Azurepmis (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 27/01/16 09:29
Editado: 01/10/16 01:12
Qtd. de Capítulos: 10
Cap. Postado: 20/05/16 11:46
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 12min a 16min
Apreciadores: 5
Comentários: 3
Total de Visualizações: 81
Usuários que Visualizaram: 8
Palavras: 2021
[Texto Divulgado] "Eternizar-te-ei" Eu sinto muito por não ter te avisado o que é ser amado por mim, mas não vou pedir desculpas por fazer o que deve ser feito: Eternizar meu amor por ti.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Azurepmis
Notas de Cabeçalho

"e te enlouquecerás pelo que vires com os teus olhos."

— Deuteronômio 28:34

Ato VIII Envolto Por um Veredicto

Em um instante, sem trombetas celestiais ou qualquer outro tipo de aviso, tudo mudou para todos os que estavam vivos quando finalmente realizei o meu desejo. Assim como minha mãe, cada um deles foi curado de suas doenças e/ou ferimentos, bem como imunizado de futuras reincidências dos males que os afligiam; somente algo inédito e mais forte do que qualquer moléstia existente até então poderia afetá-los dali em diante. O caos imediatamente posterior ao momento em que aquela onda energética varreu o planeta inteiro foi simplesmente ÉPICO. Mas, de alguma forma, as pessoas recuperaram a autonomia e o resultado imedato foi a exultação coletiva e global.

Eu mesmo não conseguia conceber todos os cenários nem implicações possíveis em qualquer que fosse o prazo para o que eu havia realizado. Quem é que poderia imaginar que de uma hora para a outra surgiria um mundo em que todas as doenças conhecidas subitamente não tinham efeito algum? Só eu sabia disso e certamente os cientistas se dariam conta disso mais cedo ou mais tarde. Mas, por ora, todos tentavam entender ou mesmo acreditar nas inúmeras e irrefutáveis evidências de regeneração corporal absoluta que foram testemunhadas, gravadas e transmitidas por toda a parte.

E não foi só isso: por um momento, a Humanidade parou. Quero dizer, para nós, humanos, um evento daquela magnitude TINHA que significar alguma coisa. Que Deus existia, por exemplo. Ou que os alienígenas existiam. Ou alguma outra coisa muito maior do que nós havia feito aquilo, por algum motivo. Guerras foram momentaneamente interrompidas. Nações inimigas há décadas pediram trégua. A maioria esmagadora dos abatedouros cessou as atividades e fechou as portas. Além da felicidade, havia o questionamento. A incerteza quanto ao que antes era tido como possível e verdadeiro.

Talvez fosse hora de mudar. Ou ao menos por enquanto tentar de verdade.

Eu seria mais um dentre centenas de milhões que buscaria respostas, se não sobre o que houve, então sobre o que viria a seguir se meu tempo não fosse tão escasso. De imediato cogitei que Deus iria levar todo o mérito. Não veria problema nenhum nisso se não fossem os safados que vão se aproveitar disso para obter vantagem e poder sobre o povo. Se bem que a sensação de que Deus realmente está de olho em nós agora é colossal e o medo do desconhecido possa refrear estes desgraçados. Eu poderia contar a verdade para todos e mostrar que o Criador diretamente não teve nada a ver com isso, mas do que me adiantaria curar o corpo para destruir-lhes a alma?

Não me preocupei mais em pensar se o que fiz foi bom ou ruim para o mundo, certo ou errado para Deus e nem sobre o futuro da nova humanidade que havia surgido, pois eu não estaria lá para ver. Agora que a saúde de minha mãe estava garantida, mesmo que continuasse morando sozinha após minha partida, ela ficaria bem. Embora a tristeza e o medo da morte embotassem o júbilo de minha alma, eu estava satisfeito por finalmente ter feito alguma diferença neste mundo sujo, injusto, cruel e inumano em que nasci.

Minha mãe avisou que o restante da família iria se reunir ironicamente dali a dois dias para celebrarmos o milagre que possibilitou a cura de nossa matriarca. Após desligar a televisão, minha progenitora quis saber sobre o preço que tudo aquilo teria e se ela podia pagá-lo no meu lugar. Eu sorri um tanto entristecido e só movimentei a cabeça em negativa antes de abraçá-la bem forte, dizer o quanto eu a amava e pedir perdão por todas as coisas erradas que eu havia feito. Ela apenas retribuiu o abraço igualmente comovida e me mandou ficar quieto. Apenas fiquei aninhado naqueles braços enrugados e trêmulos, ciente de que seria a última vez que o faria.

Acho que ela sempre soube o que me aguardava e que não poderia me proteger. Não mais.

— Pode ir, Marquinho. Pode ir agora, a mãe vai ficar bem. — ela conseguiu exclamar com a voz embargada, beijando minha testa. — Graças a Deus e a você. Vai fazer... O que você tem que fazer. — cada palavra arrancava mais lágrimas de nós dois enquanto ela gentilmente me afastava dela.

Eu enxuguei meu pranto e a encarei. Como uma pessoa podia ser tão forte e sábia? Naquele momento, a vida me pareceu tão mais importante, tão mais válida! Fechei os punhos e me estremeci incontrolavelmente, a vontade de tentar fugir de meu destino ardendo em meu cerne como magma solar, a ânsia de sobreviver me arrebanhando mais e mais. Porém, eu precisava ser homem e honrar minha palavra. Com todos os defeitos que tinha, ao menos isso eu podia e iria fazer. E o faria imediatamente, não havia o porquê adiar o que quer que Azurepmis tinha destinado para mim.

Eu observei bem aquela idosa e singular morena. Ela parecia até um pouco mais jovem e bonita depois de estar saudável. Estava usando o costumeiro lenço azul e estampado na cabeça, ocultando seus cabelos negros e os óculos não eram mais necessários, conferindo-lhe um aspecto mais simpático, apesar do pranto. As roupas dela eram tão simples... Como eu a amei naquele instante em que fiquei a observando! Ambos nos encaramos e ela apenas alisou meu rosto com a mão trêmula. Nunca um gesto tão suave e carinhoso doeu tanto.

Eu gentilmente apanhei aqueles dedos enrugados e toquei o dorso de sua mão com meus lábios. Em seguida, me ajoelhei perante ela e praticamente infantilizado, pedi a sua benção. Assim como meus avós faziam com ela lá em Sergipe quando ela era criança, minha mãe proferiu uma prece curta e inaudível enquanto desenhava o sinal-da-cruz no topo de meu crânio, em minha testa e no meu peito. Depois, deu-me um beijo e disse "Que Deus te abençoe, meu filho. Hoje e sempre!" enquanto me ajudava a levantar.

Nos encaramos novamente em silêncio, ambos fazendo sinais afirmativos com a cabeça. E então eu saí de casa correndo, sem olhar para trás.

Tudo o mais se passou muito rapidamente: quando dei por mim, já havia pago duas diárias em um motel de quinta nas redondezas, ficado nu e me prendido à parede com o auxílio do vitrô, uma longa corrente e um par de algemas obtido em um Sex Shop. Para garantir que não iria fugir, fiquei sem comer, beber ou mesmo dormir por mais de vinte e oito horas. E nesse meio tempo, enquanto chorava e esperava no escuro, eu vi. Ou melhor, senti que não estava sozinho. Desde o começo desta história, estive sendo observado, mas depois do que fiz... Bem, acredito que havia chamado toda a atenção para mim.

Em um dado momento, comecei a delirar na escuridão e então meus sentidos para o sobrenatural foram ficando mais apurados: sentia o cheiro de ozônio misturado com enxofre, os sons pacíficos de harpas, xilofones e pianos ressoando junto os rifts agressivos de guitarras, as baterias e orgãos, o lufar do ar e os tremores do chão. Muitas coisas voavam e muitas outras rastejavam ao meu redor, do lado de fora do prédio. As mais pequenas, ousadas e curiosas estavam bem ali, cercando o Filho de Eva mais conhecido e apavorado da atualidade.

Ou seja, eu.

Ao me dar conta daquilo, decidi chamar Azurepmis e acabar logo com tudo antes que o pânico me fizesse romper minha promessa. Ao finalmente se materializar, a visão escabrosa que se seguiu fez com que eu me lembrasse de tudo o que houve antes, gerando-me ainda mais dor, pesar e horror. E agora, o que existe agora diante de mim é um corpo infantil, desnudo, masculino e negro repleto de tumores, deformidades, fraturas e todo o tipo de malefícios oriundos de doenças e ferimentos, o conjunto se transmutando de maneira aleatória em uma bizarra e indescritível coletânea de tudo o que removi da humanidade. Somente um dos olhos foi poupado e seu reluzir esverdeado não é de sofrimento e sim de arrebatamento.

E nele eu posso ver de relance algumas das criaturas que provavelmente chamamos de anjos e demônios fugindo e desaparecendo o mais depressa que conseguem.

— Congratulações, Eleito do Milênio! Os seres dos Outros Mundos te saúdam! — afirma o pequeno monstro abrindo os braços gangrenados e cheios de tumores purulentos. — Eis que o momento glorioso sobre o qual tu mencionaste enfim se avizinha! — um largo filete rubro escuro irrompe de seu lábios leprosos após partes dos mesmos caírem aos seus pés inchados pela elefantíase, manchando de vermelho aquela tentativa infernal de sorriso.

A escuridão se adensa sobre nós e mesmo assim, de alguma forma sei que há sangue e miasma por toda a parte, a abominável mistura violentando minhas narinas com um ranço que me faria regurgitar se ainda houvesse algo em meu estômago. A figura vem até mim manquitolando de forma repugnante aos meus olhos, o lento arrastar daquele arremedo de gente me paralisando no lugar conforme minhas pupilas se dilatam e a musculatura do meu corpo se chacoalha sem qualquer controle. Quando aquela aberração metamórfica finalmente chega até mim, eu já não consigo mais gritar, apenas resfolego encostado e encolhido na parede, sentindo meu choro escorrendo e pingando sobre meu antebraços.

— Agora sabes e entendes. Não te culpes, afinal teu desejo precisava ser realizado de alguma forma. Da MINHA forma. — justifica o abominável infante com uma voz maravilhosa que e nada combina com aquela atrocidade visual. — Foste um dos raros Eleitos dignos e capazes de testemunhar a materialização do preço de teu anseio. E agora...

— Me perdoa, Az... Me perdoa! — consigo exclamar em tom baixo, porém audível o suficiente para interromper o monólogo. — E-Eu não sabia! O que foi que eu fiz?!

— Do que falas, mortal? — indaga calmamente Azurepmis enquanto sangra e se deteriora horrendamente diante de mim. — Já te disse, tal comportamento e sentimento são desnecessários. Ambos fizemos o que havia de ser feito. Imagino que tal conhecimento não te deterias, no final das contas. — mais chagas e cânceres surgem e se desfazem no local onde deveria haver um rosto e que se aproxima mais e mais do meu.

— Oxalá! Selado está o Destino! — sussurra aquela monstruosidade caótica e doente em meu ouvido com um timbre que mescla autoridade e decisão. — Tens quaisquer últimas palavras, Filho de Eva?

Há um silêncio estranho, profundo e absoluto após a pergunta, algo que tenho certeza ser um fenômeno não natural. Sinto todo aquele fedor provindo das feridas e fluídos excecrados de Azurepmis empesteando os meus sentidos, o calor de seu corpo desfigurado pelas doenças me arrepiando por inteiro, o meu próprio coração quase arrebentando minha caixa torácica, a massa negra e gélida que nos envolve em alguma espécie de mortalha, o gosto de meu sangue, meu ranho e minhas lágrimas na boca. De fato vejo minha vida passar ligeira diante de meus olhos, como dizem que acontece quando a Morte está prestes a te tocar. E então vem o estalo.

— Eu vou consertar essa cagada, Az. — e então sem pensar duas vezes enfio ambas as mãos com toda aminha força naquela coisa repugnante, invocando todo o poder que possuía e me restava. — Aguenta firme, meu amigo!

Ambos gritamos a plenos pulmões enquanto meus olhos se revolvem dentro das órbitas craniais, meu cérebro e espírito vertiginosamente assimilando cada uma das moléstias de Azurepmis enquanto reafirmo meu desejo com a mesma vontade que utilizei no Plano Proposital. Meu objetivo sempre foi a cura absoluta e não a simples transferência delas! Conforme eu afundo aos gritos mais e mais meus antebraços naquele amontoado físico de doenças, fachos de luz esmeralda se projetam das feridas abertas, rasgando a escuridão que nos cerca.

Um colossal fulgor esverdeado toma conta de tudo e então vejo, descubro e, por fim, compreendo o que estava acontecendo com este ser misterioso: o vínculo que nos forcei a compartilhar foi algo totalmente inesperado e inconsciente, mas que acaba me fornecendo muito mais informações do que eu quero ou preciso. Assim, na medida em que esta cúpula energética nos engloba em sua luz e calor percebo que, de alguma forma desconhecida para nós, finalmente meu desejo foi verdadeiramente realizado.

E então não vejo, ouço ou sinto mais nada.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Mil perdões pela demora, caso alguém ainda esteja acompanhando...

Próximo capítuio daqui a uma semana. É uma promessa.

Apreciadores (5)
Comentários (3)
Postado 23/06/16 18:12

Uau! Realmente ele poderia curar qualquer ser, apenas mais um. Curar o Azurepmis é uma escolha louvável até o então momento, já que foi ele quem deu o dom de curar qualquer ser.

Postado 29/06/16 02:44

Mais que patronato ou hierarquia, ao menos para o protagonista havia uma questão de amizade, gratidão e justiça a ser resolvida da melhor maneira possível. Eu gosto desta cena exatamente pelo fato que o senhor bem frisou: ele faz algo louvável por quem fez o bem maior a ele ao conceder-lhe os meios de curar Maria...

Muitíssimo obrigado pela leitura e feedback!

Postado 21/07/16 00:32

Aaii que lindo, essa cena foi pra chorar mesmo! Tão lindo!

Postado 21/07/16 00:38

Srta Meiling... Muito obrigado. Sério. Muito obrigado...

Postado 13/09/16 16:35

PERFEITO!

GENIAL!

INCRIVEL!

E....

FOFO! MUITO FOFO MESMO!!

Postado 04/12/16 10:14

Moça, a senhorita é um caso sem solução...

Muitíssimo obrigado por tais e imerecidos elogios!

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