Até Eu Te Perder (Parte 1) (Em Andamento)
Sabrina Ternura
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 17/10/21 02:25
Editado: 07/08/22 02:32
Qtd. de Capítulos: 6
Cap. Postado: 17/01/22 15:55
Cap. Editado: 03/02/22 23:02
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 29min a 38min
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[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de catorze anos
Até Eu Te Perder (Parte 1)
Capítulo 4 O Amante Perdido e a Amada Gentil

Philip, Ternura, Tristeza e Nekromanteion caminham pelo corredor em direção a sala de jantar, enquanto conversam descontraidamente. Quando se aproximam da porta do local, eles ouvem o barulho dos pratos sendo colocados na mesa pelos criados e o som de instrumentos sendo afinados pelos músicos.

— Parece que ainda estão organizando. — Esclareceu Ternura para ninguém em particular.

Nekromanteion, entretanto, encarava com atenção uma outra porta que estava entreaberta do outro lado do corredor e Tristeza, percebendo uma crescente curiosidade nos olhos do jovem e uma oportunidade para deixar a irmã mais nova e Philip sozinhos, perguntou:

— Gostaria de conhecer a biblioteca, senhor?

— Sim, com certeza! — Ele prontamente respondeu, dirigindo-se ao lugar ainda de braços dados com a garota, porém parou de caminhar e franziu o cenho ao perceber como ela havia se dirigido a ele. — E, por favor, não me chame de senhor. Me sinto incrivelmente velho.

— Como devo chamá-lo, então? — Questionou Tristeza, abrindo com a outra mão a porta da biblioteca.

— Pode me chamar de Jeff.

Antes que ela pudesse perguntar o porquê do nome e que ambos pudessem adentrar o cômodo, a garota sentiu seu vestido sendo puxado levemente, o que a fez se virar para verificar. Quando suas íris azuis encontraram os intensos e aterrorizados olhos lilases de sua irmã mais nova, ela soube instantaneamente que Ternura não sabia o que significava uma oportunidade de estar a sós com quem gostamos e, ao olhar para Philip e vê-lo um pouco nervoso, soube que ele também não compreendia. Uma pontada de culpa atingiu Tristeza, porque, por alguns minutos, ela se esqueceu de algo extremamente trivial: que ambos eram apenas crianças e que aquela, possivelmente — talvez mais para Ternura do que para o filho do czar —, fosse a primeira experiência deles com as regras formais do mundo adulto e os sentimentos conflitantes do amor.

— Vocês vão… nos deixar sozinhos? — Questionou Ternura de modo hesitante e com as bochechas levemente coradas.

— Por que? Vocês estão planejando fugir para casar? — Rebateu Nekromanteion com a voz embargada de divertimento, o que aliviou Tristeza, pois ela não sabia como agir. Notando o olhar ainda mais constrangido dos menores, o jovem prosseguiu, porém com dramaticidade: — Por favor, não coloquem em prática este plano, pois Diablair iria arrancar as minhas costelas e as de Tristeza com uma pinça.

Apesar da tentativa do mais velho do quarteto de amenizar a situação, Philip e Ternura, agora com suas bochechas rubras, pareciam ainda mais envergonhados e desconfortáveis com a ideia de ficarem sozinhos. Jeff adotou uma postura mais acolhedora e disse com tranquilidade:

— Vocês não estarão sozinhos completamente. Nós estaremos na biblioteca com a porta aberta e há pelo menos uma dúzia de criados na sala de jantar.

— E vocês podem ir conosco, caso não estejam confortáveis. — Completou Tristeza com gentileza.

Inicialmente, as feições dos mais novos eram de puro pânico, no entanto Philip, ao ponderar sobre a situação em si e perceber que não poderia deixar que seus sentimentos o impedissem de aproveitar momentos incríveis ao lado de Ternura, respirou fundo e questionou despretensiosamente à menina, antes que a coragem escapasse de seus lábios:

— A senhorita sabe qual será o repertório tocado hoje?

A infante o encarou com a sobrancelha arqueada, completamente surpresa com a pergunta. Foi então que sua expressão se amenizou e ela sorriu, olhando para baixo e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha em seguida. Ternura sempre fazia isso quando estava com vergonha e com uma crescente animação no peito, por isso, quando o respondeu, sua voz estava embargada de uma palpável alegria:

— Na verdade, a tia Fubuki pediu que eu escolhesse o repertório.

Nekromanteion e Tristeza começaram a adentrar lentamente a biblioteca, porém Ternura e Philip, imersos no assunto que se iniciava, sequer perceberam a movimentação. Quando os dois tomaram uma distância relativamente grande e perceberam que os mais novos conversavam confortavelmente, a garota soltou o braço do jovem de cabelos negros e afirmou com satisfação:

— Ele foi certeiro na pergunta, pois Ternura ama música e poderia passar horas falando sobre.

Nekromanteion encarou as reações de surpresa e encanto nas feições de ambas as crianças e sorriu quando disse:

— O Phi… quer dizer! O mestre, quando não está com as emoções descontroladas, sabe ler bem as pessoas.

A garota encarou o jovem de cabelos negros com atenção, suspeitando pela autocorreção que ele acabara de fazer. Cruzando os braços, ela o olhava como se tentasse descobrir através de suas expressões por qual motivo ele agia com tanta formalidade com o menino, sendo que claramente eles eram próximos. A feição de Jeff era ilegível, exatamente como a dos mentirosos, pois sabe-se que, quando você não possui nada para esconder, não precisa estampar isso com tanta intensidade em seu rosto. Tristeza pensou em confrontá-lo, depois julgou mais sensato apenas perguntar sobre o real nome do filho do czar, porém, no fim, tudo o que disse foi:

— Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?

Quando as palavras saíram, ela se amaldiçoou pela espontaneidade, pois Nekromanteion arregalou os olhos, atordoado, como se houvesse sido pego fazendo algo errado. Ele sabia que, se não tentasse explicar o que estava acontecendo, havia a possibilidade de Tristeza sair correndo dali para anunciar aos tios que ele e Philip eram espiões, no entanto ele não sabia se estavam perto de serem encontrados pelas entidades do Hades e não queria arriscar, principalmente quando a vida de sua amada poderia estar correndo perigo. O jovem julgou mais sensato aguardar a iniciativa do próprio Philip de contar o que, de fato, os havia levado até ali. Ele endireitou o corpo e disse com sinceridade:

— No Hades, nós não temos o costume de falar nossos nomes secretos para aqueles que não são próximos. Acreditamos que o nome dado por nossos pais são presentes preciosos. Todos me conhecem como Nekromanteion, por exemplo, porém apenas alguns me chamam de Jeff. Não posso revelar o nome de meu mestre sem que ele dê o consentimento para tal. Espero que entenda, senhorita Tristeza, e não pense que há algo a mais por trás disso.

As palavras eram verdadeiras, assim como a tradição tão característica do Hades, elas só não continham algumas minúcias relevantes, como, por exemplo, a verdadeira relação de Philip e Nekromanteion, toda a confusão política da dimensão que habitavam e como Jeff sabia o nome do filho do czar, sem que o menino houvesse lhe contado tal informação. A garota pareceu convencida pela explicação e, afastando-se dele, foi até a estante mais próxima e pegou um livro aleatório, folheando-o despretensiosamente em seguida. Quando ela ergueu os olhos das páginas levemente amareladas, havia um vazio triste em suas íris azuis, mas quando ela pronunciou as palavras a seguir, Jeff compreendera o verdadeiro significado de solidão:

— É uma bela forma de pensar… Eu gostaria que ninguém soubesse que meu nome é tão triste…

Um silêncio ensurdecedor pairou sobre o ambiente. Nekromanteion não sabia o que dizer e sentia-se culpado por ter tocado, mesmo que inconscientemente, em um assunto tão delicado. Antes que a quietude se tornasse ainda mais desconfortável, ele perguntou com curiosidade:

— Qual nome você escolheria ter?

Por um momento, Tristeza apenas o encarou, pensativa. Depois se voltou para o livro em suas mãos, fechando-o e colocando-o de volta no lugar. Enquanto encarava a prateleira sem realmente enxergar as obras que ali estavam, ela refletia sobre a pergunta, mas mais ainda sobre a resposta, pois a garota sabia exatamente qual nome teria, contudo sempre que falava a respeito, as pessoas riam. Tristeza tentou disfarçar o constrangimento colocando uma mão na cintura e a outra no queixo, como se estivesse ponderando, como se nunca tivesse virado noites pensando a respeito e como tudo poderia ser diferente se seu nome fosse outro. Por fim, respondeu com hesitação:

— Larimar…

— Igual ao cristal? — Questionou Jeff com doçura, sorrindo.

Ela se voltou para ele e acenou positivamente com a cabeça, enquanto um misto de surpresa e emoção mesclavam-se em seus olhos, formando pequenas lágrimas. Para esconder seus sentimentos, ela virou de costas para o jovem e começou a verificar outra estante, como se estivesse procurando algo. Tristeza pigarreou, buscando limpar a garganta para impedir que o choro eclodisse juntamente com as palavras, e afirmou:

— Você disse que no Hades os nomes só são revelados para pessoas próximas, mas… nós nem nos conhecemos direito e você já me disse qual é o seu…

— Por algum motivo, os cinco minutos de conversa que tivemos foram suficientes para que eu a visse como uma amiga de anos. — Explicou Jeff, dando de ombros, indo em direção à estante ao lado da garota. — Além disso, eu sou uma Entidade Superior, nascido das águas do rio Nekromanteion¹. Por causa disso, não tenho pai e nem mãe, pois sou um dos Fragmentos da Morte, logo, meu nome comum acabou sendo o mesmo do local onde nasci e não possui um significado tão especial assim... Jeff, no entanto, é o meu nome secreto e precioso, porque me foi dado pela mulher mais importante da minha vida.

— Sua esposa o batizou? — Questionou Tristeza com a sobrancelha arqueada.

— Sim. — Ele respondeu rindo, enquanto andava até uma das poltronas mais próximas e se sentava. Jeff olhou de realce para Philip e Ternura, que olhavam com atenção para dentro da sala de jantar, e prosseguiu: — Existe uma profecia no Hades disseminada pelos seguidores de Perséfone, que diz: quando o amante perdido for encontrado por sua amada gentil, ela lhe dará um nome e não um beijo, pois apenas o amor mais profundo

— … pode resistir ao batismo do fogo. — Completou Tristeza em um sussurro.

Nekromanteion a encarou com curiosidade. A Dimensão do Hades era extremamente fechada, portanto dificilmente os costumes, as crenças e a cultura eram conhecidos pelos habitantes das outras dimensões. O fato de Tristeza saber de algo tão específico cativou ainda mais a atenção do jovem sobre ela. A garota mordia levemente a ponta de seu polegar e uma expressão de surpresa estava estampada em seu rosto, como se tivesse acabado de descobrir algo. Antes que ele pudesse pensar em dizer qualquer coisa, ela falou, enquanto andava de um lado para outro:

— Ternura fala dormindo. Geralmente ela só diz nomes de comida, mas… Ontem ela apareceu no meu quarto de madrugada, claramente sonâmbula, e proferiu essa mesma profecia. Essas palavras não saíram da minha mente e passei a manhã inteira procurando elas nos livros, mas não encontrei nada… Então, agora pouco, aconteceu da lua iluminar o jardim, enquanto algo mágico claramente acontecia entre ela e o menino… — Ela fez uma pausa, tomando fôlego antes de prosseguir com um tom de incredulidade: — Você não acha tudo isso muito suspeito?

Por alguns minutos, podia-se ouvir apenas o som do silêncio pairando pela biblioteca, enquanto a mente de Tristeza continuava a buscar uma solução sensata para o que estava acontecendo. O jovem de cabelos negros, bombardeado pelas informações, só conseguia pensar em duas coisas e compartilhou-as com Tristeza:

— Talvez haja a possibilidade da sua irmã ser uma estudiosa devota das profecias do Hades, mais especificamente as destinadas ao culto de Perséfone… — Sugeriu Jeff sem nenhuma credibilidade na voz.

— Ternura só tem cinco anos. Acho que ela não sabe nem quantas dimensões existem. — A garota o interrompeu com incredulidade.

— Ou — Prosseguiu Nekromanteion, agora com mais confiança em seu tom. — Talvez não se trate apenas de um romancinho infantil e todos esses sinais mostrem que eles são predestinados um ao outro.

A irmã de Ternura parou de andar e encarou uma estante aleatória, completamente em choque por finalmente ter escutado em voz alta as palavras que assombraram sua mente a noite inteira. Jeff, por outro lado, estava aterrorizado, pois percebeu que, talvez, aquilo tivesse soado como se ele e Philip estivessem ali apenas para firmar uma aliança política através do casamento de duas crianças, mas criando um cenário quase espiritual para fazer os outros crerem que era uma boa ideia. No momento em que Nekromanteion se levantou para buscar se retratar, Tristeza se virou e o encarou com divertimento, enquanto dizia:

— Não seria o pior dos cenários ser cunhada do futuro czar do Hades.

Antes que o jovem pudesse responder, uma música lenta, vinda da sala de jantar, ecoou pela biblioteca. Não era uma melodia tocada pelos instrumentos dos músicos, então Tristeza supôs que a origem do som era do toca discos. Foi então que a garota e Jeff notaram que Ternura e Philip não estavam mais na porta. Os dois se entreolharam com curiosidade, as sobrancelhas arqueadas e sorrisos se formando em seus lábios. Ambos saíram da biblioteca e quando adentraram o local onde aconteceria o jantar, eles se depararam com uma cena um tanto quanto indescritível.

— Que diabos eles estão fazendo? — Questionou Tristeza, tentando conter um sorriso.

— Estão dançando… — Respondeu Nekromanteion, olhando-os com doçura. — Como apenas quem ama de verdade pode dançar: com a alma.

______________________________________

Após a saída despercebida de Tristeza e Jeff, Ternura e Philip conversaram por alguns minutos acerca do repertório da noite. O menino a escutava com atenção e não sabia se era o modo agitado como as pequenas mãos dela se moviam ou se era a alegria quase palpável que ele ouvia no tom da voz dela, no entanto ele sentia que esses simples gestos diziam muito sobre o tipo de pessoa que ela era: alguém gentil, que se entregava por inteiro pelas coisas que amava e que era a personificação perfeita do significado de ternura. Philip tentou disfarçar, mas acabou deixando escapar um sorriso por estar completamente imerso na doçura e nas palavras dela.

Todavia, ele foi retirado de seus devaneios e Ternura parou de falar, quando os criados e os músicos saíram da sala de jantar. Os dois olharam para dentro do cômodo e viram uma mesa longa e elegantemente posta ao decorrer dos onze lugares, assim como um pequeno palco com dois violinos, um violoncelo, um piano e alguns instrumentos de percussão. A sala de jantar da Mansão das Sombras era utilizada para eventos íntimos, então Fubuki buscava deixá-la a mais acolhedora possível, colocando grandes vasos brancos de cerâmica com flores de sua estufa particular, cores claras nos objetos de decoração que acabavam por ressaltar o verde pistache das paredes e pequenas esferas de luz que se espalhavam pelo teto como se fossem uma extensão das estrelas que surgiam, tímidas, no céu negro que podia ser visto através da cúpula de vidro que ficava acima do centro do local. O menino observava os detalhes da sala com encanto, entretanto, quando ele sentiu os dedos de Ternura tocando os seus, um misto de emoções o preencheu. Philip moveu lentamente a cabeça e, mesmo sentindo as bochechas queimarem de vergonha, ele retribuiu o gesto, entrelaçando seus dedos nos dela. Com muita doçura, ele percebeu que sua mão poderia facilmente cobrir a dela, que era pequenina como uma concha. Ela arregalou os olhos, surpresa, e suas bochechas tomaram uma coloração rubra. Com timidez, Ternura disse:

— Vem comigo…

O menino acenou positivamente com a cabeça e ambos entraram de mãos dadas na sala de jantar, caminhando em direção ao pequeno palco. O filho do czar percebeu que, atrás de um dos vasos que enfeitavam o local, havia uma pequena mesa, com um objeto sobre ela. A infante soltou a mão dele, se direcionou até uma pilha de discos e, quando encontrou o que queria, o inseriu no objeto — que começou a girar — e abaixou a agulha sobre ele. Uma melodia baixa e lenta ecoou através do tubo e Ternura se voltou para Philip, que tinha uma feição confusa no rosto enquanto encarava o disco rodando. Ao identificar que ele não conhecia o objeto, Ternura explicou:

— Se chama toca discos. Você escolhe um disco, coloca ele aqui e a música sai.

Havia um encanto imenso nos olhos de Philip por conta da descoberta e isso contagiou o coração de Ternura. Ela era a irmã caçula e a mais nova de sua família, então raramente explicava as coisas para os demais, porém, diante daquele menino, essas trivialidades pareciam desaparecer. Ela sentia que poderia explicar para ele conceitos complexos de música ou como um toca discos funciova sem parecer chata. Ela sentia que poderia ensinar a Philip a respeito de coisas desconhecidas e aprender muitas outras com ele, simplesmente porque não havia uma hierarquia entre ambos, apenas os conhecimentos e vivências individuais de cada um. Em contrapartida, Ternura teve a impressão de que, da mesma forma que poderia ensinar algo a ele com humildade, ela poderia ser sincera e dizer que não sabia sobre alguma coisa. Isso a confortou, pois ela estava prestes a dizer a ele sobre algo que não conseguia fazer:

— Então… — Ela começou, hesitante, chamando a atenção dele. — Eu não sei… dançar ainda.

— E eu não sabia a poucos segundos o que era um toca discos. — Philip prontamente a respondeu. Ele estendeu a mão para ela e continuou: — Me faria muito feliz se você, mesmo não sabendo, pudesse me conceder a honra desta dança.

Ternura segurou com os dedos trêmulos a mão dele, sentindo o coração saltar dentro do peito. Enquanto gentilmente a conduzia até o centro da pequena pista de dança, Philip não desviou o olhar do dela, tentando criar um ambiente confortável para que ela se sentisse segura. Ele parou de andar, passou o braço ao redor da cintura dela e perguntou antes de realizar o próximo movimento:

— Vou levantá-la e colocá-la sobre meus pés, tá bem?

— Mas e se sujar suas botas? E se eu for pesada demais? — Ternura interrogou com preocupação.

— Não se preocupe com isso! — Ele exclamou com sinceridade, enquanto esboçava um sorriso.

Ela deu apenas um aceno ansioso em resposta e colocou as mãos sobre os ombros dele, dando-lhe permissão para prosseguir como quisesse. Philip a levantou pela cintura e a colocou em cima de seus pés e foi então que ele percebeu que ela estava perto o suficiente para que ele pudesse sentir o cheiro de jasmim que emanava dos cabelos dela e como ela parecia se encaixar perfeitamente em seus braços. Ao ser assaltado por esse pensamento, Philip sentiu as bochechas queimarem, porém prosseguiu e colocou a outra mão na cintura dela, como se estivesse a abraçando. Ternura sentiu um arrepio percorrer seu corpo e afundou o rosto sobre o peito do menino em uma falha tentativa de esconder seu constrangimento.

Uma nova música começou a tocar, desta vez um pouco mais alta que a anterior. A melodia era lenta, suave e um pouco triste². Philip começou a mover os pés e Ternura sentiu que estava flutuando. Ela sentia que estava perdendo e encontrando algo, na mesma perspectiva que estava lembrando e esquecendo de alguém especial… Era como se a menina conseguisse compreender o significado de solidão e de amor, simplesmente por estar envolta pelos braços dele. Os olhos de Ternura se encheram de lágrimas tristes, enquanto seus lábios abriram um sorriso de alegria. Ela virou o rosto, de modo a encostar a cabeça no peito de Philip. A infante havia julgado ter sentido todas as emoções possíveis naquela única noite, no entanto, quando o som das batidas do coração dele chegaram até seus ouvidos, ela compreendeu que ele era seu lugar e que se um dia tivesse que se apaixonar por alguém, seria por ele.

Philip não estava ileso dos intensos sentimentos que preenchiam cada vez mais o ambiente. Ele sentia seus pulmões se encherem de ar com violência, enquanto suas mãos, agora no meio das costas de Ternura, sentiam o respirar sereno dela. Era como se ele fosse a personificação do medo e da aflição e ela fosse o significado da coragem e da calmaria, mas, ainda assim, algo em seu coração que só havia conhecido a escuridão até aquele momento, lhe dizia que apenas a luz dela poderia compenetrá-lo no nível em que ele se encontrava e que, se existia alguém capaz de encontrá-lo em suas sombras, era ela.

O filho do czar balançava lentamente o corpo, enquanto apoiava o queixo sobre a cabeça de Ternura. Sem pensar, ele sussurrou:

— Hoje eu sonhei com você… E, agora que estamos aqui, parece que ainda estou sonhando.

— Também sonhei com você. — Ela sussurrou de volta. — Por que parece que…

A infante se interrompeu e levantou os olhos para encará-lo. As íris dele eram vermelhas como as de Diablair, mas, diferentemente do tio, havia algo escondido nelas: uma solidão tão mortal que Ternura sentia vontade de chorar por ele e jamais sair de seus braços para impedir que aquilo voltasse a consumi-lo. De repente, a cúpula acima deles se iluminou e a lua cheia podia ser vista em toda a sua magnitude, porém nenhum dos dois pareceu se importar com isso, pois a conexão que haviam estabelecido naquele momento era tão profunda que nada poderia interrompê-los. Os lábios de Ternura tremeram levemente quando ela sussurrou:

— Por que parece que eu gosto tanto de você, Philip?

Os olhos lilases dela se encheram completamente de lágrimas e, quando uma delas escapou, o menino a acolheu gentilmente com seu polegar. Ele não se surpreendeu com o fato dela saber seu nome, pois isso confirmava que, sim, eles haviam se encontrado em seus sonhos e que, após o incidente no jardim em que ela o havia salvado, eles estavam conectados. Ainda assim, o coração de Philip acelerou por conta da declaração sincera dela. Por isso, ele encaixou seu rosto na curva do pescoço dela e sussurrou:

— Por que parece que eu, também, gosto tanto, mas tanto de você, Ternura?

Ele a apertou em seu abraço e ela retribuiu. Ambos foram tomados por um deslumbramento inexplicável e puro, que os encheu de alegria e dor. Por mais que eles estivessem nos braços um do outro, algo os dizia que seria temporário e que, em breve, eles descobririam o que significava estar longe de alguém amado.

A lua não era a única que os observava. Na porta da sala de jantar, além de Tristeza e Nekromanteion, encontravam-se Tortura, Blake, Imperatriz e Damon. Os seis se afastaram da entrada do local e aproximaram-se da parede, como se estivessem prestes a compartilhar um segredo de estado.

— Pela Deusa, eles estão apaixonados! Isso está mais claro do que a luz do sol, quer dizer, da lua! — Exclamou o vampiro em um sussurro afobado.

— Mas eles são só crianças… — Começou Tortura com um sussurro preocupado.

— E talvez nem compreendam o que significa amar alguém. — Blake completou a frase da namorada em um sussurro.

— É apenas amando que compreendemos o que significa amar alguém. Não há atalhos. — Sussurrou a Imperatriz com seriedade.

— Além disso, eles podem ser apenas crianças, mas uma hora tudo vai se encaixar, eles vão crescer e entender o quão especial todos esses acontecimentos foram. — Nekromanteion explicou em um sussurro apressado.

— Acho que toda essa situação está muito além do que nós achamos e compreendemos. — Disse Tristeza com firmeza, sem sussurrar. — Mesmo que haja impedimentos, eles ficarão juntos, porque é o que acontece com aqueles que estão predestinados. O amor nasce nos corações que querem amar e literalmente tudo está nos mostrando que eles almejam isso, mesmo que não compreendam o significado.

Diante da sabedoria prematura de Tristeza, todos se calaram. Enquanto isso, no começo do corredor, encostado em uma parede, encontrava-se Diablair, que havia escutado parcialmente a conversa do sexteto. Ele havia visto da janela de seu quarto a lua iluminando a cúpula da sala de jantar e se dirigiu até ali para confirmar a ele mesmo o que seu coração soube no instante em que ele vira Philip completamente rendido por Ternura no jardim: que aqueles dois podiam ser pequenos, mas seus corações conseguiam comportar um sentimento imenso. O filho do czar não era o pretendente que ele sonhara para sua afilhada, mas, talvez, não fosse o pior deles. Talvez houvesse algo bom nele que Diablair ainda não conhecia e foi com esse pensamento que ele voltou a subir os degraus da escada, com o intuito de retornar ao seu quarto.

O silêncio ainda pairava sobre os jovens no corredor, quando a risada alta de Ternura os sobressaltou. Os seis jovens andaram apressadamente até a entrada da sala de jantar e se depararam com uma cena que aqueceu seus corações: Philip e Ternura dançavam uma quadrilha desengonçada. Eles entrelaçavam os braços rapidamente, mas acabavam se atrapalhando na hora de repetir o passo da dança no outro braço. Quando chegou a hora do rodopio, o menino segurou sua parceira pela cintura e a levantou, fazendo com que ela risse alto mais uma vez. A dança se encerrou dessa forma, e enquanto os recém chegados aplaudiam a performance das crianças, os dois faziam elegantes reverências um para o outro, completamente ofegantes.

Vendo que ambos estavam corados e cansados pelo esforço da dança, Damon caminhou até a mesa das bebidas e encheu duas taças de limonada para os mais novos, entregando a eles em seguida. Philip tomou o líquido gelado devagar, mas Ternura pareceu tomar tudo em um único gole, limpando a boca com as costas da mão e soltando um suspiro de alívio quando terminou. O menino a encarava incrédulo por cima da taça, o que fez os demais presentes rirem. Os músicos adentraram o local e Tortura pediu que eles tocassem as músicas mais agitadas do repertório escolhido para aquela noite.

— É bom que você se prepare para dançar até seus pés caírem. — Falou a jovem de cabelos negros a Blake, puxando-o em direção a pista de dança. — Precisamos compensar por causa de amanhã.

— Olá, senhorita. — Disse Damon em tom galanteador para a Imperatriz, segurando-a pelas duas mãos. — Sinto que uma estaca de madeira atravessaria meu coração se você não dançasse comigo esta noite.

— Pelo ódio da Deusa, homem! Não diga isso nem brincando. — Repreendeu a jovem de cabelos verdes.

Tristeza e Nekromanteion apenas olharam um para o outro e, como se com apenas um olhar concordassem, se juntaram aos outros. Quando as três garotas fizeram uma fileira do lado esquerdo e os três jovens fizeram outra do lado direito, eles notaram a ausência dos mais novos. Quando olharam para o canto da sala de jantar, se deparam com Philip repreendendo Ternura.

— Você não pode comer doces antes do jantar, Ternura. — O menino disse em tom amável, tocando com gentileza a mão dela, que tentava furtar um dos canudos de açúcar da mesa de doces.

Ternura bufou e cruzou os braços, completamente irada.

— Quando a gente casar vamos comer a sobremesa antes das refeições e você não vai poder brigar comigo por isso, Philip! — Ela exclamou em voz alta.

Por um momento, a única reação dele foi prender a respiração e ficar com as bochechas coradas por conta da fala espontânea da menina. Entretanto, ao encará-la e vê-la com uma ira que facilmente poderia caber em um ser humano de dois metros, ele achou toda a situação extremamente engraçada. Ele curvou levemente o tronco para ficar na mesma altura que ela e rebateu com divertimento:

— Você não acha que é pequena demais para ficar brava desse jeito?

Ela cerrou os olhos e continuou o encarando quando respondeu:

— A ira cabe até nos pequenos frascos.

— No seu caso não seria pequeno, mas, sim, minúsculo! — Devolveu o menino com sarcasmo.

A menina travou o maxilar perante o ataque e sorriu com acidez, apontando o dedo indicador sobre o peito de seu inimigo.

— Você escolheu a mulher errada para perturbar, senhor herdeiro do trono do Hades.

Philip segurou a mão dela e beijou suavemente a dobra dos dedos. Ela continuava brava, mas havia sido afetada pelo golpe baixo que ele havia dado.

— Muito pelo contrário! Eu escolhi a mais certa de todas, minha futura esposa.

Quando o rosto de Ternura tomou uma coloração escarlate, Philip soube que havia ganhado aquela batalha. Foi neste momento que ele iniciou a lista Coisas Que Eu Amo na Ternura e o primeiro item era: irritá-la quando ela está brava.

É de conhecimento comum, caro leitor, que um homem apaixonado realiza as mais diversas loucuras pela mulher que adora e que redobra a atenção quando a mesma está irritada. No entanto, apenas um homem que ama perdidamente sua mulher utiliza a oportunidade de irritá-la para relembrá-la do quanto ela é amada.

❖❖❖
Notas de Rodapé

¹ O Nekromanteion era um antigo templo grego de necromancia dedicado a Hades e Perséfone. Segundo a tradição, estava localizado nas margens do rio Acheron, em Epiro, perto da antiga cidade de Éfra. Os devotos acreditavam que este local era a porta para Hades, o reino dos mortos. — Fonte

² Música citada: SYML - Where's My Love [Piano and Viola Version]

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Postado 03/07/22 23:37

Pelo ardor de todo o Inferno, como alguém consegue construir e conduzir interações tão fluidas e interessantes entre os personagens da forma que esta autora de modo maestro? Não sei dizer, só sei afirmar que cada capítulo é tanto um deleite quanto um SENHOR aprendizado!

O grau de detalhamento é algo que também me prende e surpreende, pois tudo é feito de modo a agregar ainda mais robustez à narrativa, tornando a experiência da leitura imensamente agradável e gratificante. Aliás, é bom frisar que, embora a cena da biblioteca tenha sido muito boa, tudo mais que veio depois foi de uma intensidade e profundidade que salta aos olhos e faz a imaginação do leitor alçar o mais belo dos vôos momento adentro... Impressionante como tudo acaba virando um magistral filme na nossa cabeça, é algo que somente uma leitura de alta qualidade pode nos proporcionar e, felizmente, a autora cumpre com êxito seu gentil papel em nos prover!

Um capítulo admirável, absolutamente admirável, assim como aprazível! E olha que nem sou lá fã de romances, mas esta cena em especial foi de uma pureza e beleza ímpares! Meus mais sinceros parabéns e minha gratidão por nos proporcionar algo tão incrível a nível de leitura!

Atenciosamente,

um ser que nunca dançou (exceto sozinho na Vida sob músicas horrendas), Diablair.

Postado 06/08/22 00:23

Fico cheia de alegria em saber que esse capítulo te agradou! Apesar de ser bem mamão com açúcar, o romance nessa obra é algo que gosto bastante e está bem fora do que estou acostumada a escrever (acredite, é muito difícil e delicado escrever sobre o primeiro amor entre duas crianças x.x). Saber que a experiência de leitura está sendo imersiva me deixa ainda mais contente.

Obrigada pela presença e comentário, Diab. Eles sempre são um baita abraço ♥

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