O blefe
Belmiro Maravalha
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 22/09/21 00:11
Editado: 22/09/21 00:38
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
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[Texto Divulgado] "O Último Delírio de um Rei" Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos. O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?
Livre para todos os públicos
Capítulo Único O blefe

O cheiro doce das flores que "enfeitavam" o ambiente e cobriam o caixão do falecido, estava longe de ser agradável. Mas para Chico, que observava o morto á distância, era a fragrância do alívio, o frescor de uma dívida que estava ali, coberta por um véu, em pouco tempo, selada por um belo e pesado tampão de cimento.

Chico recendia contentamento, porém tinha de esconder a alegria de saber que o seu maior credor tinha as narinas cheias de algodão. Uma sorte tremenda. Tremendo azar de Constantino, pois a medida que o tempo ia passando, e Chico não dava ar de sua graça, não fazendo nenhuma menção de efetuar o pagamento da dita dívida, o futuro defunto já andava a procura do caloteiro, que sempre disposto a se esconder quando ouvia alguém chamar pelo seu nome, andava furtiva e cautelosamente pelas redondezas.

Claro que ainda havia o risco, pensava ele, da viúva querer cobrá-lo, mas pelo que conhecia do seu credor, provável que ela nada sabia dos negócios do marido. E existia sempre a alternativa eficiente da negação. Mesmo porque, não havia assinado absolutamente nada. Um pouco mais confiante do controle da situação, aproximou-se, encostando a barriga no caixão. Pôde então notar melhor toda a palidez e a cara de morto do seu implacável perseguidor.

Soltou um longo suspiro, que simbolizava a paz e tranquilidade que sentia naquele momento. Os que estavam á sua volta, notaram aquele seu instante de pura reflexão, e a incompreensão do porque das pessoas partirem, assim tão de repente. Ainda recebeu alguns tapinhas nos ombros e um olhar reconfortante da viúva, como que agradecendo pela tristeza que ele derramava com aquele profundo observar e suspirar. Ficou ali, reparando em todos os detalhes, imaginando aquele corpo todo sendo transformado em matéria orgânica. Tudo se decompondo, até somente sobrarem os ossos.

Tremenda sorte, confabulava consigo mesmo. Depois que lhe serviram um saboroso café, animou-se. Começou a fazer planos com o dinheiro que economizaria com a falecida dívida. Mas quando vieram aquelas empadinhas secas e insossas, caiu na triste realidade, de não ter um vintém sequer. Não estava economizando nada, pois nada tinha. Mesmo assim, era grato pela graça concedida. Já se preparava para uma saída estratégica e silenciosa, quando algo lhe chamou a atenção.

O dedo indicador do defunto se moveu. Pelo menos foi a primeira impressão. Ficou com essa pulga atrás da orelha por mais alguns instantes, até que teve absoluta certeza, o dedo de Constantino tinha se mexido. E pela segunda vez. Seu coração só faltou sair pela boca afora. As pernas bambearam, começando a suar frio. Ele já ouvira falar sobre movimentos involuntários em pessoas mortas, mas nunca presenciara um, assim, frente a frente. Tentou se acalmar, teimando em pensamento ser aquilo somente uma merda de movimento involuntário.

Porém, quando viu a mão erguer-se e abaixar-se rapidamente, não teve mais nenhuma dúvida, não era a merda do movimento involuntário. Não sabia o que era, nem fazia ideia do que estava acontecendo. Olhou em volta, para se certificar que alguém compartilhara o fato. Nada, ninguém vira nada. Quis sair do lugar, dar um passo para trás, ou simplesmente correr pela rua afora, mas não conseguia. Estava colado ao chão. O corpo não respondia, tamanho era seu estado de pânico. Um turbilhão de pensamentos e ideias passaram pela sua cabeça, e o que viria acontecer, jamais poderia ser imaginado por aquele pobre e assustado homem.

Constantino ergueu-se, e com a língua parecendo estar amortecida e a boca como que endurecida, balbuciou algo indecifrável, voltando logo em seguida para o aconchego do seu caixão almofadado. Houve um princípio de confusão, gritos, pessoas tentando se esconder e outras saindo pela janela. Mas foi só. Quando viram que se tratava de alarme falso, voltaram aos poucos, como cães assustados. Chico não. Caiu e ficou. Não suportara o susto.

O acontecido se espalhou pela região. Alguns tentaram explicar o inexplicável, ou davam o caso por encerrado, dizendo ser mesmo coisa do além. Mas a maior dúvida foi o que o defunto falou.

Correram muitos boatos, mas ninguém tinha certeza de nada. Chico, antes de cair morto, entendeu o recado: "Vou te cobrar no inferno". Os dois a essas horas devem estar comendo o pão que o diabo amassou, tendo Constantino muito mais tempo agora para perseguir o assustado caloteiro.

Afinal, para ser um bom cobrador, é necessário saber blefar. Tremendo azar de Chico, que vai poder perguntar para seu implacável credor se era ou não a merda do movimento involuntário.

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