Mar de penas
Vento Áureo
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 06/09/21 05:03
Gênero(s): Crônica Drama Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min
Apreciadores: 2
Comentários: 1
Total de Visualizações: 81
Usuários que Visualizaram: 3
Palavras: 342
[Texto Divulgado] "O Último Delírio de um Rei" Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos. O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Mar de penas

Existe uma pequena trava na minha cabeça. Ela tem formato de uma chave, mas mesmo sabendo qual porta ela abre, não a usei até hoje.

Tenho recolhido todas as memórias jogadas, esperando que de alguma forma eu pudesse organizá-las. Infelizmente, percebi que em grande parte, elas me faziam mal. Mesmo que eu tenha esperado pacientemente que pudesse ressignificar, não consegui chegar nesse ponto.

Então eu olhei a trava mais uma vez. Todas as minhas inseguranças, todos os meus traumas...Não era responsabilidade minha, mas do homem de vermelho. Ele teceu uma teia de culpa e medo, para que eu não girasse a trava.

Agora percebo que esperei tempo demais. Quando ele foi embora, ainda me deixou presa. E eu esperei que ele voltasse, com medo de abrir a porta. Como uma criança que depende de sua mãe, como um animal que admira seu dono. Na trava, ele havia deixado um laço vermelho, para dizer que estaria ali caso eu tentasse ir.

Eu vivi mil noites em claro, encarando aquele laço, esperando qualquer sinal. Porque eu o amava, mais que a mim mesma. E foi isso que me sufocou durante cada segundo em que estive com ele.

Hoje, eu encaro a trava. Tão perto que posso ouvir cada som de desespero. Meus pés descalços não possuem firmeza ou tão pouca certeza de onde estão indo. E mesmo assim, eu reprimo o medo de quebrar. Pego o laço vermelho em minha mão e o transformo em cinzas, só de olhar. Com as mãos firmes e não mais receosa, eu giro a trava e destranco a porta.

Vejo uma luz, seguida de mãos estendidas saindo da porta. Com menos medo, eu agarro a primeira mão e observo as outras me puxarem pelo corpo.

Agora a gaiola está vazia, e o homem de vermelho não é mais um algoz. Só me resta questionar se algum dia ele voltará, desejando buscar seu passarinho precioso. E se ele voltar, não estarei mais sozinha. Terei centenas de pássaros comigo, prontos para o enterrar de vez em um mar de penas.

❖❖❖
Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 12/10/21 13:41

Relacionamentos abusivos são uma das piores coisas que podem acontecer em nossas vidas. Nos sentimos como pássaros tão indefesos - e somos mesmo, passáros indefesos perante um algoz.

É hediondo o modo como esses monstros têm poder sobre nós. Mesmo quando estão longe, mesmo quando se afastam, seus fantasmas ainda pairam sobre nossas cabeças, nos infligindo medo, nos impedindo de darnos nossos próximos passos, rumo ao lado de fora da gaiola.

Sinto meu coração em profunda alegria por cada pássaro que conseguiu sobreviver e se sentir acolhido em um mar de penas amigas. Mas sinto meu coração em profunda dor por cada pássaro que morreu preso, sufocado, dentro de gaiolas covardes...

Obrigada por compartilhar esse texto conosco, ele é extremamente necessário!

Um grande abraço <3