Esta meleca
Ovni Cius
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/07/22 12:29
Gênero(s): Crônica
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 8min
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Palavras: 973
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Esta meleca

M. transmudou-se instantaneamente, a recobrar-se de um sentido dependurado no galho quase quebrado de sua terceira memória rasgada.

- Você não vai me acreditar, V. - disse, com tortuoso riso demente. - Toda escrita termina no esgoto, você sabia?

V. se riu igualmente tortuosamente louco demente. Tinha dentista às 10, ou talvez às 11. Era difícil saber. Onde estava o leste? Certamente que o sol.

- Precisamos efetivamente fazer algo - disse V., já tremendo-se de nervoso, a ter datas na cabeça. Um anúncio cortou o dungeon synth que tocava em seu fone de ouvido plugado na orelha direita apenas.

- Você diz sobre a ação, V. Eu lhe digo sobre estar parado.

- E isto também é ação.

- Depende do modo como se para.

- Será possível parar de modo absolutamente parado? - perguntou V., apalpando a própria testa, sentindo uma proeminente veia que ali passava como algo de estranho, saltando mesmo à superfície.

- Você se refere ao parar em absoluto - observou M., sisudo. - Pode bem ser plausível ou pode bem ser impossível. Mas por que estamos pensando nisso?

- Não sei, M. Sei que o relógio está parado porque retirei dele a pilha. Sei por enquanto continuo sob o efeito da gravidade e os pensamentos me surgem como melecas. E sei também que a qualquer momento tudo estará acabado nesta dimensão. E será então quando o riso deslizará ao infinito. Ou se congelará. Ou...

- Não me diga mais nada sobre o infinito, V. Por favor, não me diga mais nada nada sobre o infinito.

- Está bem, voltemos ao que está ao nosso alcance.

- Não, V. Isso é pior ainda. Você não vê? Não percebe? O que está ao nosso alcance?

- A criação, a...

- A repetição, meu caro. A maldita repetição de um piolho pulando sobre um repolho e um risco que faz um cisco fazer o olho ficar coçando.

- E não nos referimos a questões concretas? A concretíssimas questões?

- Não, V. Apenas os memes se referem. Em certa medida, os memes se referem ao real, pois o real se refere ao absurdo, e o absurdo se refere aos memes.

- Está faltando algo nisso que você disse, M.

- Sempre está faltando algo no que se diz, V. É por isso que no princípio era o Verbo, isto é, o Vazio.

- Mas que Vazio é esse M., pelo amor de Deus. Não vê que as coisas estão cheias de lógica e de movimentos e de elementos e de almas?

- Apenas à medida em que você diz o que você sente lhe aparecer enquanto tal, mas não à medida da coisa enquanto tal à parte de sua medida.

- Desse jeito, M., não conseguirei dar mais nenhum passo, em sentido algum.

- É claro que dá, V. - disse M., rindo-se nervosamente. - E se não der, está tudo bem, a máquina já deu todos os passos, todos os passos que serão dados, sem necessidade de ações humanas.

- Do que você está falando, M.?

- Estou falando da Grande Máquina. Sim, V., estou falando da Grande Máquina Infernal.

- Você é engraçado, M. Você fala como se se referisse à realidade.

M. riu-se ainda mais nervosamente. A realidade, pensou consigo. V. e sua realidade e eu M. e minha realidade e todos os outros e suas realidades e a imaginação como que um recheio e por cima não sei o quê de simbólico e por baixo não sei o quê de inconsciente. É muito engraçado. Está tudo perfeitamente arrumado: as camadas de pão, a manteiga, a carne, a coisa debaixo e acima da carne, o molho, e a camada de cima do pão, e até mesmo a mosca que espantamos e depois o papel pra limpar o molho espalhado pela boca e depois coisas como pensamentos e pensamentos como coisas do tipo "Sim, em I.V. a.C..." e o que havia precisamente lá enquanto aqui os gazes fecais tramitam entre paisagens virtuais e um sono tardio de uma existência condenada ao quase perene exílio dos ossos?

- Tenho de ir, M.

- É mesmo, V.?

- Sim. Algures.

Algures, disse V. Isso era mesmo curioso. Que algures fosse qual. A imagem daquela perfeição mal assombrada. Teias de aranha e ectoplasma. Agora os peixes se sufocam com plástico. E de algum modo come-se peixes sufocados com plástico? Bem, um avião pousou de cabeça pra baixo. Na tal da Somália. Ou foi em?... 11h:43. Quase hora de reverter todos os pensamentos em função de uma diagonal transcendental. É claro, os pensamentos não tem nada que ver senão com a tração do veículo. O motor já é outra coisa. A começar pelas velhas dinastias do Egito, até as pessoas dançando no TikTok. Estava tudo destinado a sê-lo?

M. abaixou-se, amarrou o sapato e a pergunta ecoava em sua cabeça, até que a pergunta novamente se perdeu num fluxo inadiável de fenômenos que desconectavam as palavras das frases que considerasse efetivas quanto à operação de um raciocínio X em sua linha imaginária de intelecção.

Havia na calçada ao lado do sapato que amarrava um cocô de pombo ou seria um chiclete? Ou seria um chiclete cocô de pombo?

V. tinha realmente desaparecido depois de ter dito que tinha que ir algures.

E eu, considerou M., erguendo-se sabe-se lá em função de que, eu também tenho de ir algures. A começar com I.V a.C. O que tinha lá mesmo? E ainda por cima sete anos antes! E então sete séculos depois. Não podia ser invenção pura e simples. Mas então tudo fora efetivamente real. Contudo, não havendo reminiscências, é mesmo uma tolice permanecer procurando coisas de outrora. E no entanto tudo retornava? E ainda por cima! Está bem. Apenas fazer estritamente o necessário. E M. saiu quase galopando, a ter em mente o estritamente necessário. E pôs-se novamente a rir, nervosamente, pensando o pensamento ele próprio.

Esta meleca! - repetia consigo mesmo, dando passos largos e fitando o céu insimbólico que pairava sobre sua vaziacabeçacheia com cabelos arrepiados de doido.

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