Som do Exílio (Em Andamento)
Amara Helena
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 09/09/16 20:25
Qtd. de Capítulos: 1
Cap. Postado: 09/09/16 20:25
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 10min a 13min
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Palavras: 1621
[Texto Divulgado] "Escorpiana" Intensidade, esse é o seu nome. Aquela que sussurra, que grita e que demostra o quanto o amar é importante.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Som do Exílio
Notas de Cabeçalho

OIOOIOIOIOI. TUDO BEM? Pois é, essa é minha nova história - que provavelmente será longa - cheia de CRÍTICAS acerca do tema Ditadura Militar. Caso apoie essa atrocidade, vamos dar uma conversada no wapp ou ignorá-la - apesar de eu achar que a maioria dos debates, o que a fic proporcionaria, trazem algo construtivo quando, é claro, os argumentos de ambos não são uma bosta qqqq

VAI SER CHEIA DE REFERÊNCIAS, porque sem referências e críticas, é impossível o texto ser de minha autoria.

BEM, essa não é a sinopse original. Não deu para colocá-la, pois o contador do site não permite.

Capítulo 1 Capítulo 1

''Por que afrontar, se é certeiro que perca?''

Durante vários dias, Albert Drummond ficara preso em sua casa por escolha própria. Lá fora, o sol não mais brilhava, o vento não mais soprava e a liberdade não mais se fazia presente. As ruas eram, disfarçadamente, vermelhas e a calmaria, ilusória. Tempos trevosos batiam à porta com violência. Sumiços corriqueiros apresentavam-se como comum dor a alguns. De que adiantava sair, se a prisão era lá fora? Não adiantava tentar algo. Viver como um clandestino? Não. Era caro e perigoso. A única coisa que podia fazer era baixar a cabeça e aceitar, como um covarde, por saber o que realmente acontecia e não fazer algo a respeito, ou como um ignorante, por ignorar ou preferir não saber. E ele não queria nem um dos dois.

Sentando em sua cadeira em frente à mesa que, um tempo atrás, vivia cheia de papéis rabiscados com letras de músicas, mexia incessantemente em seus cabelos grisalhos e lisos, pondo uma mecha atrás da orelha ou apertando-os de modo dolorido. Infligir dor a si mesmo era uma maneira sua de driblar a ansiedade. Como um compositor e cantor frustrado por conta da censura, acabara dando mais atenção aos seus problemas patológicos, que outrora eram esquecidos pela distração que a escrita causava em sua mente.

Suspirou. Algo o corroía por dentro, contudo, Drummond não sabia dizer o que era. Compor dava margens à sua imaginação e, através dela, suas críticas baseadas em seus estudos poderiam ser ouvidas numa melodia agradável. Gostava de brincar com isso: as letras fortes, carregadas de contracultura e filosofia barata, e o ritmo, calmo e relaxante. Era algo bom saber que, quando alguém fosse ouvi-lo, iria poder... Bem, ele não queria e não podia continuar divagando sobre isso, porque era sofrido, já que não poderia mais fazer tal brincadeira. Lembrava-se de sua conversa com seu amigo, Monte, em um bar clandestino, cujo propósito era reunir pessoas que fossem contrárias à Ditadura Militar.

─ Sabe, a pessoa iria ser levada pelo som calmante e isso iria fazer com que ela ficasse relaxada; porém, em contrapartida e ao mesmo tempo, a letra crítica iria forçá-la a reproduzir sentimentos de revolta, angústia e aflição. Ela, talvez, ficasse confusa, entende? ─ Explicou, tragando seu cigarro. Monte pigarreou.

─ Entendo, entendo...Não tem medo de ser pego? Quero dizer, estás correndo riscos compondo músicas de protesto. Podem exilar-te.

Drummond negou.

─ Não. Nem lancei minhas músicas e escondo-as muito bem em minha casa. De modo algum que tenho intenções de publicá-las. Fiz uma vez, não quero fazê-lo novamente. Seria um erro tolo.

Sim, um erro tolo. As semanas preso naquela sala, sem água, comida e em condições desumanas, fizeram-no perder a coragem. De fato, não era mais um jovem apaixonado pelo futuro promissor e pelas ideologias revolucionárias que poderiam mudar a sociedade para melhor. Estava quebrado, desiludido.

Apesar de a publicação de sua primeira música ter tido uma reação ruim a ele, o pior fora sua participação em uma guerrilha. Seus companheiros e ele haviam perdido e ele fora capturado. Foram semanas de horror, tal qual um pesadelo que parecia não ter fim. Torturaram-no física e psicologicamente. Felizmente, seus colegas sequestraram o embaixador do Japão e, em troca da libertação deste, exigiram a libertação dos presos. Desde então, vivia escondido numa casa afastada da cidade, no meio da mata.

Levantando-se, andou até o outro lado do cômodo e pegou sua carteira de cigarros. Tirando um, acendeu-o com o isqueiro que guardava ao lado da carteira e tragou. Em seguida, foi até sua mesa a abriu a segunda gaveta à esquerda. Lá dentro, estavam guardadas as letras de suas músicas. Todas às vezes, relutava em pegá-las, contudo, precisava distrair-se com alguma coisa. A ansiedade estava matando-o.

Vasculhou a gaveta, sem saber qual composição pegar ou, inconscientemente, buscando uma em particular. Parou quando avistou uma intitulada ‘’Falta de Empatia’’. Era a sua favorita, a que tinha intenção de publicar na época em que seu ânimo ainda estava a mil. Deu um sorriso sem emoção e leu um trecho em sua mente:

‘’Trancafiaram-me em uma jaula

Aplaudindo de Pé

A população desconhecia

A vilania da tirania’’

Esta era a única música que não fazia a brincadeira que gostava. Tinha um carinho especial, pois fora escrita um dia antes da guerrilha, enquanto estava com seus colegas, comendo e conversando. Uma lágrima escorreu por sua face e seus olhos se apertaram, fechados. Enxugou-a com sua mão esquerda e colocou a letra em sua gaveta, fechando-a com força e rapidamente. Ora, com seus cinquenta e quatro anos, era inadequado chorar pelo leite derramado.

Era, assumidamente, um covarde. Sabia que não podia chamar-se assim, dada à situação que se encontrou uns meses atrás - claro, tivera sorte em não ser pego, depois de sua prisão, e exilado. Contudo, julgava-se merecedor de ser chamado desta maneira. Seus colegas, mesmo depois de alguns terem saído de lá juntamente com ele, continuaram com as lutas, agora com mais segurança e sem guerrilhas. Não tinha conhecimento de como estava à saúde mental e física deles. Não tinha contato com mais ninguém do mundo lá fora, do mundo perigoso e dividido.

Tirando-o de seus pensamentos, o telefone tocou, um barulho estridente na cabeça de Drummond. Desconfiou. Ninguém tinha seu número, quem poderia ser? Não queria atender, mas ficara curioso. Estranhamente, a tortura não tirara sua curiosidade, e sim, diminuíra para um nível seguro velado pelo medo.

Caminhou até o outro cômodo, onde ficava sua sala. O ambiente era sombrio: nas janelas, cortinas grossas e pretas impediam a entrada da luz do sol; os móveis eram todos cobertos de plástico e a tevê estava intacta, sem ser ligada na tomada uma única vez. Se alguém fosse até lá, diria que ninguém morava naquela casa e que ela não fora tocada por anos. Até mesmo o plástico era coberto por poeira. O homem não tinha medo de adoecer, e sim, de o acharem. Preferia morrer de alguma doença respiratória, a voltar àquele submundo terreno.

Chegou perto do telefone, tirou-o do gancho e atendeu:

─ Alô? ─ Disse, firme.

Ouviu-se um pigarreio do outro lado da linha.

─ Alô? Ah, desculpe-me. É Albert? ─ A voz masculina e estranhamente familiar, perguntou. Drummond franziu o cenho.

─ Quem está falando? Não responderei a essa pergunta, a menos que me digas quem és.

─ O vanguardista está à frente até mesmo em seu nome.

O homem ficou estático, apertando o telefone em suas mãos.

─ Monte? ─ Perguntou, incrédulo.

─ Sim! Olá. Quanto tempo, hein? Estava preocupado, muito preocupado. Foi difícil te achar.

─ Tenho meus motivos, meu amigo. ─ Respondeu, secamente.

Monte resmungou.

─ Quero te encontrar no mesmo bar da nossa última conversa. Sei que não queres falar com pessoas, entretanto, é algo urgente. Precisamos conversar e...

─ Não. ─ Ele o cortou ─ De modo algum.

─ Albert, sei que tu estás mal, mas preciso mesmo falar contigo. Vá ao bar amanhã, às seis horas da manhã.

─ Eu... ─ Mas, antes que pudesse completar sua frase, Monte desligou.

Olhando pro nada, colocou o telefone de volta ao gancho e foi até o sofá revestido de plástico. Sentou-se, suspirando. Que Monte queria? Esperava não ser nada relacionado ao seu passado. De fato, não queria mais participar daquilo. Estava velho e cansado demais para esse tipo de coisa. Seu amigo, apesar de ter quarenta e quatro anos, era jovem em sua aparência, personalidade e ânimo. Invejava-o em tempos pretéritos por seu espírito, porém, hoje em dia, julgava-o um idiota, iludido, que acreditava que podia mudar alguma coisa. Besteira. Um homem como Monte, de meia-idade e bonito, poderia construir família e levar uma vida monótona. O outro homem jogou a vida fora lutando em vão por causas perdidas e impossíveis.

Seus pés não paravam quietos; saiam do chão e voltavam num ritmo frenético; suas coxas balançavam acompanhando o movimento dos pés. Suas mãos começaram a coçar, o que o fez esfregá-las. Vez ou outra acelerava ainda mais o ritmo. Sua cabeça estava a mil: amigo, Monte, pânico, memórias, torturas, gritos, dor, agonia. Quando se deu por conta, estava ofegando, nervoso e à beira de um ataque. Começou a tremer das pernas à cabeça, soando frio. Seu coração batia fortemente em seu peito e seu olhar estava sem foco, absorto nas memórias vívidas.

Iria morrer tentando sair de seu ataque.

No entanto, tudo começou a parar lentamente. Sua respiração e seu coração foram desacelerando. Seu tremor cessou e seus pés finalmente pararam de pular. A coceira em suas mãos parou e ele se acalmou. Anteriormente, tentou se controlar, tirando o foco de seus pensamentos para seu amigo, Monte, em dias felizes. Funcionou.

Andou novamente em direção à cozinha. Abriu o terceiro armário acima de si e pegou uma lata pintada de branco, decorada com listras vermelhas na vertical. Tirou a tampa da lata e pegou o que lá havia: um plástico transparente, protegendo um tipo de pó branco e uma seringa ao lado do plástico. Drummond pegou o objeto, depositou-o na bancada e descerrou o lacre do pequeno flexível, retirando a substância. Foi até a gaveta, pegou uma colher e um isqueiro, ascendeu este último e, com o auxílio da colher, queimou o pó.

Suspirou. Óbvio, ele não queria prejudicar a si mesmo. Sua saúde, tanto física quanto mental, já estava debilitada, no entanto, a situação pedia. Como todos os dias. Os contextos sempre eram iguais, mas em formas distintas, que o enlouqueciam cada vez mais. A tortura havia desencadeado problemas internos no ser do homem e esta fora a única maneira que ele conseguira para lidar com suas crises. Sim, apenas piorava, mas davam, pelo menos, apenas alguns poucos minutos de euforia. E era o que ele precisava.

Pegou sua seringa, extraiu o líquido, outrora pó e injetou na veia do braço esquerdo.

Em minutos, perdeu-se na leveza calmante efêmera.

❖❖❖
Notas de Rodapé

''Falta de Empatia'' estará disponível em algum lugar qqqqqq

Avisinhos: só entendo o lado histórico da música.

Beijosss

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