Cartas do Vovô Pedro (Em Andamento)
Holzwarth
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 30/05/21 17:10
Editado: 20/09/21 18:55
Qtd. de Capítulos: 6
Cap. Postado: 01/06/21 22:57
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 6min a 8min
Apreciadores: 2
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Palavras: 1053
[Texto Divulgado] "Deusa Solidão" Sinopse
Não recomendado para menores de dezoito anos
Cartas do Vovô Pedro
Capítulo 2 Barra do Piraí, 19 de maio 2009

Barra do Piraí, 19 de maio de 2009

Queria Beatriz,

Perdoe-me por não ter escrito esta resposta o quanto antes. Acabei me distraindo e me esqueci de pegar na caneta e no papel mais uma vez para lhe escrever outra longa carta. Estávamos em uma semana cheia, organizaram uma gincana com o pessoal do asilo e os jogos acabaram me entretendo mais do que eu imaginava! Arranjaram uma excursão (escrevi certo?) para um pesque e pague lá em Pinheiral, e depois todos nós fomos para um salão de bingo! Foi muito divertido, acho que você ia gostar. Lembra quando eu e seu irmão ganhamos aquela grelha no bingo da igreja, perto de casa? Somos uma boa dupla. Pensei bastante nos prêmios que você e eu poderíamos ganhar juntos. Consegui ganhar o espeto de churrasco, mas estava mesmo de olho na televisão que um cabra lá ganhou, hahaha

Então, sim, Bia, passei muito bem essas semanas e estou aqui pronto para responder, na medida do possível, todas as perguntas que me fez em sua carta.

O Santa Edwiges não ficava perto da cidade, então não tínhamos muito contato com as pessoas fora aquelas que queriam adotar algum dos meninos de lá. Barra do Piraí ainda era muito pequena na época, bastante rural, e a maior parte da população vivia em Barra Mansa, na cidade. Aqui perto, havia só fazendas e sítios, e a fazenda em que o Santa Edwiges ficava não tinha vizinhos a não ser a mata e o rio. Então, quando o Jorge morreu, o corpo dele não foi levado ao cemitério da cidade. Ele foi enterrado um pouco depois do pasto, atrás do orfanato, e não teve velório. A Madre Cláudia chamou um padre que vinha de Minas, todo fim de semana, para celebrar missa em Barra do Piraí, e foi ele que conduziu o enterro do Jorge. Não cheguei a vê-lo ou a ver o padre, apenas fiquei sabendo. Lá no orfanato, as freiras não costumavam falar conosco a respeito de certos assuntos.

No entanto, criança é um bicho danado, e quando ficamos sabendo que o Jorge foi enterrado atrás do orfanato, ficamos doidos de curiosidade. Hoje em dia, penso que não ficaria tão ouriçado por algo tão desinteressante quanto uma cova, mas quando era menino, as coisas eram diferentes. Não sei se cheguei a comentar com você que não podíamos brincar muito lá dentro do casarão, nem quando chovia ou fazia frio. As freiras nos colocavam em cabrestos: tínhamos que ser educados e fazer silêncio quando as visitas chegavam à fazenda. Assim, teríamos mais chances de ir embora para boas casas, com bons pais e boas mães para nos darem uma vida fora dali. No entanto, a regra valia também quando não tinha ninguém no salão esperando para ver os meninos. Era terminantemente proibido correr, gritar e brincar nos corredores, no salão e no refeitório, até quando nenhum casal estava por lá.

Pois era um dia daqueles: estava frio e no Santa Edwiges não fora ninguém visitar. Eu e meus amigos, os cinco que mencionei, estávamos sentados em frente à porta de entrada, nos degraus de pedra de rio, conversando sobre o dia em que Jorge tinha tossido até a morte. Era o que tinha acontecido na última semana, e como o orfanato era um lugar monótono, bucólico e de passo lento, não tínhamos muito sobre o que conversar, nada novo acontecia, nada tão atraente ocorria. Era por isso que a morte do Jorge tinha sido nosso principal assunto aquele mês, e todos os pormenores que poderíamos extrair daquele acontecido havia sido extraído. Com exceção do enterro.

Como eu disse, não tínhamos visto o padre ou o momento em que Jorge foi levado para a cova, atrás do casarão, depois do pasto. Da janela do nosso dormitório, era possível enxergar longe, até a beirada da margem do Paraíba, muito além do pasto onde ficavam as poucas vacas que as Irmãs criavam na fazenda. Em nenhum lugar ali havia um espaço próprio para abrir uma cova. Era um campo aberto, com poucos morros, cercados pela mata e pelo rio, e nada mais. Cora nos disse que Jorge poderia ter sido enterrado dentro da mata, para que ninguém fosse até lá. Eu não achava que poderiam carregar um menino como o Jorge por tanto tempo até a mata. Vê, as freiras eram mais velhas, mulheres em seus cinquenta, sessenta anos de idade, com exceção de Sofia e de mais algumas noviças recém-formadas, que mal somavam uma dúzia. Não consegui entender como levaram o corpo do Jorge até lá, tampouco como abriram a cova. Mas foi isso que nos disseram, e nos deixaram sem espaço para perguntas ou objeções.

Ah, Bia, você pode me perdoar essa vez? Queria muito ter tirado mais fotografias quando saí, mas, infelizmente, só tenho duas. Sua mãe deve saber aonde estão as minhas coisas, a caixa azul com elástico que deixei em casa, é onde guardo todas as fotografias. Pergunte, ela deve saber. Só peça pela caixa e diga que fui eu que pedi para você me mandar pelo correio. Assim, você pode ter uma ideia de como era a fachada do Santa Edwiges, se o retrato ainda existir e não estiver muito borrado. Como eu disse, há somente duas fotografias daquela época, sendo uma um recorte de jornal e outra um retrato meu em frente ao Santa Edwiges, junto de Madre Cláudia e de Irmã Sofia. É do dia em que fui embora para o Rio. Espero que não tenham jogado fora… Bia, acho que você poderia tentar pesquisar nas “internets”, onde seu irmão vive mexendo. Se lá não tiver só sacanagem, claro. Talvez você ache alguma coisa.

Infelizmente, não tenho retrato com meus amigos, porque acabei sendo o último a ir embora. Foi difícil manter contato depois que o Clube se separou. Mandávamos correspondência e cartões-postais e, quando dava, telefonemas um para o outro. Mas não éramos mais próximos como antigamente; o tempo nos afastou, e como tomamos caminhos muito diferentes na vida, não chegamos a nos reunir como nos velhos tempos, em volta de uma mesa redonda e cheios de idéias na cabeça. Acho que isso nunca vai acontecer de novo, para ser honesto.

Tem certeza que Fátima não perguntou de mim? Diga a ela que eu gostaria de vê-la!

Abraços carinhosos,

Vovô Pedro

❖❖❖
Notas de Rodapé

precisei fazer uma consultoria rápida sobre atividades de terceira idade. prometo melhorar na escolha do vocabulário também. erros ortográficos são propositais.

Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 03/06/21 02:29

Saudações! Fico feliz que tenha prosseguido com essa história, a narrativa segue cativante e desperta curiosidade.

Creio que você tem feito um ótimo trabalho, as narrações do seu Pedro que alternam entre passado e presente nos deixam imersos no enredo. É irônico e triste que durante sua infância ele esteve num orfanato e agora em sua velhice é mandado para um asilo. :'

Ótimo capítulo e de muita qualidade. A curiosidade dos amigos sobre o enterro do Jorge, o comentário de Pedro sobre eles terem se separado e perdido contato, achei particularmente bem relacionável.

Parabéns! Ansioso por mais cartas ❤️

Postado 04/06/21 16:02

Eu que agradeço por acompanhar a história!

Passar a velhice, fase em que o sentimento de solidão muitas vezes é predominante, sozinho por uma decisão da própria família é muito amargo. Pelo menos ele tem alguém com quem conversar, ainda que não sejam tão próximos.

Muito obrigado pelo comentário!

Postado 19/09/21 23:06

Sua pesquisa sobre terceira idade rendeu bons frutos, pois me sinto como se fosse vovô Pedro escrevendo sobre sua vida!

Admito que esse capítulo serviu para me deixar ainda mais curiosa a respeito do passado dele. Achei particularmente triste a parte em que ele diz ter sido o último dos amigos a ir embora, e por isso não tem uma foto com eles...

Hmmmm, acho que a Beatriz vai encontrar alguma coisa suspeita quando procurar na internet sobre o orfanato!! Ao menos estou especulando isso hahaha

Obrigada por mais esse capítulo <3

Um grande abraço <3