o céu tinha cor de petróleo
Tháiza Lima
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/09/16 14:50
Editado: 26/09/16 14:53
Gênero(s): Drama Reflexivo
Avaliação: 9.67
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 5
Comentários: 3
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Palavras: 649
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Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Como eu odeio toda essa confusão de sinapses e espasmos nervosos que acontece em vários pontos do interior do meu crânio, os quais estimulam a produção de enzimas e hormônios à medida que o cérebro sente-se pressionado cada vez mais, desregulando toda a fachada calma que o corpo se esforça para manter. Desculpe o desabafo, mas ultimamente tenho me sentido tão densa e escura quanto um litro de petróleo, e, bem, ainda é setembro.

Enfim, boa leitura!

Capítulo Único o céu tinha cor de petróleo

Tem uma corda no teto da sala de aula, ela parece uma corda de forca.

Tem dois alunos discutindo no corredor, tem uma aluna de fones de ouvido sentada na escada, tem um faxineiro varrendo o terceiro andar, tem um professor procurando as chaves do carro, tem um supervisor no primeiro andar observando o grupo mandado para fora da sala por causa de conversa. Tem uma moça que chora no banheiro, tem um rapaz que se encara no espelho e tem eu, que olha essa corda pairando do ventilador até o meio da lousa.

Tem uma motocicleta estacionada na frente da casa, ela parece usada.

Tem uma mulher andando de calçada em calçada vendendo vassouras, tem quatro crianças jogando bola na rua paralela, tem um casal passeando com o cachorro, tem uma rapariga descansando embaixo da árvore, tem um adolescente trancado no quarto, tem um homem caminhando, tem adultos no bar conversando, tem um idoso sentado na esquina com a neta no colo. Tem a sensação vazia de tudo acontecer em outros bairros, tem o ar que preenche a casa vazia a não ser pela menina que encara a motocicleta estacionada em frente ao portão. A motocicleta tem dois capacetes, a menina pergunta se o motoqueiro pode dar-lhe uma carona.

A baía de Vitória nunca pareceu mais feia que naquele dia nublado, o mar parecia óleo, o céu tinha cor de petróleo.

Tem uma menina que se agarra às costas de um estranho enquanto eles atravessam a ponte, tem uma cidade cuja vida noturna é quase nula, tem pessoas transitando nas rodovias, nas calçadas, praças e avenidas, tem sorrisos e tem lágrimas, tem pessoas dormindo, tem pessoas acordadas, tem pessoas de todas as cores, idades e tamanhos, pessoas que sabem quem a menina é e pessoas que nunca ouvirão seu nome. Tem essa menina que desce da moto e estende uma nota de cem reais para quem a levou até lá, o dinheiro que recebeu da avó de aniversário. Tem o motoqueiro que segura a nota larga e azul-claro, tem seus olhos que fitam a menina acompanhando o andar dela até a beirada da ponte e ali ficam parados, esperando.

Sempre há um olhar comovido quando as pessoas ouvem sobre as tragédias na Terceira Ponte. Poucas pessoas sabem que a taxa é maior do que a mídia apresenta, porque o número é tão alto que corre o risco de encorajar quem pensa em fazer o mesmo. Todos sabem, porém, que toda semana no mínimo uma pessoa é engolida por aquele mar concreto de sentimentos e despojos de cidade grande, não necessariamente da forma menos dolorosa.

Tem a menina que agora sai da cidade, os cem reais no bolso e as mãos agarradas às costas do desconhecido. Tem as lágrimas que rolam por seus olhos, mas não sei se é alívio ou terror pelo que quase fizera. Tem a moça que está na frente do computador escrevendo baboseiras, tem o aluno que copia o dever de casa, tem o empresário que grita ao telefone, tem a mãe que se ajoelha na capela, tem o rapaz que cambaleia por ruas vazias, tem o homem que abraça a esposa na cama, tem a vendedora que contabiliza o lucro, tem a criança que acorda de um pesadelo. Tem o motoqueiro que se esforça para não nublar os olhos e derrapar o veículo, tem a menina que cede ao desespero e abraça os ombros cobertos de couro, e tem eu, que está de pé em cima do tablado da sala encarando a corda a bailar de acordo com a brisa inexistente.

A corda continuou na sala de aula.

Ninguém mais consegue vê-la.

Aconteceu quando o céu se tingiu de negro.

A chuva caiu, viscosa como petróleo.

O dia tinha gosto de neblina.

Meu uniforme tem tom azul cobalto.

Eu gostava da cor azul.

Hoje eu só vejo petróleo.

A cidade nunca pareceu tão bonita.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ter lido, e não se sinta obrigado a entender (embora esteja bem escancarado o sentido do texto q). Só... sei lá, fiquei com saudade de postar algo, mesmo estando meio meh ultimamente para escrever ^^'

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Comentários (3)
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Postado 27/09/16 12:51

Que texto de alguém desiludido com tudo que acontece em sua volta. Parece tudo estar errado, não é? As pessoas fazem tudo que fazem e nem percebem. Parecem que são engrenagems dispostas a transferir força, momento, energia para as demais peças desse complexo sistema feito por pessoas e suas vaidades e desejos.

Felizmente, somos muito afortunados em termos a capacidade de perceber e avaliar situações, para que assim possamos construir, a partir de nosso amor, vontade e determinação, um caminho que nos leva a satisfação pessoal.

Que a corda seja ignorada e que a vida volte a ser colorida e brilhante, pois, cada homem e cada mulher é uma estrela.

Postado 28/09/16 20:28

Cada homem e cada mulher é uma estrela.

Se a pausa de duas semanas entre provas excruciantes e a prova final não foi suficiente para me deixar um pouco mais feliz, essa frase conseguiu. E conseguiu muito, mas muito mesmo. Acho que não tem como eu dizer o quanto estou feliz e grata por esse comentário, a não que aceite um abraço daqueles de sufocar a pessoa, mas como isso é impossível, vai ter que ser por palavras mesmo.

Sério, Chico, é um prazer enorme que tenha lido, apreciado e gostado. Muito obrigada, do fundo do peito, e desculpe não saber como responder seu comentário, mas ele vai ficar muito bem guardado no coração <3

Postado 28/09/16 23:02

Eu aceito o abraço, visto que impossível não é não! Hehehe.

Que bom que lhe fez bem esse comentário. Sempre que estiver mal, exponha seus sentimentos que alguém sempre irá lhe afagar, sobretudo tu, que é uma pessoa tão querida por todos.

Sobre a frase, ela é um dos pilares do Thelema, doutrina/religião/filosofia escrita por Aleister Crowley. Eu a acho sensacional e super concordo com o que ela quer dizer.

Postado 28/09/16 20:32

Chico disse tudo que precisava ser dito. Só acrescento em algo mais: Ta lindo, Thái. Para de achar suas coisas meh. Te admiro demais. :)

Postado 01/10/16 22:56

Não é bem o texto que está, mas a vida tá bem méh ultimamente ("méh" podia virar adjetivo, ele traduz tantos sentimentos em uma palavra só '-'). Você sabe como emocionar uma pessoa, Joy, de verdade.

Vou trabalhar mais nisso, mas por enquanto, céus, obrigada demais, demais da conta <3

Postado 01/10/16 21:32

Olha, eu nunca fui de fazer comentários longos e lindos, mas isso, este beira a perfeição.

Postado 01/10/16 22:57

Não precisa fazer um comentário "longo e lindo", só... só me dá um abraço...?

Obrigada, Juh <3

Postado 01/10/16 23:33

Claro! <3