Cinza
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 19/11/16 12:24
Editado: 19/11/16 12:44
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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Palavras: 858
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Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Olá para todos! A minha principal inspiração para narrar esse conto, foi essa música: https://www.youtube.com/watch?v=8lm8nDLo8sU

É um instrumental bem delicado e triste, de fato. Achei que combinou bastante com a minha obra. Em homenagem a ela, dei-lhe o nome de Cinza e tentei retratar um pouco como que determinadas situações nos afeta e, também, como certas pessoas (ou certa pessoa) podem ou não nos ajudar.

Boa leitura para todos.

Capítulo Único Cinza

A chuva caía livremente do lado de fora enquanto cansados e tristes globos oculares de tons distintos a observava. Eles captavam um mundo onde nada parecia ter cor e apenas tons de cinza eram percebidos; cada detalhe que os orbes de cores diferentes absorviam, uma pontada de dor atingia o rapaz que estava sentado na cadeira do psicólogo. Para ele, tal agonia não era fácil de ser explicada, tampouco entendida.

Acabara de perder duas pessoas importantes para sua vida: dois meses antes sua mãe falecera, vítima de uma terrível doença – por conta disso, acabara indo morar com sua tia. E, agora, três dias atrás, terminara um relacionamento de dois anos. Um relacionamento que tinha tudo para dar certo e que, naquele momento de luta e dor, era o que o mantinha em pé, firme e forte.

— Responda-me, Will. Você está tomando seus remédios como foram receitados? — A voz do psicólogo ressoou pela sala.

— Sim, senhor. — O rapaz respondeu, automaticamente.

Mentira. Ele não estava e se recusava a ser dependente de antidepressivos. E, além do mais, ele não precisava. Cristina estava sempre ao seu lado, apoiando-o, amando-o e tirando-o do fundo do poço mais vezes do que ele gostaria. Ou, pelo menos, ela costumava fazer tudo isso...

— Doutor, quais são as chances de um cara como eu sair dessa? — Perguntou, repentinamente, passando a olhar para o médico. Os olhos, um azul e o outro mel, passavam uma mensagem de desespero.

Desespero esse que apenas certa pessoa conseguiria extinguir de seu ser.

— Ora, meu rapaz! As chances são imensas, basta você tratar de se cuidar! — Respondeu o homem de meia idade, tentando passar confiança para seu paciente.

Will apenas balançou a cabeça, numa afirmativa desanimada. Fechou os olhos e respirou profundamente. Pensava em muitas coisas, desde as mais mórbidas até ao sorriso de sua amada ruiva. Ah, o sorriso dela... Apenas ele era o suficiente para que seu dia se tornasse o melhor de todos, mesmo com todos os problemas que enfrentava.

— Escute, Will. Você é capaz de sair dessa, se você desejar sair. — E o médico começou a falar um monte de abobrinha motivacional que, naquele momento, Will sequer estava ouvindo.

Então, num impulso, o rapaz levantou da poltrona e saiu da sala do psicólogo, deixando-o falar sozinho. Atravessou o consultório todo, ignorando todos os funcionários que o chamavam e saiu para a chuva. Em segundos, ele estava completamente encharcado. O cabelo liso e amendoado caia por cima de seus olhos, pingando incansavelmente.

Seus pés começaram a conduzi-lo pelas ruas enquanto carros passavam correndo de seu lado. Alguns, faziam poças de água e lama esquiçarem no rapaz, porém, Will apenas ignorava. Ele tinha que tentar mais uma vez, antes de simplesmente desistir.

— Eu preciso de um arco-íris e de um sol para esse mundo cinza... — Sussurrou para si mesmo durante a corrida.

Um trovão balançou os tímpanos do garoto no mesmo instante em que um relâmpago iluminou o céu tempestuoso. Ele lembrou-se de como Cristina tremia em dias assim; ela odiava chuva. Tal lembrança o fez sorrir e sentir saudade de tê-la em seus braços enquanto a ouvia dizer que sentia-se protegida neles.

— Cristina! — Gritou quando parou em frente a uma casa alaranjada. — Cristina, por favor, apareça!

E esperou, ofegante e com o coração quase explodindo para fora de seu peito. Estava inquieto, andando de um lado para o outro, tentando afastar a água de seu rosto, porém, sem muito sucesso. Colocou-se de costas para a casa, com as mãos cobrindo os orbes heterocrômicos.

— Will...?

A voz doce e suave de Cristina fez o garoto se arrepiar por completo e ficar sem reação. Ficou parado, do mesmo modo que estava, embaixo da tempestade.

— Will, o que está fazendo aqui? Está louco? Pode pegar uma pneumonia aí fora! Entre e espere um pouco aqui no corredor, eu vou pegar uma toalha para você se secar. — A garota continuou a falar, passando a ter certo tom de preocupação.

Percebendo que ele não se movia, Cristina avançou até ele e, no exato momento em que tocou-lhe o braço, Will virou-se e a agarrou, beijando-a como se fosse a primeira vez. E, de fato era. O primeiro beijo dos dois embaixo de chuva.

Ao se separarem, a garota sorriu. Sorriu do modo mais terno e caloroso, enquanto levava a mão para o rosto dele. Em seguida, segurou a destra dele, puxando-o para dentro de casa.

— Louco. — Ela sussurrou. — Venha, temos que nos secar. E vou preparar chocolate quente também, para tomarmos enquanto assistimos algo.

— Mas nós precisamos conversar direito...

— Shhh... Não diga nada. Aquilo tudo passou e eu estou aqui agora. Eu iria passar na sua casa depois, mas... Você foi mais rápido. — Cristina riu baixo. — Desculpa por... Ter perdido a cabeça e brigado com você... Eu...

Ela foi interrompida por outro beijo, dessa vez mais breve e suave.

— Não vamos ficar falando do passado, só... Prometa-me que nunca mais iremos nos separar... — Sussurrou Will.

— Eu prometo.

E então, aquele mundo cinza de Will, aquela dor que ele sentia no peito, começara a passar. Não por completo, mas as cores do arco-íris estavam aparecendo e o calor do sol já poderia ser sentido.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Críticas construtivas, elogios e sugestões são muito bem vindos <3

Apreciadores (3)
Comentários (2)
Postado 19/11/16 12:55

Ah, que coisa mais legal de se ler. :)

É fato que há horas em que a mensagem não importada nada se comparada ao emissor, só posso acreditar que seja o caso do Will (ou de todos nós).

Normalmente já sabemos tudo que as pessoas podem nos dizer para tentar nos fazer melhor, mas esta nunca é a questão, um "vai ficar tudo bem" de um alguém especial vale mais do que vários sermões, um mundo cinza não é falta de cor, é mistura monótona entre todas as luzes (branco) e a ausência delas (preto), é um meio a meio, às vezes mais, outras menos é o famoso "tanto faz". Enquanto o arco-íris é trazer todas luzes a amostra, é poder sentir-se triste por vezes, por outras mais alegre, há momentos de pura euforia, outros nem tanto, mas o fato de poder ter-los, é melhor do que a mistura solene do preto e branco.

Tenho que dizer, adorei o texto, Annie (posso te chamar de Annie?), li enquanto escutava a música, a mais melancólica que escutei hoje, provavelmente, e não poderia ser mais bela (minto, lendo o texto ela se tornou mais bela, significado tem dessa, né?).

Parabéns pela obra, bem-vinda à Academia de Contos e espero que possas ler e trazer tantos outros textos conosco! xD

Postado 22/11/16 10:55

Muito obrigada, Red! Estou imensamente agradecida por você ter lido todo o conto e feito um comentário que encheu-me de alegria. Você realmente entendeu a mensagem que eu quis passar e não há nada mais gratificante para um autor do que isso. Obrigada!

Pode chamar-me como quiser, moço. E, quanto a música, eu a escolhi a dedo enquanto ouvia uma playlist toda de instrumentais. xD

Mais uma vez, muito obrigada! E logo estarei publicando diversos outros textos e, quem sabe, até mesmo um "livro".

Postado 21/11/16 10:58

Que lindo conto! Fui arrebatada pela sua narração. Tens muita habilidade! Foi como se tudo que eu lesse passasse como um filme em minha mente. Li o conto ao som da música e foi legal que no momento que ele chegou até ela a música ficou um pouco menos dramática. Curti demais isso.

Parabéns e bem-vinda à Academia de Contos! Espero que faça seu lar aqui <3

Postado 22/11/16 10:56

Muito obrigada, moça! Não acho que eu tenha tanta habilidade assim, mas me esforço. Sonho em ser uma grande autora e espero alcançar isso, mesmo com minhas diversas dificuldades.

Que bom que realmente gostou do meu conto, assim como a música que escolhi para retratá-lo.

Muito obrigada mesmo!