Solitária
Letícia Garcia
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/10/16 10:12
Editado: 31/10/16 10:37
Gênero(s): Terror ou Horror
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 20min a 27min
Apreciadores: 7
Comentários: 2
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Palavras: 3258
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween" No Concurso Oficial de Halloween da Academia de Contos, apoiado pela DarkSide Books, convidamos os participantes a escreverem textos no estilo "creepypasta", ou seja, obras detalhadas de terror escritas com o objetivo de assustar os leitores e deixá-los se perguntando o que é real e o que é ficção na história. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Boa leitura!

Capítulo Único Solitária

Ela mora lá dentro, sabem? Por muito tempo esteve morando lá. Dizem... bem, dizem que quando a hora chega, ela sai para assistir, e você pode vê-la observando, sentada na última cadeira. Dizem que ela sorri. Ela sorri.

ELE NÃO SABIA de nada, é o que sugerem as más línguas. Mas agora todo mundo sabe. Agora é a minha vez e, diferente do que ocorreu com o maldito coitado, não vou permitir que me ocorra o mesmo. É por isso que decidi escrever. Sim, sim. Quem vier depois de mim vai saber. Não vai acontecer comigo. Não vai acontecer com o próximo.

É que, sabem? Ela mora lá dentro.

Cada um dos mais de mil e setecentos presidiários já tinha ouvido a história pelo menos uma vez. Havia muitos nomes, na verdade. Qualquer indivíduo com a intenção de amenizar o impacto da primeira impressão recorria ao termo institucional. Chamar aquele lugar de Centro de Confinamento Restrito soava menos taxativo do que Solitária.

Solitária ainda era melhor que Inferno.

Mas Benjamin Benedict James Wilson nunca teve a oportunidade de escutar sobre a sala. Ele soube, claro, que havia alguma coisa errada enquanto seis policiais o escoltavam ao longo daquele corredor repleto de celas em ambos os lados. Ele soube pela forma como os olhos por detrás das grades encaravam seu percurso. Ele soube, simplesmente por que há muito tempo ninguém lhe dirigia aquele olhar cabisbaixo, meio assustado, meio surpreso. Aquele olhar de pena. Ninguém sente pena de um assassino.

A respiração dos policiais ao seu lado era constante, oscilavam com o barulho tilintante das algemas em suas cinturas. Os passos ecoavam altos no interior do presídio, como se o mundo estivesse lhe dando um aviso. Cada ruído era importante, cada pequeno e insignificante som. Por um tempo, um longo tempo, o que haveria para escutar? Que barulhos humanos alcançariam seus ouvidos do outro lado daquela porta?

Os pés vacilaram um segundo, como nunca antes haviam feito. Um homem calvo, de idade avançada, com seus fios de cabelos remanescentes já brancos, balançava a cabeça em negação no interior de uma das celas. Outros dois detentos fizeram um gesto exasperado em sua direção, os lábios crispados de quem esconde um segredo.

Benedict não teve tempo para questionar. Um dos policiais, o mais baixo deles, cujas narinas pareciam largas demais no rosto rechonchudo, agarrou-o pelo cotovelo, e sua escolta adentrou por uma porta que desbocava para degraus inclinados na direção das profundezas da penitenciária. Para o fundo da terra. Muitos e muitos palmos abaixo da superfície.

Enquanto desciam, o ar foi se transmutando como uma criatura viva, quase palpável. Os homens ao seu lado não conversavam entre si, mas isso não impediu que Benjamin percebesse seus ombros ficarem rijos sob o uniforme azul marinho.

— Chegamos — anunciou o policial de nariz estranho.

Estavam diante de uma sala retangular, constituída por paredes tingidas de uma doentia coloração de ferrugem. Havia quatro portas exatamente iguais, estando duas na lateral direita, uma à frente e outra do lado esquerdo. Enormes portas de ferro adornadas com correntes pesadas e cadeados brilhantes. Exatamente como imaginou que seria uma porta de Solitária.

Talvez tenha me preocupado por nada, pensou, malditos presos idiotas.

Os guardas se entreolharam. Aquele olhar significativo de quem conversa sem verbalizar. De quem faz uma pergunta silenciosa. Depois de alguns segundos, acenaram e sorriram.

— Em frente, ali. Você vai ficar nessa — foi outro policial quem falou dessa vez. Benjamin não quis olhar para ele, pois sua atenção estava direcionada para a porta à sua frente. — Ela é especial, sabe? — prosseguiu o homem, enquanto outros destrancavam os cadeados. — Especial para casos perdidos como você. Especial para quem vem do corredor da morte...

O policial continuou falando qualquer coisa, mas as palavras se perderam no caminho, como se levadas pelo vento. A porta estava aberta. Totalmente aberta. Encarando-o. Chamando-o. Benjamin. Benjamin. Benjamin.

Naquele momento, pela primeira vez, ele percebeu o que era estar condenado. Não foi a acusação materializada na fala de suas vítimas, nem o martelo do juiz para findar a sentença. Foi o escuro diante de si. Infinito, faminto. Era a Solitária, sim, mas não a solidão. Aquilo era diferente.

Aconteceu rápido como um golpe. Em um segundo, defrontava o breu. No outro, estava dentro dele. Em seu estômago. A porta se fechando emitiu um ruído semelhante ao lamento de uma viúva. Depois o silêncio. E o silêncio foi tudo o que teve.

Uma coisa que Benjamin Benedict James Wilson não imaginou com antecedência é que o tempo se tornaria exatamente isso: tempo. Quando se está no jogo, na vida real, então o tempo pode ser determinado. Você sabe o que fazer assim que os raios solares surgem na vastidão do horizonte. Algumas tarefas duram o tempo de um lanche da tarde. Você passa a cronometrar seu encontro com pessoas importantes com a mesma precisão que calcula a velocidade necessária para atravessar uma rua qualquer antes que o carro alcance você.

Na Solitária, o tempo não se limitava à matemática. Não era mais os ponteiros de um relógio gritando no seu ouvido. Era o tempo em seu estado bruto, a consciência da respiração, os batimentos cardíacos. Dia, noite, nada disso tinha importância. Podia ser qualquer data, em qualquer momento perdido na infinidade daquele mês interminável, que aquilo aconteceu. Benjamin não tinha como saber. Ele nunca teve a chance de ouvir a história.

Estava em um estado mental situado no limiar entre a lucidez e a dormência. Saía de um sonho cansativo, no qual corria sem rumo por uma estrada irregular de pedras brancas e lisas. Tudo o que mais desejava era continuar dormindo. Dormir, dormir para sempre. Ou ao menos até que o grande dia chegasse. O “grande dia”. Não aconteceu o que esperava, pois ouviu uma voz. Uma voz baixa, leve. Quase um sussurro.

— Benjamin? Benjamin Benedict?

Imediatamente, suas pálpebras se moveram. A primeira impressão sempre que acordava era de que continuava com os olhos fechados. A única coisa que indicava a veracidade de seu despertar era um fio de claridade que penetrava através de um buraco na porta de metal, provavelmente de um parafuso que se perdera. Era uma passagem tão estreita que, por mais que tentasse, não conseguia enxergar o outro lado.

Deixou que a saliva arranhasse a garganta. Tinha sede. Muita. Uma sede constante que comprimia a garganta. Mas ele não se moveu. Não havia essa necessidade. No começo até tentou manter um ritmo de exercícios, como flexões e agachamentos, mas não demorou a perceber que não podia gastar aquela energia. Eram apenas duas refeições por dia e dois copos de água. E agora estava delirando. Eu ouvi uma voz, pensou, ele encarava o fecho de luz advindo do defeito na porta, mas que ótimo!

De repente, a linha iluminada desapareceu por completo. Isso só acontecia quando alguém parava diante da porta para entregar a comida ou verificar se estava vivo — sendo que nesse segundo caso esmurravam a porta e ele respondia com um singelo “sim”. Obrigado a se sentar, Benjamin Benedict esperou.

— Tem... tem alguém ai?! — gritou, a própria voz lhe parecia estranha aos ouvidos.

Não obteve resposta. Ao invés disso, a luz retornou. Alguém esteve do outro lado, e agora havia ido embora. Benjamin tentou se convencer de que provavelmente era um guarda mal humorado que foi embora assim que escutou sua voz; a confirmação de que continuava vivo e bem. Ou o quão bem se pode estar sendo um condenado à morte preso na Solitária.

Havia aquele cheiro, no entanto. De que lugar estaria saindo um odor tão repugnante? Podre. Nojento. Benjamin sentia a bile subir pela garganta e forçou-a de volta para o estômago. Mas o cheiro. Cheiro de carne queimada. Carne podre queimando, com bolhas e sangue. Sangue, sim, ele reconhecia o fedor ferroso do sangue. O calor, então. Nossa, o calor! Era como se... como se a origem do calor estivesse nele. Dentro do seu corpo. Definitivamente estava queimando. Benjamin passou a mão sobre a pele dos braços, a respiração sonora e irregular. Suava. Tremia. As palmas das mãos tateavam protuberâncias que não existiam antes.

Era assim que começava. Mas Benjamin não tinha como saber. Não tinha. Não.

— Socorro! — gritou, os punhos indo de encontro ao ferro. — Fogo! Socorro, alguém me ajuda!

Ele prosseguiu com os gritos e socos. Correu pelo cubículo, cambaleante e rouco. A temperatura alta o impedia de raciocinar, o que só piorava a situação. Em determinado momento, desistiu de usar as mãos, e o próprio corpo se tornou o instrumento de debate. Ele se jogava contra as paredes e o metal da porta, enquanto clamava por socorro. Ninguém apareceu para ajudar.

— Benjamin? — cantarolou a mesma voz outra vez, fazendo cessar o descontrole do encarcerado.

Os joelhos do preso cederam sobre o peso e foram de encontro ao chão. Não havia fogo em lugar algum, assim como não havia voz. Afinal, a voz estava dentro da cela. Ali, bem atrás dele. Na solitária.

— Você está chorando? — insistiu. — O que há com você, Benbene?

Ben...

Benbene.

— Droga — resmungou Benjamin, choroso, abraçando as próprias pernas. — Eu estou louco. Louco.

— Ben...

— Não! — gritou. — Não me chame disso!

Ele rastejou até o canto da solitária e deitou em posição fetal, com os olhos fechados e a cabeça escondida entre os cotovelos. Fazia muitos anos que não recordava daquele apelido. Pensou que já o tinha perdido no abismo do esquecimento. Parecia que não. A própria mente resgatara um pedaço amargo do passado. A insanidade chegara mais cedo que o esperado. Era a insanidade, não?

— Não sou sua insanidade, Benjamin.

Sobressaltado, começou a chorar. Chorar. Que belo exemplo de homem. O pai ficaria orgulhoso. Chorando, encolhido no escuro. Fraco. Fraco! Lamentou mais alto. Lamentou o fato de ter sido pego. Lamentou a própria sentença. Merda, ele ia morrer e ainda teve a chance de escolher o método. Injeção ou câmara de gás.

Injeção ou câmara de gás? Que tipo de pergunta era aquela? O nervosismo fez com que sorrisse. O sorriso se tornou gargalhada, sonora e agitada, do tipo que faz o peito subir e descer. Aquela foi a primeira vez que Benjamin sorriu na Solitária. Sorriu e chorou. Depois, dormiu. E seu sono foi tenro, silencioso e ameno.

Trinta e três fissuras se alinhavam no chão da cela, próximas à parede esquerda. Eram frestas superficiais, mas palpáveis ao tato. Cada uma daquelas linhas causou ferimentos significativos aos dedos de Benjamin, e a perda total de uma unha. Contar ajudava a perceber o passar do tempo. Ele não tinha certeza da quantidade de horas que cada buraco daqueles representada; apenas que desde o incidente com a voz, passou a arranhar o local como um animal selvagem cada vez que abria os olhos, submergindo de um ressonar turbulento.

Benjamin estava agachado ali, unhando o que seria a trigésima quarta marca, quando voltou a acontecer. Primeiro ele sentiu o cheiro. Mas não um odor ruim de necrose. Era uma fragrância doce, primaveral. Lavanda e rosas, talvez. Depois, de uma forma doentia, a consciência de que uma nova presença se instalara no aposento se materializou. Atrás dele. Estava bem atrás. E respirava.

Ele se lembrava de ter lido em um desses panfletos que os psiquiatras entregam aos montes durante as consultas, que o olfato é um dos principais ativadores da memória. Grande parte dos momentos mais importantes da vida de uma pessoa está associado com um cheiro específico.

Lavanda não era nada bom. Benjamin odiava lavanda.

— Tem sido difícil, Benjamin — falou a presença. — Observar você. Segundo a segundo. É solitário não ter com quem conversar.

— É por isso que chamam de Solitária. É para ser solitário — disse derrotado, empenhando-se mais na tarefa de penetrar o chão.

— Não precisa ser. Eu estou aqui. Sempre.

De olhos fechados com força, Benjamin esperou. Já era o seu fim. Tinha que estar próximo. Ele esperava que fosse logo. De qualquer maneira, já fora julgado por muitos olhares diferentes. Que mal faria se o julgassem também por sucumbir à loucura? Se entregar, isso soava muito bem. Já falava sozinho, o porvir não lhe assustava mais. Louco, completamente insano. Melhor do que mal. Ser mal não agradava Benjamin.

— Idiota. Você é. Mal, eu digo — insistiu a voz, soando fina e melódica. — Quem faz o que você faz, é mal.

— E o que eu faço?! — gritou em meio ao movimento de girar o corpo para enfrentar aquilo.

Vazio. Nada. Solitário. E mais lágrimas. E de novo a presença. Ali, bem atrás dele. No ombro. Inspirando. Expirando. Uma respiração quente e estrangulada, como um animal sedento por sangue, ou a gargalhada de uma pessoa no leito de morte, com a garganta exposta.

E o escuro.

Todas as vezes Benjamin passou a acordar com a pronuncia do próprio nome solto no ar. Diversas ocasiões chegava em forma de grito, do tipo estridente e desesperado, que o fazia pular alarmado. Outras, um sussurro. Mas sempre, sempre, acompanhado de um cheiro. Fogo. Sangue. Carne. Carne podre. Larvas. Necrose. Sangue. E lavanda.

A certa altura, Benjamin desistiu de dormir. O medo de acordar se tornou tão grande que evitava as refeições para flagelar o próprio corpo. Definitivamente uma medida que não ajudou em nada.

— Você é mal, Benjamin Benedict — disse a voz em outra ocasião. O odor de decomposição precipitado no ar.

— Sim. Eu sou.

Além de sentir aquilo — o que quer que fosse — na solitária, pôde perceber seus movimentos. Ela caminhava. Passos curtos. Toc. Toc. Como um tiquetaquear. Cada vez que o corpo passava de um lado para o outro, a fresta de luz sumia, só para reaparecer segundos depois.

— Eu estarei lá quando chegar o grande dia.

— O que isso significa? — questionou.

— O dia da sua morte. Eu estarei lá para ver.

— Então é isso que você é? A morte? Não uma alucinação. Não minha mente lunática. Apenas a morte?

— Eu não sou a morte — declarou a vozinha fina, soava surpresa. — Você é a morte, Benjamin?

— Então por que você vai estar lá? — perguntou, ignorando o questionamento retórico.

Sentia náuseas, principalmente por conta da boca seca. Cada vez que falava, os lábios se partiam e espalhavam um sabor ferroso sobre a língua. O silêncio foi tão longo que, quando a voz soou, o corpo de Banjamin sofreu um pequeno espasmo de susto.

— Por que também sou má. Gosto de ver as pessoas morrerem. A forma como, no último segundo, sentem medo. Um medo tão vivaz e perigoso que só podemos presenciar com muita sorte.

— Eu gosto de ver também, mas acho que não vou gostar dessa vez — confessou Benjamin.

— Sim, você não vai gostar.

O rumo da conversa não agradou o detento. A tonalidade da voz havia se alterado. Foi breve, mas suficiente para captar a nuance entre o timbre feminino e calmo para algo estridente e duplo. Mais de uma voz falou aquela frase.

Fazendo esforço para enxergar, forçando as pupilas ao máximo, Benjamin notou a proximidade daquilo. Perto, muito perto. Caminhando em direção a ele. Um contorno pequeno como o de uma criança.

— O... o que você é então? — gaguejou.

— Já me chamaram de muitos nomes, Benjamin. Um nome é só um nome. Você se lembra de todos os nomes daquelas pessoas?

Ele não se lembrava, é claro. Mas poderia reconhecer cada uma delas em qualquer lugar. Podia sentir a ansiedade crescente dentro do peito, do mesmo modo que acontecia quando decidia a nova vítima. Nunca teve intenção. Não era predestinado. Vinha quando ele menos esperava. Em um passeio no parque. Uma passada no mercado. Depois que começava não conseguia mais parar.

Os registros apontavam dezoito vítimas, mas eram mais. Cada uma de uma maneira diferente. A primeira vítima de Benjamin, um homem de quem, por acaso, Benjamin herdara os mesmo cabelos e olhos escuros, morreu no campo de lavanda que pertencia à família na época. Pouco tempo depois Benjamin vendeu a plantação.

Houve outras. Muitas. Queimadas ao pó. Dilaceradas. Benjamin podia ser muito criativo.

— Ei, Benjamin — chamou a presença perto dele. Diferente de antes, ela parecia séria. Tensa. Como se escutasse os pensamentos dele. — Eu quero ser criativa também. Por que não me mostra como fazia?

E foi assim. Dizem, é o que dizem. No grande dia, quando abriram a cela, Benjamin mal estava vivo. As pontas de seus dedos ficaram tão corroídas que a protuberância branca dos ossos se encontrava exposta. Magro, tão magro que as cavidades oculares pareciam vazios negrumes em um crânio há muito sem vida. Espere. Um deles estava vazio de fato. Com um olho faltando. Especulam que tenha arrancado com as próprias mãos.

E comido. Sim, o maldito não estava em lugar nenhum. Deve ter engolido de uma vez. Mas foi ela quem mandou, disso eu tenho certeza. Uma das vítimas de Benjamin morreu exatamente dessa forma. Sem os olhos.

Qualquer que tenha sido o modo como fez isso, Benjamin mostrou a ela — a voz, a coisa na cela — como fazia quando estava livre.

Cento e quarenta e oito traços foram encontrados no chão e permanecem lá até hoje, junto com outras marcas que derivam de antes, muito antes de Benjamin. Marcas dos outros que passaram por lá e também não conseguiram aguentar.

Benjamin Benedict James Wilson gritou para que lhe tirassem o outro olho. E também balbuciou esses terrores que lhe ocorreram lá dentro por todo o caminho até a sala de execução.

Lá, não parava de apontar para o público que testemunhava do outro lado do vidro de proteção, sentados em cadeiras de couro preto. Porém, entre a meia dúzia de cadeiras ocupadas, a única com a qual Benjamin se preocupou no leito da morte foi a cadeira vazia. Na última fileira.

A cadeira vazia, na última fileira. É de lá que ela sorri.

Benjamin gritou como nunca, falando qualquer coisa sobre olhos vermelhos que não pôde enxergar no escuro. Benjamin descobriu a aparência da coisa. Seja lá como ela lhe pareceu, a questão é que ele morreu exatamente assim. Com o dedo apontado para o mesmo lugar e o único olho arregalado na direção de onde, para todos os outros, não havia nada. Para ele, era ali que ela estava.

Depois, ela voltou.

A gente sabe pois, bem, ela sempre volta.

Lá, para a Solitária.

Mas eu sei. Quer dizer, as pessoas dizem e dizem. Tem muita coisa que Benjamin não sabia. Uma vez um senhor já bem velho, que há muito estava preso e que ouvira muitas histórias ao longo da vida, contou que a coisa teve nome um dia. Que ela morreu lá dentro durante a inquisição. Mas havia outra teoria de que aquele porão, no passado, não fazia parte de uma prisão. Era um local de sacrifícios, e que ela teria morrido como oferenda em um ritual durante a colheita das abóboras. Eu ri um bocado na época. As pessoas sabem como contar histórias, pois ambos os casos me fizeram lembrar da origem do Halloween. Aquela foi a ultima vez que eu fui capaz de sorrir.

Talvez fosse o caso, e o velho estivesse certo. Nada disso me será útil. Benjamin não sabia e eu me convenço todos os dias de que isso o fez sofrer mais do que o necessário. Ela pôde brincar com ele.

Eu, não. Eu sei. E vou deixar essa história registrada antes que me levem para lá. Assim, espero, que o próximo depois de mim saiba também. E já adianto: quando a hora chegar eu espero não lhe dar a satisfação de assistir ao meu medo da morte. Quando a hora chegar, eu espero sorrir, pois é isso que ela faz. Me contaram que ela sorri.

Ela sorri.

Então eu sorrirei de volta.

❖❖❖
Notas de Rodapé

É isso. Espero que tenham gostado. Desejo uma boa sorte a todos no concurso.

Obrigada por ler e até mais!

Apreciadores (7)
Comentários (2)
Postado 01/07/17 16:15

Posso dizer que adorei, mas seria mentira... Eu amei, cada detalhe. A narrativa deve ter sido o que mais gostei ou não, todavia a construção (para mim) foi adorável.

Obrigado por produzir esta bela obra...

~Shizu interessando-se em assombrações~

<3

Postado 02/07/17 17:33

Posso dizer que adorei seu comentário. Isso é certo. Fico imensamente feliz que tenha gostado. É verdade que foi um conto que adorei escrever e que me trouxe muita alegria na época do concurso. Ainda hoje, volto para reler alguns trechos e, por esse motivo, foi ainda mais satisfatório me deparar com suas palavras já tendo passado tanto tempo desde a postagem. Agradeço os elogios e por ler e comentar. Me fez muito feliz.

Abraços e até mais!

~ Que se depare com outras assombrações literárias ou não, caso queria, quem sabe?

Postado 26/10/18 17:06

Deixe-me parabenizá-la, esse foi um conto muito gostoso de ler, bem fluído e bem escrito. Que ser terrível esse, que pune os pecados dos que ficam presos com ela!

Muito bom!