Até Eu Te Perder (Parte 1) (Em Andamento)
Sabrina Ternura
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 17/10/21 02:25
Editado: 07/08/22 02:32
Qtd. de Capítulos: 6
Cap. Postado: 23/10/21 00:15
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 25min a 33min
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Palavras: 4066
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de catorze anos
Até Eu Te Perder (Parte 1)
Capítulo 3 Adornada Pelas Estrelas

A carruagem cortava rapidamente a escuridão, enquanto o trote dos cavalos ecoava pelo bosque dos Pinheiros Sombrios. O veículo tinha como destino a Mansão das Sombras e, dentro do mesmo, encontrava-se um quarteto peculiar. Enquanto a Imperatriz cochilava com um lenço sobre o rosto para impedir que o pequeno orbe de luz que flutuava no teto pudesse vir a atrapalhar seus sonhos, Tortura estava quase finalizando o livro Miss Butterfly e o Assassino da Lagarta Azul da autora Amélie Laviolette. Blake e Damon, por outro lado, dedicavam seu tempo a uma partida de xadrez. Apesar do pequeno espaço que possuíam, o tabuleiro levitava e isso possibilitava que a jogo ocorresse sem atrapalhar suas companheiras de viagem.

Era a vez do vampiro de realizar a jogada e o mesmo encarava as peças com tamanha intensidade que poderia movê-las com o poder de sua mente. O hunter, contudo, encontrava-se encostado no confortável banco de couro e encarava as próprias unhas despreocupadamente. Todavia, após dez minutos de espera, Blake se enfureceu com a demora do amigo e gritou:

— Ora, pelo ódio da Deusa, Damon! Faça a maldita jogada logo!

Antes que o ruivo pudesse responder, algo foi arremessado na direção do hunter que, por conta de seus reflexos sobre-humanos, desviou antes que o objeto pudesse acertá-lo. A lâmina ficou presa na parede do veículo e ambos os jogadores ficaram surpresos quando identificaram que se tratava de uma faca. Tortura havia levantado o livro por conta do susto e o mesmo cobria parcialmente seu rosto, deixando apenas seus olhos verdes a mostra. Blake encarou a culpada com raiva e protestou em voz alta:

— Não se arremessa uma faca dentro de uma carruagem pequena, sua psicopata!

— Então não me acorde aos gritos, seu boçal! — Respondeu a Imperatriz, nervosa.

A carruagem abruptamente freou, o que fez as peças de xadrez voarem e atingirem os olhos de Blake e Damon. No espaço livre entre o vampiro e a sua namorada, uma cabeça — que possuía uma feição cadavérica — atravessou a parede do veículo. Entretanto, antes que o cocheiro zumbi pudesse se pronunciar, sua face foi atingida certeiramente pelo tabuleiro de xadrez que outrora flutuava. Tortura desatou a rir, enquanto a Imperatriz soltava um suspiro cansado.

— Por favor, Cornélio, diga-me que chegamos, pois sinto que cometerei um assassinato se ficar aqui dentro por mais tempo com esses idiotas. — Confessou com dramaticidade a jovem de cabelos verdes.

— É melhor vocês descerem dessa maldita carruagem ou serei eu o responsável por matá-los, seus pivetes! — Vociferou o cocheiro.

______________________________________________

O pórtico da Mansão das Sombras possuía duas altas colunas de mármore e, ao lado de cada uma, haviam diversas roseiras. As rosas que desabrochavam possuíam uma coloração peculiar: as delicadas pétalas pareciam ter sido pintadas, uma a uma, de verde esmeralda e reluziam nos arbustos alvos. Esse detalhe havia sido feito por Pablo que, como principal admirador da beleza de sua esposa, encantou as roseiras com o intuito de exaltar a coloração das íris de Fubuki aos convidados. Apesar das discussões ocorridas na carruagem durante as oito horas de viagem, o quarteto pareceu se esquecer das mesmas quando desceram do veículo e avistaram as belas rosas.

Quando atravessaram a grande porta de pinheiro e adentraram o elegante hall de entrada, Fubuki os aguardava. A senhora Calígula era relativamente pequena e sua feição relembrava os significados das palavras recato e delicadeza. Por isso, quando as palavras ditas por ela a seguir foram proferidas, os jovens sentiram suas almas gelarem:

— Por que demoraram tanto, bando de insolentes?

Os olhos verdes da mulher transbordavam tanto descontentamento, que ambas as moças fizeram reverências deselegantes e os dois rapazes conseguiram realizar a proeza de se esbarrarem, o que quase os levou ao chão. Fubuki soltou um suspiro cansado e apertou suas têmporas com os dedos, como sempre fazia quando estava exausta. O quarteto se entreolhou com preocupação. A responsável por declarar as sinceras desculpas do grupo foi a Imperatriz.

— Sentimos muito por termos nos atrasado, tia. Não sabíamos que nossa chegada havia sido solicitada e a senhora bem sabe que não podemos usar portais para vir até aqui, porém tentamos vir o mais rá…

— Ah, querida, eu sei… Peço desculpas por descontar em vocês. — Declarou a mulher com sinceridade e aproximou-se de cada um para abraçá-los. Após a calorosa saudação, prosseguiu: — Como Sarah avisou em cima da hora que não poderia comparecer, tive que fazer diversas alterações… Inclusive, Tortura, você poderia dançar a quadrilha com o príncipe do Clã Mori? Sua tia costumava ser o par dele, mas o número de mulheres agora está menor, então, conto com sua ajuda!

A jovem moça apenas acenou positivamente com a cabeça, pois, além de sua tia não ter lhe deixado responder, ela não ousaria trazer mais problemas a dedicada anfitriã, mesmo que tivesse que dançar com um senhor que tinha milênios de idade e que não conseguia se mover sem ajuda. Blake soltou um suspiro baixo e Tortura compreendeu a frustação do namorado. Eles não eram casados e, teoricamente, estavam passando por um cortejo, portanto o hunter não poderia dançar mais de uma vez com sua amada, tendo em vista que seria impróprio. A jovem apertou levemente o antebraço do rapaz e sorriu, buscando confortá-lo.

— Sei que essas convenções sociais são uma baita porcaria, mas saibam que hoje vocês poderão dançar juntos quantas vezes quiserem. — Declarou Fubuki. — Já que o filho do czar do Hades chegou de surpresa mais cedo e acredito que não precisemos fazer tanta cerimônia.

— O filho do czar? — Brandou Damon com a voz estridente.

— Alguém do Hades está aqui e a Primeira Guerra Satânica não aconteceu? — Questionou a Imperatriz levemente surpresa.

— Por favor, não diga isso em voz alta, pois temo que os maquinários do destino te ouçam. — Implorou a senhora Calígula, colocando novamente os dedos nas têmporas.

Nem dez segundos se passaram após a declaração de Fubuki, quando Pablo surgiu no topo da grande escadaria do hall de entrada acompanhado de Diablair.

— Com trinta cristos crucificados invertidamente, meu irmão! Você não pode matá-lo! — Declarou o senhor Calígula com indignação.

O quarteto de jovens acompanhava com o olhar os dois homens. Enquanto o líder Infernal não possuía quaisquer resquícios de expressão em seu rosto, Pablo estava com a face quase desconfigurada por conta das intensas emoções que o tomavam. Fubuki apenas estagnou e amaldiçoou em pensamento as entidades que regiam o destino com palavras que esta autora não ousaria escrever. Quando todos os degraus foram descidos, Diablair se dirigiu a Damon e Blake:

— Vocês estão escalados para uma missão esta noite, meus nobres rapazes.

O hunter e o vampiro se entreolharam, pois o líder Infernal nunca era gentil com eles, muito menos os designava para qualquer tarefa, tendo em vista que considerava a inteligência dos mesmos equivalente a de uma ameba.

— Boa noite para você também, tio. — Disse com sarcasmo a Imperatriz.

Diablair não mexeu um músculo sequer e muito menos reagiu à provocação de sua sobrinha mais velha, apenas continuou encarando os dois rapazes com suas íris vermelhas que pareciam borbulhar como as chamas mais violentas do Inferno.

— Você não pode impedi-la de crescer, Diab. — Alertou Pablo com suavidade, fazendo com que todos os presentes, que não sabiam acerca do acontecimento envolvendo as crianças, arqueassem as sobrancelhas quase que ao mesmo tempo.

— Por todos os anjos caídos, de quem vocês estão falando? — Questionou Fubuki, confusa.

— Vocês irão vigiar o quarto dela a noite toda e não permitirão que aquele excremento metido a herdeiro do trono se aproxime dela! — Exclamou o líder Infernal, completamente alheio ao que os demais falavam.

Damon e Blake sentiram-se burros diante das palavras lançadas por Diablair, pois, apesar de ambos terem ciência de que seria impossível saber de quem se tratava sem terem conhecimento do contexto, o instinto de sobrevivência deles alertava-os de que eles deveriam apenas balançar a cabeça concordando com quaisquer que fossem as exigências, afinal, o homem negro e alto estava perto o suficiente para matá-los com apenas um golpe, caso recusassem. Até mesmo Tortura, que dificilmente se assustava, afastou-se um pouco de seu namorado, porque a aura intimidadora de seu tio, naquele instante, a encheu de pavor. A única que não parecia afetada por Diablair era a Imperatriz, que perguntou:

— Vigiar o quarto de quem?

— Parece que seu tio está tendo problemas em lidar com o primeiro amor de uma de suas sobrinhas mais novas. — Respondeu Pablo com uma acidez venenosa.

— Pela Deusa! Tristeza se apaixonou por quem? — Questionou Tortura espantada.

— Não foi a Tristeza, foi a Ter… — Começou Pablo, porém o mesmo foi interrompido por Diablair, que finalmente parecia estar dando atenção ao que os demais falavam.

— Aquele ser imundo jamais será o primeiro amor dela. Ele não viverá tempo o suficiente para que ela entenda o que isso significa. — Ameaçou o líder Infernal com um ódio e uma brutalidade palpáveis.

— E quem será o responsável por impedir? — Uma voz falou com suavidade do topo da escada.

Todos se viraram para ver de quem se tratava. Conhecido por alguns e não apresentado a outros, o filho do czar encarava os integrantes da família Infernal com curiosidade, enquanto aguardava a resposta de Diablair. Apesar de todos demonstrarem diversos sentimentos conflitantes em suas feições, apenas Pablo expressava com clareza o receio que começava a atormentá-lo, afinal ele temia que seu irmão realmente atacasse o menino e que Fubuki, em seguida, o atacasse por ter permitido que uma situação tão complicada explodisse dois dias antes de suas bodas, tendo em vista que essa era uma das poucas obrigações do marido; e, por fim, o próprio Pablo enfrentaria Diablair até a morte. Portanto, o temor que preenchia as entranhas do Príncipe das Trevas era justificável.

Vestido com uma elegante casaca de camurça cor de vinho que possuía alguns detalhes dourados bordados — sendo o brasão do Hades o que mais se destacava —, Philip começou a descer lentamente a escada com uma postura imponente. Ao chegar diante da família, o garoto fez uma reverência que foi correspondida por quase todos, menos pelo líder Infernal.

— Acredito que seu descontentamento deva ser direcionado a mim, senhor. — Disse o menino, aproximando-se de Diablair.

Você! — Exclamou ameaçadoramente o homem negro, apontando o dedo indicador para o herdeiro do Hades. — Como ousa flertar abertamente com a minha sobrinha, seu moleque?

A Imperatriz colocou a mão sobre a boca pelo choque da informação e buscou amparar Tortura em seguida, que havia perdido toda a cor de seu rosto. Damon e Blake, por mais impressionados que estivessem por saber que a pequena Ternura estava gostando do filho do czar do Hades e que, aparentemente, era recíproco, sentiram-se, também, comovidos pela bravura do pequeno menino em enfrentar Diablair, afinal eles mesmos raramente o faziam. Fubuki encarou o cunhado com uma incredulidade imensa e seu queixo só não caiu, porque seu maxilar estava completamente travado. Pablo estava pálido e seu semblante era de alguém que estava sem a alma presa ao corpo. Philip, ao ouvir o termo flertar, arqueou a sobrancelha. Ele não compreendia o que aquilo significava, só sabia que havia sido correspondido e, segundo sua mãe, se uma dama aceitava sem relutância o pedido de um cavalheiro, então não havia problema em prosseguir.

Ah! Isso explica porque o senhor quis trocar de roupa e estava todo corado no jardim. — Nekromanteion disse rindo, descendo rapidamente a escadaria e se colocando ao lado de seu mestre, pronto para defendê-lo.

— Bom, se flertar significa convidar a senhorita Ternura para dançar, então, sim, estou flertando com ela. — Falou o garoto, dando de ombros.

Os homens presentes, com exceção de Diablair, desataram a rir, enquanto as mulheres pareciam encantadas com a inocência que transbordava das palavras do filho do czar. Uma veia saltou na testa do líder Infernal e Pablo, apesar de estar gargalhando, colocou-se ao lado de seu irmão, pois receava que ele iniciasse a Primeira Guerra Satânica no hall de entrada de sua casa.

— Você não a merece! Sabe muito bem das coisas hediondas que fez antes mesmo de dar os primeiros passos, poço de maldições. Não permitirei que você a corrompa. — Disse Diablair com brutalidade, abaixando o dedo e cruzando os braços.

Todos os presentes se calaram e encararam o menino que não pareceu afetado pelas acusações.

— Em momento algum julguei o senhor pelas atrocidades de seu passado e muito menos o desvalorizei como o empenhado tio que sei que é. Gostaria que não utilizasse argumentos desse nível para desvalorizar o meu potencial como pretendente, tendo em vista que o interesse não é unilateral.

Tortura, Imperatriz e Fubuki arregalaram os olhos, completamente surpresas pela atitude do garoto em enfrentar tão abertamente Diablair, porém elas não tiveram tempo de pensar em quaisquer adjetivações para designar tamanha bravura, pois o homem negro segurou a casaca do garoto, elevando o corpo dele do chão.

— Você fala muito bonito para alguém que quase a matou! — Brandou Diablair, fulminando Philip.

Pablo, Blake e Damon prontificaram-se em segurar o líder Infernal, mas o mesmo parecia uma imponente muralha. Nekromanteion se colocou entre o homem e seu mestre e alertou:

— Sugiro que pense em suas próximas atitudes, Diablair. Não é somente sobre um romancinho infantil que estamos falando… O que está em jogo é a paz entre as nossas dimensões.

Após refletir por alguns segundos, o líder Infernal soltou com desprezo o herdeiro do Hades, prontificando-se em passar as mãos sobre as próprias vestes, como se as mesmas estivessem sujas. Philip não se abalou, porém fez algo que surpreendeu a todos, incluindo o próprio Diablair: ele realizou uma reverência completa na direção do homem negro e, com uma sinceridade que poderia ser utilizada como significado de pureza, disse:

— Apesar do contexto em que tudo ocorreu, a minha atitude não pode ser justificada e saiba que eu não queria feri-la. Não peço que me perdoe, afinal nem sei se sou capaz de fazê-lo, mas, ainda assim, gostaria que soubesse que sinto muito… Então, por favor, escute o que tenho a dizer.

— Mestre… O senhor realmente pretende contar? — Questionou seu servo surpreendido.

— O garoto não está mentindo, Diab. — Declarou Fubuki com suas íris esmeralda brilhando. — Utilizei meu encantamento Manifestatio Veritatis¹ e, enquanto ele falava, não houve um resquício sequer de mentira. Se você não acredita nas palavras dele, então acredite nas minhas.

Diablair era um homem teimoso por natureza e parte dele acreditava que o filho do czar possuía, sim, um segredo, contudo ele sabia que nada permanecia oculto por muito tempo quando sua cunhada estava envolvida, tendo em vista que ela era profissional em trazer à tona a autenticidade de qualquer coisa que fosse.

A cena em questão durou exatos dois minutos e, durante esse tempo, ninguém ousou se mover ou sequer respirar, pois, dada a tensão que tomava os presentes, parecia que o mínimo movimento ocasionaria um grande estrago. A responsável por quebrar o silêncio quase devorador foi Tristeza, que surgiu no topo da escada e espirrou, chamando a atenção de todos.

Ah! Aí estão vocês! — Exclamou a menina animadamente.

O mordomo da residência atravessou uma das paredes e se pôs ao lado da garota pálida que fez um gesto com a mão para que o mesmo se aproximasse. O homem de cabelos grisalhos abaixou-se até que seu ouvido ficasse em uma altura adequada para receber as ordens.

— Simon, o senhor pode, por favor, anunciar a senhorita Ternura? — As palavras eram ditas em um sussurro alto que ecoou pelo hall. — Não precisa me anunciar, sou só a dama de companhia dela. Obrigada!

Retornando a sua postura inicial, o líder dos empregados pigarreou e anunciou:

— Senhoras e senhores, a senhorita Ternura.

Uma pequena figura surgiu do corredor superior e, antes de descer os degraus, fez uma reverência rápida ao mordomo, agradecendo-o por tê-la anunciado. Ele sorriu com a gentileza de Ternura, tendo em vista que raramente recebia algum reconhecimento acerca de suas funções mais triviais.

Tristeza se posicionou atrás da irmã mais nova, como as damas de companhia faziam, entretanto a mesma notou que a menor estava paralisada e que suas bochechas tomavam uma coloração avermelhada que ia além do blush que havia sido aplicado. Ela suspirou e, aproximando-se do ouvido da infante, sussurrou ameaçadoramente, porém, desta vez, em voz baixa:

— Você me fez passar um verdadeiro inferno nos últimos trinta minutos por não conseguir escolher qual roupa ia usar… Se pensa que possui o benefício da dúvida nessa altura dos eventos, vou chutá-la daqui de cima e arrastá-la até os confins das dimensões pelos cabelos!

Um arrepio percorreu a espinha de Ternura, afinal ela sabia que Tristeza não a arrastaria por todas as dimensões… Apenas pela metade delas. Incentivada pela intimidação, a pequena menina respirou fundo algumas vezes, como se o ar que preenchesse seus pulmões pudesse, de alguma forma, encher seu coração de coragem.

Foi então que a infante olhou para Philip e tudo ao redor pareceu desaparecer. A visão dele aos pés da escada com as mãos para trás enquanto a aguardava, havia sido o suficiente para fazê-la descer a escadaria com bravura. Apesar de tantos olhares estarem voltados para ela, apenas as íris escarlates do garoto pareciam vê-la por completo. Embora estivesse envergonhada, Ternura sentia nas profundezas de seu âmago que deveria ir até o encontro dele, como se ele fosse seu destino.

Enquanto todos acompanhavam a entrada de Ternura completamente estupefatos, Philip parecia ter se esquecido como respirar, pois tamanho era seu deslumbramento ao vê-la. A infante usava todo seu autocontrole para descer as escadas como uma verdadeira senhorita, mas não estava acostumada, afinal ela não havia aprendido as regras de etiqueta necessárias para uma situação como essa. A menina sentiu-se insegura ao olhar para a própria ignorância, principalmente porque Philip parecia saber exatamente como se portar. Ele parecia um perfeito cavalheiro, já ela, uma boba desengonçada. Faltando apenas cinco degraus para chegar até o filho do czar, Ternura parou e seus olhos começaram a lacrimejar. Ela encarou o chão com o intuito de esconder sua feição chorosa, mas deparou-se com um par de botas. Ao erguer a face, ela encarou o rosto de seu tio e o mesmo lhe disse:

— Uma senhorita nunca deve recuar, Ternura… E você bem sabe que só perde em teimosia para mim. Não importa o quão assustador tudo isso pareça, seja somente e tão somente você… Tenho certeza que não será menos estimada por isso.

Diablair deu um sorriso torto para a sobrinha e se pôs ao lado dela, oferecendo o braço para que a mesma pudesse continuar seu caminho. Quando ela aceitou e sua pequena mão tocou o antebraço de seu tio, seus lábios começaram a tremer. Fubuki, notando o nervosismo da mais nova, sussurrou para Damon, Blake, Tortura e Imperatriz:

— Se encaminhem para seus respectivos aposentos e se arrumem. Vocês tem 30 minutos antes do jantar começar!

— Mas… — Começou a Imperatriz que, todavia, não ousou terminar a frase por conta do olhar mortal que sua tia lançou a ela.

O quarteto rapidamente subiu as escadas e desapareceu no corredor superior. Ternura estava tão concentrada em não tropeçar nos próprios pés e com os olhos preenchidos pelas lágrimas que nem os viu passando por ela e desejando “boa sorte”. A descida pareceu uma eternidade e assim que seus pés tocaram o chão, ela não ousou levantar o olhar.

Philip a encarou o tempo todo e, apesar de estar nervoso o suficiente para sentir seu estômago dando voltas em sua barriga como se estivesse rolando a Montanha do Purgatório a 100 km/h, ele buscou manter a calma para não assustar Ternura. Após respirar fundo, o menino encarou Diablair e perguntou:

— A senhorita Ternura poderia me acompanhar esta noite, senhor?

— Acredito que esteja perguntando para a pessoa errada, pive… Quer dizer! Príncipe! — O líder Infernal afastou-se de ambos e colocou-se ao lado de seu irmão, que tinha um sorriso travesso nos lábios. Prevendo que alguma piada iria ser feita, ele sussurrou ameaçadoramente: — Fale algo e eu queimarei todas as suas bibliotecas.

Philip deu um passo à frente e disse sem pensar:

— Você está tão bonita...

Ao se dar conta que dissera aquilo em voz alta, colocou a mão sobre a própria boca, sentindo suas bochechas queimarem. De fato, a menina estava linda. Seus cabelos castanhos claros e delicadamente encaracolados, encontravam-se parcialmente presos em um pequeno coque que possuía uma trança simples ao redor, dando a impressão que suas mechas formavam uma flor. O vestido branco, que possuía uma saia de tule e um corpete liso, tinha alguns pontos luminosos espalhados pelo tecido. Ela também estava usando luvas alvas que iam até seus cotovelos, enquanto duas pulseiras douradas reluziam em seus pulsos. Tudo isso, somado à beleza natural dela, fez Philip pensar que Ternura estava adornada pelas estrelas e ele não pôde simplesmente guardar isso para si. Era como se o mundo precisasse ouvir.

Nekromanteion, que estava ao lado de Fubuki, fez menção a soltar uma risada, porém levou uma forte cotovelada da senhora Calígula. As palavras de Philip chamaram a atenção de Ternura, que levantou a cabeça como se tivesse levado uma alfinetada. Só então ela notou que o menino, apesar de mais contido, também estava nervoso. Isso fez com que ela dissesse um pouco alto demais e sem pensar:

— Sim, eu aceito!

Fubuki, que respirou fundo para conter o riso que ameaçava explodir de sua garganta por conta do encontro desajeitado das crianças, puxou o cabelo do marido e do servo do czar para impedi-los de rir e estragar o clima. Tristeza, que ainda estava atrás da irmã mais nova, mordia os próprios lábios para reprimir a risada. Diablair, contudo, observava com atenção toda a situação, como se pudesse descobrir algo pela atitude dos infantes. Philip encarou Ternura com desespero e sua face pálida tomou uma coloração escarlate, pois parecia que a menina estava aceitando se casar com ele. Ao notar o constrangimento do herdeiro do Hades e perceber que suas palavras poderiam ter outro significado, a menina rapidamente explicou:

— Sim, eu aceito acompanhá-lo esta noite.

Os dois se encararam por um momento e, a seguir, começaram a rir. O filho do czar ofereceu seu braço e a menina prontamente o aceitou. Ambos começaram a caminhar para o corredor do lado esquerdo do hall, pois este os levaria para a sala de jantar.

— Nekromanteion. — Chamou Philip. — Acompanhe a dama de companhia da senhorita Ternura.

— Ela é minha irmã. — Confessou Ternura, soltando uma risada baixa.

Enquanto o menino questionava acerca da grande diferença entre ambas, seu servo aproximou-se de Tristeza e fez uma reverência, que foi elegantemente correspondida. A garota usava um vestido azul escuro que possuía um saiote cheio de camadas, enquanto Nekromanteion usava uma roupa semelhante a de Philip, porém com a mesma coloração da de Tristeza. Quando a adolescente pálida entrelaçou seu braço com o do homem, perguntou:

— O senhor casou-se em segredo?

— O que te faz pensar isso? — Ele questionou, pigarreando em seguida para disfarçar seu sobressalto.

— Bom, essa pequena rosa tatuada em seu pescoço o denunciou. Apenas casais que não podem ficar juntos tem esse tipo de marca.

O servo do czar, de fato, tinha muitas tatuagens e ele se surpreendeu com a observação da irmã de Ternura. Não vendo mais motivos para esconder, respondeu com um sorriso:

— Sim, sou casado com a mulher mais linda, inteligente e astuta da dimensão do Hades.

— Quero saber absolutamente tudo sobre ela! — Exclamou Tristeza com animação.

Os quatro começaram a se afastar. Pablo, quando se virou, viu que seu irmão já estava subindo a escadaria.

— Para onde você vai?

Diablair o encarou como se o mesmo tivesse feito uma pergunta extremamente idiota.

— Beber conhaque com um unicórnio. — Disse com sarcasmo o líder Infernal. — Ora, vou para o meu quarto me trocar para o jantar. Estou faminto.

Fubuki sorriu, afinal aquela era a forma de seu cunhado mostrar que estava de bom humor.

— Cuidado! Você não quer que ele enfie o chifre em seu c…

Pablo não teve tempo de finalizar a frase, pois sua esposa o arremessou para o lado de fora da casa, completamente indignada com as palavras do marido. Diablair soltou uma risada alta.

Era de conhecimento geral que as bodas dos Calígula sempre foram marcadas por uma atmosfera romântica, assim como pelas brigas. A novidade deste ano, caro leitor, é que a própria Fubuki iniciou o ciclo de violência, tendo como vítima seu próprio companheiro, que sempre fora conhecido por fazer piadas de duplo sentido.

— Por todos os infernos, mulher! — Brandou Pablo após aterrissar no gramado e cuspir uma folha que havia grudado em sua boca. — Eu ia dizer conhaque!

❖❖❖
Notas de Rodapé

¹ Tradução do latim para o português: Manifestatio Veritatis - Manifestação da Verdade.

Apreciadores (3)
Comentários (3)
Comentário Favorito
Postado 03/07/22 21:02 Editado 03/07/22 21:03

As palavras "quarteto fantástico" cairiam como uma luva de seda para os dois casais no início do capítulo, foi uma cena agradável, divertida e bem vinda para intercalar a tensão prévia e posterior ao desastroso (todavia cômico) término de viagem do grupo!

Fubuki literalmente roubou a cena logo de cara, eu mesmo não imaginava que esse lado dela viria a tona tão cedo! Que mulher, Satã! Aprovada e adorada!

Ok, eu sei que vindo de mim vai soar MUITO bizarro, mas a cada capítulo desta obra gosto/odeio mais e mais o Diablair. Estou simplesmente estupefato com o modo como ele tem sido retratado e o que tudo isso demonstra/representa. A dinâmica entre ele e seu Mestre/Irmão é tão boa e verossímel com o que sempre imaginei para ambos (bem como com o que ocorre na vida "real") que me deixa agradecido e agraciado de ver/ler!

Repito, ler esta obra sabendo que ela se passa ANTES de DD tem sido uma série dolorosa de tapas na cara. Ademais, me é iigualmente impossível não admirar nem respeitar Phillip, que mesmo sendo infante, foi de uma hombridade, maturidade, decência e, ouso dizer, inocência inacreditáveis. Fora que as palavras ditas por ele em resposta ao desatino do Líder Infernal foram mais impactantes e profundas que qualquer ataque físico ou mágico que ele viesse a dar no meio da cara de seu futuro e odioso sogro...

Ternura sendo Ternura é algo que SEMPRE vai nos encantar, só ela mesmo para desmanchar tamanha tensão da situação criada e conduzida magistralmente pela autora! Essa cena foi de uma magnitude tal que me senti na pele não só do Diablair, mas do pretendente infantil também e essa imersão na história só corrobora o fato dovquanto a autora é magnífica! Excelso, absolutamente excelso!

Por fim... O meme, ah o meme do c...onhaque! Shahahahahah! Isso é tão a cara dos Irmãos Herdeiros que não tive como não rir, o Pablo é PODRE DEMAIS e eu TENHO como provar! Shahahahahah!

Uma vez mais, sempre e para sempre, meus mais sinceros parabéns por mais um capítulo primoroso tanto em detalhes quanto nas interações sociais diversas (ou devo dizer adversas?)! Que autora, Satã! Que autora!

Atenciosamente,

o tio mais ultraprotetor (e, infelizmente, hipócrita), Diablair.

Postado 06/08/22 00:18

É uma alegria imensa ler seu comentário, Diab!

O fato de odiar e gostar do Diablair até esse ponto da história é compreensível. Acredito que ele está tão confuso quanto os demais sobre essa situação que rolou literalmente DO NADA. Vamos dar uma chance para ele entender melhor o que está acontecendo, afinal ele não sabe as motivações de Philip e o garoto literalmente apareceu MATANDO a sobrinha dele. Proteção nunca é demais.

O meme do c...onhaque é minha religião e arremeso a distância de Pablo é meu esporte favorito kkkkkkk (desculpa, Pablo).

Obrigada pela presença e comentário, Diab ♥

Postado 23/10/21 23:26

Para tudo! É aqui que isso está! Mano, como eu ri dessa primeira parte do capítulo. É muito a cara da Imperatriz se irritar por acordarem ela. Queria muito ver o Blake e o Damon com a cara amassada das peças do jogo. Ia ser a coisa mais linda da vida. Já pensou, o Damon com marca de cruz por conta do bispo? Kkkkkkkkkkkkkkk Ta, parei.

Menina, eu achei que queria ver a fúria do Diab, mas agora eu quero é ver a Fubuki metendo o cacete em todo mundo! Vai lá tia Fubuki, arrebenta geral!!! (São me chega perto do Damon, pq aí a coisa fica séria! Kkkkkkkk)

Ternurinha toda princesinha é minha nova religião, a Deusa que me desculpe. É muita fofura para um capítulo só! Nem o tio Diab conseguiu resistir.

Quero o próximo capítulo para ontem, Brina minha <3. MALDITOS!

Postado 30/10/21 23:10

Amiga, você é terrível! Em breve, tem mais! Prometoooooo!

Obrigada pela presença e comentário, Flavinha ♥

Postado 26/10/21 18:54

Não importa quantas vezes eu leia esse capítulo, sempre vou rir com o final kkkkk. Philip e Ternura são fofos demais, quem concorda respira

Parabéns, meu amor!!!!

Postado 30/10/21 23:11

Obrigada pela presença e comentário, meu amor ♥

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