Gardênia
Endora
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 20/10/21 15:19
Gênero(s): Drama Romântico
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 8min a 11min
Apreciadores: 2
Comentários: 2
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Palavras: 1383
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Gardênia

Ela entrou em minha vida da mesma maneira que saiu: sem motivo, nem explicação.

Ainda me pergunto o que ela fazia naquela festa. Não havia nada que justificasse a presença dela ali. Mas lá estava ela, brilhava em vivas cores, como o próprio arco-íris no céu. Tornou-se o centro da minha atenção no instante em que a vi.

Aproximou-se de mim no primeiro momento em que me viu fora de qualquer diálogo, como se estivesse me vigiando, esperando que sua chance aparecesse. Puxou conversa de um modo bobo, elogiou meus brincos e meus sapatos, mas deixou tão claro que meu vestido era um horror, que tive vontade de subir e trocá-lo, ou apenas despi-lo ali mesmo. Mal fui capaz de responder. Os olhos dela me tiravam as palavras.

Ela não hesitou em me convidar para sair da festa a seu lado. Mas eu não podia, a festa acontecia em minha casa. Depois desta recusa, ela desapareceu. Lembro-me de ter passado o resto da noite procurando por ela, esticando o pescoço para olhar por cima das outras pessoas. E eu nem podia perguntar por ela. Ao mesmo tempo que ela era um misto de magia, música e fenômeno natural, nada havia nela de extraordinário para que fosse notada no meio de tantas pessoas. Em cada detalhe, era uma criatura tão simples; eu sabia que ninguém a havia visto. Era como se estivesse ali apenas para mim.

Cheguei a me perguntar se não se trataria de uma alucinação ou fantasma. Mas logo vim a descobrir que ela era real.

Quando mais da metade dos convidados havia já partido e a casa parecia grande demais para aquele número de pessoas, ao mesmo tempo que parecia haver pessoas demais para uma casa tão pequena, quando eu me dei conta de que a festa terminara quando ela sumiu de minhas vistas e aquelas pessoas que ali estavam pareciam insuportáveis por nunca irem embora, neste momento eu me levantei e os expulsei. Coloquei todo mundo para fora. Eram umas noventa pessoas. Eu nunca havia feito tal coisa.

O céu adquiria já um tom arroxeado de aurora quando pude finalmente respirar aliviada por aquela festa ter terminado. Fui para o pátio e parei perto da piscina, olhei para o céu cor-de-rosa e respirei fundo. Não pensei em coisa alguma por alguns segundos, e quando me virei para entrar, lá estava ela, ainda mais simplificada do que antes, banhada da luz rosada da manhã, os pés descalços no piso de terracota. Os cabelos já não se encontravam arrumados, caíam livres sobre os ombros dela, mas traziam marcas, aqui e ali, do penteado em que se dispunham algumas horas atrás.

Ela sorriu para mim. Tinha uma leveza de personagem de sonho. Andava com tal delicadeza que parecia flutuar.

E foi com essa leveza e delicadeza que ela veio até mim, e me beijou.

Perguntei-lhe quem era. Tive como resposta um cínico subir e descer de ombros. Ela me deu outro beijo, que não pude nem quis rejeitar.

Perguntei-lhe, então, o que queria de mim. Como se não me ouvisse, ela distribuiu pequeníssimos beijos pelo meu rosto e por meu pescoço. Queria que eu deixasse as perguntas para depois e me entregasse ao momento.

E foi exatamente o que eu fiz.

A primeira manifestação física de nossa paixão se deu bem ali, naquele cenário desolado de fim de festa. Foi algo breve e sutil, testemunhado pelo passarinho que se banhava na fonte do meu jardim e pelas joaninhas que andavam nas folhas de minhas plantas.

Meu sonho de uma noite de verão quis ir-se embora de manhã, mas eu não permiti. Jamais deixei que se afastasse de mim outra vez. Ela parecia tão etérea... eu tinha medo de que desaparecesse para sempre no menor momento de distração.

Ela me disse que sentia sono e me perguntou onde podia dormir.

A conduzi até meu quarto e ela se deitou na cama sem se preocupar com nada mais. Deitei-me também, mas não dormi muito. Em três horas estava de pé, me arrumando para um compromisso de trabalho. Ela dormia tão bonita que não fui capaz de acordá-la. Me despedi com um beijo em seus cabelos, e passei o dia a rezar para que ela ainda estivesse lá quando eu voltasse. E estava. E ainda dormia.

Ela dormia muito, e ainda assim estava sempre cansada. Na maior parte do tempo, parecia que podia desabar a qualquer minuto. Mas às vezes tinha energia. Infindável energia. Cantava, pulava, dançava como criança, ou como a mais ousada das mulheres. Ria alto. Como eu adorava aquela risada...

Por vezes agia de maneira estranha. Estava ao meu lado num momento calmo e agradável, e se levantava e saía apressada, sem nenhuma explicação. Como se fugisse. E realmente fugia. Demorei a saber do quê.

Presenciei a primeira crise em um mês de convivência. O primeiro de incontáveis surtos. Via-a chorar e gritar a todo pulmão, em profundo desespero. Tamanha era a força com que se agarrava aos próprios cabelos, que sempre tinha dor de cabeça depois.

Acontecia com frequência, e me assustava. Não ousava me aproximar dela. Mas eu logo percebi que ela não oferecia perigo. Ao contrário, precisava de ajuda. Ela recusava médicos e remédios, dizia que aquilo tudo a fazia ficar pior. Que só precisava de mim.

Eu me sentia péssima por não poder fazer mais por ela. Era minha obrigação saber ao menos o que dizer-lhe em momentos como aqueles, mas eu não sabia. Eu tinha bem mais de cinquenta, e ela pouco mais de vinte anos. Eu devia saber como ser um porto seguro, mas eu não sabia.

Quando ela se afastava de mim de repente, eu já podia prever o que estava por vir. Ouvia seus gritos ao longe e chorava com ela, chorava por ela. Desejava poder sentir o que ela sentia, sofrer por ela e livrá-la daquilo.

Mas quando ela estava num de seus bons momentos, era tão jovial e alegre que ninguém jamais poderia dizer que havia algo de errado com ela.

Ela floriu a minha vida, encheu-a de cor e perfume, e eu ainda me lembro de cada dia que vivemos juntas. De como ela usava minhas coisas sem jamais perguntar se podia. Mas se eu mesma pertencia a ela, de que outra permissão mais ela poderia precisar? Me lembro de quando ela comia tudo o que via pela frente, ou não comia absolutamente nada. De como nadava nua, ou completamente vestida.

De como corria pela casa, rápida como uma lebre fugindo de um lobo. De como eu a flagrava a chorar sem razão, e de como ela se recusava a se abrir comigo.

E sobretudo me lembro de seus beijos quentes, de seus beijos doces, das nossas noites, tardes, manhãs de amor, e do seu ar de princesa encantada. Sua extrema dificuldade de parecer real.

Ela vinha sendo a minha vida fazia dois anos, quando de repente, toda essa beleza se desfez. Passei apressada pela sala e a encontrei deitada em um dos sofás. Eu ia ao trabalho, mas nenhuma pressa era grande demais para evitar que eu lhe desse um pouco de carinho antes de sair.

Me aproximei para um beijo, e um arrepio me percorreu o corpo e a alma. Ela parecia dormir, mas não respirava.

Pálida e fria. Estava morta. Como uma flor que cumpre seu objetivo de perfume e beleza, e se vai.

Eu gritei. Gritei como ela gritava em suas crises de pânico. Tomei seu corpo em meus braços e chorei em seu peito toda a minha dor. A dor era quase física. Intensa, profunda. Como ter o coração arrancado de dentro do peito. Finalmente pude compreender o horror que habitava aquela alma tão pura, e nada podia me parecer mais doloroso.

Hoje o que me resta dela é um punhado de fotografias que não tenho o costume de olhar. Não fazem jus à seu ar de fantasia. Nada que não seja real pode ser fotografado, e ela era incrível demais para uma realidade tão medíocre. O som de seus passos a correr pela casa. Eu realmente escuto, mas sei que ela não é uma assombração. É apenas um truque do meu espírito que se recusa a viver sem ela.

Tenho também o perfume e a beleza das flores, que plantei em homenagem ao seu nome:

Gardênia.

❖❖❖
Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 06/11/21 21:54

Caramba, que obra destruidora. Pelo título e o andamento da narrativa, não imaginei que a profundidade da obra tomaria tal proporção. Do meio pro final, a leitura ficou muito dolorida... Que devastador esse final!

Congrats!

Postado 24/11/21 10:11

Você e a Mrs Black me confundiram bonito com essa metadinha. Levei muito tempo para perceber que não eram mesma pessoa kkkkkkkk

Muito obrigada por ter lido e absorvido as palavras com tanta delicadeza. Fico feliz em ter você por aqui.

Obrigada mesmo ❤

Postado 11/04/22 21:56

Eu estou completamente destruída. Meu coração foi pisoteado até a morte...

Essa história é mágica e maravilhosa! Adorei o encanto de Gardênia!

O amor entre duas mulheres é lindo, e amei a relação delas! A tristeza da história me pegou de um jeito especial e muito melancólico. O final realmente destruiu meu coração...

Texto perfeito em todos os aspectos!! Parabéns!!

Um grande abraço <3