Sutileza (Em Andamento)
Endora
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 03/12/21 23:48
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 10
Cap. Postado: 17/11/21 19:31
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 16min a 22min
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Palavras: 2642
[Texto Divulgado] "What your reason" Todas as coisas possuem uma razão de ser, um destino predestinado. Algumas razoes podem ser belas, outras são terríveis.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza
Capítulo Sétimo Peregrinação

Passou-se um mês inteiro cheio de percalços antes que Gianfrancesco avistasse da estrada os portões da propriedade de Diana.

Assim que pôs os pés em Roma, foi tomado de assalto por um ladrão maltrapilho que lhe levou até o último centavo do que juntara naqueles meses trabalhando na horta dos monges.

Depois de se sentar e chorar, e dominar à força o pânico que começava a fermentar dentro dele, pensou em escrever à Diana pedindo dinheiro para a viagem, mas teve vergonha. Pensou então em Antonio, mas estava e preferia continuar de relações cortadas com a família e todos aqueles que fizessem parte dela.

Sentou-se num banco onde um homem bem vestido lia o jornal. Pensou em explicar ao homem sua situação e pedir ajuda, mas teve vergonha outra vez. Ficou calado, então, esperando que Deus fizesse qualquer coisa por ele. O homem do jornal se levantou e partiu, deixando para trás o periódico já lido, e agora, portanto, sem serventia. O adolescente pegou o jornal e procurou nos classificados por um emprego. Passou aquele dia a percorrer a cidade de cima a baixo, procurando uma oportunidade de se recuperar do dano e poder seguir em frente. Terminou este dia de volta à estação, com os pés doloridos e morto de fome.

Sentou-se em qualquer canto discreto no chão, se encolheu e chorou um pouquinho mais, até pegar no sono. Acordou às seis da manhã, sendo cutucado pelo pé de um guarda.

— Essa estação não é hotel para mendigos, rapaz.

— Eu pareço mendigo? — perguntou, com a arrogância inerente a muitas pessoas ricas. O guarda riu.

— Não. Parece uma criança que se meteu em encrenca.

— Acho que o sou — reconheceu, abaixando a cabeça com ar vencido.

— O que acha de eu te pagar um lanche e você me contar o que aconteceu?

A situação de Gianfrancesco não lhe permitia o luxo de recusar qualquer gentileza por educação ou orgulho. O guarda pagou-lhe um café da manhã, e o moço abriu-se com ele. Contou-lhe sobre Diana e sobre seu pai e sobre tudo o que havia enfrentado até aquela manhã. O guarda, sujeito alto e gorducho que parecia engraçado em seu uniforme, aconselhou-o a voltar para casa, onde provavelmente encontraria o pai arrependido e com saudades dele. Mas como o rapaz não deu atenção a isso, o amigável vigia deu a ele uma segunda ideia do que poderia fazer. Um ligeiro vislumbre de luz no fim daquele túnel.

Seguindo os conselhos de seu novo amigo, Gianfrancesco recebeu uma pequena miséria por ajudar a descer mercadorias de um trem de carga, e neste mesmo trem ele seguiu viagem para não importava onde. Trabalhou com este trem por uma semana, indo e voltando a várias partes do país, e não conseguiu levantar nem metade do que precisava.

Arrumou trabalho num trem que ia até Paris e pagava um pouco mais. Ver Paris era como estar com Diana de novo. Ela era parte de Paris e Paris era parte dela.

Considerando que ele não tinha como evitar gastar sempre boa parte do que conseguia, por precisar comer e dormir, ele levou um mês inteiro percorrendo toda a Europa de trem em trem — e por fim um barco cargueiro pelo qual teve de esperar quatro dias — para pôr os pés em solo britânico. Por um momento pareceu fantasia. Finalmente pôde parar de se esforçar e relaxar olhando a paisagem pela janela de mais um trem.

Envergonhado do próprio aspecto, sentou-se num canto no fundo do vagão. Tinha receio até de aparecer ante aos olhos de Diana daquela maneira, mas não tinha escolha. As roupas de menino rico com que havia chegado a Roma no começo do mês, hoje estavam irreconhecíveis. Rotas, encardidas, e não cheiravam bem, assim como ele, com seu cabelo oleoso e unhas sujas.

Desceu do trem esperando encontrá-la a circular pela cidade, olhando atento para todos os lados. Tentou contratar os serviços do motorista de um carro de aluguel para chegar a seu destino final, mas em vista de sua imagem, todos recusaram o cliente, uns achando que provavelmente era golpista, outros achando que provavelmente era louco. "Um homem nestas condições esperando ser recebido em casa de Madame Tremaine! Faz-me rir."

Pediu transporte então a um fazendeiro simples em sua humilde carroça. Deu ao homem seus últimos tostões e finalmente pôde sair daquela estação agitada.

Quanto mais se afastavam da urbanização e adentravam no campo, quanto mais ele via árvores e bosques e campinas e rios, mais ele sentia que ela estava perto, e mais alegre batia seu coração.

Seu "chofer" o deixou diante dos portões e partiu, ao passo lento de seu cavalinho. Os portões da propriedade davam ao rapaz a impressão de que Diana era mais rica do que ele jamais pudera imaginar.

Empurrou uma parte do portão e entrou, sentindo cada vez mais vergonha de sua aparência. Fingia ignorar uma repentina insegurança, um medo de que, depois de quatro meses ela o tivesse esquecido, ou não tivesse sido sincera na Itália, ou se recusasse a mantê-lo ali para evitar um escândalo na sociedade, mas depois de tantos sacrifícios, não tinha para onde ir se não em frente.

Edificado no alto de uma colina, o palacete mostrava-se suntuoso. Sua opulência quase chegava a intimidá-lo. Era uma construção gigantesca, que ele julgou que devia ter mais de 30 quartos. Contra os humildes dez da casa de seu pai, Gianfrancesco começou a se questionar se sua família era mesmo rica como ele crescera acreditando ser.

Situado à beira de um penhasco onde o mar implacável se chocava contra grandes pedras, o terreno, coberto de árvores e de uma grama impecavelmente aparada e verdejante, era tão vasto que ele nem arriscava estipular suas dimensões.

O céu naquele dia mesclava tons de cinza e branco, e ventava forte. As paredes externas da casa eram, em grande parte, cobertas por roseiras brancas. O imponente jardim era coroado por um grande chafariz, e diante da entrada, um automóvel muito caro e muito novo estava estacionado, acompanhado de seu motorista, que ficava a postos esperando que alguém precisasse de seus serviços.

Gianfrancesco cumprimentou o motorista com o ar superior que, apesar da simplicidade de sua alma, fora ensinado a ter, e subiu a escadaria que levava às portas da mansão. Tocou a campainha dourada, vibrando de ansiedade. A alta porta branca de dois batentes foi aberta por um mordomo insípido, mas uma requintada e esguia senhora tomou para si a tarefa de receber o visitante. Ela procurava, sem muito sucesso, esconder o choque de ver tal figura diante de si naquele lugar, mas o italiano não se deixou abalar. Manteve a coluna e a cabeça erguidas e se apresentou:

— Boa tarde. Sou Gianfrancesco Mancini Di Stefano, estou aqui para ver Madame Tremaine.

— E-ela… não disse nada sobre estar esperando alguém.

— Eu quis fazer uma surpresa.

— Neste caso, aconselho o senhor a voltar outro dia. Lady Tremaine está convalescendo e não deve receber ninguém. Com licença — tentou fechar a porta, mas Gianfrancesco não deixou.

— A senhora poderia ter a delicadeza de ir perguntar a ela se quer me ver?

— Lady Tremaine não deve receber ninguém, eu já disse. Agora, por favor, se retire desta propriedade antes que eu peça que o ponham para fora.

— Você é o tio Gianfrancesco, não é? — perguntou a doce vozinha de Carolyn vindo de trás dele. Ele virou-se e viu-a segurando a mão de uma jovem de trajes simples e feições neutras.

— Ei, bonequinha! Como vai? — ele abaixou-se até que seus olhos estivessem na altura dos dela e lhe fez um afago nos cabelos.

— Muito bem, e você?

— Estaria melhor se me deixassem ver sua mãe, mas esta senhora não parece disposta a me ajudar. A senhorita me faria o grande favor de ir até a mamãe e perguntar a ela se eu posso entrar?

— Claro! — a pequena beijou o rosto do jovem, a quem tinha como "amigo indireto" e correu porta a dentro.

— Sabe que não pode correr aqui dentro, Carolyn! Carolyn!

Atordoada pela situação e por ter sido ignorada pela criança, a senhora antipática pôs a mão sobre a testa e os olhos e não disse mais nada. Massageou as têmporas. Detestava ver sua autoridade desafiada. A babá entrou também na casa, depois de cumprimentar Gianfrancesco com um aceno de cabeça. Voltou um minuto depois.

— E então? — perguntou a mais velha.

— Madame vai recebê-lo em seus aposentos — disse a jovem a Gianfrancesco, que limpou os pés no capacho e entrou, encarando a governanta com um sorrisinho cínico em seu rosto.

A escadaria principal era composta de duas escadas curvas, com degraus de mármore rosa e corrimãos de ferro e madeira ricamente trabalhados. No centro do vão entre as escadas, uma mesa com um grande vaso exibia vistosas e jovens rosas amarelas.

Diana como estava, formava com todo o resto do cenário uma imagem digna de uma pintura, ou de uma página de um romance imortal. Estava deitada em sua cama, entre tecidos alvos e macios. Tinha os enormes cabelos espalhados sobre os travesseiros, onde uma calopsita clara, de penas amareladas caminhava livremente, mexendo nos fios com o bico, desarrumando-os ou os arrumando de seu próprio jeito. Uma outra calopsita, esta predominantemente cinza, estava empoleirada no dedo da dona, que lhe acariciava a nuca e as costas. Sobre a cama espaçosa, repousavam mais dois coelhos grandes, um marrom e branco e outro bege, e um cãozinho terrier preto.

Diana, apesar de parecer contente entre todas aquelas criaturinhas, tinha um ar triste, mas não melancólico. Estava pálida e um pouco mais gorda do que quando se separaram.

Com o coração descontrolado pela alegria de vê-la, Gianfrancesco não pensou mais em se preocupar com a própria aparência, ou em se perguntar por que ela se encontrava naquele estado. Estava tão feliz que tinha vontade de gritar.

— Amorzinho! Eu pensei que tivesse me abandonado — ela disse com uma voz suave. Sorria.

— Nunca — pegou a mão morna de Diana e a beijou. Beijou-a no rosto em seguida, brevemente.

A calopsita que Diana tinha na mão voou, com medo do estranho. A que brincava com seus cabelos não sabia do que a primeira fugia, mas achou sensato fugir também. Ficaram as duas empoleiradas lado a lado sobre a moldura do espelho da penteadeira.

— Que aconteceu a você?

— Que aconteceu a você?

— Nada que deva te preocupar, já passou. Em alguns dias vou estar forte de novo.

— Mas o que foi?

— Nada, nada… deixe isso. Quero saber de você. Por que não me escreveu? E por que está neste estado?

Ele percebeu que não sabia como contar a ela a história dos últimos dias. Tudo havia começado com ele contando ao primo sobre seu passado, e sabia que ela não gostaria de ter este segredo revelado a mais uma pessoa. Mas não queria esconder-lhe nada. Contou a verdade, e embora ela não tenha ficado contente, não deu grande importância a isso.

— Pobrezinho. Por que não me escreveu? Eu teria mandado um dos meus empregados ir buscá-lo pessoalmente. Não teria sido mais fácil?

— Sem dúvida, mas eu tive vergonha, porque… você passou por tanto sozinha. Achei que seria ridículo da minha parte me desesperar diante da primeira dificuldade e pedir socorro — ela riu — Foi horrível, Diana. Horrível. Eu acho que não estou tão preparado para o mundo como eu pensava.

— Mas essa dificuldade toda ficou para trás, amor. Mamãe vai cuidar de você. Não precisa se preocupar com nada mais — acariciou o rosto do jovem docemente. Ele segurou sua mão e beijou o centro da palma.

— Estou tão feliz de te ver... queria te agarrar e te encher de beijos, mas estou nojento, não tenho coragem.

— Eu posso ver e sentir. Mas aceito um abraço, se você não se sentar na minha cama.

Ele curvou-se sobre ela e a abraçou apertado, encheu-lhe o rosto e o pescoço de beijos, depois afastou-se um pouco.

— Bem que ele me disse que hoje eu receberia visitas de duas pessoas de quem eu gosto muito...

— Ele quem?

— Meu marido.

Um gélido arrepio percorreu o corpo de Gianfrancesco como um estalo.

— Você não disse que ele morreu?

— Mas morreu. Bem aqui nessa cama. Está sepultado aqui na propriedade, lá atrás, depois das árvores.

Uma sensação assustadora tomou conta do rapazinho, que chegou a perder a firmeza da voz.

— E ele anda por aqui?

— Anda — disse, bastante tranquila, com absoluta naturalidade — É a casa dele, afinal.

— E você não tem medo?

— Eu vou ter medo do meu marido? Enfim, você deve estar morto de fome e cansaço. Vá tomar um banho, vão me trazer um chá aqui em meia hora.

— E a segunda visita?

— Até agora nada, mas o dia ainda não acabou. Vá, vá. Te quero limpinho como o conheci.

— Está bem, onde?

— Está vendo ali aquele pequeno quadro oval? É uma porta mentirosa, fingindo que é parede. Fica ali, o meu banheiro.

O banheiro que transpirava luxo, era todo de mármore cor de rosa. As paredes, o chão e a banheira. Gianfrancesco saiu em meia hora, brilhando como um centavo novo, a tempo de ver Diana de pé abrindo um armário, e a irritante governanta dizendo, alarmada:

— A senhora não deveria estar de pé!

— Desculpe, mamãe.

— Volte para a cama, Madame. Por favor, eu a ajudo.

Conduziu Diana de volta à cama, como se ela não pudesse andar sozinha, mas podia-se perceber que era uma mera demonstração de zelo, de que Diana gostava. A mulher acomodou a patroa na cama e pôs os cobertores sobre ela. Os dois coelhos tinham descido da cama, agora apenas o cachorro estava ali, dormindo placidamente.

— Me diga o que queria e eu pego.

— Você se lembra daquela robe de chambre que Christopher ganhou da mãe num Natal desses, e nunca lhe serviu, mas ele guardou por carinho?

— Um estampado. Verde musgo e marfim? — Diana confirmou com um aceno da cabeça.

— Eu não quero vestir nada dele — Gianfrancesco se manifestou, atraindo os olhares surpresos das duas mulheres sobre si. Escondia-se atrás da porta, projetando apenas a cabeça para dentro do quarto.

— Por que não? — perguntaram ambas.

— Você disse que ele anda por aí, e eu não quero nenhum fantasma irritado comigo.

— Mas ele só aparece duas vezes no ano. No nosso aniversário de casamento e no meu aniversário.

— Nunca fez mal a ninguém. E só madame o vê — completou a governanta.

— De qualquer forma, ele nunca usou, porque ficava pequeno. É uma coisa nova que estou te dando, meu bem.

Convencido, ele aceitou o presente e a governanta abriu uma porta e puxou uma cadeira, subiu na mesma e pegou o robe na prateleira mais alta. Cheirou o tecido antes de descer da cadeira.

— Está com cheiro de guardado? — perguntou Diana.

— Não muito, por incrível que pareça. Aqui está — entregou a peça a Gianfrancesco, que fechou a porta por um instante para vestir-se. Voltou secando os cabelos com uma toalha.

— Ficou ótimo! Minha sogra tem bom gosto.

— Sim, lhe caiu como uma luva — disse a governanta, alisando com as mãos o tecido sobre o peito e os ombros de Gianfrancesco. Tinha o ar impessoal de quem alisa uma fronha sobre um travesseiro. Acrescentou, olhando para o rosto dele com admiração, mas sem encarar diretamente seus olhos: — E ele é muito bonito.

— Lembrancinha da minha última viagem.

— Muito bonito — repetiu, talvez para a patroa, talvez para si mesma. Gianfrancesco agradeceu o elogio, e ela pediu licença à dona da casa para retirar-se.

— Agnes, volte aqui, por favor.

— Tem ordens, Madame?

— Tenho. Peça para trazerem da cozinha um lanche para ele, e prepare um quarto para acomodá-lo aqui neste corredor.

— Qual, Madame?

— Mostre os disponíveis a ele e deixe que escolha.

— Certo. Já ia me esquecendo de comunicar que Dr. Wright está aqui para vê-la — o rosto de Diana mostrou uma expressão de agradável surpresa.

— Deixe que suba, o receberei aqui mesmo — Agnes assentiu e deixou o quarto — Aí está minha segunda visita.

❖❖❖
Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 23/11/21 18:23

Minha Deusa, depois de tantas desventuras, finalmente eles se encontraram! Tô com medo dessa doença da Diana... espero que não seja nada grave :c Sempre dou risada com esse conceito de fantasmas andando pelas casas (só não gosto de me encontrar com eles kkk).

Obrigada por compartilhar conosco!

Parabéns, Endora ♥

Postado 24/11/21 10:08

At last! Kkkk Gianfrancesco comeu o pão que o Diabo amassou com manteiga rançosa e café requentado. Mas foi bom pra ele ver como é a vida fora da mamata kkkkk

Kkkk eu também. Ainda bem que na minha casa não tem nenhum. Mas, de noite, qualquer barulhinho, meu coração já dá um pulo!

Obrigada, Mrs Black ❤