Banhos e abraços quentinhos
Nayara Cristine
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 08/02/17 03:33
Tags: Angst yuri
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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Palavras: 933
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Banhos e abraços quentinhos

Você se lembra Alexandra? Se lembra de quando éramos crianças e nos conhecemos naquele parque? Estava chovendo muito e nós tentamos nos esconder embaixo do escorregador, mas ainda assim algumas gotas daquela chuva gelada caíram em nossos corpos. Foi então que você teve a brilhante ideia de sair correndo para a sua casa, me puxando pela mão, segundo suas palavras a sua casa era ali pertinho.

Você se lembra? Se lembra de que quando entramos na sua casa ensopadas pela chuva, a sua mãe nos colocou juntas no banho, e disse que iria ligar para os meus pais? Eu mal sabia o número do telefone de minha casa direito, mas estava com frio e fiquei feliz de poder sentir a água quentinha caindo e levando embora as confusões de não saber quem você era direito. Nós havíamos nos conhecido naquele dia, e eu já estava tomando banho com você.

Você se lembra? De como aquela rotina se tornou constante? De como nós passamos a andar sempre juntas e de como nós passamos a tomar banho em dupla? Você lavava o meu cabelo, eu lavava o seu e no meio de espumas, as risadas saíam, era naquele momento que nós duas conseguimos dizer como havia sido o dia, era o momento da sinceridade, o momento em que você me dizia que havia enganado alguém em uma brincadeira, ou que havia colocado uma tachinha na cadeira da sua professora mal-humorada. Era o nosso momento de sinceridade, um que era só nosso.

Você se lembra? Se lembra de como depois do banho você não conseguia desembaraçar o seu cabelo e eu me oferecia para fazê-lo sempre? Então nós nos sentávamos no carpete fofinho do seu quarto ou na minha cama, e eu escovava seus cabelos, penteando cada nó com extremo carinho, enquanto você falava que amava ter seus cabelos escovados por mim. Era o momento em que eu me sentia útil a você de alguma forma, já que você sempre me protegia de todos os garotos malvados ou da chuva.

Você se lembra meu anjo? Se lembra que depois de escovar o seu cabelo com delicadeza você tentava escovar o meu, mas Alê, querida, você era péssima nisso, sinto muito em te informar. Você praticamente arrancava os fios no lugar de desfazer os nós e aquilo doía, mas eu não te falava nada, eu sempre fui idiota por você e sinceramente eu gostava dos abraços quentinhos que você me dava como pedidos de desculpas por não conseguir ser delicada com meus fios. Talvez eu exagerasse nas reações apenas para ter mais abraços quentinhos e talvez você se lembre muito bem disso.

Você se lembra meu bem? Se lembra de como no meio do banho enquanto massageamos as cabeças uma da outra para que os shampoos, condicionadores e cremes fizessem efeito nós conseguimos ser sinceras com nossos sentimentos? Se lembra de quando você me beijou no meu aniversário de quinze anos e quando foi escovar meus cabelos disse que gostava de mim?

Você se lembra meu amor? Se lembra que nós não podíamos nos amar por que era errado e que nossas demonstrações de carinho se limitavam apenas ao banho com cheiro de sabonete de morango e a um escovar de cabelos com cheiro de creme para pentear meio azedinho?

Você se lembra minha flor? Se lembra de quando sua mãe nos pegou em meio a um selinho inocente e fez questão de nos separar? De dizer que éramos aberrações, que estávamos erradas, que não podíamos fazer aquilo e que bem embaixo do teto dela estávamos traindo a Deus? Você deve se lembrar do nosso último abraço quentinho que foi banhado a lágrimas e que depois disso você se mudou.

Você se lembra que eu sei. Se lembra tanto quanto eu lembro e foi por isso me me chamou para ser a cabeleireira do seu casamento, e Alexandra, o seu sorriso ao me ver entrar naquele maldito hotel que você e todos os convidados estavam hospedados me dizem que você se lembra e se lembra muito bem.

Então você deve se lembrar que pediu que todos saíssem e a sua mãe passou por mim virando a cara. Você se lembra de ser sacana o suficiente para me pedir que tomássemos banho juntas e se lembra de que eu tola o suficiente aceitei.

Alê, eu não sei o que te dizer por que você precisa se lembrar, se lembrar que disse que ainda me amava quando eu ensaboava seu cabelo, se lembrar que você chorou nos meus braços naquela banheira, se lembrar que eu te abracei com todo o calor que ainda guardava dentro do meu peito congelado.

Você precisa se lembrar que pediu para que eu caprichasse no seu cabelo, e que eu o fiz. Precisa se lembrar que quando eu te arrumava para o seu casamento você chorava e que quando a maquiagem terminou e o véu foi colocado na frente do seu rosto você simplesmente sorriu e me pediu para não faltar a festa.

Eu fui tola o suficiente para deixar o véu ali, Alexandra. E você foi ainda mais tola por não querer escapar dele.

Você se lembra que disse que me amava? Eu acho que esse véu apagou a sua memória pois você está nesse exato momento prometendo amor eterno a outra pessoa.

Você não deve se lembrar, mas quando ainda éramos jovens havíamos prometido que sempre seríamos nós duas contra o mundo, mas agora sou apenas eu, pois você se deixou levar por esse mesmo universo.

É talvez seja melhor você não se lembrar e talvez seja melhor eu me esquecer também.

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Postado 08/02/17 07:15

São esses os tipos de pessoas e de memórias que nos socam no estômago e depois nos dão um beijinho pra sarar, por quê é sempre tão difícil né? HAHAHAHA, que texto ótimo, minina, até imaginei um curta, parabéns, tu escreve bem demaaaais!

Postado 08/09/17 01:29

E não é que é verdade?

São essas memórias que nos fazem perder o rumo de nós mesmas e nos embrenhar na saudade daquelas que se foram para o braço alheio aaaaaaaaaaaa

Obrigada por ter gostado <3

Não escrevo beeem não, mas vamos tocando o barco <3

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