Sombras, Armários e outras Antiguidades
Mauricio da Fonte Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/10/16 09:19
Editado: 28/10/16 09:20
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 12min a 16min
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Palavras: 1975
[Texto Divulgado] "Risadas no cemitério" Uma aventura que, eu duvidaria que aconteceu de verdade, porém, até julho de 2017 estavam todos os envolvidos, vivos.
Não recomendado para menores de catorze anos
Capítulo Único Sombras, Armários e outras Antiguidades

Assim como o seu nome, Aluísio havia herdado o antiquário na Boa Vista de seu avô. Durante anos, quando o assunto era antiguidades, a loja de Seu Lua fora uma das mais procuradas no Recife. A própria casa que abrigava o estabelecimento era uma relíquia: a fachada, cuidadosamente mantida pelos proprietários ao longo dos anos, anunciava, em algarismos romanos ladeados por altos-relevos florais, que o imóvel havia sido erigido em 1852.

Apesar de não gostar muito do próprio nome, Aluísio (conhecido por todos os seus amigos como Neto) tinha no antiquário a oportunidade de fazer aquilo que sempre sonhara, ao dar continuidade ao trabalho do avô: sempre fora fascinado por história, interesse que desenvolvera nas tardes que passara com Seu Lua no interior da loja, durante a infância.

Uma vez por semana, as coisas se davam da seguinte maneira: o pai de Neto, a pedido do próprio filho, o deixava no estabelecimento. O menino, então, se perdia em um mundo de exploração: fotos antigas, moedas, cachimbos de madeira e vasos de porcelana lhe faziam pensar em pessoas que nunca conhecera, que viveram outras vidas em outros tempos.

Quando não estava caçando miudezas no depósito do antiquário, ficava sentado por detrás do balcão, vendo Seu Lua atendendo aos clientes. Após cada venda, o avô lhe falava sobre a história do objeto que fora vendido ou comprado, ou então lhe contava uma história: dos seus tempos de menino, dos anos que vivera com a sua avó (àquela época, falecida) ou então sobre o próprio antiquário.

Certa vez, o avô lhe contou a história de como a construção se tornara propriedade da família: o seu avô (tataravô de Neto), que tinha aspirações a comerciante, comprara o imóvel de uma viúva, que deixara o Recife logo após à venda.

Dizia-se, naquele tempo, que a senhora havia desenterrado uma botija, repleta de moedas de ouro, das fundações da edificação. E, como era sabido, a pessoa que arrancasse tal riqueza jamais poderia retornar ao local do achado, sob pena de cair morta no mesmo lugar.

E, Seu Lua lhe contou, foi exatamente isso que aconteceu: depois de alguns anos morando em Paris, a senhora, tomada de saudades de seu sobrado no Recife, e considerando as velhas tradições como bobagem supersticiosa, voltou de viagem.

Ficou encantada ao se deparar com a loja que lá havia sido aberta (originalmente uma boutique de produtos importados) e, depois de uma tarde conversando com o tataravô de Neto, deixou o estabelecimento, apenas para morrer nos degraus que davam para a calçada, atropelada por um cavalo que derrubara o seu condutor e descia pela rua em disparada.

O tempo seguiu o seu curso, levando Seu Lua em suas águas ligeiras. Neto assumiu os negócios do avô e terminou o curso de história (a contragosto do pai, que queria que o filho fosse um médico como ele). E, durante alguns anos, o antiquário permaneceu firme e forte, um dos principais estabelecimentos do ramo no Recife.

***

Quem dera que as coisas tivessem sido sempre assim.

Nos últimos meses, Neto vinha mantendo a loja aos trancos e barrancos. As vendas haviam caído drasticamente e, não fossem as compras de alguns poucos colecionadores fiéis, teria que entregar os pontos.

Não bastasse isso, ele e Manuel, um rapaz que contratara para auxiliá-lo no antiquário, vinham enfrentando uma infestação de ratos de proporções tão épicas que as três gatas de Neto, Condessa, Marquesa e Baronesa, não estavam dando conta do recado.

Certa tarde, Manuel bateu à porta do escritório de Neto para lhe avisar que alguém deixara móveis e sacolas do lado de fora da loja. Neto ficou animado com a notícia: não era comum, mas, às vezes, pessoas iam até o antiquário e deixavam coisas das quais queriam se desfazer, pelos mais diversos motivos.

E, de vez em quando, uma imagem de santo ou um relógio de parede podiam valer mais do que aparentavam.

Neto lembrava, por exemplo, de uma história contada por Seu Lua: certo dia, o avô recebeu um conjunto formado por uma bandeja e seis taças, cobertas de pó e sujeira. Depois que foram limpas, a surpresa: diante do velho comerciante estavam as mais belas peças de prata que ele já vira em sua vida.

Seu Lua fez questão de devolver os objetos ao doador: não iria enriquecer às custas do erro de outra pessoa. Neto admirava o senso de justiça do avô, mas, se estivesse na mesma situação, diante da maré de má sorte atual, não sabia se faria o mesmo.

Afinal, havia contas e mais contas a pagar.

Neto deixou o escritório, acompanhando Manuel até a rua, e lá havia um tesouro: as sacolas estavam repletas de joias do ouro mais puro. Havia também selos e moedas raros, uma bengala e um cachimbo feitos de marfim, um relógio de bolso dourado que marcava as horas com precisão e broches de madrepérola.

E, assomando em frente à vitrine, um armário gigantesco: a madeira marrom escura reluzia como se o móvel tivesse sido recém-polido. O móvel era dotado de três gavetas em sua porção inferior e, no meio, uma porta, fechada por um cadeado enferrujado.

O coração de Neto acelerou em seu peito: a peça era perfeita. Ainda que não fosse de grande valor, definitivamente entraria na pequena coleção que mantinha em seu escritório.

O único problema era o peso do objeto: a madeira era maciça e, somente com a ajuda de dois flanelinhas que estavam na rua (os quais receberam a quantia de vinte reais cada um), o móvel foi colocado no escritório, encostado na parede que ficava atrás da mesa de Neto.

Manuel testou as três gavetas, mas estavam emperradas. Como não queriam danificar o armário, passaram para a tarefa seguinte, arrebentando o cadeado (que aparentava ser de ferro) com um alicate de pressão.

O interior espaçoso estava vazio.

“Acho que seria demais esperar por mais alguma coisa, seu Neto”.

“É a vida, Mané, a gente não pode ganhar sempre. De todo jeito, a gente tirou a sorte grande! Vamo dar uma olhada nas outras coisas, e ver pra quem a gente pode ligar”.

***

A partir daquele dia, a sorte voltou a lhes sorrir.

Com o dinheiro que ganhou com a venda dos objetos que foram deixados na loja, Neto conseguiu pagar as dívidas pendentes, e ainda sobrou dinheiro para dar um aumento para Manuel e fazer propaganda do negócio. O número de clientes voltou a crescer e, aos poucos, o antiquário foi recuperando o prestígio que tivera nos tempos de Seu Lua.

Pela primeira vez em meses, Neto conseguia deitar em seu quarto, no primeiro andar do sobrado, e dormir tranquilamente, sem preocupações na cabeça. Caía no sono pensando em como o avô estaria orgulhoso dele, se estivesse vivo: conseguira deixar as dificuldades para trás, e era chegado o tempo da prosperidade.

Até mesmo a infestação de ratos foi aplacada, e as gatas, pelas quais Neto tinha um carinho profundo, foram recompensadas com grandes tigelas de leite.

***

Era uma tarde de sexta-feira, e o movimento da loja não podia ser maior: o antiquário estava repleto de turistas japoneses, que faziam um tour pela cidade para depois retomarem o seu cruzeiro pela costa do Brasil. Neto havia acabado de atender um casal de idosos, quando Manuel o chamou.

“Seu Neto, não tô me sentindo muito bem. Tô com essas manchas pelo corpo, acho que a maldita da zika deve ter me pegado...”

“Oxente, Mané? Há quanto tempo você tá assim?”

“Já faz uns três dias... Mas com a correria de hoje, a danada me derrubou de vez”.

“Você devia ter me dito que estava doente, homem! Não se aperreie, não se aperreie. Vá simbora, vá descansar, deixe que eu dou conta desse pessoal todo. Antes de ir, Mané, me diz uma coisa... tu visse Condessa? Juro por Deus que aquela gata tomou chá de sumiço...”

“Vi não, Seu Neto, mas nem adianta se preocupar com ela, deve estar solta no mundo... Gato é bicho que faz o que bem entende!”

Manuel morava num quarto que ficava nos fundos do sobrado, e foi para lá que foi descansar. Nascido em Tabira, seu pai era conhecido de Neto, que cedera o cômodo para o rapaz e o contratara, para que pudesse se manter enquanto terminava o curso de Letras na Universidade Federal. Neto, que por muito tempo trabalhara sozinho no antiquário, encontrara no rapaz um bom amigo e um funcionário exemplar.

Terminou de atender os turistas e foi procurar a gata, sem sucesso.

***

Nos dias que se seguiram, a doença de Manuel só piorou, e ele passava a maior parte do dia na cama: a febre o castigava, e sua pele estava recoberta de placas vermelhas.

Para completar a situação, as outras gatas de Neto também desapareceram. Revirou a loja de cima abaixo, mas não havia sinal das bichanas em lugar algum.

Tomado pela preocupação por seus amigos, Neto não tinha sossego nem ao menos no seu escritório: o armário gigantesco fazia com que se sentisse sufocado, e qualquer paz que pudesse encontrar naquela sala parecia desaparecer diante daquela madeira escura, que o fazia pensar no nada do vácuo espacial.

O armário era a representação física de seus medos. A sua visão amplificava a ansiedade de Neto, que via, no reflexo daquela superfície, suas gatas morrerem atropeladas ou envenenadas nas mãos de algum maníaco e seu amigo cada vez mais debilitado, enfraquecido por uma enfermidade que não o deixava.

O móvel, antes a peça preferida da pequena coleção de Neto, tornara-se um arauto da desgraça.

Neto passou a odiá-lo com todas as suas forças.

***

Depois de uma noite de pesadelos, acordou sentindo-se fraco. Mal reconheceu a sua imagem no espelho: a barba malfeita, o cabelo mariscado de branco, uma palidez que deixava a pele com um aspecto doentio.

O peito estava recoberto de placas vermelhas.

“Porra... Essas muriçocas...”

Com dificuldade, desceu as escadas e abriu a porta de trás, atravessando o quintal até o quarto de Manuel. Bateu à porta e chamou o amigo, sem respostas.

Não havia ninguém lá.

A princípio, ficou aliviado. Imaginou que finalmente a doença tivesse cedido, e que o amigo tivesse saído para comemorar.

Mas a manhã tornou-se tarde, e logo as trevas devoravam o céu. Neto não tinha notícias de Manuel, e o medo tomou os seus pensamentos. E se o rapaz tivesse sofrido uma recaída?

Resolveu ir até à delegacia, onde foi aconselhado pelo delegado a esperar: o amigo provavelmente estava na farra, e não ouvia os toques do celular. Se permanecesse desaparecido, assegurou a Neto que tomaria as providências cabíveis no dia seguinte.

De volta ao antiquário, Neto não conseguia relaxar. Sentia que alguma coisa estava errada, e este pensamento martelava o seu juízo, fazendo seu coração acelerar e o suor frio escorrer pelo seu rosto. Sentia um abismo gélido tomando a sua barriga, e só conseguia pensar que o pior teria acontecido com Manuel.

Levantou-se da cama e foi até o escritório. Iria dar uma olhada nas filmagens das câmeras de segurança do dia anterior.

Na escuridão silenciosa do antiquário, Neto só conseguia escutar a própria respiração.

Sentou-se à bancada, de costas para o armário, observando as imagens que se movimentavam na tela do computador.

E, tomado pelo mais profundo pânico, viu na gravação quando aquilo deixou o seu quarto na madrugada anterior: limpando o sangue que escorria de sua bocarra, aquela coisa disforme, uma massa indistinta de sombras e ossos, de pernas e braços, se deslocou, gigantesca, até o quintal, abrindo a porta do quarto de Manuel.

Desesperado, Neto viu aquela coisa carregando o amigo inerte para dentro do escritório, para dentro daquele armário maldito, afundando presas de ratos e gatos na carne do rapaz, bebendo do seu sangue, deixando placas vermelhas em sua pele, rompendo ligamentos e tendões, roendo tudo até que só restaram ossos e mais ossos.

Atrás de Neto, lentamente, a porta do armário se abriu.

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Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 28/10/16 18:38

Uou! Vou mostrar esse conto para o meu irmão que adora trazer para casa coisas "novas" para vender! hahaha

Que medo esse final! E que medo desse armário, credo!

Muito bom!

Postado 30/10/16 21:02

Assustador! Que final sinistro. Amei! *----*

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