coisa perigosa lá. Tipo uma infestação de ratos ou algo assim.

Isso provocou risadas de Rebeca, que no momento estava sentada em sua carteira de sempre: a última do canto direito.

– Nada disso, bobinho. – Ela disse, levantando-se. – Tem perigo em todo canto daqui, não é? – Pôs-se a caminhar até a frente da sala, onde a representante estava. – Ratos aparecem quase todo dia, já não tem nem mais graça. – Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro que, contra as regras da escola, sempre utilizava. – O que eu acho, – ela sentou-se em cima da mesa, sua calça de couro (também não permitida pela direção) fazendo barulho conforme ela se ajeitava na cadeira – é que o diretor é um louco autoritário, que gosta de impor regras sem sentido como todos os outros fascistas nessas posições.

Quando Rebeca falava essas coisas, normalmente era respondida com silêncio; a maioria dos alunos era da opinião de que discussões políticas só podiam acabar em duas coisas: briga e tensões desnecessárias. Os outros, não gostavam tanto de debater com ela, que era um tanto exagerada - ou, na linguagem popular, barraqueira. Hoje, todavia, uma voz que costumava ficar muda durante toda a aula ergueu-se para respondê-la:

– Eu concordo! – Era Pedro, sentado na penúltima carteira do canto direito da sala, bem à frente de Rebeca, como sempre sentava.

Pedro era um rebelde, também. Equações químicas, fórmulas matemáticas, classificações biológicas, e até mesmo o nome e as vidas de figuras históricas lhe provocavam uma terrível reação fisiológica de desconforto; o que fazia, quase sempre, era sair da primeira aula, bem perto do final, dizendo que ia ao banheiro: passava todas as outras aulas numa sala vazia, escutando música ou fazendo qualquer coisa no celular;

Qualquer coisa lhe agradava, qualquer coisa que não fosse aula. E uma das coisas que mais lhe agradavam era conversar com Rebeca, que há pouco tempo havia percebido a estratégia de Pedro para sair das aulas, e decidido que era uma boa forma de escapar do tédio.

– Claro que você concorda. – Alguém o respondeu. – Você gosta dela!

Naturalmente, a mentalidade racional que conduzia a discussão acerca da cantina abandonada sofreu uma involução; se tornou a mentalidade infantil que grita “hããã” em resposta à qualquer sugestão de romance. Naturalmente, era verdade que Pedro gostava dela; todo mundo sabia disso. Ela gostava dele também, mas sabia esconder – sabe-se lá porquê escondia, adolescentes são estranhos – muito bem.

– De qualquer forma, – a representante concluiu, – eu é que não entro lá de jeito nenhum.

– Sim, – alguém concordou. – Deus é mais.

Não demorou muito até que a professora do primeiro horário – literatura – chegasse. Não demorou muito, também, para que o tédio se instaurasse nos dois rebeldes – estavam lendo um daqueles livros que as escolas passavam para os adolescentes, mas que na verdade só podiam ser bem compreendidos (e, portanto, apreciados) por adultos. A sala foi posta em semicírculo, e os dois rebeldes sentavam-se lado a lado, seus cotovelos roçando, deixando os dois desconfortáveis (mas secretamente agradados, claro.)

Ela olhou para ele; seu rosto calmamente aturava aquilo tudo. Seu olhar lhe traiu uma vez – queria estar em outro lugar – e quando olhou para ela, o traiu novamente – queria estar em outro lugar, com ela. Ele enrubesceu, desviou o olhar, sentindo-se estranho, passou a mão desajeitadamente pelos cabelos – ela quis rir da timidez, mas não conseguindo, apenas continuou a fitá-lo.

– Que foi? – Ele perguntou, baixinho.

– É verdade?

– O quê?

– Você gosta de mim mesmo?

Ele enrubesceu por completo. Sua cabeça estava quase idêntica a um tomate, se tomates tivessem cabelos e olhos tímidos. Como um tomate, também, estava incapaz de falar; apenas fez que sim com a cabeça. Fechou os olhos – era a primeira vez que admitia um amor. Quis desaparecer por completo, de tão nervoso que se sentia. Sentiu calor se aproximando de sua face – calor humano. Sentiu o toque da bochecha esquerda dela com a sua bochecha direita, e, por fim, ouviu um sussurro ao seu ouvido;

– Que tal a gente sair daqui?

Fez que sim novamente, seu coração acelerando quando o movimento de sua cabeça fez com que os cabelos dela roçassem contra seu rosto. Ela gostava disso, também, gostava do nervosismo dele; fazia com que ela se sentisse poderosa, como uma bruxa capaz de transformar um homem num tomate com apenas algumas palavras.

Quando ele finalmente abriu os olhos, não conseguiu resistir; virou instintivamente seu rosto para o dela. Hesitou por um segundo. Olharam-se nos olhos pela primeira vez – se conheciam há muito tempo, mas a timidez dele o fazia sempre desviar o olhar.

De qualquer forma…

O cérebro dela liberava tanta oxitocina e endorfinas que ela não via ele direito. A voz dele – um tanto esganiçada – para ela era angelical. As olheiras dele desapareciam; seu olhar adotava um brilho mais bonito, como se fosse uma pedra preciosa. Ele, também, era extremamente iludido pela sua compulsão biológica que o levava a uma vontade imensa de, num eufemismo, garantir a continuação de sua linhagem genética. Seus rostos foram se aproximando, estavam prontos para retornar à animalidade, no aqui e agora.

Finalmente, voltou à razão.

– Aqui não. – Ele disse.

E, indo contra toda a sua timidez, prosseguiu com uma sugestão:

E se a gente se beijasse na cantina abandonada?

Um arrepio percorreu o corpo dos dois. Como se algo acabasse de ser profanado; como se a mera sugestão daquilo tivesse sido suficiente para rarefazer o ar.

O plano era o seguinte: ele sairia primeiro, alegando passar mal – a cor de tomate em seu rosto colaboraria com isso – e ela, minutos depois, pediria para ir no banheiro. Ele a esperaria no subsolo, e entrariam juntos na cantina abandonada.

O plano deu errado, claro.

Ele saiu. Minutos se passaram. Ela saiu.

Desceu as escadas até o subsolo, onde foi recebida com…

Silêncio?

Havia algo de estranho no ar, é. Talvez seja psicológico, ela pensou; e, de fato, o frio na barriga que sentia agora era idêntico ao que sentia quando era chamada à sala do diretor, para receber uma das costumeiras reprimendas por seu modo de se vestir.

– Pê? – Ela sussurrou, colada numa parede que lhe fornecia esconderijo. – Pê! – Ela falou mais alto.

Poderia ele ter amarelado?

Claro, claro. Não se pode confiar num tomate pra esse tipo de coisa. Ela pensou. Ainda assim, em sua mente, Pedro, o tomate rebelde, ainda era fofinho. Imaginava-o agora no banheiro masculino, encarando-se no espelho, andando de um lado pro outro, amaldiçoando a própria covardia. Talvez eu deva ir lá no banheiro, ver se ele está lá.

Mas aí percebeu outra coisa estranha; os dois guardas, sempre presentes ali, também não estavam lá. Era como se estivesse completamente sozinha ali. Não sabia bem o que sentir, muito menos o que pensar; talvez fosse bom que os guardas não estivessem ali, mas também era um tanto preocupante, não? Afinal, talvez tivessem levado seu Pedrinho para a diretoria…

Logo suas preocupações provaram-se infundadas – ou, ao menos, foi isso que lhe pareceu. Afinal, da janelinha da cantina, um braço se erguia, parado, como se dissesse: estou aqui, te esperando.

Conforme se aproximava, percebia ainda mais uma estranheza naquilo tudo: o braço era mais grosso, e mais escuro, que o de Pedro: era o de um dos guardas!

Parou. Talvez o guarda estivesse ali cochilando, no horário de serviço! Que bela cena para se fotografar, enviar no grupo da sala, dar um golpe no sistema!

Escorregou em algo, mas no quê? Ela não sabia, não havia visto nada no chão. Teve tempo apenas de proteger a própria cabeça, enquanto algo a puxava. Não, não. Não era bem que algo a puxava; nada sentia em seu corpo, não era como se mãos estivessem a agarrando pelos pés; o que se movia, em verdade, era a sua sombra, arrastando Rebeca consigo.

Finalmente, lá estava ela, no interior da cantina abandonada, e lá estava Pedro. Mais cedo, havia imaginado, é verdade, que estaria deitada ali no interior da cantina, com Pedro lá junto com ela, só não imaginou que seria assim.

Uma coisa cor de mofo, que parecia estar além dos estados físicos da matéria, esperava lá por ela. De seu interior, saía o braço esquerdo do guarda; o esquerdo puxava a perna de Pedro, desacordado. Não havia nada a se fazer, além de gritar e espernear.

Não que adiantasse gritar, é claro; o braço esquerdo começava a afundar na coisa em forma de monte, o quebrar dos ossos e o mastigar da coisa, os suspiros de prazer que ela dava conforme ia devorando mais e mais e crescendo mais e mais. Pedro, desacordado, começava a ser absorvido também; primeiro seus pés, depois a canela, e depois, e depois… a coisa sentia tanto prazer que não viu quando Rebeca conseguiu se desvencilhar.

Nem mesmo se deu conta quando a garota escorregou no sangue do que há minutos atrás era um pé inteiro. Nem mesmo o baque de seu corpo contra o chão a coisa pôde ouvir. Apenas deliciou-se, e deliciou-se…

Sentiu, entretanto, o tiro. Rebeca, que havia pegado a arma de um dos guardas, havia disparado na coisa. O mastigar parou. A coisa vomitou, para cima dela, ossos e sangue, e um olho atingiu Rebeca bem na testa, se espatifando numa explosão sangrenta.

– Oh, oh, balas de borracha? – A coisa perguntou. Era uma voz gutural como nenhuma outra; esta não vinha da garganta de um indivíduo ou de alguma entidade: vinha da garganta da própria terra, do próprio solo da escola.

Outro disparo. Nada. Decidiu fugir. Foi paralisada. Sua sombra a segurava.

– Podia te segurar aqui até sua hora chegar, mas não vou fazer isso… – a coisa disse. Sua voz só não era completamente calma porque estava cheia de malícia, de ganância por sangue. – Afinal, não adianta correr; eu, a Banalidade, o Insignificante, o que veio do nada e irá para o nada… não sabe que sou onipresente?

Sua sombra a largou. Rebeca, por fim, conseguiu escapar.

Mas pra quê?

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigado pela leitura <3

Apreciadores (4)
Comentários (3)
Comentário Favorito
Postado 26/03/21 00:08

Cruz~ Cruz~~ Cruz~~~

Bah!~ Nunca mais vou olhar o mofo com os mesmos olhos de antes de ler seu conto! Em um momento tudo tranquilo, conversas da turma toda, dois pombinhos, amor aqui, amor ali, inlusão colá, E Baw! Monstro, pézinhos, sangue, ossinhos~

Sinto que essa noite vou comfirmar de tampar bem os meus pés~

Brincadeiras a parte, eu amei seu conto de terror e acredito ter honrado os textos que te inspiraram porque fico show de bola tchê! (sim, gaúcha~ ahhahahah)

Agradeço por demais por compartilhar seu texto me fazendo rir e gostar dos personagens para depois vê-los morrer ; ^ ; ai meu coração~

Assinado uma pequena vampira que vai rezar uma ave maria essa noite (hahah~~~), <3

Postado 26/03/21 15:39

Olhar o mofo, tudo bem, o problema é quando o mofo começa a encarar de volta, hihi.

Lisonjeadíssimo pelo seu comentário, muito obrigado,

Assinado um cara que vai jogar todas as roupas velhas fora hoje à noite, <3.

Postado 27/06/21 20:39

Santíssimo Satã, que texto foi esse!

Sr. Sena, estou impressionadíssima com essa história, a sua imaginação foi maravilhosamente longe demais!

Pelo jeito que tudo caminhava eu até imaginei que algo ruim iria acontecer, mas nossa, eu não estava esperando tudo aquilo!

Hora que eu li que o braço era diferente do braço do Pedro, eu já entrei em desespero, e ao final do texto minha sanidade desapareceu!

Adorei completamente! Uma pena que o casal não teve tempo nem mesmo de dar um beijinho...

Um grande abraço <3

P.S. eu amei demais o título do texto <3

Postado 13/07/21 23:20

Obrigado pela leitura e pelo comentário, srta. Mei!

O título é facilmente a melhor parte do conto, foi inspirando nuns memes que eram populares na época em que isso foi escrito. O fato deles não terem dado nem um beijinho foi a parte mais realista, D:

Abraços e agradecimentos, novamente. <3

Postado 17/06/22 15:37

Maravilhoso!!!

O título nos passa uma coisa e a leitura é totalmente oposta, amei

Outras obras de Sena

Outras obras do gênero Comédia

Outras obras do gênero Romântico

Outras obras do gênero Sobrenatural

Outras obras do gênero Terror ou Horror