Refúgio
Mauricio da Fonte Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/10/16 09:52
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 18min a 24min
Apreciadores: 2
Comentários: 0
Total de Visualizações: 185
Usuários que Visualizaram: 6
Palavras: 2965
[Texto Divulgado] "O quarto" Quando a filha bem sucedida e mais nova de uma família instável, recebe uma ligação do seu irmão e retorna para a sua antiga casa, não imaginaria a série de eventos que iria acontecer.
Não recomendado para menores de catorze anos
Capítulo Único Refúgio

O sítio era um segredo: o segredo mais bem guardado de sua vida.

E, depois de tudo o que acontecera, talvez o único que tivesse.

Aquelas terras estavam presentes em algumas das memórias mais claras que tinha de sua infância: a avó, Isabel, que a criara como se fosse sua mãe (que falecera no seu parto), sentada na varanda da casinha de paredes brancas, em sua velha cadeira de balanço, lhe contando histórias do tempo em que era menina; o cheiro de terra molhada que inundava seus sentidos, nas madrugadas chuvosas; a luminosidade etérea dos vaga-lumes, tremeluzindo por sobre o gramado nas noites sem lua...

E havia a mata: aos seus olhos de criança, as jaqueiras, mangueiras e todas as outras árvores cujo nome a avó havia lhe ensinado se erguiam maiores do que o mundo. Aquele verde, vivo, vibrante e misterioso rodeava a casinha branca, devorando os horizontes em sua vastidão selvagem.

Em sua imaginação infantil, a treliça iluminada das copas sustentava mundos sobre mundos, e cada tronco abrigava seres estranhos e fabulosos, que dançavam e celebravam ao som das melodias que a brisa fria da tarde compunha em sua valsa com as folhas.

Os seus dias naquelas paragens eram repletos de descoberta: a avó lhe ensinara o nome das aves e das plantas, o nome das pedras e das estrelas. A mata pulsava, e nela a vida estava em toda a parte. Havia muito para se ver e muito para se explorar: Ágata gastava suas tardes se embrenhando na floresta, colhendo frutos e flores, bebendo da água cristalina dos riachos.

E, por mais que, para alguns, o cair da noite fosse o prenúncio de portentos assustadores, não tinha medo de se perder no caminho de volta para a casa.

Sabia se orientar pelas estrelas. E, lembrando das advertências de vó Isabel, sempre deixava oferendas na boca da mata, antes de empreender as suas aventuras: se respeitasse a floresta, não haveria motivo para temê-la. Ela seria o seu refúgio, assim como havia sido para as suas ancestrais.

***

Os primeiros anos de infância foram deixados para trás. Ágata foi mandada para o Recife, para estudar em uma escola particular. Passava, porém, os finais de semana no sítio, quase que como um reino secreto, incrustado nas serras de um vilarejo chamado Córrego do Campo-Santo, o único resquício de civilização naquele mundo repleto de árvores e estradas de barro.

No entanto, apesar da vida na cidade grande, a cabeça de Ágata estava quase sempre na mata: sua imaginação a levava para longe da sala de aula, e ela se via como um passarinho, empoleirado nos ramos dos cajueiros, ou como um peixe, reluzindo por sobre os seixos dos riachos.

Essa mesma natureza sonhadora e, de certa forma, reservada, fez com que tivesse apenas alguns bons amigos, mas nunca foi um empecilho para o seu desempenho escolar: o gosto por aprender coisas novas garantia que sempre tirasse notas excelentes.

Assim, não foi nenhuma surpresa quando foi aprovada no vestibular de Ciências Biológicas. Nos anos que se seguiram, por toda graduação, mestrado e doutorado, os finais de semana eram sempre dedicados à avó e à mata.

Até o dia em que vó Isabel adoeceu.

Ágata, que, naquela época, era professora da Universidade Federal de Pernambuco, tirou férias para cuidar avó, mudando-se para o sítio.

Impiedoso e devastador, o câncer devorou a idosa de forma voraz: em poucos meses, havia definhado de tal maneira que mal podia se manter de pé. Mas, apesar da insistência da neta e da intensidade da doença, Isabel, que testemunhara a chegada de noventa e dois verões, permanecia resistente: como Ágata, nascera naquelas terras, e morreria naquelas terras.

Uma noite, deitada em sua cama, a anciã chamou a neta para o quarto.

“Minha filha, me leve para a mata. É chegada a hora de partir”.

“Tem certeza, vó?”

“Tenho, minha filha. As folhas já estão prateadas pelo poder da lua cheia e o orvalho já cintila sobre a relva. Já ouço o chamado do vento e do riacho, e meu peito está cheio de paz. Não ficaria feliz se partisse de outra forma”.

Ágata pensou em tentar dissuadi-la. Mas o aspecto frágil da idosa e a convicção em suas palavras convenceram a neta a atender ao último desejo da avó.

“Me deixe no pé daquele jequitibá, minha filha. Não, não chore... você foi uma filha maravilhosa. Sei que você me ama e que sentirá saudades, e agradeço por ouvir a minha última vontade. Te dou a minha bênção: que o meu amor por você floresça sempre em sua lembrança, assim como florescem as árvores desta mata. Cuide dela, minha filha, e ela irá sempre cuidar de você”.

Passo a passo, deixaram a casinha branca para trás e se embrenharam na mata, não sem antes que velhinha deixasse no limiar da floresta a última oferenda de sua vida.

***

Ágata conheceu Luís Carlos alguns meses depois da morte da avó, na festa de casamento de uma amiga. Conversaram durante quase todo o evento, e até mesmo dançaram, quando a orquestra começou a tocar. Combinaram de se encontrar novamente no dia seguinte.

Nos encontros que se sucederam, Ágata, que nunca vivera grandes amores em sua juventude, começou a sentir por ele, nos meses que se seguiram, algo completamente novo, e o sentimento parecia ser recíproco. Depois de dois anos, passaram a viver juntos: com o salário combinado dos dois (Luís Carlos era médico), se mudaram para um apartamento confortável em Piedade.

E foi nos meses que se sucederam à mudança que o inferno de Ágata começou.

Luís Carlos, um homem que por dois anos demonstrara ser carinhoso, respeitando a independência e a liberdade da companheira, revelou-se um monstro.

A princípio, fazia pouco de suas roupas e de sua aparência. Ágata, que nunca se preocupara de verdade com essas coisas, nem se deixou abalar.

Mas, depois, começaram os jogos psicológicos: fazia com que ela pensasse estar enlouquecendo, acusando-a de falar e fazer coisas que não havia feito. Com seus ciúmes doentios, afastou-a de todas as suas amizades. Nada do que Ágata fizesse era bom o suficiente, e não sentia nenhuma reciprocidade por seus esforços.

Um domingo à tarde, Ágata havia voltado do sítio: no caos que havia se tornado a sua vida, aquela era a única coisa que fazia com que acreditasse que tudo aquilo era apenas passageiro, e que as coisas voltariam a ser como eram.

Luís Carlos não sabia para onde ela ia, e nem ela pretendia lhe contar: ela sempre dizia que ia para o interior, para dar continuidade às pesquisas que desenvolvia junto à universidade. Não abriria mão daqueles poucos momentos de liberdade de que dispunha.

Estava sentada na varanda do apartamento: como nos tempos da escola, sonhava que era um passarinho, voando por entre as folhas da mata, viajando na imensidão daquelas terras. Sorria, se perdendo na doçura daquelas memórias.

Não ouviu quando o companheiro entrou pela porta de trás.

E só se deu conta do tapa que levara no rosto depois que estava caída na frieza daqueles azulejos.

***

Nos dias que se seguiram, Ágata tornou-se uma prisioneira na própria casa. Luís Carlos trocou as fechaduras das portas e cortou a linha telefônica, e tomou o celular e as chaves do carro da companheira.

As agressões tornaram-se cada vez mais frequentes. Ágata sempre reagia, mas o homem tinha duas vezes o seu tamanho. E agora havia comprado uma arma: ela vira quando ele a trancou (juntamente com as facas e outros objetos cortantes da casa) numa gaveta do armário da sala.

Presa no apartamento, Ágata passava seus dias esperando por sirenes de carros de polícia que nunca chegaram, pensando em formas de fugir daquele lugar. Tentou arrombar o armário com as armas, sem sucesso. Por outro lado, fora bem-sucedida com a gaveta de remédios do banheiro: pegou várias pílulas, o suficiente para que Luís Carlos não notasse (e mais do que o necessário para provocar uma overdose nele, se tivesse a oportunidade).

Tentara jogar bilhetes (escritos com batom, as canetas e os lápis haviam sido trancados na gaveta) de socorro pela janela, mas eles sempre caíam nas telhas de amianto que cobriam o estacionamento do edifício.

Depois de uma semana, tudo em que Ágata pensava era na fuga. Mas estava exausta: as agressões minavam a sua força. Não bastasse isso, também estava se alimentando muito mal: a porta da cozinha também ficava sempre trancada. Luís Carlos somente a abria para que fizesse o café da manhã e o jantar, sob o seu olhar vigilante.

Deitada no sofá branco da sala, se perguntava o porquê de tudo aquilo. No fundo, o que mais lhe doera era o fato de se enxergar como a sombra de quem um dia fora, tendo sido roubada de sua liberdade, afastada por aquele homem do único lugar do mundo em que se sentia ela mesma.

Recentemente, todos os seus sonhos se passavam na mata, e foi com ela que sonhou naquela tarde, ao cair no sono.

Era noite, e estava no pé de jequitibá: largo, imenso, o maior dentre todas as árvores da mata. O lugar em que viera ao mundo, da mesma forma que sua mãe, sua avó e sua bisavó.

No sonho, escutava a voz de vó Isabel, que lhe aconselhava, lembrando-a sempre de deixar uma oferenda na boca da mata, antes de adentrá-la em suas explorações. Se fizesse isso, e se respeitasse a floresta, não teria porque temê-la: seria a sua fortaleza, o seu refúgio.

Ai daqueles que vagassem entre as árvores repletos de más intenções...

Acordou com os olhos marejados de lágrimas.

Sabia o que precisava fazer para acabar com tudo aquilo, e agarraria com unhas e dentes a primeira oportunidade que surgisse.

***

Eram onze horas de uma quinta-feira quando Luís Carlos voltou do hospital. Largou as coisas na mesa da sala, destrancou a porta da cozinha e se deitou no sofá da sala.

“Vai logo. Me prepara um sanduíche, sua inútil”.

Ágata esperou alguns segundos no balcão, para ver se ele viria vigiá-la. Ao ouvir o barulho da televisão sendo ligada, foi tomada pela ansiedade.

“Anda! Tô morrendo de fome”.

Tirou as pílulas para dormir do bolso interno do short. Moeu umas três e misturou com o requeijão que passou no pão de forma.

Levou a comida até Luís Carlos.

Se ele percebesse o que ela havia feito, ela estaria morta.

Mas ele comeu todo o sanduíche sem dar nem uma palavra. Não demorou muito até que Ágata pudesse ouvir os seus roncos.

Precisava ser ágil.

Tirou as chaves da porta e algum dinheiro de dentro da bolsa, que Luís Carlos havia deixado sobre a mesa da sala, e deixou um bilhete em seu lugar. Saiu pela porta da frente, e estava livre.

***

Luís Carlos acordou na sexta-feira de tarde sentindo como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Nauseado e tonto, se sentou no sofá e respirou fundo até se orientar. Se sobressaltou quando viu a porta do apartamento escancarada. Suas suspeitas foram confirmadas ao encontrar o bilhete na bolsa:

“Adeus. Não me siga. Fui para o lugar em que você nunca pôde me atingir”.

“Aquela vadia deve ter me dopado... Porra! Ela pensa que pode fugir? Ela é minha, minha! Eu vou mostrar pra ela!”

O carro dela ainda estava na garagem.

Mas não havia problema.

Sabia exatamente para onde ela havia ido. Com o rastreador que instalara no carro de Ágata, sabia aonde ela ia sempre nos finais de semana, e visitara o local depois de deixá-la presa no apartamento: um sitiozinho fuleiro, escondido nas serras de Bonito.

Certamente ela estaria lá. Não tinha familiares, e ele tinha certeza de que ela não procuraria por nenhuma amiga. Também sabia que Ágata não procuraria a polícia logo depois de fugir dali: havia assegurado a ela, repetidas vezes, em meio às surras que lhe dava, que a mataria antes de ser preso.

Mais tarde, na estrada, Luís Carlos sorria maliciosamente, pensando na arma que trazia consigo, na sua bolsa, no banco do passageiro. Com ela, daria em Ágata a última lição de sua vida.

***

Era noite quando deixava Córrego do Campo-Santo para trás e seguia em direção ao sítio. Por todo dia, havia chovido torrencialmente. A lua cheia brilhava no céu, refletindo o seu espectro pálido nas poças de lama da estrada de barro.

“Merda!”

Uma árvore, que havia tombado com as chuvas, impedia o acesso até o sítio.

Não fazia mal. Uma caminhada seria boa para que ficasse mais acordado. Seria até melhor que deixasse o carro, pois do contrário sua chegada seria percebida.

O casebre branco estava às escuras. Por um momento, pensou que tivesse se enganado, e que ela não tivesse ido até ali. Foi quando escutou a porta de trás batendo, e passos rápidos que seguiam em direção à mata que ficava nos fundos daquela casa.

“Miserável... Ela pensa que pode se esconder de mim?”

Com a arma em punho, correu na mesma direção que as passadas, adentrando em um mundo de trevas.

***

Por horas a fio, Luís Carlos errou pela mata. Ouvia vozes e assobios por todos os lados, e se arrependia amargamente de não haver levado uma lanterna consigo. Exausto e paranoico, via sombras que o espreitavam por detrás das árvores e sentia como se alguma coisa o estivesse perseguindo. Parava de tempos em tempos para gritar ameaças para Ágata.

“Eu sei que você está aqui! Quando eu te encontrar eu vou te matar!

Depois de atravessar correndo um pequeno riacho, finalmente se deparou com um enorme jequitibá.

Sentada no alto de um dos galhos, uma jovem o observava com um olhar travesso: como se estivesse se divertindo com o seu sofrimento.

“Sua maldita! Me diga onde ela está! Me diga, ou eu juro que te mato também!”

A menina riu, uma risada que soava como o canto de milhares de pássaros.

“Pensa que eu não tô falando sério? Eu vou acabar com você é agora!”

Fez pontaria com a pistola, apenas para perceber o ninho de escorpiões e aranhas que trazia agora em suas mãos. Gritou assustado, e tentou livrar-se dos aracnídeos, sem sucesso: a dor do veneno se espalhando por suas veias vez com que se prostrasse de joelhos no chão da floresta.

“Procurando por isso?”

A menina girava a pistola em suas mãos.

Num piscar de olhos, a arma se desfez.

Aterrorizado, Luís Carlos tentou se levantar e fugir, mas não chegou a ir muito longe: trepadeiras e heras se projetaram das árvores como dedos de uma mão gigantesca e primeva, e se enroscaram em seus braços e pernas, imobilizando-o no chão.

Com um salto, a menina deixou o galho do jequitibá e ficou de frente para Luís Carlos. Tinha longos cabelos cacheados, mais escuros que a mais escura noite de lua nova. Trajava um vestido feito de folhas e das mais diversas flores e, em seus olhos, os olhos de mamíferos e aves, de répteis e insetos.

Ao redor de Luís Carlos, que chorava e gritava desesperado, surgiram dezenas de mulheres: das mais diversas idades, com os mais diferentes aspectos, todas elas eram tênues, quase que como raios de luar dançando por entre as folhas do jequitibá.

“Que dizem, minhas irmãs, deste que maculou nossos domínios com um coração tão imundo? Não é um homem, não é um bicho, nem ao menos um verme... É apenas um covarde. Vejo em seu olhar todo o sofrimento que causou, toda dor que provocou, e vos pergunto: qual será a sua punição, por causar tanta dor a nossa filha predileta? Decerto que a morte seria um destino por demais piedoso a esta criatura... “

“Merece o cárcere eterno e o sofrimento sem-fim, Comadre”.

“Considero uma justa punição, Isabel. Concordam com isso, irmãs?”

“Merece o cárcere eterno e o sofrimento sem-fim!”

“Seja feita, então, a vontade da mata”.

***

E foi esse o destino de Luís Carlos.

Para sempre vagaria por entre aquelas árvores, árvores que escondiam mundos dentro de mundos, tão somente uma sombra pútrida e pestilenta, banida para sempre desta realidade.

Sentiria fome, e não comeria. Teria sede, e não beberia. Seria acometido de doenças e atacado por animais, mas a morte nunca iria chegar.

Afinal, era prisioneiro da mata. E ai daqueles que vagassem pela mata repleto de más intenções...

***

Logo depois que deixara o apartamento, Ágata pegara um táxi para João Pessoa: foi para a casa de Lis, uma amiga de infância. Lis, que se surpreendeu quando o porteiro anunciou a chegada da amiga, não precisou de explicações sobre o que havia acontecido: os hematomas e feridas pelo corpo desnutrido de Ágata foram a primeira coisa que notou ao abrir a porta do aparamento, e foram suficientes para que compreendesse o inferno pelo qual a amiga havia passado.

Depois que Ágata tomou um banho e vestiu roupas limpas, lhe contou sobre tudo que vivera nos últimos meses. O que não lhe contou foi sobre o fato de que sabia de uma coisa: sabia que Luís Carlos iria até o sítio, e sabia que a mata a iria proteger. Fora o que a avó lhe contara no dia do seu sonho, e por isso deixara o bilhete.

Juntas, Lis e Ágata voltaram para o Recife, para prestar queixa na delegacia.

Luís Carlos, que foi dado como foragido, nunca mais foi visto. O carro, que havia ficado na estrada, foi incendiado por um raio, nos dias chuvosos que se seguiram, e quaisquer vestígios que pudessem indicar a presença daquele homem no local se perderam com o fogo.

Ágata vendeu o apartamento, e se mudou para o sítio. Voltou para a mata, junto à qual viveria feliz pelos vários anos que se seguiram.

E, numa noite de lua cheia, tão branca quanto os seus cabelos, deixou a casinha para trás, e partiu em direção ao velho jequitibá, não sem antes deixar uma oferenda, na boca da mata.

Encantou-se.

❖❖❖
Apreciadores (2)
Comentários (0) Ninguém comentou este texto ainda. Seja o primeiro a deixar um comentário!

Outras obras de Mauricio da Fonte Filho

Outras obras do gênero Fantasia

Outras obras do gênero Sobrenatural

Outras obras do gênero Suspense

Outras obras do gênero Terror ou Horror