Sensível
Nyels
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 07/07/21 11:14
Editado: 08/07/21 13:39
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 31min a 42min
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[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de doze anos
Notas de Cabeçalho

Eu sou, antes de mais nada, uma escritora de fanfics. Talvez alguns de vocês não tenham familiaridade com o termo, mas certamente já esbarraram em uma ou duas histórias do gênero ao longo da vida; se você conhece Tolkien, deve saber que O Senhor dos Anéis é uma excelente fanfic de O Anel dos Nibelungos. O ciclo arturiano foi escrito por meio de fanfics (cada autor medieval que escreveu sobre a Távola Redonda estava, basicamente, reinterpretando a obra de outros autores).

Claro, essa é uma definição nada ortodoxa. Algum dia eu ainda faço uma pesquisa séria a respeito.

Tendo isso dito, essa história era, originalmente, uma fanfic. Alterando o nome dos personagens, tenho aqui uma história 100% minha. Desejo a todos uma boa leitura <3

Capítulo Único Sensível

Sophie.

As bailarinas do Royal Ballet Academy deixavam o salão sob o burburinho animado de todo encerramento de treino, deixando atrás de si a garota nipo-inglesa de olhos gentis. Sophie apertou melhor o elástico que prendia seus cabelos em coques laterais, certificando-se de que tudo estava em ordem.

― Sim, Sra. Phelan?

― Foi muito bem hoje, Sophie. Realmente excelente. ― A senhora Phelan cruzou as pernas inconscientemente, assumindo a terceira posição sem parecer notar. Seus olhos ágeis dardejaram sobre o corpo de Sophie, avaliando-na de maneira prática e eficiente, como era seu costume. ― Sente-se cansada ou dolorida, querida?

― Não há com o que se preocupar, Sra. Phelan. Estou ótima! ― Sophie abriu um sorriso largo e sincero como se tentasse provar seu argumento. A coreógrafa assentiu.

― Certo. Querida, você tem uma grande facilidade com os adagios e sua performance no segundo movimento foi boa, mas durante todo o ensaio seu arabesque atrasou um pouco. É claro, foi algo pontual e nada pronunciado, considerando-se as circunstâncias, mas... ― A mulher pressionou os lábios finos como se buscasse as palavras. Sua atenção foi desviada brevemente pelo músico que, após organizar as pastas e fechar o piano, deixava a sala. ― Obrigada pelo ensaio de hoje, Gen. Até amanhã.

O rapaz fez uma mesura rápida e fechou a porta ao sair. Amelia Phelan voltou a atenção a Sophie, que parecia descontraída enquanto alisava uma ruga do collant claro. Em seus olhos escuros, porém, havia um brilho discreto de desapontamento.

― A senhora se refere a... ― Sophie executou uma sequência simples de movimentos, deslizando tão suavemente pelo chão que um observador menos atento suporia vê-la voar por alguns segundos. A Sra. Phelan concordou.

― Sim. Não entendo o que está havendo, Sophie. O arabesque que acabo de ver está ótimo, talvez um pouco mais baixo do que eu gostaria... isso, levante um pouco mais a perna de movimento, cuidado com a sustentação... perfeito. Tenha cuidado com o tempo durante a performance, Sophie. Sei que é difícil, mas procure se lembrar das pausas.

Sophie refez a sequência uma última vez para aprovação da coreógrafa.

― Isso é tudo. Trabalhe melhor o andamento, certo? Tenha uma boa tarde, querida.

― Até mais tarde, senhora.

Sophie deixou a sala e dirigiu-se ao pequeno vestiário anexo. As outras garotas já haviam deixado o prédio e o lugar estava vazio exceto por sua mochila e roupas. Ela desamarrou as sapatilhas, pensando consigo mesma que em breve precisaria de sapatilhas novas, organizou-as em um saco plástico e as guardou no armário dezoito. Vestiu calças largas e compridas de moletom para proteger-se do frio, conservando as polainas, calçou meias grossas e confortáveis botas forradas. O conforto e a proteção dos pés e membros do corpo era fundamental para uma bailarina; choques térmicos podiam levar a sérios problemas e uma dançarina descuidada não conseguiria ir muito longe no mundo do balé clássico. Sentiu a cabeça latejar um pouco quando soltou os grampos dos cabelos escuros, deixando que as longas madeixas de um castanho escuro cobrissem seu pescoço e ombros. A bailarina desceu os lances de escada parecendo mais pensativa que o comum. Sua pele se arrepiou quando passou pelas portas pesadas do prédio e ganhou a rua.

{...}

Mais tarde, Sophie arrumava-se nos camarins apertados atrás das coxias. Todas as noites, durante a temporada, o Royal Ballet apresentava-se na Royal Opera House, uma rotina exaustiva mas igualmente compensadora. As garotas vestiam seus figurinos e cada dançarina cuidava de sua própria maquiagem, pintando-se com a eficiência de mulheres que passaram a vida a performar diante de multidões. Jovens aspirantes a bailarinas iniciavam sua carreira aos doze anos, ainda durante as aulas da Academia, e desde cedo lhes era exigido um certo grau de autossuficiência. Eram as próprias bailarinas quem preparavam suas sapatilhas, cuidavam do cabelo e maquiagem.

Naquela noite o Royal Ballet interpretaria Giselle, uma das clássicas variações do balé francês. A dança conta a história de Giselle, jovem e bela camponesa cuja maior alegria era dançar. A mãe da garota tentava proibi-la de bailar, temerosa de que a dança piorasse o estado debilitado da saúde da filha, mas isso não a impede de dançar até a morte quando descobre que foi traída pelo seu amado. Era uma peça trágica e romântica, no sentido mais puro da palavra; bastava observar os tutus de tule branco que atingiam as panturrilhas das bailarinas. Sophie gostava da sensação das saias contra as pernas, envoltas em murmúrios.

― Garotas! Cinco minutos para as cortinas reabrirem!

Aquele era o segundo ato, quando Giselle morta dançava entre as willis ― os espíritos das noivas ― para salvar a vida de Albrecht, seu amado. Sophie fazia parte do corpo de dançarinas mortas, etéreas e esbranquiçadas. Ela gostava da sensação de flutuar sobre as sapatilhas, e chegava a imaginar se a morte seria tão divertida quanto sua dança.

Bem, talvez não. De todo modo, não havia tempo para pensar nessas coisas; aquela nota problemática se aproximava, o meio tempo decisivo que geralmente atrasava seus arabesques. Era muito sensível ao andamento da música, muito sensível à harmonia, muito sensível à pressão dos dedos contra o gel que os envolvia no interior das sapatilhas. De fato, Sophie era muito sensível. Foi sua sensibilidade que a permitiu notar, não sem uma certa surpresa, como era fácil acompanhar as outras bailarinas sobre o palco, sem atrasos, sem má postura...

Sophie praguejou internamente. Ela não era o problema.

Era ele!

{...}

― Suavidade, Sophie! O que deu em você, hoje?

Ela piscou com força, forçando-se a desviar a atenção do perfil austero do pianista à sua diagonal direita. Estava distraída naquele ensaio, mais do que de costume.

― Vamos repassar. E pela última vez, Sophie, Poppy... Cuidado com as mãos! Vocês são espíritos, não elefantes!

Sophie assentiu, descansando as mãos na cintura, e permitiu-se um último olhar discreto na direção de Gen. Nunca o notara ali, antes; eles ensaiavam com o novo pianista há duas semanas apenas, e o homem jamais dissera uma palavra.

Um espírito, de fato.

― Da capo, piano. Cinco, seis, sete, oito.

A música era perfeitamente executada. Não havia qualquer hesitação, qualquer desvio, e ainda assim... Por que diabos ele arrastava aquela nota?

― Sophie, não atrase. Exato. Muito bem. ― Ela sorriu. Sentia-se vitoriosa por ter identificado aquele erro, pequeno o suficiente para passar despercebido por todos os outros, mas que lhe incomodava profundamente. Se não quisesse perder o andamento da coreografia, era obrigada a ignorar o atraso da música. Parecia antinatural. A senhora Phelan sorriu abertamente ― Excelente, garotas. Alonguem por meia hora e estão dispensadas.

Sophie sentou-se e passou a trabalhar nas pernas. Era sempre a última a deixar o salão, pois precisava tomar muitas precauções extras, alongar-se com cuidado especial. Sentia tudo com muita intensidade desde que se entendia por gente; era um traço de sua personalidade. Assim como algumas pessoas são impulsivas e outras, retraídas, Sophie era sensível. Sentia cada músculo de seu corpo individualmente, era muito afetada por mudanças bruscas de temperatura, tinha uma especial conexão com os sons e imagens.

Há vários meses sentia dores nas pernas. De todas as sensações, a dor era sua principal companheira, da qual não podia fugir ou tentar a barganha. Podia apenas senti-la, suportá-la e, por que não?, ridicularizá-la. Era sua maneira de aceitar a dor que lhe cabia. Fora abençoada com uma mente completa até o topo de cores e sabores, para o bem e para o mal.

― Até amanhã, Gen. Obrigada pelo ensaio de hoje. ― Oh, droga. Ele não podia sair tão cedo, ela precisava lhe falar! Decidindo que uma tarde sem todos os alongamentos não a mataria, Sophie levantou-se de um pulo e correu o mais discretamente possível até a porta.

Ela torceu o nariz. Correr discretamente, que piada.

― Espere! ― chamou o rapaz que já se dirigia às escadas. Ele congelou no lugar, talvez um pouco surpreso, e virou-se devagar.

Ela soergueu uma sobrancelha. Nunca havia visto seu rosto antes, o que certamente era uma pena ― pois Gen tinha os olhos mais singulares do mundo todo, disso ela estava certa; era um tom translúcido de lavanda, tão claro que poderia ser descrito como leitoso. Se aqueles olhos não estivessem focados em seu rosto com atenção, avaliando-a, Sophie teria jurado que Gen era cego.

Aqueles olhos não eram possíveis.

― Você arrasta algumas notas ― Não era uma pergunta. Ela deveria ter sido mais sutil, pensou consigo. ― Por quê?

Gen observou-a com o rosto impassível por meio segundo, então virou-se e desceu as escadas sem pronunciar uma única palavra.

― Ei! ― Ela disparou atrás dele, atrasada pelas sapatilhas ainda atadas a seus pés. Gen era absurdamente alto e suas pernas eram longas, uma grande vantagem quando se quer despistar alguém. Quando Sophie atingiu o primeiro andar, Gen já havia ganhado a rua. Não havia qualquer possibilidade da garota segui-lo no frio de Londres vestida com um collant fino. ― Maldito. Amanhã você não me escapa.

{...}

Gen Ito compareceu na manhã seguinte. E como poderia se ausentar? Era seu dever conduzir as músicas de ensaio e treinamento. Faltar ao ensaio seria um desrespeito para com todos ali, ainda que outro pianista pudesse tomar seu lugar. Sophie entendia essa convicção e estava certa de que Gen não ousaria desrespeitá-la.

― Bom dia ― cantarolou ela quando o viu entrar na sala, já pronta para o ensaio. Gen não se dignou a olhar em sua direção, limitando-se a pousar as pastas e partituras sobre o piano. Ela saltitou ao seu redor ― Chegou cedo, hein? Você não precisa estar aqui enquanto nos alongamos, mas sempre é o primeiro a entrar, porque assim pode passar despercebido. Como se fosse parte da mobília.

Ele buscou as chaves do piano nos bolsos, calado. Seus movimentos eram indiferentes.

― Não pense que essa estratégia vai funcionar comigo. Estou de olho em você há algum tempo, desde que percebi que você atr-

― A grosseria parece ser um de seus hábitos ― ele a interrompeu, sucinto, erguendo aqueles olhos assustadores para ela. Sophie atrapalhou-se com seus próprios pés, tropeçando para trás. Apesar de sua voz ser baixa e leve, havia em Gen um tom brusco e agressivo que a surpreendeu. Antes que pudesse recuperar o equilíbrio por completo, duas garotas entraram na sala. Fiona, a loura, sorriu para Sophie.

― Bom dia, Sophie.

― Bom dia ― ela murmurou, desconcertada. As outras bailarinas já se alongavam com firmeza, girando os pés sobre si mesmos, esticando dedos e membros, dobrando-se ao meio como cobras esguias. Assistir ao alongamento de bailarinas é um verdadeiro espetáculo; são flexíveis e suaves como água corrente. Sophie afastou-se do piano e iniciou os alongamentos na barra, tentando evitar o contato visual com Gen. Não que isso fosse um problema, é claro, já que o rapaz nunca virava as costas para o piano.

Durante toda a manhã, Gen tocou sem mover um músculo além dos braços. Era quase como se estivesse no automático, passando pelas notas sem percebê-las. Ele era um músico fora do comum, Sophie notou, excelente no que fazia. Mas lhe faltava alguma coisa e ela não sabia identificar o que era. Quando ele se atrapalhava em alguma nota, Sophie observava suas costas enrijecendo.

― Quer tomar um café com a gente, Sophie? ― Fiona abraçou-a pela cintura no final da manhã. Sophie sorriu, incapaz não notar a diferença no modo como as garotas a tratavam agora. Alguns meses atrás, essa cena seria virtualmente impossível.

― Hoje não, meninas. Preciso preparar uma sapatilha nova. ― Ela sorriu, pesarosa, levantando as suas sapatilhas atuais, gastas e velhas. Poppy revirou os olhos.

― Não a invejo. Detesto ter que preparar sapatilhas. Deveriam deixá-las prontas para o uso assim que vêm da fábrica!

Sophie não pôde deixar de concordar. Enquanto descia as escadas, dirigindo-se ao almoxarifado, deixou o pensamento vagar até encontrar os olhos de Gen. Era curioso como eles pareciam ainda mais claros em contraste com os longos cabelos negros; veio à sua mente a imagem de um corvo, sério e distante, de olhos brancos e cegos. Era um lindo quadro.

O almoxarifado era uma sala comprida e escura, pois ali não havia janelas. Longas mesas de madeira pesada tomavam boa parte do espaço, abarrotadas de tecidos, linhas, figurinos, papéis e rolos. Cinco prateleiras altas formavam corredores ao fundo, lotadas até o último centímetro de mais tecidos e figurinos. Sophie caminhou alguns metros pelo corredor do meio, procurando a caixa de sapatilhas de seu número, então escolheu um par. Voltou ao vestiário do terceiro andar a fim de buscar seu estojo de ferramentas, então entrou no salão de dança e fechou a porta.

O processo de personalizar uma sapatilha é único para cada dançarino; Sophie gostava de pontas aderentes, não o suficiente para atrapalhar a suavidade do movimento. A primeira coisa a fazer era amaciar a ponta da sapatilha, subindo com os calcanhares sobre o solado para quebrá-lo, então batê-lo com força em alguma superfície sólida. Depois, com a lâmina afiada de um estilete, raspar a sola lisa para evitar deslizar no chão. Ainda com o estilete, Sophie riscava linhas em ziguezague na altura da planta do pé; na meia-pata, raspava a sola com uma escova de cerdas de metal. Ela buscou o carretel de linha cor-de-rosa no estojo, arrebentando com os dentes a quantidade necessária para cerzir as fitas da sapatilha. O importante não era fazer uma costura bonita, apenas firme e limpa o suficiente para aguentar os saltos. Quando Sophie julgou ter feito um bom trabalho, calçou as novas sapatilhas para testá-las e amaciá-las. Ela se dirigiu à barra, alongando os braços, então começou uma série de demi-pointes e pliés. As sapatilhas careciam de alguma maleabilidade, mas o tempo se encarregaria disso.

Uma hora mais tarde, devidamente vestida e com bastante fome, decidiu almoçar em uma confeitaria ali perto onde se vendia um folhado fitness de brócolis que ela simplesmente adorava. Era sábado, o que significava parte da tarde livre e nada de espetáculo à noite; portanto, poderia se demorar pela cidade o quanto desejasse. Sophie certamente adoraria passear por algumas lojas, quem sabe comprar algum ímã para a geladeira ou uma bonita plantinha para pendurar na janela da cozinha. Ela deixou a padaria a tempo de flagrar alguém estranhamente parecido com Gen esgueirando-se para dentro da Academia.

{...}

A semana seguinte só pode ser descrita como entediante. Sophie manteve o ritmo, ensaiou por todas as manhãs e tardes, fez três visitas a seu fisioterapeuta, apresentou-se com um excelente desempenho em todos os espetáculos. Tudo correndo como o esperado. Em outras palavras, um grande aborrecimento.

Gen ainda a intrigava, porém. Ouvi-lo tocar era uma experiência impressionante quando se respirava fundo e simplesmente escutava. A música fluía pela sala como uma brisa, espiralando através dos dedos de um pianista que passava despercebido, apesar de seu tamanho.

Quando Sophie mencionou Gen e sua melodia orgânica em uma conversa com as outras bailarinas, recebeu uma série de reações distintas entre si.

― Orgânica? ― Poppy questionou, franzindo o cenho.

― Exato ― Sophie replicou, um tanto impaciente. ― Não percebem? O acompanhamento do piano parece surgir do nada, como se fosse parte da sala tal qual as paredes ou o chão.

― Eu sequer notei que o antigo pianista foi substituído ― Fiona, a mais alta do grupo, confessou. Sophie bateu a mão espalmada no chão.

― 'Taí meu argumento! Ninguém sequer nota a presença do Gen em sala! Alguém aqui já conversou com esse cara?

― Ele me dá calafrios ― Megan interrompeu o alongamento da perna esquerda e olhou no fundo dos olhos de cada garota ali, como se as estivesse desafiando a contradizê-la. ― Aqueles olhos brancos são tenebrosos, escrevam o que eu 'tô dizendo, são olhos de espírito. Aquele cara não é desse mundo.

― Ora, pelo amor de Deus ― Sophie elevou um pouco a voz, irritada. ― Não coloque essa baboseira esotérica no meio do assunto, Megan. Além disso, mesmo que fantasmas andassem por aí puxando o pé de criancinhas à noite, Gen certamente encontraria coisa melhor pra assombrar que um piano.

― Mas, Sophie ― Fiona interveio. ― Você mesma disse que ninguém jamais falou com esse Gen, e que ele parece ser invisível, e que a música soa como se viesse de outra dimensão. Não acha que a teoria da Megan pode ter algum fundo de verdade?

― Todo mito é baseado em fatos ― Megan afirmou, resoluta, parecendo muito satisfeita por ter recebido créditos.

― Não foi nada disso o que eu disse! ― Sophie jogou os braços para cima em um gesto dramático, ao mesmo tempo em que se dava conta de que, sim, aquilo fora exatamente o que ela dissera. ― Ninguém o vê porque ninguém o nota, pra começo de conversa. E ele pode muito bem estar usando lentes de contato, não é?

― Vocês viram aqueles cabelos escuros e longos, como são leves? ― Megan prosseguiu como se Sophie jamais tivesse dito coisa alguma. ― Viram a pele branca? Os olhos opacos, o comportamento esquisito, a música enfeitiçada? E ele sempre está vestido de branco!

Parece que não fui a única a notá-lo, afinal, Sophie ponderou consigo mesma.

― Misericórdia ― Fiona agarrou o braço de Poppy, a única católica do grupo, que se benzia freneticamente. Sophie revirou os olhos.

― Vocês acham q-que… ― Fiona sussurrou baixinho, aterrorizada, e engoliu em seco ― ...que ele pode ser um willi?

O QUÊ? ― gritou Sophie.

É ISSO! ― gritou Megan.

AAAAH! ― gritou Poppy.

Sophie esfregou as têmporas com os dedos. Aquela conversa estava tomando rumos inesperados.

― Garotas, isso não faz sentido algum ― ela sentenciou calma e pausadamente na tentativa de controlar os ânimos. Poppy e Fiona pareciam ter sido jogadas de um penhasco e Megan trazia no rosto uma expressão de triunfo. ― As willis são mulheres, noivas abandonadas que odeiam homens. Além disso, vocês não podem estar levando essa coisa de fantasma a sério.

― Ele é a verdadeira encarnação dos noivos abandonados ― Megan se pronunciou. ― Será que não percebe, Sophie? Nunca assistiu “A Noiva Cadáver”?

Sophie sentiu uma súbita necessidade de segurar o rosto entre as mãos e chorar, ou fugir em disparada porta afora, ou ― talvez a melhor opção ― jogar Megan pela janela. Não sabia por que diabos se importava tanto com o que as pessoas pensavam ou deixavam de pensar a respeito de Gen, mas parecia-lhe uma grande injustiça existir rumores maliciosos como aqueles correndo.

Ele merecia um pouquinho de compreensão.

― Diga o que quiser, Megan ― vociferou ela, surpreendendo a si mesma. Não era do tipo de pessoa que vociferava. ― Você é livre para inventar o boato que bem desejar; mas não exerça essa liberdade sem entender exatamente as consequências que podem nascer dessa sua língua ferina. ― Sophie lançou um olhar demorado para as outra garotas e saiu da sala, tendo plena consciência de que aquela havia sido uma cena da qual se recordaria para sempre.

{...}

Como Sophie previra, no ensaio seguinte nenhuma bailarina manteve-se muito perto de Gen. Aquilo era muito pior do que quando simplesmente o ignoravam, pensou ela. As garotas superpovoaram o lado sul da sala, o mais distante possível da locação do piano, e só dissiparam a aglomeração quando a Sra. Phelan ameaçou colocá-las em posição de prancha por quinze minutos. A maioria das bailarinas parecia assustada, embora algumas poucas estivessem simplesmente curiosas. O ensaio rendeu menos do que o esperado.

― Estão dispensadas por hoje ― Amelia Phelan anunciou, imaginando consigo mesma que a súbita frente fria pudesse ter afetado negativamente suas garotas. Todas pareciam ter perdido o foco na música. ― Alonguem-se e podem ir para casa. Não quero saber de atrasos no espetáculo.

Sophie aproveitou o tempo livre para exercitar as pernas. Não quis dissimular seu descontentamento com as outras meninas; era melhor ficar um pouco sozinha, aproveitar o espaço para praticar. Sabia que não poderia se exceder, mas evitar a dança por pura prudência, naquele momento, a machucaria muito mais.

Quando encontrou-se sozinha no salão, apagou as luzes.

Não havia sons, mas havia música ― seus passos, sua respiração, os batimentos cardíacos que mediam o tempo. Ela sentiu aquela escuridão tomando forma, moldando-se ao seu redor, e permitiu que a correnteza impalpável a guiasse. Ninguém poderia ver as espirais contorcendo-se em seus braços, sussurrando em seus ouvidos, acariciando-lhe a pele. Ninguém poderia ouvir a melodia que embalava sua dança, ou perceber como o chão era macio sob seus pés descalços. Não entenderiam como seus membros haviam se tornado uma extensão do próprio nada.

E, conforme dançava mais e mais, outra melodia ― mais doce, melancólica e suave ― inflitrava-se pouco a pouco na escuridão, reescrevendo a seu bel-prazer a partitura daquela canção. O que antes era uma promessa de esperança e calor agora lamentava todas as dores do mundo, e a tristeza a consumiu como fogo em uma folha seca.

Sophie abriu os olhos, assustada. Sentia o chão de madeira pressionando seu rosto, o corpo jogado como se fosse uma boneca de pano. A única luz da sala eram feixes brancos que se infiltravam pelas cortinas ferindo-lhe os olhos. Ela sentou-se lentamente, relutante em secar as lágrimas que umedeciam suas bochechas.

O que acabou de acontecer aqui?

Apurando os ouvidos acima do torpor que a dominava, percebeu as notas baixas da música que ouvira, aquela que transformara sua dança em um memento mori.

Alguém dedilhava as teclas de um piano no andar de cima.

Ela permitiu-se apenas escutar por alguns minutos, recuperando-se da experiência assustadora, então ergueu-se e seguiu o som até uma saleta irrelevante do quarto andar. O grande átrio de chão amadeirado estava deserto ― naquele horário não deveria haver gente ensaiando. A porta da saleta estava aberta, permitindo que os acordes ressoassem pelas paredes imponentes, brincando com a penumbra. Ela espiou o interior da sala e se surpreendeu com o que viu.

Naquele exato momento ― gritando palavras não-ditas pelo soar das cordas retesadas, de olhos fechados e expressão transtornada ―, Gen Ito era irreal, instável, um registro antigo e esquecido de algo terreno. Então o momento se foi, e ele abriu os olhos de impressionante dureza para fitá-la como se tivesse ciência de sua presença.

Sophie arriscou alguns passos vacilantes, sentindo como se perturbasse o receptáculo de um rei adormecido. Gen acompanhava seus movimentos com os olhos, e ela retribuía o olhar sem ousar piscar, temendo que aquele homem pudesse se desfazer caso o contato se rompesse pelo mais breve instante. As mãos de Gen tremiam, retesadas, como se a tensão dos músculos ameaçasse romper.

― Por que está aqui? ― Ouvi-lo falar era quase insuportável, aquela voz baixa quebrando o silêncio. Sophie fechou os olhos com força, inspirou fundo e tornou a abri-los. ― O que está fazendo, me perseguindo?

― Você está sofrendo ― ela afirmou, ignorando as perguntas. O silêncio já não era absoluto e seus ouvidos toleravam com mais facilidade o som instável. Ela observou, fascinada, as mãos crispadas e rígidas de Gen relaxando aos poucos. Ergueu o olhar em busca de algum sinal que a permitisse desvendar aquele homem. ― Por que está sofrendo? O que te atormenta?

― Além da mulher perturbada que anda me infernizando nas últimas semanas? ― ironizou, fechando a tampa do piano com um baque surdo. Ele passou por Sophie com pressa, mantendo a atenção fixa em algum ponto atrás dela.

― Por favor, espere!

Sophie jamais entenderia o que levara Gen a atendê-la. Há um segundo ele parecia disposto a desaparecer daquele lugar o mais rápido que lhe fosse possível; ainda assim, paralisou no exato lugar em que estava ao mais imperceptível som de sua voz. Quase como se fosse incapaz de ignorar um pedido dela.

― Espere ― ela repetiu, embora soubesse que ele a ouvira da primeira vez. Suas mãos moveram-se involuntariamente e envolveram os dedos longos da mão direita do pianista, que se sobressaltou, mas permaneceu imóvel. ― Suas mãos estão tensas. ― Sophie percorreu a extensão da pele irregular com a ponta dos dedos, sentindo a aspereza rude do que pareciam ser cicatrizes profundas. Seu toque identificava pequenos caroços proeminentes na junção dos metacarpos e falanges, e a vitalidade do calor que invadia sua própria pele a tomou de assalto.

Havia delicadeza e sensibilidade naquelas mãos, e uma fragilidade que baixou sua guarda. O dedo mínimo tremulava, rígido.

― O que aconteceu?

A estoicidade de Gen ― que media mais de um e noventa ― evocava em Sophie a imagem impressionante do Davi de Michelangelo. Ele respondeu à sua pergunta sem desviar o rosto do que quer que prendesse sua atenção à frente.

― Um acidente doméstico ― sua voz soava com surpreendente firmeza, despida de emoção. ― Armários de cozinha mal instalados… uma das prateleiras derrubou a geladeira sobre mim. Minha mão foi esmagada sob quase duzentos quilos. ― Ele girou o punho com habilidade e segurou os pulsos de Sophie, virando-a de modo que pudesse encará-la nos olhos. Ela engoliu em seco, assustada com sua expressão vazia. ― Os ossos foram estilhaçados, cada um deles. Rompidos em fragmentos minúsculos.

― Há quanto tempo…? ― ela sussurrou.

― Três anos. Tempo o suficiente para a recuperação, não acha? De acordo com os fisioterapeutas, eu quase não sentiria a diferença. ― Gen esticou os lábios em um sorriso de escárnio, pressionando um pouco mais os pulsos dela. ― Mas eu sinto. Perdi quarenta por cento da função motora do dedo mínimo. Minha mão queima em brasa quando passo muito tempo tocando, meus dedos não têm força o suficiente para pressionar as teclas. ― Ele agarrou a mão dela e a pousou sobre sua pele, deixando que ela sentisse com a palma o que tentava ilustrar.

Gen guiou seu toque de maneira rude, como se pudesse fazê-la entender o que sentia simplesmente pela força de sua vontade.

― Eu costumava ser o melhor pianista da Ásia. Executava com perfeição peças que enlouqueceram homens; talvez eu mesmo tenha experimentado a insanidade. Minha mente era caótica, mas preenchida pela música, e isso me bastava. Agora, o que me resta? Uma arte vazia, músicas imperfeitas, incapacidade. Como um maldito amador!

Sophie levou um segundo para se recuperar daquela chuva raivosa de palavras ressentidas. Eles estavam muito próximos, e a luz fraca que vinha do lado de fora permitia apenas que se visualizassem silhuetas. Confiando em seus instintos mais que em sua mente, aproximou-se do pianista até que o espaço entre eles fosse menor que um suspiro. Seus braços envolveram os ombros largos de Gen, que recebeu o abraço com certa relutância.

Depois de alguns segundos longos demais, ele desvencilhou-se dela, virou-lhe as costas e desapareceu na escadaria iluminada.

{...}

Aquela era a primeira vez em que os papéis se invertiam. Sophie tinha esperanças de que isso acontecesse, mas não imaginava que seria tão cedo. Gen a procurou depois do ensaio do dia seguinte, sob o olhar curioso e desconfiado de todas as garotas.

― Preciso falar com você. ― Ele a surpreendeu, surgindo por suas costas sem que ela notasse. Sophie virou-se sentindo um nó na garganta, preparada para encontrar uma expressão irritada ou, no mínimo, descontente. O rosto de Gen, ao contrário do que pensara, não expressava emoção alguma.

― É claro.

Eles seguiram em silêncio ao andar de cima, onde os últimos alunos preparavam-se para voltar às suas casas. A saleta da tarde anterior estava fechada, como se nunca fosse efetivamente utilizada ― exceto por eles dois. Um lugar secreto no âmago daquela construção.

― Peço desculpas por ontem ― ele sentenciou, resoluto. Sophie negou com a cabeça.

― Não há pelo que se desculpar. Deve ter sido difícil reviver todas aquelas coisas, não era meu direito exigir que me contasse.

Gen a observou com um ar de curiosidade, como se estivesse diante de uma espécie engraçada de passarinho.

― Você não precisa tentar justificar meu comportament-

― Eu era a prima ballerina ― ela o interrompeu. Gen murmurou um "perdão?" confuso. ― Antes de romper o ligamento do joelho, eu era a dançarina principal. Vê essa cicatriz? Tão bonita quanto as suas, suponho… presente da cirurgia. Eu não sabia se poderia dançar novamente.

― Sinto muito. ― Ele pousou a mão em seu ombro e Sophie soube que estava sendo sincero.

― Eu também ― ela suspirou. ― Não foi um período fácil, você entende. Voltei a dançar há pouco tempo, minhas pernas doem pela falta de treino e, é claro, pela cirurgia. Os papéis principais foram um sonho bom do qual acordei.

Gen pressionou seu ombro de forma solidária e ela sorriu.

― Sei que uma mesma experiência pode ser diferente para cada pessoa, e me arrisco a dizer que estou lidando com isso mais facilmente que você. Ainda assim… acreditaria em mim se eu dissesse que entendo a sua dor? Que sei o quanto significa pra você?

― Eu estaria mentindo se negasse.

Ele estendeu as mãos para ajudá-la a se levantar. Sophie permitiu que ele a erguesse, então sentou-se timidamente no banco do piano e ergueu os olhos castanhos.

― Toque para mim, Gen.

E Gen tocou.

Em um primeiro momento, uma única nota solitária ecoou pelas quatro paredes, perdurou como uma promessa doce e foi abafada aos poucos pelo silêncio. A seguir, ouviu-se uma sinfonia de um timbre só, muito melancólica, muito bela, e entre acordes e compassos a música recitava o nome de Sophie. Sua figura era apreciada, eternecida; ouvia-se piano e pianista louvando a bailarina de suas cantigas.

Criatura entre angelical e mulher, entoava o piano murmurante, que encarna as belezas do mundo.

E Sophie dançou. Dançou sozinha, depois acompanhada em um pas de deux imperfeito, com Gen em seus braços e as tábuas rangendo sob seus pés.

― Então isso é a arte? ― Gen sussurrou entre seus cabelos. ― Amar a beleza imperfeita desse mundo?

― Eu acredito fielmente que sim ― ela concordou entre sorrisos.

E eles dançaram outra vez.

{...}

Há dias em que a chuva é tão constante e onipresente que é fácil se esquecer do sol. As ruas amanhecem sob um céu cinzento de nuvens frias, o raiar do dia se insinua em cores cada vez mais claras e esbranquiçadas. E o céu nublado segue a resguardar o anil, o sol e o calor para dias mais felizes.

Dentre pessoas frias e construções igualmente frias ― segundo as regras de etiqueta e arquitetura daquela cidade molhada ―, ergue-se imponente um prédio amplo, de escadarias polidas que dão acesso à rua, modestas e sólidas colunas cedendo aparente sustentação ao térreo e janelas regulares que se intercalam pelos andares ímpares. A fachada é sóbria e neutra em seus tons sujos pelo tempo, reflexos distorcidos do céu noturno que, graças às nuvens de chuva e poluição, torna-se uma espessa abóbada entre Londres e as estrelas. A vidraça da janela do extremo sul, no terceiro andar, está especialmente fosca. Há mais de quatro horas o corpo de bailarinas dança sem trégua no salão espelhado. A transpiração coletiva se condensa contra o vidro gelado e embaça qualquer esperança de se vislumbrar o trânsito lá fora, obrigando as jovens moças a manter as mentes esvoaçantes muito bem presas sob camadas de spray fixador e grampos para cabelos.

Ao som do primeiro acorde do piano, desaparecem as bailarinas; em seu lugar restam as jovens noivas abandonadas, viúvas antes do casamento, flores perenes mortas ainda na castidade. Eram os espíritos flutuantes dançando como figuras voláteis na neblina de Londres. E, ao centro, Giselle em negação, pálida como se já não mais pudesse dançar.

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Notas de Rodapé

Obrigada pela sua leitura <3

Photo by Andrei Ghergar

Apreciadores (2)
Comentários (1)
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Postado 13/07/21 22:55

Tudo é tão perfeitamente construído, dos dois personagens principais aos coadjuvantes, do cenário aos parágrafos tão sutis que deles o significado é extraído como na música instrumental que, sem palavras, consegue falar à alma em sua própria linguagem.

As perfeitas descrições das tecnicalidades do balé conseguem ser claras e compreensíveis sem o tédio que normalmente envolve esse tipo de coisa, chegando mesmo a ser interessantes - pra mim, pra minha surpresa, que nunca até então havia me interessado por balé. Se no início esperava-se o clássico romance entre duas pessoas tímidas, frágeis, tão comum na literatura de nossa época, nas fantasias românticas, encontra-se precisamente isto mas aperfeiçoado de tal forma que se torna superior à absolutamente tudo ao que é semelhante, de modo que as outras obras nesta linha se tornam - se me permite ofender alguns dos best-sellers do New York Times - patéticas tentativas de descrever algo que aqui se encontra não apenas perfeitamente descrito, mas também perfeitamente explorado.

O encontro perfeito de duas almas imperfeitas - esse é o amor em sua forma mais pura, encontrado nesse conto insuperável.

Obrigado por compartilhar, Nyels, e pelo desejo despertado de ver Giselle e balé e ouvir mais pianos. Meus parabéns; sinta-se admirado e saudavelmente invejado, espero um dia conseguir produzir algo de tamanha beleza e sensibilidade.

Postado 22/07/21 09:10 Editado 22/07/21 09:13

Levei algum tempo para saber como responderia a um comentário tão gentil ❤

Eu sou uma grande apreciadora do balé, embora tenha dois pés esquerdos e não consiga dar uma pirueta que seja. Por mais bonitas que as apresentações sejam, o cotidiano de um artista é bem diferente; confesso que precisei de muito tempo para descobrir esses detalhes. Coloquei algum esforço na descrição desse cotidiano, sim, e fico muito feliz por saber que trouxe resultado ❤

Eu não consigo escrever dramas -hehe. Melhor dizendo, meus textos dramáticos não costumam ser muito carregados. Acho que prefiro trabalhar com personagens e cenas mais leves, o que ajuda um pouco no momento de construir um romance.

Agradeço pelo elogio (quem dera eu escrevesse algo bom o suficiente para ser publicado!). Acho que me comparar com grandes escritores da lista do NYT é um passo maior que minha perna, mas ainda é lisonjeiro receber um comentário assim -hehe

Por fim, cada autor tem seu próprio jeito de entender o mundo e isso se reflete no estilo de escrita. Fico feliz pelos elogios, mas eu acredito francamente que seus textos são, no mínimo, tão bonitos e sensíveis quanto os meus (pois isso é tudo subjetivo, no fundo).

Muito obrigada pelo comentário tão amável!❤