Além Do Óbvio
T A BATISTA
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/10/16 19:57
Editado: 15/10/16 09:18
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 11min a 15min
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[Texto Divulgado] "O gato de Schrödinger" Homem acorda e descobre que todas as pessoas sumiram.
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Você já se perguntou o que marca o nosso tempo aqui? Se uma vida pode realmente ter algum impacto no mundo? Ou se as escolhas que fazemos importam? Às vezes, para irmos adiante, é preciso voltar, nem que sejam, nesse caso, só alguns minutos.

Lucas Scott

Capítulo Único Além Do Óbvio

2011. Dezembro.

A visibilidade era quase zero, embora, segundos antes, poucas nuvens cortinavam o céu. A chuva caíra de repente; sorrateira. O aguaceiro punia a antiga rodovia que há muito liga o município de Sete Lagoas à capital mineira. Talvez não fosse um bom final de tarde para ter de dirigir, principalmente quando os pneus do carro estavam carecas. O para-brisa havia embaçado rápido e, de quando em quando, Tarcísio tinha de usar uma flanela velha para limpá-lo, pois o desembaçador havia estragado.

Perigo!

Grossos pingos se chocavam violentamente contra o vidro dianteiro do sedã preto do advogado criminalista. A tempestade prosseguia; traiçoeira. Mas que raios de chuva! O humano pensou temeroso. Não gostava de dirigir nessas condições desde o Grande Dia Escuro, como passou ele próprio a chamar a maior tragédia de sua vida… Ao avistar uma barreira policial rodoviária situada à direita da rodovia, o homem elegante de fios curtos conseguiu se localizar precisamente: estava próximo da Cidade Administrativa de Minas Gerais. Prosseguiu, e quando passou por um posto de combustível, do outro lado da pista, decidiu fazer o retorno e parar para comer alguma coisa. Na verdade, o que o homem na casa dos quarenta mais queria era poder esperar que a chuva passasse ou pelo menos amenizasse para prosseguir com segurança. Os pneus estavam ruins. Percorrera várias borracharias de Sete Lagoas no dia anterior, mas não conseguiu encontrar pneus bons pelo preço que gostaria. Decidiu que compraria na capital, antes de partir rumo ao Rio, para aonde iria após deixar o filho com a tia.

O advogado não seria tolo em arriscar a vida do seu maior tesouro.

***

Daniel dormia no assento do passageiro, ao lado. Um rapaz em fase de transição: acabando de sair da adolescência pra entrar na vida adulta. Logo um risco de preocupação desenhou-se na testa do jovem estudante dedicado que acabara de se formar no ensino médio. Candidato sério a uma vaga na Universidade Federal de Minas Gerais, o garoto de cabelos negros estava se preparando para enfrentar a segunda etapa do vestibular, após o natal. Queria ser médico, como a mãe.

— Ahn… Nós chegamos? — A voz de Daniel soou sonolenta, quando o jovem percebeu que o motor do carro foi desligado.

O menino abriu um olho, num movimento preguiçoso. A íris azul-celeste fixou-se em Tarcísio. Logo, retirou uma mecha da franja escura do outro olho. O cabelo já estava grande demais de acordo com o pai.

— Quase filhão — Tarcísio sussurrou. — Estamos chegando.

— Mas por que paramos? — Daniel questionou, esfregando os olhos.

— A… chuva… ‘tá forte — Tarcísio disse tenso.

— E… — Daniel prosseguiu. Ainda sonolento.

— Não pude trocar os pneus, lembra?

O advogado então ligou o rádio do carro.

Todas as estações fora do ar.

— Também… — o homem logo completou após desligar o aparelho — quem imaginaria que iria chover? O céu estava limpo, quando saímos.

— Eu bem que avisei!

— Foi um baita chute, isso sim — Tarcísio sorriu.

Mas o filho pôde perceber que se tratava apenas de um sorriso falso para esconder a impaciência. O garoto desviou o olhar para fitar os pingos que ainda insistiam em investir contra o para-brisa e, no instante após, suspirou antes de dizer:

— Você não acredita em mim, né?

Um olhar descrente perdurou por segundos. Um raio caiu ao longe, seguido dum raivoso trovão. A tempestade prometia perdurar talvez por muito mais tempo.

— Ah, não! Não vamos começar com as paranoias.

— Paranoias?! — O garoto resmungou rebelde e, com um movimento singular, abriu a porta do automóvel e correu à loja de conveniência.

Nesse instante, parecia que a chuva ia inundar o interior do veículo, pois Tarcísio não estacionara sob a cobertura do posto. Mais um trovão cortou o ar após um breve clarão.

— Aonde você pensa que vai menino? ‘Tá chovendo! — O advogado berrou, colocando a cabeça para fora da janela, nem se incomodando com os pingos que lhe encharcavam os cabelos rajados de branco.

— Banheiro! — Daniel gritou sem olhar para trás.

— Droga…

Tarcísio desceu do carro e apertou o botão do alarme.

***

Menino pirracento! Já está passando dos limites. Pensou.

Desde a perda da mãe, no Grande Dia Escuro, ele ficara assim. Não dava o braço a torcer por nada. Entretanto, foi o Tarcísio quem certamente sofrera mais com a morte da amada do que o filho. Respirava Andrea… Sua vida. O renomado advogado foi então quem cuidou de Daniel sozinho, desde o acidente, obrigado a fazer o papel de mãe às vezes. Já até pensara sério em pedir transferência do trabalho na firma para morar mais próximo da irmã. Dessa maneira, poderia contar com a ajuda dela na criação de Daniel. Porém o rapaz tinha uma rixa com o primo, filho de Cibele. E o advogado, por mais que sofresse com a perda da mulher, jamais permitiria que tal egoísmo tirasse a felicidade do filho: a prova de amor mais concreta de seu passado com a sua amada.

Entrou na loja de conveniência. Olhou em seu relógio de pulso e viu que eram quase nove da noite. Continuava a chover muito lá fora. Ergueu o pescoço para tentar localizar Daniel em meio às prateleiras do lugar. O garoto não estava à vista. Um casal de idosos se encontrava em um canto escolhendo vinhos. Tarcísio também fitou uma mulher de vestido azul pegando cervejas e, bem ao lado, uma garotinha segurava uma boneca de pano. Ele não conseguia avistar o que poderia ser a bendita porta do banheiro. A loja não era grande, entretanto, continha prateleiras que formavam labirínticos corredores.

Tarcísio caminhou até o balcão.

— Ei, você viu um garoto moreno por aí, cabelo grande, olhos claros?

— Ahn? — resmungou um jovem cheio de espinhas, que mostrou o rosto após retirar os fones de ouvido.

— Pode deixar — Tarcísio disse, dando de ombros.

Qual o irresponsável deixaria um moleque desse nipe trabalhando em uma loja de conveniência numa hora dessas? Tarcísio não queria ter que interferir nessa situação. Por mais que desejasse falar poucas e boas ao gerente daquele lugar. Onde ficam os malditos banheiros? Pensou, e logo moveu o pescoço para tentar localizar a porta…

Burro! Só tinha de perguntar para o adolescente no balcão.

— Onde é que fica o…

— Parado! Isso é um assalto! Ninguém se mexe! Perdeu!

Dois homens armados e usando máscaras de Papai Noel entraram na loja. O jovem balconista ficou em choque. Tarcísio, sem pensar duas vezes, levantou as mãos na altura da cabeça. Rezou mentalmente para que o par de assaltantes não atirassem. Estava de costas para o homem que havia anunciado o assalto. O bandido aproximou, encostando o cano do calibre trinta e oito na nuca do advogado e berrando para que a vítima não fizesse nada heróico. Enquanto isso, o outro salteador atravessou o balcão e gritou com o jovem, ordenando que o espinhento abrisse o caixa. O menino, pasmo, não o fez, estava ainda imóvel. Maldito o dia em que o pai o deixou tomando conta da loja! O bandido o empurrou, fazendo-o bater com a testa no chão e desmaiar na hora. Enquanto isso, o outro marginal rendia os demais clientes da loja e os levava para um canto, aos fundos, próximo do casal de velhinhos. A mulher que comprava cervejas carregou a filhinha, que deixou a boneca de pano cair. A criança começou a chorar querendo o brinquedo de volta. Tarcísio foi empurrado para bem perto dela, nesse instante. O bandido alertou para que ninguém tentasse nenhuma gracinha e logo se virou para espiar o comparsa. Tarcísio usou deste momento para sussurrar à mãe e à garotinha que tudo ficaria bem. Defronte deles, o casal de idosos já não se movia mais, haviam desmaiado juntos. Tudo se via acontecendo muito rápido.

***

Então que, de repente, uma porta se abriu em algum lugar. O filho viu o pai avançar em sua direção, mas o tiro foi mais rápido. Tudo aconteceu em questão de segundos. Os ladrões correram. A mulher cobriu os olhos da filha… Daniel então viu o sangue escuro escorrer do plexo do pai caído ao chão. Os seus puros olhos azuis focaram-se na cena aterrorizante; tremiam. Os olhos de Tarcísio já não brilhavam mais.

***

— Ahn… Nós chegamos? — A voz de Daniel soou sonolenta.

— Quase filhão. — Tarcísio sussurrou…

Logo o dé’jàvu.

Que droga! Estava acontecendo outra vez? Como naquela mesma manhã, quando previra a chuva? Como quando previra também o Grande Dia Escuro, que levou a mãe para longe de Tarcísio para sempre? Não! Não podia ser verdade! Seu pai não iria morrer assim, de repente. Sua vida não iria… Não poderia piorar. Que droga!

— Eu… Ahn… não disse que choveria? — Daniel sussurrou, tentando manter o controle. Suava. Algo parecia lhe espremer o peito. A visão do pai morto ainda estava gravada na retina como uma televisão com o defeito da imagem fantasma.

Queria que tivesse sido apenas um sonho, porém no fundo ele sabia que não. Sabia que a premonição não era somente um terrível pesadelo. Sabia que, se entrassem naquela maldita loja de conveniência, perderia o pai, da mesma forma que perdera a mãe. Tudo que tinha que fazer era ficar quieto. Não sair pela porta do carro como fizera na visão. Resolveu não contar nada ao advogado.

O pai nunca acreditava nas previsões. Sempre dizia que era um baita chute. Procurou ajuda psicológica que achou necessária para Daniel, mas isso não adiantou. O advogado enxergou essa mania que o filho tem de prever as coisas como uma forma que Daniel encontrou para se recuperar da perda da mãe. Mas, às vezes, tinha suas próprias dúvidas quanto essa questão, pois foi antes de Andrea morrer que o filho havia previsto a morte da mãe. Daniel chegava a assustá-lo.

O rapaz tirou o smartphone do bolso. Pensou em ligar para a polícia. Será que devo? Mas, ao fitar o display do aparelho, viu que o restinho de bateria nem daria para completar a chamada. Até a tecnologia estava contra ele no momento.

— Foi um baita chute, isso sim — Tarcísio sorriu.

— Você não acredita em mim, né?

— Ah, não!…

— Por quê?!… Por que o senhor não acredita em mim? Eu não sou doido. Por que mentiria? Realmente não sei o que acontece comigo. Precisa acreditar… — lágrimas escorreram dos olhos de Daniel quando ele, de repente, explodiu, pontuando a fala com soluços agressivos, e interrompendo o pai. Estava completamente desesperado — É tão… difícil… assim… acreditar? Se… o… senhor tivesse… me ouvido… minha mãe… talvez…

***

— Chega Daniel! — Tarcísio arfou já sem paciência.

Nervoso, tirou a chave do engate do Honda. Passou as mãos entre os cabelos lisos, retirou os óculos, levou o polegar e o indicador direito para massagear a base do nariz. Fazia sempre assim quando estava estressado. Quando o inevitável e cruel Grande Dia Escuro vinha-lhe à mente. Não aguentava mais o martírio. Ainda mais quando o filho o culpava. Que raios de visões eram essas? Por quase três minutos, ninguém disse uma palavra. O silêncio fora recíproco. Então mais um trovão rasgou a noite molhada pouco depois de a luz do relâmpago dançar pelas nuvens cinza e carregadas ao céu, estourando a bolha que havia se formado e deixando com que todos os sons ao redor preenchessem o interior do sedã. Tarcísio, ainda mudo, arreganhou a porta do motorista e, logo em seguida, bateu-a atrás de si, porém, segundos antes, ele ouviu a voz aflita do filho a suas costas:

— Aonde você vai, pai? ‘Tá chovendo!

— Banheiro! — Tarcísio resmungou, trancando o carro ao apertar o botão do alarme.

***

O coração de Daniel acelerou.

— PAI!

❖❖❖
Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 10/10/16 15:49 Editado 10/10/16 15:50

Eita, que texto bem bacana.

Se bem entendi, e acredito que sim, por mais que Daniel tentasse evitar a morte do pai, ele não consegueria. Carai, que merda isso, haha. Deve ser um dom muito triste de se ter.

No entanto, um outro dom me alegraria em tê-lo, que é o teu para escrita. Bah, que texto bem escrito. Deve ter dado um trabalho danado deixar ele tão redondo quanto está. O português está ótimo, a capacidade de narrar a história é gigantesca, fazendo parecer que essas 1.900 fossem apenas 20, a estruturação, que exigiu um pouco mais de concentração, foi capaz de passar a ordem cronológica dos acontecimentos. Está muito bom

Estou muito feliz em ter tido a feliz sorte de me esbarrar em seu texto e ter uma leitura tão agradável. Parabéns!

Postado 15/10/16 09:12

Olá!

Muito obrigado, LEcrivain!

Fico feliz que gostou!

^_^

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