O Tempo na Colina
Endora
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/09/21 14:46
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 11min a 15min
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Palavras: 1913
[Texto Divulgado] "O Último Delírio de um Rei" Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos. O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?
Livre para todos os públicos
Capítulo Único O Tempo na Colina

— Engraçado como esta casa está sempre limpa.

Escondida atrás de uma parede, Catarina ouvia os invasores com a alma dormente de pavor. Reagiria se tivesse coragem, mas não tinha. Preferia acreditar que, se ficasse bem quietinha, talvez eles fossem embora sem lhe fazer qualquer tipo de mal. Esperou em silêncio.

Os dois rapazes conversavam em tons distintos: um, como se temesse ser ouvido por terceiros, sussurrava insistentemente para que fossem embora dali. O outro, destemido, falava e ria alto, e não tinha qualquer intenção de ir embora sem explorar o restante da casa, mas como os apelos do companheiro não deixavam que se divertisse propriamente, concordou com o medroso e ambos se retiraram.

Aliviada, Catarina finalmente pôde relaxar e retomar sua rotina.

Ela nunca recebia visitas, apenas intrusos. Sempre jovens atrevidos que por qualquer razão curiosa, viam naquela casa algum potencial turístico. Sempre se escondia, morria de medo deles. Não tinha medo de rapazes em geral, mas pensava que rapazes que invadem a casa de uma donzela solitária certamente não poderiam ser boa coisa.

Mas apesar desse aparente talento da casa para atrair jovens de índole questionável, Catarina adorava viver ali. Era uma princesa em seu castelo, e seu reino se estendia até o campo das margaridas.

Na verdade, o castelo de Catarina era uma humilde casinha de madeira, pintada de azul por dentro e por fora, cercada de árvores e de muitas flores. Ficava no alto de uma colina, de onde se tinha alguma visão da cidade, que, Catarina observava com certo desgosto, havia mudado muito, recentemente. Onde, antes, uma discreta avenida se delineava dos dois lados de um riacho, entre os pomares e jardins das residências dos nobres, hoje haviam milhares de casinhas de mau gosto e as pobres árvores tinham sido arrancadas. Onde antes se via o verde vivo de uma vegetação viçosa e alegre, hoje via-se a massa terracota sem forma das telhas das novas edificações. Aquela cidade destituída de sua formosura não merecia fazer parte de seu reino. No domínio de Catarina, tudo era puro, belo e delicado. Por isso Catarina nunca saía dali.

Era feliz em seu pequeno paraíso, onde tinha como companhia os queridos passarinhos que cantavam em suas árvores e o gato listrado que vinha visitá-la sempre. Era um gato livre, que saía todos os dias para conquistar o próprio sustento, mas sempre voltava para Catarina, e não era raro que dormisse ali.

Era muito bom ter aquela companhia, especialmente à noite, quando sua única iluminação era a luz que vinha da Lua. E das ocasionais lanternas de seus visitantes. Catarina tinha medo do escuro, e ter o felino a seu lado a fazia sentir-se mais segura.

Passava suas noites numa cama macia, debaixo de uma janela aberta, por onde o brilho e a graça da Lua entravam e faziam as horas entre o pôr e o nascer do Sol menos sinistras. Mas ela nunca dormia, de qualquer forma. Sofria de uma insônia terrível.

Em seu retiro, Catarina cantava, dançava sob a luz do Sol, sentia o vento brincar em seus cabelos e ouvia seus passarinhos gorjearem à sua volta. Sentava-se na grama alta e contemplava as águas brilhantes do rio que corria lá embaixo, tranquilo. Cuidava de suas flores e de sua adorável moradia. Sempre limpa, como o invasor havia observado.

E assim ela passava seus dias, ouvindo a própria voz ecoar pelo bosque que cercava sua casa, brincando com o amigo gatinho, ou viajando em seus próprios sonhos.

Recordava bem humorada os avisos enfáticos de sua mãe sobre todos os insetos perigosos que o bosque podia conter, mas ela não tinha medo. Era dona de uma saúde de ferro, nunca ficava doente, não importava se se aventurava no meio de uma nuvem de insetos, ou se tomava banho de chuva. Se lembrava de ter ficado doente uma única vez, mas já fazia muito tempo.

Para além do bosque, a mata se abria no vasto campo de margaridas, que antes de serem colhidas e vendidas para decorar as mais belas casas da cidade, eram, por alguns dias, o segundo jardim de Catarina. Ela gostava de passear por ali, mesmo quando não haviam flores. O espaço, o Sol, a brisa morna que corria por ali, davam à Catarina inebriante sensação de liberdade. Além de tudo, era um lugar amigo dos ecos, e quando cantava ali, seu canto podia ser ouvido de longas distâncias.

De vez em quando, Catarina chorava, cedendo a uma amarga sensação de falta, pouco definida, mas nítida o bastante para fazer sofrer aquele doce coração. Mas logo esquecia tudo, levantava o rosto para o céu azul e estava feliz de novo.

Gostava de se debruçar na janela e ver as pessoas passarem na rua. Não eram muitas as pessoas que passavam, mas eram pessoas o bastante para que ela se sentisse menos solitária.

Havia uma pessoa em especial que muito a intrigava: um velhinho que vinha todos os dias, de paletó e chapéu, vestido com toda a elegância que sua simplicidade lhe permitia, que parava diante de seu portão e olhava para a casa por alguns minutos, com olhos ternos e saudosos, e depois ia embora, caminhando devagarinho. A não ser às quintas-feiras, quando ele cruzava o portão e depositava flores na soleira de Catarina. Respeitosamente partia, sem fazer qualquer menção de invadir a casa, e Catarina orgulhosamente recolhia suas flores e as colocava num vaso próximo à janela, onde ele poderia ver, no dia seguinte, que ela havia aceitado o presente.

Algumas vezes, o gentil velhinho teve a chance de ouvir Catarina cantar. De olhos rasos d'água, parou para apreciar a canção, sentindo o sabor adocicado que só uma saudade curada pelos anos pode ter. Ternas recordações que voltavam a se mexer como a pequena bailarina de uma caixinha de música, no instante em que sua melodia começa a tocar.

Ela não tinha um repertório muito variado: apenas três velhas canções de que se lembrava, e as repetia através dos anos, sempre que se cansava de conservar aquele triste silêncio: uma modinha, uma cantiga de roda, uma canção de amor.

Estava Catarina mais uma vez debruçada à sua janela, a sonhar os sonhos da menina que nunca havia deixado de ser. Era novamente quinta-feira, e ela esperava que seu gentil cavalheiro viesse lhe trazer suas flores. Mas as horas avançavam, e ele parecia demorar-se mais do que nunca naquela tarde.

Viu subir a colina um rapaz muito bonito, elegante como o tal velhinho, de chapéu e paletó, e que até se parecia com ele, em muitos aspectos.

Insegura com a visita do estranho, Catarina se escondeu atrás da cortina desbotada e ficou espiando a rua por um pequeno rasgo no tecido.

O moço parou diante das grades enferrujadas do portão de Catarina e seus olhos contemplaram a casa com o mesmo brilho encantador que se via no olhar do velho cavalheiro.

Como em todas as vezes em que estivera ali, olhou esperançoso para as janelas da casa e a procurou pelo jardim.

O gato listrado voltava para casa caminhando por cima do muro, pulou para o jardim e entrou na casa pela janela, perturbando a cortina e revelando quem se escondia atrás dela.

Aquele relance foi o bastante para que os olhos ágeis do rapaz a avistassem, e com um largo sorriso em seus lábios, ele exclamou:

— Catarina!

Ela se encolheu um pouco, mas puxou a cortina e deixou-se ser vista.

O jovem atravessou o portão e se dirigiu à soleira decidido, entrou na casa sem qualquer receio e correu a tomar Catarina em seus braços. Apertou-a contra o peito e beijou-lhe o rosto várias vezes. Sem saber como reagir, ela não disse ou fez o que quer que fosse. Apenas esperou que ele a soltasse, docilmente. E quando foi solta, provou de uma curiosa sensação de abandono.

— Minha Catarina! Você sempre esteve aqui.

— O senhor me conhece?

— Catarina! Não se lembra de mim? Sou eu, Catarina. Sou eu.

Catarina olhou confusa para o rosto dele por um longo momento. Nenhum nome lhe vinha à memória, mas ele lhe parecia estranhamente conhecido. Não podia dizer onde ou quando haviam se encontrado antes, mas sabia que, de alguma forma, ele fazia parte de sua alma. Mas nada disso fazia sentido. Ela simplesmente não o reconhecia.

— Me desculpe, eu… eu não me lembro.

Desapontado, não pôde evitar que o sorriso murchasse um pouco, mas não sentiu revolta por ter sido esquecido.

— Faz muito tempo. Eu jamais me esqueci de você. Querida Catarina... — Tomou a liberdade de segurar as mãos dela, e por alguma razão, ela não recusou o toque, como normalmente teria feito. — Continua tão bela como sempre foi.

Ele não podia deixar de sorrir, por mais que lágrimas inundassem seus olhos. Sua última visão de Catarina era uma recordação muito triste. Contornada de flores, pálida e serena, vestida de branco. Sua beleza sem cor a despedir-se da luz do dia.

Agora essa imagem se desfazia como uma aquarela na chuva, e ele se perguntava se tudo aquilo havia sido mesmo real: Catarina estava ali, de pé, olhando para ele. Estava viva. E ele, por sua vez, sentia-se também mais vivo do que nunca.

— Deve ter sido solitário todos estes anos aqui.

— Anos? Quantos anos? Ainda sou tão jovem...

— Por sessenta anos eu sofri sua ausência. Te levei flores todas as quintas-feiras. Foi numa quinta-feira que aconteceu. Jamais quis que se sentisse só, mas no princípio, levei flores ao lugar errado. Eu deveria saber que nunca deixaria esta casa. Um dia, correu pela cidade a história de que ouviram vir desta casa a voz de uma moça cantando a nossa cantiga. Eu soube naquele instante. Você se lembra, Catarina, de quando éramos crianças e costumávamos brincar juntos?

Então ele começou a cantar e girar numa ciranda com Catarina. Aquela brincadeira, aquela voz, aqueles olhos. Aquela canção. Catarina resgatou todas as suas lembranças perdidas conforme a música avançava por suas estrofes, e finalmente compreendeu muitas coisas.

Durante todos aqueles anos, estivera esperando por ele. Jamais havia sido abandonada, ele esteve sempre por perto.

Por fim reunidos, os apaixonados logo abandonaram a ciranda e começaram a valsar com etérea leveza. Catarina, nos braços dele, cantava mais bonito do que nunca antes. A imagem daqueles dois amantes, enquanto dançavam elegantemente naquela humilde casinha, poderia ser a inspiração para alguma obra de arte, mas não havia pintor que pudesse ter olhos para eles. Apenas o gatinho era capaz de vê-los.

Agora tinham a eternidade para viver o amor que a vida lhes havia negado. Ele já não podia mais trazer-lhe flores, mas não era mais necessário. Eles eram um para o outro toda a cor e a beleza de que precisavam. Além disso, o jardim de Catarina continuava lá, com suas antigas roseiras, que ainda não pensavam em deixar de florescer. Também tinham o campo de margaridas, mas um dia isso tudo deixou de ser suficiente.

A casinha começava a se deteriorar, e por mais que estivessem alheios ao tempo, o tempo não parecia ignorá-los tão plenamente. Numa tarde, eles viram sua linda casinha ser visitada por novos invasores, mas estes eram diferentes de adolescentes em busca de aventura. Eram autoridades, e estavam ali para dar uma sentença final: o palácio de Catarina, em breve encontraria seu fim, e eles teriam que compartilhar a eternidade em outro lugar.

E antes que tivessem que ver reduzida a pedaços de madeira partida a casa que por tantos anos acolhera aqueles dois apaixonados, decidiram partir. E começar tudo outra vez.

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Postado 01/10/21 05:52

Mas que texto delicioso do início ao fim! A partir do "Engraçado como esta casa está sempre limpa", muitas questões surgem. Muitas pistas são deixadas aqui e ali, em parágrafos ao mesmo tempo confortantes e dolorosos... (Passava suas noites numa cama macia, debaixo de uma janela aberta, por onde o brilho e a graça da Lua entravam e faziam as horas entre o pôr e o nascer do Sol menos sinistras)...

Nos parágrafos finais, o mistério é revelado de maneira tão doce, e as respostas para as próprias questões também são tão agradáveis, que parece mais que é um presente sendo desenlaçado e aberto.

Meus parabéns, Endora, e obrigado por compartilhar.

Postado 04/10/21 15:29

aaaaaaaaaaaa meu primeiro comentário recebido aqui, e tão lindo! Muito obrigada, fiquei tão feliz com suas palavras que nem sei o que dizer.

Sua comparação do meu texto com um presente é tão gentil que eu fiquei nas nuvens ❤

Obrigada novamente, eu fico feliz que tenha gostado!

P.s.: por favor, perdoe a demora com a resposta.

Postado 05/10/21 22:53 Editado 05/10/21 22:54

Por Asami, Endora!! Você quer me matar do coração? Que obra mais doce...

Eu estou apaixonada por esse casal, por essa obra e por você!! Sua narrativa é maravilhosa e simplesmente incrível, adorei como foi desenvolvendo o mistério e a primeira cena que me deixou morrendo de medo, como podem sair invadindo a casa dos outros?

Mas o tom de terror, sumiu assim que foram embora e mudou para algo tão puro e doce para entregar um reencontro fantasmagorico perfeito!

Agradeço muito por ter compartilhado sua obra no site, esse é somente meu primeirop comentário aos seus textos, vou devora-los hahahah

Assinado uma pequena vampira enamorada, <3

Postado 12/10/21 00:25

Eu fiquei tão feliz quando recebi esse comentário que nem tive palavras pra responder ❤

Fico toda contente quando alguém comenta que eu consegui criar e manter uma atmosfera de mistério na história. Dá uma sensação de objetivo atingido, sabe? Eu devo confessar que andei me aventurando em tentar escrever um texto com um suspensezinho assim, porque nunca tinha feito isso antes kkkk

Depois de sessenta anos de saudade, ele finalmente pôde reencontrar a Catarina. Não é aconchegante imaginar que um dia, não importa quanto tempo passe, a gente tem uma chance de rever entes queridos que se foram?

Muito obrigada pelas suas palavras de carinho, Shizu! Fiquei muito feliz que tenha lido e gostado do meu conto. Um beijo, vampirinha!

Postado 18/10/21 00:58

Eu te entendo é muito legal como uma recompesa que enche nosso coração de felicidade hahaha~

Imaginar reencontrar entes queridos assim é muito reconfortante e adorável. Obrigado por me dar essa possibilidade imaginaria, Endora.

<3

Postado 11/10/21 23:19

Amo narrativas que começam com um tom e sofrem uma completa metamorfose ao decorrer das linhas. Do início ao fim, fui cativada por sua escrita e pela história desse casal. O final deixou meu coração quentinho e a forma que o mistério foi resolvido me deixou com um sorriso nos lábios. Gosto de histórias assim: doces o suficiente para me deixarem com uma diabete literária!

Obrigada por compartilhar conosco essa obra linda-lindinha!

Parabéns, Endora ♥

Postado 12/10/21 00:30

Obrigada digo eu! Tão bom concluir a noite com um comentário tão carinhoso!

Foi uma pena imaginar a casinha azul da Catarina sendo demolida pela prefeitura, mas foi o empurrãozinho de que eles precisavam pra iniciar uma nova vida.

Fico feliz que a leitura tenha sido uma experiência agradável para você ❤ adorei te ter por aqui. Beijos!

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