Até Eu Te Perder (Parte 1) (Em Andamento)
Sabrina Ternura
Usuários Acompanhando
Tipo: Romance ou Novela
Postado: 17/10/21 02:25
Editado: 07/08/22 02:32
Qtd. de Capítulos: 6
Cap. Postado: 19/06/22 01:30
Cap. Editado: 19/06/22 01:33
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 48min a 64min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
Total de Visualizações: 82
Usuários que Visualizaram: 3
Palavras: 7764
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de catorze anos
Até Eu Te Perder (Parte 1)
Capítulo 5 Banhada Pela Lua

Encostado no batente de madeira de uma das janelas de seu quarto e trajando apenas uma calça formal azul escura, Pablo revezava seu olhar atento entre a lua que iluminava a cúpula da sala de jantar e entre as duas pequenas figuras entrelaçadas que dançavam lentamente abaixo dela. Ele não precisava ser um dos eficientes subordinados da esposa para descobrir a identidade dos dois dançarinos, pois a esfera brilhante que reluzia por toda a extensão de sua propriedade os denunciava.

O senhor Calígula, como comumente fazia quando estava diante de um dilema, encheu os pulmões de ar com violência e o expurgou lentamente, como se o gesto pudesse trazer-lhe uma solução simples para a situação conflituosa entre o filho do czar e Diablair. O Príncipe das Trevas suspeitava com veemência que o menino e seu servo estavam ali com mais intenções do que demonstravam, porém não parecia ser do feitio de Vassily Petrov, o atual czar do Hades, enviar seu herdeiro com o intuito de firmar um acordo entre as dimensões através do matrimônio entre duas crianças, sendo que uma delas era uma menina desconhecida e, por ser a completa antítese de seu filho, poderia vir a derrotá-lo. Além disso, pensou Pablo com desprezo, ele jamais permitiria que alguém com o tom de pele dela fosse uma czarina. Das poucas coisas que o irmão de Diablair sabia sobre a Dimensão do Hades, haviam duas extremamente abomináveis: a ideologia de supremacia da raça branca e como funcionava a seleção das czarinas — onde, em uma das etapas, uma paleta com tonalidades do “branco ideal” era colocada sobre diversas partes do corpo das mulheres para saber se elas possuíam a cor certa para serem dignas do título mais elevado da dimensão. Portanto, estava fora das alternativas suspeitar de um possível casamento forçado entre o filho do czar e Ternura, o que revelava o quanto o envolvimento espontâneo dos dois era verdadeiro e não arquitetado por um tirano maquiavélico.

As suspeitas de Pablo recaiam sobre uma falsa aliança política anunciada na comemoração de suas bodas, que terminaria com a traição da Dimensão do Hades e uma invasão ao território infernal. Ele fechou os olhos e apertou as pálpebras com os dedos, assim como sua esposa fazia quando estava nervosa, pois, pior do que cogitar um ato de deslealdade, seria o assassinato do herdeiro do Hades pelas mãos do atual líder da Dimensão Infernal. Talvez houvessem conseguido infiltrar entidades do Hades para espiar a relação de Diablair com suas sobrinhas e descobriram que o ponto fraco dele era ser um tio protetor ao ponto de tirar a vida de alguém caso fosse preciso. Se essa fosse a situação, não haveria pretexto melhor para o Hades declarar guerra contra o Inferno, contudo será que Vassily estava disposto a sacrificar seu herdeiro, aquele que havia sido declarado como o Anticristo, aquele que claramente era usado como sua maior arma?

Antes de prosseguir com uma longa lista de possibilidades, dois braços morenos envolveram delicadamente o tronco despido de Pablo. O aroma de verbena misturado com alecrim invadiu suas narinas e a sua pele exposta sentiu o leve movimento da seda do vestido daquela que acabara de envolvê-lo em seu abraço. Ele colocou a mão direita sobre as pequenas mãos da esposa, encobrindo-as. Fubuki beijou delicadamente um ponto aleatório das costas do marido e perguntou em voz baixa:

— O que está te afligindo ao ponto de fazê-lo esquecer de se vestir e de que temos convidados na sala de jantar à nossa espera?

— Um possível plano maquiavélico arquitetado pelo czar do Hades, onde o meu irmão mata o herdeiro da dimensão por ciúmes e a Primeira Guerra Satânica explode como uma bomba atômica, terminando com a derrota do Inferno… Isso parece um bom pretexto para esquecer a roupa e os convidados.

Uma risada melodiosa explodiu dos lábios de Fubuki, o que fez seu marido sorrir em meio a tantas preocupações. A mulher se moveu para a frente dele e ficou de costas, apontando para a parte de trás de seu vestido desamarrado.

— Me dê uma ajudinha com o vestido e eu irei esclarecer algumas coisas para você. — Disse ela com divertimento.

Um sorriso malicioso se formou nos lábios de Pablo, enquanto ele deslizava um dedo pelas costas dela, fazendo-a se arrepiar. Ao ver o estremecimento da esposa, ele colocou ambas as mãos dentro do vestido dela através da abertura do vestido, de modo que as mesmas pudessem segurar os seios firmes dela. Fubuki deixou um gemido baixo escapar e ele sussurrou em seu ouvido:

— Acredito, senhora Calígula, que deva me esclarecer o motivo de ser tão gostosa.

Habilmente, Pablo colocou ambos os mamilos dela entre os dedos e começou a brincar com os mesmos, enquanto Fubuki, completamente domada pela excitação, encostava o corpo no do marido, como se buscasse apoio para não cair no abismo de prazer que se estendia diante dela. Sem pensar, ela se virou, livrando-se do toque dele e tomando seus lábios, como se apenas beijando-os pudesse saciar seu desejo. Pablo empurrou sem muita delicadeza o corpo de Fubuki até a janela e ergueu o tecido sedoso do vestido dela até que o mesmo ficasse acima de sua cintura. Sem interromper o beijo, ele deslizou uma das mãos até o meio das pernas dela. Ao notar a ausência de qualquer peça íntima, o homem se afastou, encarando-a com surpresa.

— Você pretendia ir para o jantar assim?

— Eu pretendia… — Começou ela, envolvendo as pernas na cintura dele enquanto agarrava os cabelos negros do marido pela nuca com certa violência. Antes de prosseguir, ela o beijou intensamente por alguns segundos, como se seus lábios derramassem sobre os dele a potência de seu desejo. Quando o ar tornou-se rarefeito, ambos se afastaram e ela sussurrou: — Eu pretendia descobrir se você gostaria de se deliciar de outra maneira antes do jantar.

As palavras, pronunciadas lenta e sedutoramente, incendiaram ainda mais o corpo quase em combustão de Pablo. Ele fechou os olhos e mordeu suavemente o lóbulo da orelha de Fubuki, fazendo com que sua esposa se arrepiasse e o abraçasse com ainda mais força, quase fundindo seu corpo ao dele. Ambos retomaram o beijo, agora com mais intensidade, enquanto ele deslizava suas mãos pelas costas dela até que as mesmas se acomodassem nas curvas de suas nádegas. Não se contentando em apenas apertá-las, Pablo agilmente rodeou o tronco de Fubuki com um braço e, com a mão disponível, desferiu um tapa nada gentil na bunda esposa. Em resposta, ela arqueou de prazer e deslizou as unhas pelas costas dele, marcando a pele alva com linhas avermelhadas e irregulares. Ao se mover, Fubuki sentiu o volume da calça do marido roçar no meio de suas pernas e ansiou senti-lo dentro de si.

Rapidamente, ela se desvencilhou dele e o empurrou até o sofá. Antes que ele se sentasse, Fubuki se livrou da única peça de roupa que o marido estava usando. Assim que o tecido deslizou pelas pernas dele, ela o empurrou sobre a macia superfície do sofá. Pablo, ao se sentar, encontrava-se completamente rendido ao controle sensual e hipnótico da esposa, porém, quando a mesma encarou seu membro ereto e umedeceu os lábios, seus olhos ficaram enevoados pelo desejo e ele puxou-a para o seu colo. Quando ela se acomodou, ele segurou o vestido pelo decote com as duas mãos e o rasgou até que os seios dela ficassem expostos. Assim que os viu, ele abocanhou um dos mamilos, fazendo círculos com a língua ao redor do que, para ele, era o equivalente a um pequeno paraíso. Havia algo no gosto da pele de Fubuki que o enlouquecia.

Um gemido baixo escapou dos lábios da mulher, enquanto a mesma posicionava sobre sua entrada encharcada sobre o membro sedento do marido. Ela deslizou sobre ele de uma vez e com força, segurando-o pela nuca mais uma vez e encostando os lábios no ouvido dele, para que dessa forma ele pudesse contemplar os seus indecentes gemidos baixos. Ela sabia que poderia gemer para que todos ouvissem, mas havia algo extremamente sensual em ser ouvida apenas pelo homem que desejava.

Fubuki começou a mover rapidamente os quadris, enquanto Pablo se deliciava chupando e apertando seus seios. Entre beijos necessitados e estocadas violentas, o ritmo dos movimentos dela se intensificou e o homem sentiu que o interior dela envolvia seu membro com ainda mais força. Quando ela brevemente se afastou dele e inclinou a cabeça para trás, fazendo com que o coque bagunçado em seu cabelo se desfizesse, ele soube que ela estava prestes a gozar. As unhas dela cravaram-se na nuca dele e ela sentiu o membro do marido pulsar dentro dela, preenchendo-a cada vez mais. Com os corpos levemente suados e com a respiração ofegante, Fubuki sentiu uma onda de tremor tomá-la, enquanto seu interior era preenchido por algo quente após uma forte estocada de Pablo que, completamente rendido pelo prazer, soltava um gemido gutural no meio de seus seios.

Por alguns segundos, os dois não se moveram e buscavam acalmar suas respirações, enquanto seus cérebros retornavam para a realidade. No entanto, o retorno ocorreu de forma abrupta quando três batidas foram dadas na porta. Ambos se endireitaram, olharam um para o outro e soltaram uma risada baixa. Pablo abraçou a esposa e acomodou sua cabeça em seu lugar favorito do mundo: no meio dos dois seios de Fubuki. Assim que as batidas se repetiram, ele declarou languidamente:

— Estou ocupado agora. Qualquer recado pode ser dado ao meu secretário.

— Eu sou o seu secretário! — Respondeu a voz impaciente de Demiurgo¹ do outro lado da porta.

Ao descobrir de quem se tratava, o senhor Calígula arqueou a sobrancelha, confuso. Fubuki, suspeitando que algo grave havia acontecido — tendo em vista que o secretário pessoal do marido nunca saia de seu gabinete —, levantou-se e pegou um roupão para que ele se cobrisse com algo que não fosse o corpo dela. Assim que Pablo o vestiu e a senhora Calígula entrou em seu trocador, fechando a porta atrás de si após sua passagem, um homem esguio de pele pálida, com rachaduras abaixo dos olhos, com uma tatuagem de dragão que dava uma volta completa em seu pescoço e vestido com trajes extremamente formais, adentrou o local. Os cabelos de Pablo estavam desgrenhados e seu rosto estava levemente corado por conta dos acontecimentos anteriores, porém Demiurgo ignorou o estado de seu chefe, pois qualquer tipo de assunto que ia além de seu trabalho não causava-lhe qualquer tipo de interesse.

— Acabo de receber uma carta do czar e da czarina do Hades endereçada ao senhor e sua esposa. — Declarou o homem com seriedade e sem pestanejar, entregando para Pablo um envelope vermelho rubro.

O Príncipe das Trevas segurou com estranheza a mensagem repentina e ouviu algo dentro do trocador de Fubuki cair após o recado de Demiurgo ser pronunciado. Sem hesitar, ele desfez o lacre dourado com as iniciais do atual líder do Hades e desmontou o envelope. Ao desdobrá-lo completamente, esperou alguns segundos até que o feitiço de proteção reconhecesse que a correspondência havia sido entregue ao destinatário correto. Assim que as palavras começaram a surgir de dentro do papel com a caligrafia já conhecida da czarina — pois havia sido ela quem escreveu a outra carta enviada, agradecendo pelo convite das bodas e declarando as boas intenções do Hades em criar um laço amigável com o Inferno —, Pablo leu para si mesmo as seguintes palavras:

Honradíssimos senhor e senhora Calígula…

Primeiramente, gostaríamos de parabenizá-los por mais uma comemoração de aniversário de casamento e, tanto eu quanto meu marido, estimamos que a felicidade os acompanhe durante toda a jornada árdua do matrimônio.

Para além disso, gostaríamos de nos desculpar, pois, infelizmente, por questões familiares — e os senhores bem sabem o quanto prezamos pelo bem de nossa família —, não poderemos enviar um representante do Hades para estar presente na comemoração de suas bodas, dada a gravidade da situação. Como forma de reparação, enviamos juntamente com essa mensagem um presente para ambos: um diadema de ouro com esmeraldas que pertenceu a oitava czarina, Eligia SobiesŁawa Brzezinski², para a senhora Calígula, e, para o senhor Calígula, uma raríssima garrafa de vinho de mais de três mil anos de idade que pertenceu ao oitavo czar, Dmitry Sidorov³, e que lhe foi dada no dia de seu casamento. Retiramos esses itens da Sala dos Grandes, onde há diversos itens pertencentes aos czares e czarinas anteriores e esperamos que vejam o quanto estimamos nossa amizade e o belo matrimônio consolidado pelos senhores.

Lamentamos imensamente pela ausência de um representante em um evento que, para todos os efeitos, significaria muito não só para o fortalecimento de nossa sincera amizade, mas também para o futuro de nossas dimensões. Reforçamos nossos votos de felicidades ao casal.

Cordialmente,

Vassily Petrov, décimo quinto czar do Hades e soberano regente do Purgatório,

E Ana Crane Lewandowski, décima quinta czarina do Hades e soberana do Purgatório.

Ao terminar de ler, Pablo continuou encarando com incredulidade o papel, pois ele suspeitava que o filho do czar e Nekromanteion estavam ali com um propósito maior, porém jamais imaginou que a presença de ambos em sua casa não fosse de conhecimento dos líderes do Hades. Independentemente dos motivos que os levaram até ali, o Hades poderia interpretar essa situação como uma suposta traição do Inferno.

Fubuki abriu com violência a porta de seu trocador e caminhou até o marido, trajando um vestido de seda verde musgo com um decote em v e que possuía mangas longas. O mesmo não era longo, o que dava destaque para seu salto prata com detalhes brilhantes que ornavam com seus longos brincos da mesma cor e que se sobressaiam por conta do cabelo preso em um coque alto, com alguns fios cacheados que estavam soltos na parte da frente. Mesmo sabendo o conteúdo da mensagem por conta de sua legilimência, ela tinha ciência de que poderia haver algum tipo de magia nas palavras que permitisse que eles fossem vigiados pelo Hades, por isso disse com naturalidade ao marido:

— Por que não vai se trocar, querido, enquanto eu leio a carta de nossos amigos do Hades?

Pablo assentiu e caminhou até seu trocador, fechando a porta atrás de si em seguida. Fubuki leu novamente o conteúdo da mensagem, dessa vez utilizando um feitiço de verificação. Ao término da leitura, ela constatou que a carta não se passava de uma mera mensagem. Ela olhou para o secretário do marido e perguntou:

— Não há nenhum feitiço na carta... Então, onde estão os presentes, Demiurgo?

— Em minha sala, senhora.

— Leve-os até a sala de jantar, por favor. — Pediu Pablo com severidade, enquanto saia de seu trocador com uma elegante casaca azul escura com o símbolo dos Calígulas costurado em dourado e com os cabelos devidamente penteados. — E guarde a carta.

A senhora Calígula entregou-a para Demiurgo, que assentiu positivamente com a cabeça ao casal, saindo do local em seguida. Fubuki olhou para o marido e sentiu-se apreensiva não só pela postura implacável do mesmo, mas também pela quantidade de pensamentos complexos que ele estava tendo naquele momento. Ela fechou os olhos, colocou uma das mãos na lateral da cabeça e deu um passo para trás, como se o fluxo de pensamentos dele a atingisse como um soco.

— Fubuki, pare de ler meus pensamentos… Eu não quero lhe fazer mal. — Ele a alertou com a voz firme.

— Você sabe que não é tão simples assim. Meu dom não é uma vela que eu acendo e apago quando quero! — Rebateu ela com irritação.

Pablo a encarou com os olhos cheios de remorso. Ele estava preocupado, mas isso não era justificativa para tratar sua esposa com grosseria. Ele se aproximou dela e disse:

— Sinto muito, querida… É que essa situação me surpreendeu muito e tudo o que quero é evitar uma guerra.

— Você tem que perder essa mania ridícula de querer carregar essa dimensão nas costas sozinho. — Fubuki o repreendeu. — Eu e o Diab estamos aqui para ajudá-lo e, caso uma guerra seja inevitável, nós lutaremos para defender esse poço de maldições.

Ele suspirou profundamente e sussurrou um sincero “me desculpe, eu sei”, abraçando a esposa em seguida. Ela retribuiu o gesto e, antes de perguntar o que eles iriam fazer, Pablo disse:

— A primeira parte do nosso plano consiste em apagar quaisquer memórias que nossos criados tenham acerca do filho do czar e de Nekromanteion. Em seguida, iremos confrontá-los para saber sobre a verdadeira intenção deles. Dependendo da resposta, eu juro por todos os diabos que me arrependerei amargamente de ter impedido o Diab de matá-lo, mas…

— Mas não é esse tipo de resposta que você espera do menino. — Completou Fubuki, levantando os olhos para encarar o marido, ainda enlaçada nos braços dele. — Você acredita que ele está do mesmo lado que nós e que pode ter alguma vantagem sobre o Hades tendo ele como nosso aliado.

— Sim… — Sussurrou Pablo. — Espero que seja para se aliar a nós que ele está aqui. Espero com todas as forças que sim, tanto pelo nosso bem e pelo dele, quanto pelo da Ternura…

Por alguns segundos, os dois não se moveram e continuaram entrelaçados um nos braços do outro, como se o gesto pudesse afastá-los de toda a energia caótica que se instalaria na casa nos momentos seguintes.

— Eu daria todas as minhas riquezas, o meu título e as minhas terras para não ter que sair desse quarto e ficar com você… — Sussurrou o Príncipe das Trevas com uma estranguladora sinceridade.

— Eu sei, eu também… — Respondeu baixinho Fubuki, com uma crescente angústia em sua voz. — Mas você sabe que não podemos… Sabe que não podemos simplesmente jogar todas as responsabilidades nas costas do Diab, principalmente depois do que ele fez por nós.

A simples menção ao assunto fazia com que Pablo se sentisse impotente. Para ele, não havia nada mais importante no mundo do que a esposa e o irmão, mas saber que ele era o responsável pela condenação à infelicidade de Diablair era algo que o fazia compreender que nem a morte seria capaz de diminuir sua culpa. Apesar de ter grandes desavenças com a Deusa, o Príncipe das Trevas era grato a ela, tendo em vista que a mesma impediu que seu irmão caísse na triste solidão de seu Futuro Sombrio enviando as trigêmeas e entregando-as aos cuidados dele, mas principalmente dando-lhe a tutela da pequena Ternura. A chegada delas não apenas o afastou de sua inevitável condenação, mas também trouxe para perto dele companhias antigas: a Imperatriz retornou, após todos os acontecimentos sórdidos que afastaram os dois, assim como Blake, mesmo que o passado dele com o Líder Infernal fosse assombrado por conflitos causados pelo próprio hunter. De alguma maneira, aquela estranha divindade conseguiu dar a Diablair a felicidade que Pablo julgava ter tirado e, por esse motivo, ele a respeitava.

O homem inspirou profundamente e inalou o perfume de sua esposa no processo, buscando forças para lidar com a situação. Entretanto, Fubuki começou a rir descontroladamente e ele a encarou com um misto de divertimento e confusão.

— O que foi? — Ele perguntou.

— Nossas bodas sempre são um caos, não é? Acho que todo ano as pessoas vão acumulando problemas e confusões para resolvê-los durante as nossas festividades. — Ela explicou, rindo.

Pablo continuou olhando para a esposa risonha, sentindo uma onda de motivação preenchê-lo apenas por ouvi-la rir.

— Eu te amo, sabia? — Ele declarou espontaneamente, enquanto lançava um sorriso sincero para ela.

As palavras a pegaram de surpresa, mas Fubuki retribuiu o gesto, entregando-lhe seu melhor sorriso, e respondeu:

— Eu sei e é por isso que eu também te amo.

Após um breve e apaixonado beijo, ambos se encaminharam para a porta do quarto e começaram a caminhar pelo longo e deserto corredor. Quando uma bifurcação a frente surgiu, Pablo disse:

— Irei reunir todos os criados e apagar as memórias que eles possuem do filho do czar. Não podemos arriscar que alguém saiba que ele está aqui sem que o Hades o tenha enviado.

— E o que faremos após isso? Trancaremos ele e Nekromanteion nas masmorras? — Questionou Fubuki com sarcasmo.

— Não. — Respondeu o homem, abrindo um sorriso de triunfo. — Dependendo do motivo pelo qual ambos estão aqui, há alguém que pode fazer algo a respeito do sigilo da identidade deles.

A senhora Calígula, compreendendo as palavras do marido, perguntou com incredulidade:

— Você sabe que Ternura ainda é uma bruxa em treinamento e que só consegue realizar feitiços com o auxílio de sua varinha, não é? Sabe que esse tipo de encantamento requer anos de prática e que ela pode mudar a aparência do maldito filho do czar do Hades de maneira irreversível, não sabe?

— Ponderei todo tipo de consequência para isso, mas ela não irá errar. Dificilmente nós cometemos erros quando é a vida do nosso amor que está em jogo.

Antes que Fubuki pudesse rebater, Demiurgo surgiu no corredor e avisou-os:

— Os presentes já se encontram na agitadíssima sala de jantar. Posso ser útil em mais alguma coisa?

— Sim, Demiurgo, na verdade você pode. — Disse a senhora Calígula com severidade. O homem alto assentiu com a cabeça, como se pedisse através do gesto para ela continuar. — Você poderia repetir os nomes dos czares citados na carta?

— Eligia SobiesŁawa Brzezinski e Dmitry Sidorov, minha senhora. — O demônio prontamente respondeu.

— Qual é a maldita importância dos nomes de czares mortos, Fubuki? — Questionou Pablo, arqueando a sobrancelha.

Por alguns segundos, a mulher nada respondeu, pois estava vasculhando em suas memórias algo que, talvez, não tivesse importância alguma. Contudo, com a experiência que ela possuía como Senhora dos Sussurros e sabendo que todas as nomeações do Hades possuíam um significado por trás, algo na menção destes dois líderes causou-lhe estranheza. Abruptamente, ela foi assaltada por uma revelação e disse:

— A maldita importância é que Brzezinski significa “floresta de bétulas”. O nome Dmitry significa “consagrado à Deméter”, enquanto que o sobrenome Sidorov provém do nome masculino Sidor, que é uma versão encurtada de “Isidoro”, significando “filho de Sidor”, porém Isidoro tem origem no grego “Isídoros”, fazendo com que o sobrenome ganhe o sentido de “filho da dádiva de Ísis”. — A mulher fez uma pausa e passou a andar de um lado para o outro, enquanto Pablo arregalava os olhos de surpresa pelas associações da esposa e Demiurgo esbouçava um raro semblante de espanto. Após refletir, Fubuki prosseguiu dizendo: — Posso estar enganada, mas talvez, só talvez, a czarina tenha tentado nos alertar através dessas menções que ambos os presentes estavam envenenados… Seria muito simples ferver folhas de bétula, árvore esta que é comum na região do Hades, e colocar o diadema imerso em uma infusão, assim como as bênçãos de duas deusas de luz facilmente poderiam matar um ser demoníaco como você, querido, com apenas um gole de vinho de alguém abençoado por tais divindades.

Um brusco silêncio ecoou após a fala de Fubuki. Entretanto, antes que os dois homens pudessem se pronunciar, a mulher, com o semblante pálido, começou a caminhar rapidamente na direção oposta do marido, claramente se dirigindo para a sala de jantar.

— Fubuki, o que você pretende fazer? — Questionou Pablo, confuso.

Sem parar de caminhar, ela respondeu:

— Se eu estiver certa, então o que eu vi na mente daquele menino não foi mera coincidência.

— E o que você viu?

A pergunta do marido a fez parar de caminhar. Ela se virou para ele e, mesmo distante, o Príncipe das Trevas enxergou o olhar triste da esposa.

— Quando usei o Manifestatio Veritatis para provar ao Diab se o menino estava mentindo ou não, eu vi, por uma fração de segundos, uma pequena figura loira agachada na escuridão chorando compulsivamente, enquanto um homem asqueroso o machucava. — Declarou com angústia a senhora Calígula. — Eu vi aquele menino sendo dilacerado pelo homem que ele é obrigado a chamar de pai e tenho certeza que ele está aqui para nos pedir ajuda. O vagalume que vi pousado no ombro dele, me faz ter certeza de que…

— Vagalume? — Pablo a interrompeu.

Quando ela assentiu positivamente, o senhor Calígula engoliu em seco e disse:

— Depois do acontecimento no jardim e da saída de vocês, Ternura acordou e nos contou que havia tido um sonho com o filho do czar, onde ela era um vagalume morto que ele segurava, enquanto um “homem mal” se escondia nas sombras. Ela disse… que o menino parecia estar sentindo muita dor.

— Do que diabos vocês estão falando?

O casal e Demiurgo voltaram-se para a voz com certo assombro, percebendo que estavam falando de um assunto importantíssimo no meio do corredor. No entanto, seus corações ficaram mais tranquilos quando observaram Diablair se aproximar. Vestido com seu traje formal e com os pés descalços, o líder infernal possuía um misto de confusão e preocupação em seu rosto. Buscando esclarecer ao irmão as possíveis descobertas feitas, Pablo contou-lhe sobre os últimos acontecimentos. Quando finalizou, Diablair transparecia uma assustadora tranquilidade. Vendo a estranha e serena atitude do irmão, Pablo declarou com desconfiança:

— Apesar disso, você ainda não tem motivos para matá-lo.

— Eu tenho certeza que não terei. Algo me diz que esse garoto é alguém bondoso o suficiente para ignorar os próprios demônios em prol de um bem maior. Além disso, se ele está aqui por conta de algum plano da czarina contra o czar, então essa criança terá todo o meu apoio.

— Ele terá seu apoio se estiver apaixonado pela Ternura? — Perguntou o Príncipe das Trevas, cruzando os braços.

— Não, mas sei que isso não será um empecilho, tendo em vista que ele demonstrou muita coragem e persistência. Nós tivemos em poucas horas sinais que seriam dados em anos… Então seria imprudente da minha parte tentar proteger a Ternura de algo inevitável como o amor.

O casal Calígula não identificou quaisquer resquícios de mentira nas palavras do Líder Infernal, mas não podiam disfarçar em seus semblantes o quão surpreendente era a mudança de postura dele. Demiurgo, vendo que a situação começara a tomar um ar íntimo demais, disse:

— Se os meus serviços não forem mais necessários, eu gostaria de me retirar.

O secretário de Pablo detestava ter que sair de seu local de trabalho. A última vez que ele havia saído de lá à procura de seu chefe havia acontecido há 64 anos, quando o mesmo descobriu a localização do cárcere de Fubuki e Pablo se encaminhou ao local para salvá-la de seu pai louco com dezenas de hordas infernais o seguindo. No dia seguinte, o Príncipe das Trevas se casou com a atual Princesa do Inferno. Notando o desconforto do homem, Pablo declarou:

— Claro, pode ir. Caso alguém do Hades entre em contato, nos procure imediatamente. Se estivermos com pessoas ao nosso redor, sejam os convidados ou os criados, diga que eu me esqueci de assinar os papéis acerca da nova safra da Plantação dos Gulosos e eu saberei que se trata deste assunto.

— Mas você realmente se esqueceu. — Disse o secretário com severidade.

— Sim e você desistiu de me lembrar após dois meses me alertando sobre. Então agora você será obrigado a me lembrar e eu obrigado a assinar. — Respondeu Pablo com divertimento e satisfação.

— Se eu não o respeitasse tanto e soubesse de suas virtudes, com certeza exerceria minha função bem longe do senhor. — Protestou Demiurgo, se retirando do local com uma carranca.

— Nada como uma desavença de trabalho para quebrar o gelo de uma situação caótica, não é mesmo? — Exclamou Pablo para ninguém em particular, enquanto ria.

— Lembre-se que no dia que um dos mais empenhados trabalhadores da Dimensão Infernal, vulgo Demiurgo, se demitir, eu o contratarei como meu secretário. — Ameaçou Diablair, dando uma cotovelada no irmão.

— Só por cima do caralho do meu cadáver! — Gritou o Príncipe das Trevas, golpeando o irmão na barriga.

— Caso a nossa dimensão não seja invadida pelo Hades, acredito que ambos poderão se preocupar com quem conquistará Demiurgo tranquilamente. — Ponderou Fubuki com sarcasmo, enquanto se afastava de ambos e se encaminhava para a sala de jantar.

Diablair começou a segui-la e Pablo declarou:

— Não se preocupe, querida, não há mulher, homem, fantasma, entidade, anjo, potestade ou divindade que possam me conquistar mais do que você. — Esclareceu Pablo com sinceridade.

— Diga isso a Amélie Laviolette, sua amiga de longa data, que baseou todos os protagonistas masculinos de seus livros em você e que, estranhamente, retrata as vilãs das histórias com base em mim. — Retrucou a senhora Calígula, continuando sua caminhada pelo extenso corredor.

— Isso mesmo, Fubi! Jogue pedras nesse cachorro velho! — Incentivou Diablair, oferecendo o braço para a cunhada, que prontamente aceitou.

A dupla chegou até o fim do corredor e, antes de se encaminharem até a escadaria que os levaria para a sala de jantar, Pablo disse com severidade:

— Pelo ódio de Judas, Fubuki, Amélie Laviolette está mais para uma pedra inconveniente em meu sapato de longa data do que para uma amiga de longa data. — Levemente enfurecido, o homem deu as costas para a dupla, que tentava segurava o riso. Enquanto caminhava, ele murmurou com indignação: — Dá para acreditar? A mulher mais inteligente e gostosa das dimensões se incomodando com uma pessoa que comete crimes contra a literatura com livros de baixa categoria.

Quando o senhor Calígula se afastou, impedindo que Diablair e Fubuki escutassem seus murmúrios inconformados, o Líder Infernal confessou:

— Você sabia que ele não leu nenhum livro dela, não é?

— Mas ele possui um exemplar de cada livro, autografados ainda por cima! — Exclamou Fubuki, fingindo estar magoada. — Pensei que ele não comentava nada a respeito, porque tinha medo de me magoar e porque ela é uma das mediadoras das nossas relações políticas com os elfos do Submundo.

— Bobagem! Ele não comenta a respeito simplesmente porque nem se lembra da existência dela.

A senhora Calígula encarou o cunhado por alguns segundos em silêncio e disse, tentando segurar o riso:

— Você sabe que estou brincando, não é?

— Com certeza sei. Você sempre faz esse tipo de piada para provocar meu irmão. É engraçado, não é? — Diablair disse, enquanto ambos desciam os degraus da escada. — Pablo consegue interpretar qualquer tipo de narrativa de olhos fechados, literalmente, mas fica atordoado quando o assunto são suas piadas. É por isso que a estimo tanto, Fubi, pois quando você o desarma, eu posso simplesmente piorar a situação e isso é muito divertido.

— Você é péssimo, Diab! — A mulher exclamou, soltando uma risada.

— Mas às vezes eu me esforço para ser o pior dos piores só para infernizá-lo.

Após descer o último degrau, o Líder Infernal parou de caminhar. Fubuki o observou, reparando que seu semblante variava entre reflexivo e incomodado.

— Porém, acredito que isso esteja se voltando contra mim. Veja só… Tenho certeza que quando atravessarmos o próximo corredor, iremos nos deparar com a Ternura nos braços daquele fedelho… — Confessou o homem com certa angústia. — Sei que os sinais vieram e ele pode se tornar nosso aliado, mas ele… talvez seja abominável como eu.

— Diab. — Disse a senhora Calígula com carinho, colocando a mão no ombro do cunhado. — Apesar de tudo isso, você criou a Ternura. Deu um lar a ela e uma família! Ela jamais o julgaria pelo seu passado, pois te aceita do jeito que você é, com seus defeitos, cicatrizes e erros. Você sabe que ela acredita que todos são dignos do amor, principalmente aqueles que julgam não serem merecedores dele.

As palavras de Fubuki soaram agudas e levemente dolorosas nos ouvidos de Diablair, pois ele sabia que elas eram verdadeiras… Melancolicamente verdadeiras. O homem fez menção de elevar uma das mãos em direção ao local em que deveria estar seu coração, mas no meio do caminho recuou, deixando-a cair bruscamente. Alguns criados passaram pela dupla rapidamente, revelando que Pablo já os havia convocado para executar sua parte do plano, porém o Líder Infernal parecia distante, como se os acontecimentos externos fossem insignificantes diante do dilema interno que se intensificava dentro de seu tórax vazio. Ele sabia que havia dado muitas coisas à Ternura e que ela havia lhe ensinado coisas que jamais poderia aprender imerso em sua escuridão, contudo ele seria o responsável por tirar tudo isso dela. Ele, Diablair, seria o responsável por diluir as esperanças daquela criança em trevas através de um meio que lhe causava pavor*. Fubuki encarava o cunhado com preocupação, porém antes de poder expressá-la, diversos gritos foram ouvidos da sala de jantar e Tristeza saiu correndo do cômodo na direção de ambos os tios.

— Ele feriu a Ternura! — Declarou a garota a plenos pulmões e com os olhos cheios de lágrimas, jogando-se nos braços da tia.

Diablair irrompeu bruscamente em direção aos gritos. O homem surgiu tão rapidamente diante da porta que deslizou e precisou se segurar em um dos batentes para não cair. Quando olhou para dentro do cômodo, viu Blake, Damon e a Imperatriz com suas armas em mãos, prontos para atacar Nekromanteion, que tinha Philip atrás de si. O menino, no entanto, encontrava-se ajoelhado e completamente paralisado, diante do que parecia ser uma barreira de miasma cor de esmeralda. A parede fortificada recebia golpes potentes de Tortura, porém não parecia ter nenhum efeito. Quando as íris avermelhadas do Líder Infernal viram o corpo de Ternura mortalmente imóvel dentro da barreira, uma cegueira de ódio se apoderou dele. O peito do homem negro subia e descia violentamente e sua face encontrava-se distorcida pelo sentimento de raiva que o tomava.

Como uma sombra, Diablair voou na direção de Philip, pegando o mesmo pelo pescoço e pressionando o corpo do menino contra a parede esmeralda, que instantaneamente rachou pela força do impacto. O filho do czar não se debateu, porém seus lábios estavam arroxeados pela falta de oxigênio, já que a mão de Diablair rodeava seu pescoço, esmagando-o no processo. Nesse momento, Fubuki e Tristeza irromperam diante da porta e encaravam incrédulas a situação.

— Sei que isso não é o suficiente para matá-lo… — Ameaçadoramente disse Diablair, com a voz distorcida e apertando ainda mais a garganta de Philip. — Mas quero que você saiba, garoto, que se a minha sobrinha estiver morta, você vai desejar poder morrer.

Nekromanteion, ouvindo a ameaça do homem, sentiu-se apreensivo. Ele sabia que Philip estava em estado de choque por conta da situação repentina que afligira Ternura e, além disso, ele jamais revidaria um golpe sabendo que não havia feito nada de errado. O próprio servo do filho do czar tinha ciência de que se atacasse Diablair, ele seria morto no mesmo instante e eles jamais cumpririam a missão que os havia levado até ali. Nenhuma solução racional lhe vinha à mente, tendo em vista que nenhum dos presentes parecia estar disposto a ouvi-lo, porém quando Pablo surgiu afobado na porta da sala de jantar, Nekromanteion gritou sem pensar:

— Não foi o Philip que a machucou! Foi o diadema. Ele está empesteado de veneno!

Todos ficaram paralisados por motivos diversos: a família Infernal por conta da informação, o senhor e a senhora Calígula por terem suas suspeitas confirmadas e Philip que, atordoado, não sabia como Nekromanteion havia tido conhecimento de seu nome. O Líder Infernal olhou para a sobrinha desacordada dentro da barreira e percebeu que ela estava usando o diadema envenenado que Fubuki havia ganhado, no entanto um outro fator chamou a atenção do homem: a aparência de Ternura. Como ela não crescia e sua aparência não mudava, qualquer mudança mínima era perceptível, portanto foi impossível não reparar que ela, mesmo deitada, estava maior, assim como seus cabelos castanhos que, soltos do coque, encontravam-se espalhados pelo piso de mármore como se fossem linhas de rios em um mapa. Entretanto, o que cessou a raiva dentro de Diablair, foi o sutil movimento do dedo anelar de Ternura. Imediatamente, o homem negro libertou o menino, arremessando-o no chão, e encostou a face na barreira, encarando a sobrinha com um misto de desespero e esperança nos olhos.

— Vocês sabiam sobre o veneno? — Questionou-os de forma incisiva a senhora Calígula.

— Não. — Respondeu Philip com severidade. — Mas acredito que o diadema tenha sido banhado em veneno de bétula com o intuito de fazer com que quem o use, morra.

— Se você sabe qual é o veneno, deve saber uma cura para o mesmo. — Declarou Pablo, aproximando-se de braços dados com a esposa.

— O veneno de bétula não é um veneno comum. Ele não ataca o organismo, mas sim o espírito. — Explicou Nekromanteion ao casal Calígula, porém encarando Philip com preocupação.

— E o que diabos isso quer dizer? — Declarou Tristeza aos prantos.

— Quer dizer — A Imperatriz começou a explicar com seriedade. — Que o espírito de Ternura terá que matar a dona do diadema para retornar, pois a barreira não cairá enquanto não houver uma vencedora. Ou seja, ela não está morta, apenas adormecida.

— Ela parece morta para mim. — Falou Damon com sinceridade, recebendo um tapa na cabeça de Blake em seguida.

— Ela dorme como se parecesse um defunto mesmo. — Explicou Tortura, dando de ombros.

Enquanto os demais conversaram sobre como era assustadora e preocupante a maneira que Ternura dormia, Philip se aproximou de Diablair, assim como Pablo.

— Eu sinto muito por isso, senhor. Quando percebi do que se tratava, já era tarde demais… — Disse o menino com a voz angustiada.

— Não foi sua culpa. — Declarou o Príncipe das Trevas, pigarreando. — Foi imprudência minha e de minha esposa mandar isso para cá.

— Sinto muito por quase tê-lo… Você sabe. — Falou repentinamente Diablair para Philip, sem desviar os olhos de Ternura.

Antes que o filho do czar pudesse responder e que Pablo pudesse compreender que acabara de ouvir seu irmão pedir desculpas a alguém que tentara matar há poucos segundos atrás, uma parte da barreira repentinamente se expandiu, abrindo a enorme porta de vidro que dava para o jardim, como se uma forte ventania houvesse feito com que a barreira se alargasse violentamente. Todos correram para a parte externa da mansão, onde, com o auxílio da luz da lua, puderam vislumbrar dois espectros: um deles era de uma mulher adulta que estava jogada no chão e que usava trajes tradicionais do Hades, enquanto o outro era de Ternura.

— Por que estamos vendo elas? Não era para ser uma luta de espíritos, tipo mesa branca? — Perguntou Damon com os olhos arregalados.

— A lua, por ser um poder ancestral, revela tudo. — Disse Pablo ao vampiro. — Deve ser por isso que estamos vendo elas.

Apesar da potência do veneno, a czarina Eligia estava tendo dificuldades para lutar contra Ternura. Ela sabia que uma batalha espiritual fortalecia ainda mais o poder de uma bruxa, tanto que havia sido por isso que ela havia pedido, ainda em vida, para que banhassem seu diadema em um caldeirão de veneno de bétula e, assim que morresse, cortassem sua garganta e deixassem todo o seu sangue escorrer no mesmo para que a mortalidade do veneno aumentasse através da magia de sangue, fazendo com que seu espírito assombrasse quem ousasse usar o diadema. Ela havia sido uma das bruxas mais poderosas de sua dimensão, entretanto a menina diante dela possuía um poder tão imenso, que todo o feitiço havia sido invalidado. Era como se a magia, mesmo tendo sido conjurada por Eligia, obedecesse e respondesse apenas a Ternura. Ambas começaram uma intensa troca de feitiços que, dentro da barreira, soavam como sussurros, mas fora dela ecoavam como estrondos. A única movimentação dos espectadores do duelo ocorria em suas íris, que buscavam acompanhar a violenta batalha.

Conforme lançava os feitiços, a oitava czarina percebeu que, apesar de poderosa, a sua oponente era inexperiente: por vezes, a postura da menina vacilava quando precisava lançar, ao mesmo tempo, um feitiço e levantar uma barreira de proteção e, pela movimentação constante de suas mãos, ela claramente ainda usava uma varinha para canalizar seu poder. Todavia, ao notar que a menina tinha dificuldades em conjurar runas, Eligia riu com crueldade e encarou Ternura com desdém.

— Vou lhe ensinar algo antes de te matar, criança. — A mulher disse, enquanto repentinamente se fundia no miasma da parede da barreira. — Um poder massivo como o seu, nunca será maior do que um poder lapidado como o meu.

Uma escuridão caiu sobre a barreira, enquanto a czarina desferia diversos golpes em Ternura, sem dar a chance da garota revidar, tendo em vista que a mesma não conseguia saber de onde eles vinham. Silenciosamente, a mulher surgiu acima da cabeça da menina e a ergueu pelo pescoço.

— Agora, você morrerá por conta da sua própria ignorância, criança. — Declarou Eligia, enquanto girava o pescoço da infante com uma força descomunal.

O baque do corpo de Ternura no chão fez com que todos os que estavam assistindo ficassem em estado de choque. Quando Diablair fez menção a se mover, ele viu sua protegida se levantar e encarar sua adversária com as íris violetas escurecidas e o pescoço retorcido, enquanto anunciava:

— Essa sua ladainha me deixou entediada. Então…

Ternura não continuou sua frase, mas a mudança de postura da infante, por algum motivo que Eligia não conseguia reconhecer, fazia com que seu instinto lhe dissesse que, mesmo morta, se ela não fugisse agora, seu destino seria muito pior do que a morte. Antes que pudesse elaborar um contra-ataque, uma intensa luz brilhou por toda a extensão da barreira. Foi só então que a czarina viu que, atrás do espectro da criança, o corpo adormecido dela levitava, enquanto diversos círculos de runas o circulavam. Os olhos dela se arregalaram de pavor quando reconheceu que os símbolos eram a chave de runas para derrubar a barreira, o que lhe revelou duas coisas: a criança a havia enganado, fingindo ser inexperiente em duelos oníricos, para que seu corpo tivesse tempo de desvendar o segredo da barreira fora do campo de visão dela, pois o mesmo ainda continuava na parte da barreira que estava dentro da mansão. Ou seja, a menina não pretendia matá-la... pretendia condená-la.

— Você está olhando para a adversária errada. — Declarou o espectro de Ternura com severidade, enquanto retornava seu pescoço ao lugar certo.

Com um simples movimento de mão da infante, um intenso jato de luz jorrou do miasma onde a czarina estava se escondendo, derrubando-a com violência no chão. Ternura caminhou até ela com um misto de desdém e tédio nos olhos e, se não fosse pela intensa dor que percorria seu corpo por conta do ataque anterior, Eligia teria sentido vontade de chorar por conta da humilhação que aquela criança estava fazendo-a passar.

— Sabe, pessoas arrogantes como você me irritam.

A menina declarou em um tom nada habitual. Ela moveu novamente as mãos e o espectro da mulher, contrariando todas as leis da necromancia, explodiu. Todavia, antes que a dor pudesse dar sinais de diminuir, seus membros retornavam ao posto original só para que a luz os penetrasse mais uma vez, enquanto fundia-se com a energia sombria de seu espectro, fazendo com que seu corpo explodisse por conta da mistura profana de luz e trevas. Após alguns minutos, um sorriso diabólico brotou como um botão de rosa nos lábios de Ternura, que disse:

— Você cometeu dois erros: ter me subestimado e não ter ido para o além depois de morrer. Existem destinos piores do que a morte.

A bruxa mais velha sentiu lágrimas surgirem em seus olhos, mas até mesmo elas pareciam explodir em milhões de pedaços, assim como seus pensamentos. O espectro de Ternura caminhou até seu corpo crescido e fundiu-se nele. Ainda rodeada pelas runas, ela levitou até Eligia, cortou o dedo com uma das pontas do diadema e começou a caminhar ao redor da mulher, que continuava a explodir. Conforme o sangue escorria, o mesmo tomava a forma de runas tão antigas que até mesmo Pablo teve dificuldades em entender o que a garota estava prestes a fazer.

— A Ternura… Sempre conseguiu fazer isso? — Questionou Fubuki com incredulidade e uma pontada de remorso por ter subestimado a sobrinha.

— Eu gostaria que existisse alguma coisa que essa criança não fosse capaz de fazer. — Respondeu Diablair sem tirar os olhos de sua protegida e com um sorriso deslumbrado nos lábios perante aos feitos dela.

— Não sei se o tio Diab está orgulhoso por ter descoberto um novo talento da Ternura ou se está feliz por descobrir que ela é uma bruxa com claros sinais de psicopatia. — Confessou Tortura em um sussurro a sua madrinha, que concordou com a cabeça.

— Aquelas são as runas perdidas de Lilith? — Perguntou Pablo, intrigado, para ninguém em particular.

— Não. — Nekromanteion prontamente respondeu, o que chamou a atenção de todos. — Aquelas são runas antigas que apenas as sacerdotisas de Perséfone conseguem conjurar. Não é possível aprendê-las, pois elas são transcritas no sangue de cada seguidora dessa deusa de um jeito diferente. Acredito que a luz da lua tenha potencializado o poder de Ternura, já que ela é um elemento primordial nos rituais persefoneanos.

— A noite ainda não terminou, mas você já conseguiu me impressionar com seus conhecimentos até então desconhecidos. O que mais você está escondendo? — Afrontou Philip sarcasticamente, sem encarar Nekromanteion.

Enquanto todos aguardavam em silêncio um possível conflito de ambos, Jeff mordeu os lábios com força, como se o ato pudesse impedi-lo de entregar a verdade ao menino. No entanto, todos foram surpreendidos quando, subitamente, o chão começou a se mover dada a intensidade da conjuração de Ternura. Abaixo do corpo de Eligia se abriu um profundo buraco, também iluminado, e de dentro dele diversas mãos que possuíam bocas no centro das palmas e olhos no lugar das unhas surgiram, engolindo com violência o corpo da mulher.

Quando o buraco se fechou, a barreira não caiu.

— Espera, ela não derrotou a velha? Por que a barreira ainda está lá? — Damon questionou em desespero para a Imperatriz.

— Porque Ternura não a matou. Ela condenou o espírito da mulher. — Explicou a jovem de cabelos verdes ao namorado. — Na teoria, condenação é diferente de morte e, até onde eu sei, quando um feitiço possui uma chave x, mesmo que o conjurador não esteja ali, ela só pode ser alterada caso se tenha a ordem das runas que a compõem.

Blake e Damon aplaudiram a explicação da Imperatriz.

— Você poderia ter tido esse desempenho na matéria de Runas Antigas. — Disse Tortura para sua madrinha.

— Tortura, se você falar mais alguma coisa, eu juro que Blake será o hunter viúvo mais novo da história. — Ameaçou a jovem sua sobrinha.

— Talvez eu me dê bem nessa matéria no futuro, então. — Falou Ternura, ao lado da Imperatriz, que se sobressaltou com a aparição repentina da criança.

Todos se voltaram para ela com olhares de satisfação e orgulho, enquanto uma aura luminosa rodeava a garota. Completamente quebrantado, Philip a encarou com doçura e pensou que, naquele momento, ela parecia estar banhada pela lua. No entanto, sua contemplação foi interrompida pelos gritos de Nekromanteion:

— Eu sei de tudo isso, porque sua irmã é uma sacerdotisa dos cultos de Perséfone! Eu sei de tudo isso… Porque sua irmã é minha esposa, Philip.

❖❖❖
Notas de Rodapé

¹ Demiurgo (grego, δημιουργός, demiourgos) significa "o que trabalha para o público, artífice, operário manual"; demios significando "do povo" (de demos, povo) e -ourgos, "trabalhador".

² Eligia, forma feminina do nome polonês Eligiusz, significa “escolher”, enquanto SobiesŁawa, que é a forma feminina de Sobiesław em polonês, significa “usurpadora da glória”. O sobrenome polonês Brzezinski significa “floresta de bétulas”.

³ Dmitry (do russo Дмитрий) significa “consagrado à Deméter”, “consagrado à mãe terra”. Já o sobrenome Sidorov provém do nome masculino Sidor, que é uma versão encurtada de “Isidoro”, significando “filho de Sidor”. Isidoro tem origem no grego “Isídoros”, formado pela união das palavras Isis-, nome da deusa Ísis e -dôron, que quer dizer "dádiva, dom, presente", ficando "dádiva de Ísis", "presente da deusa Ísis". O sobrenome ganha o sentido de “filho da dádiva de Ísis”.

* Acontecimento presente na obra Desígnio da Deusa do ilustre @Diablair.

Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 04/07/22 04:36

MEU

SATÃ

DO

HELL!!!

Como, em nome de todas as Hostes Abissais, eu poderei ser capaz de transcrever o meu grau de assombro, encantamento e até mesmo orgulho da autora por este grandioso [e não, de modo algum estou me referindo à extensão, até porque tudo foi tão maravilhosamente (d)escrito que a sensação de fluidez da/na leitura é inevitável] capítulo? De que maneira meras palavras poderiam fazer jus a algo tão espetacular, ainda mais tendo em conta eu ter meio que desaprendido a comentar?

É uma missão árdua, mas tentarei.

Primeiro: Pablo e Fubuki. Pelo ardor de Lúcifer, o que foi aquela cena intesa, íntima e EXPLÍCITA desse meu casalzão favorito a partir de sempre? Se aquilo não foi uma verdadeiro ensaio à sensualidade e à volúpia, não sei mais o que seria... Que DELÍCIA de leitura, oh Satã! Ademais, ver o quanto o relacionamento entre ambos é profundo e verdadeiro foi uma coisa deveras bela, envolvente e encantadora, tal qual a própria Fubuki se mostra conforme a trama avança e a conhecemos mais. A interação do casal, seja qual for a situação, é inquestionavelmente especial e magnífica!

Eu nem ouso cogitar o grau de trabalho que a autora teve até agora para tecer esta obra, mas o nível de qualidade e complexidade da mesma só se eleva e se destaca mais e mais. Tanto as partes em que Pablo faz suas conjecturas, mas principalmente aquela em que Fubuki faz as associações entre os significados dos nomes e correlaciona os fatos me foi de uma criatividade e genialidade tremendas! Fora que a trama ganhou tons cada vez mais surpreendentes, sombrios e épicos quando as suspeitas de ambos se confirmaram, que SHOW de construção de narrativa tivemos aqui, senhoras e senhores!

Claro, não posso deixar de frisar a cena do Diablair... Por toda a penúria do Inferno, como me foi gratificante ver não apenas o Soberano Iníquo começar a ser mais razoável com o desenrolar dos fatos (e com o próprio Phillip), como testemunhar (e literalmente sentir) sua angústia por algo que ele sabia que viria a seguir, mas sequer imaginava como iria ser hediondo... Aliás, gostaria de humilde e regiamente agradecer à autora por citar/implementar a questão do Futuro Sombrio de um modo tão sensível... Foi um doloroso, todavia necessário e bonito detalhe que fortaleceu e enriqueceu ainda mais os laços entre o Mestre/Irmão, Diablair e Fubuki...

Por fim, mas não menos importante, a cena derradeira envolvendo Ternura... Minha nossa senhora do combate, que espetáculo literalmente MÁGICO foi aquele?! Minhas mãos estão ardendo de tantas palmas que bati rendido ao brilhantismo da autora! Tudo foi descrito e narrado com inegável maestria, novamente provando o quanto a senhorita MERECE o título de Divina Brina! Estou maravilhado, entusiasmado e agraciado com a oportunidade de ler algo tão rico, instigante e inspirador! Aguardarei ansioso pela continuação desta estupenda história (que terminou com mais uma bomba de C666 na fuça do leitor), na mais clara convicção de que a senhorita há de nos entreter e surpreender de formas ainda mais elevadas e memoráveis!

Ave, Ave, Divina Brina!

Atenciosamente,

um ser completamente hell fired upup com este épico, Diablair.

Postado 06/08/22 00:32

Diab, seus comentários são sempre uma bomba (no melhor sentido possível), pois nem que eu tivesse todas as palavras do mundo, conseguiria respondê-los de forma adequada e peço desculpas por isso.

Eu acho que esse capítulo é treta, seguido de runa no cu e bruxaria e é finalizado com uma frase digna de um episódio de Casos de Família. Deu um baita trabalho escrevê-lo e foram longas seis semanas reescrevendo e pensando em milhões de cenários, mas valeu super a pena. Por isso, ler um comentário como o seu deixa meu coração quentinho e com uma sensação de dever comprido.

Obrigada pela presença e comentário, Diab ♥

(Talvez o próximo capítulo saia em 2025)

Outras obras de Sabrina Ternura

Outras obras do gênero Ação

Outras obras do gênero Comédia

Outras obras do gênero Drama

Outras obras do gênero Erótico ou Adulto