O inferno não recusa ninguém!
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 21/05/17 21:26
Editado: 21/05/17 21:50
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 10min a 14min
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Palavras: 1714
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Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Agradeço às pessoas do "Grupo com o propósito de reclamar sobre a vida", obrigada por compartilharem o inferno de vocês comigo e me inspirar a escrever este conto que finda esse torneio tão intenso, sério, sem vocês, eu seria só mais um diabinho disfarçado de anjo sorrindo. Obrigada, obrigada e obrigada, este, é para vocês.

Capítulo Único O inferno não recusa ninguém!

Ela abriu os olhos com certa dificuldade. Seu pescoço formigava e sua nuca parecia estar achatada, toda a anatomia de sua cabeça doía enquanto ela tremia de frio. A mocinha se levantou e assentou-se, ao olhar para ambos os lados, se deu por conta de que estava em um corredor longo e acinzentado que ecoava tanto que apenas um simples batimento cardíaco podia virar um barulharão lascado.

"Aonde diabos eu estou?" - ela pensou por um milésimo.

Foi quando seus olhos desceram para seus pulsos - pingando - suas calças brancas estavam encharcadas de sangue, com certo temor e agonia, ela enfiou seu dedo mínimo dentro de um dos cortes e o primeiro gomo do dedinho afundou inteiro.

"É, foi fundo desta vez..." - Suzane Troyen refletiu enquanto fitava seu mais novo fracasso - "Mas... Se foi tão fundo e eu não paro de sangrar... Por que continuo me sentindo forte? Era para eu ter morrido..." - uma ligeira onda de fúria a tomou por completo - infernos! ERA A DÉCIMA QUARTA TENTATIVA FALHA!

Ela mal podia acreditar... Como podia ser tão inútil! Não podia aceitar que não havia morrido... E amanhã... Droga... Amanhã o aluguel vence... Oh Deus... Por que a odeia tanto?

Passado o choque inicial de ainda estar viva, ela se pôs de pé e começou a desbravar os corredores; não se lembrava de ter estado ali nunca em toda a vida, por mais que tentasse abrir as portas, elas estavam muito bem trancadas e como eram pesadas, de ferro grosso e sem ferrugem, era praticamente impossível arrombar.

"Socorro!" - ela gritou - "Eu fui internada de novo?!" - ela imaginava estar em algum hospital, mas, mesmo assim, não fazia sentido algum não terem contido o sangramento.

A moça olhou para trás e já não sabia identificar que havia seguido o rastro do sangue no chão, ou se o sangue era mesmo dela. Estava tudo tão abafado, tão apertado de repente... Era como se tudo estivesse encolhendo ao redor de seu pescoço, as paredes, o piso, o sangue, os cheiros, a dor... MINHA NOSSA, A DOR! Começou a ficar insuportável... Ela sentia, sentia que seria agora... Era agora que ela finalmente cessaria... Vai... Um, dois...

Viva.

Ainda.

Decepcionante. Que sensação é essa?! Agora ela já se arrependia de ter cortado tão fundo seus pulsos já bem retalhados por causa de toda a vida de merda que ela havia tido.

Tão merda assim?

"Quem disse isso?!" - sua voz saltou junto com o coração.

Qual a diferença entre morrer e estar vivo?

"Pare com isso! Se está aqui para me assustar, se mostre! Covarde!!!" - ela estava se esgoelando de joelhos, estava apertado, apertado... "Ah, que gola apertada! Meu Deus!" - e quanto mais ela tentava tirar a blusa, mais sangue jorrava de suas veias e mais a gola apertava em volta de seu pescoço, como um nó sem fim.

Suzane Troyen começou a entrar em pânico, enquanto a voz aveludada ainda ressoava em todos os corredores, se misturando com os sons das batidas do coração da jovem e seus gritos.

Qual a diferença entre morrer e estar vivo?

- a voz indagou pela milésima vez.

"Eu não sei! Me ajude, não brinque comigo... Eu vou... Morrer..." - ambiguidade e um suspiro de reprovação. Era tudo que ela queria não? Findar aquela miserável vida, então... Qual a razão do hesitar insaciável?

Qual a diferença entre morrer e estar vivo?

- a voz persistia assim como os gritos da menina

como se fosse uma zombaria sem fim.

"Você não vai me ajudar até eu responder? Pelo amor de Deus... Me ajude..." - teimosa que era, não querendo ver o óbvio, continuava arranhando seu próprio pescoço, a medida que suas unhas arrancavam a carne, mais quente e mais insuportável as feridas em seus pulsos e agora, em seu pescoço ficavam.

Até que, ela assentiu.

"Quando você morre, a dor cessa..." - junto com as palavras dela, uma nova onda de angústia se apropriou de cada junta de seu corpo.

Se morrer fosse assim, era para você não estar sentido dor agora.

O quê?

Uma luz.

Um zumbido no ouvido.

Num piscar de olhos, Suzane estava em outro espaço aonde tudo era maior que ela, e toda a claridade cegava-lhe os olhos.

Você está nua Suzane.

"Eu morri?" - não sabia ao certo se sentia-se feliz ou triste por isso.

Qualquer tolo saberia, mas como a senhorita se acha tão sábia,

nós sempre soubemos que seria mais difícil

essa sua aceitação...

"Eu estou morta? Eu consegui? Eu consegui mesmo?!" - ela estava arfando de excitação, como se duzentos orgasmos percorressem seus nervos e seus órgãos.

Sim Suzane, não há mais fôlego de vida em seus pulmões.

"Eu não posso acreditar... Estou morta! Morta mesmo! Adeus problemas! Estou morta!!!" - os orgasmos se acumulavam, como pessoas que não respeitam o aviso do metrô de "antes de entrar, deixe sair", as sensações se acotovelavam, fazendo-a ajoelhar mais uma vez, sem mais hesitar, adentrando os próprios dedos na vagina, com movimentos agressivos, ferozes, vazios.

"Oh...A-a-ahh" - ela se sentia escravizada - "Eu não consi-si-sigo mais pa-rar... Ohh..." - num segundo mais devastador, como se um vento tivesse soprado e levado o prazer, ela começou a se contorcer, os dedos de suas mãos agora trabalhavam unidos, arrancando sua carne, perfurando seu útero, Suzane não sabia se era correto gritar de dor ou duvidar de que aquilo tudo era real mesmo... As sensações todas vinham mixadas sem qualquer cuidado em deixá-la apavorada.

Você sabe que não há mais volta.

"Eu não tenho opção de voltar, não?" - sussurrou enquanto seus dedos já se travavam após moer cada molécula de sua vagina - "Mesmo se eu tivesse, eu não quero... Não quero."

Não quer?

- a voz indagou num tom malicioso.

O corpo dilacerado dela, o espírito e a alma foram puxados e depositados diante a grandes visões.

Parentes chorando, amigos todos protestando contra aquele destino injusto, amores passados todos na beirada de seu caixão, beijando-lhe os pés, os pulsos e as mãos. A mãe passando mal, o tio que desmaiou, a irmã colocando os rins para fora de tanto chorar a perda de Suzane, todo aquele choro e aquele barulho e aquele sofrimento, todas as lágrimas que molhavam seu rosto morto como se chovessem em cima dela, lavando todo o sangue e fazendo arder as cicatrizes.

"Pare com isso! Pare com isso! É mentira! Eles não se importavam comigo! Ninguém se importava comigo!" - Suzane começou a esbofetar o ar, na esperança de que aquelas visões sumissem... Era impossível, impossível! - "Nããããããããããããããõ!" - estrondou na esperança de acabar com a dor que a esbofetava de todos os lados.

Não há como parar.

Você está morta. Aceite.

"Eu aceito... Aceito, mas... Não consigo...".

Você está no inferno, Suzane, e assim será

pelo resto de sua eternidade.

"Não estou no inferno! Eu vim para o lugar errado! Eu sou uma pessoa boa! Eu sou uma filha boa! Eu nunca fiz nada de errado!!!"

Você é a pior daqui.

"Algo me diz de que... Você, voz... Diz o mesmo para todos!"

Todos aqui são os piores.

"Cale-se! Eu não pertenço a este lugar, eu morri para ter paz! Me perdoe!"

Não cabe a mim perdoar-te

mentirosa, ladra, corrupta

pessoa odiosa e avarenta

blasfemadora e ingrata

ciumenta e viciada,

Não cabe a mim te deixar em paz

Falsa, desumana e suja

depravada sem escrúpulos

suicida imunda

Não cabe a mim devolver-te a vida

da qual desistiu por capricho,

estupradora de inocentes

língua maldita

"Não sou isso!!!" - ela cuspiu sangue ao rebater.

Não sabes quem és!

Não ouse contrariar-me

Eu que te dei o dom da maldade.

Estás no inferno, e eu te aceito

Como és.

"Não faço isso!!!" - Suzane voltou a recusar suas memórias.

Ela arfava, já sem forças, escorrendo por todos os buracos, ela via o fogo.

Não, era impossível.

"Não estou morta, eu não pertenço ao inferno, não estuprei ninguém e você não é o diabo!"

Ousa usar se tua pseudo-coragem

para desafiar as forças do submundo?

Não se volte contra os seus,

aceite este espaço,

sua cadeira em nossa sauna,

sua forca de espinhos,

seus desejos mais profanos.

Aqui, você é pior que todos,

e melhor do que ninguém.

"Eu não fiz essas coisas, isso é um engano! Não fiz!"

Ainda ousa mentir para si...

Suzane Troyen, o inferno aceita a todos

bem como eles são

não é preciso mudar

ou procurar redenção,

aqui você encontra o que sempre procurou

ser compreendida...

Bem vinda.

"Nãããão" - ela se recusou a abrir os olhos, no entanto, dedos flamejantes lhe queimaram as pálpebras e ela as abriu para ver a pior cena que alguém poderia ver.

Pessoas espetadas, enforcadas pelas genitais sendo devoradas por cobras e sendo costuradas às traseiras dos animais, gritos, gemidos de horror, montanhas de peles queimadas, carcaças encharcadas de suor fétido, paredes infinitas, preenchidas por todo o tipo de gente, recém nascidos, abortados, crianças pequenas, adolescentes e velhos, todos nus, mutilados, sem os dentes, putrefazendo-se e roendo uns aos outros, luxúria dolorosa e perversa, um eterno suicídio - eram tantas pessoas se atirando no eterno, que o buraco estava praticamente se auto-consumindo, se engolindo, vermes adentrando cada mente, coroas flamejantes, todo o tipo de maldade e tortura jamais imaginados, ninguém ali se envergonhava, ninguém ali hesitava... Era a mais plena e... Bom, não há um só adjetivo para descrever o que ela via e veria pelo resto do início do findar de cada tempo.

O inferno aceita a todos.

Se enturme.

"Não, eu não estou aqui... Isso é um sonho, eu nem sequer morri..." - grandes pelotas feitas de pernas e dentes humanos vieram rolando até ela - "O que é isso...?" - ela não cansaria jamais de chorar.

É a sua carruagem.

Bom passeio, não tenha pressa,

você tem literalmente, todo o tempo.

"É MENTIRA!!! NÃO! EU NÃO MORRI! EU NÃO MORRI!!!"

Levem-na daqui.

Inúmeras pernas necrotizadas a agarraram com as unhas dos dedões e a depositaram dentro de uma das bolas nauseantes e agoniantes.

E por mais que ela gritasse, implorasse, clamasse por Jesus, por arrependimento, tentasse acordar, reconectar suas veias partidas, ou simplesmente se acalmar, a bola não parou de girar, sua nuca se chocava e seus ossos se descolavam, logo ela se tornou apenas mais uma peça daquela obra demoníaca; e, por mais que ela não aceitasse, ou acreditasse, todos os seus órgãos separados estariam destinados a suplicar, ali, transportando novos convidados de milésimo em milésimo de segundo, para sempre.

❖❖❖
Notas de Rodapé

O inferno aceita todo mundo mesmo, ninguém nem precisa mudar pra entrar lá, só continuar no caminho que está, olha só, bem cômodo, que tal?

Olha, eu declino do convite, mas não sabemos para onde vamos mesmo, não? Não podemos controlar os caminhos que nosso espírito tomará, nem na vida, e nem pós-morte. Espero que esse conto lhes dê uma palhinha do que talvez, nos espere.

Obrigada.

QUE TORNEIÃO MÓRBIDO DA PORRA!

Apreciadores (7)
Comentários (7)
Postado 22/05/17 22:58

Interessante...

Gostei bastante da sua teoria pos-morte (pois, não passa de uma teoria, não sabemos mesmo para onde vamos ou o que acontece).

Obrigado por postar tão belo texto, amei a história.

<3

Postado 22/05/17 23:22

Aaaaaa muito obrigada <3

Postado 01/08/17 09:26

Nossa, nossa, nossa!!!!

Moça não tenho palavras suficientes para descrever o quanto eu amei esse texto!!!

Tudo foi tão perfeito e maravilhoso!!!

O modo como Suzane sofreu!!!!! Que leitura deliciosa!!!!

Sinceramente, esse texto foi escrito de uma forma completamente incrível, mais que incrível!!!!

Parabéns para a Senhorita!!!!

Belíssima obra!!! <3

Um abraço, Meiling!!! *-*

Postado 02/08/17 20:34

Eu te agradeço demais por apreciar tão intensamente a minha obra, são comentários assim que me inspiram cada vez mais e mais! Obrigada! <3

Postado 29/08/17 22:50

Foi simplesmente arrepiante do início ao fim. Eu não sei exatamente como expressar todo o amor que eu senti por esse texto.

Você soube perfeitamente bem como casar os temas propostos. Esse é o texto que mais teve compatibilidade dos temas de toda a segunda edição do TM. Foi fiel até o fim. Fiquei muito feliz com isso.

Devi dizer que fiquei um pouco incomodada com a estrutura, mas creio que isso se deve ao meu toc por coisas bem padronizadas. Meu tic não me permite misturar as coisas... É, eu sou ridiculamente estranha mesmo.

Enfim, meus parabéns por essa maravilhosa obra e por ganhar o Torneio Mórbido 2. Você realmente mereceu!

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Postado 31/08/17 18:21

Aaaaaaaaa mas que amor! Muito obrigada mesmo! Fico feliz por ter sido digna de ganhar esse torneião da porra! <3

E quanto à estrutura, MENINA, também não estou satisfeita com ela, meus dedos seguiram na minha frente, no final saiu assim e como não podia modificar, deixei que a obra se concretizasse dessa forma mesmo! HAHAHAHA <3

Postado 31/08/17 18:48

Texto fodão! Não era de esperar menos de uma autora tão talentosa. ME ENSINA A SER ASSIM PELO AMOR DOS DEUSESSSSS! Não some nunca daqui, por favor <3

Parabéns, 6 de Janeiro.

Postado 02/09/17 01:29

ESSE LUGAR É MINHA CASA E CEIS TUDO É IRMÃO DE SANGUE. Muito obrigada! <3

Postado 15/11/17 23:19

A morte é mesmo um medo que todos não sabem como surje, será um sonho infinito no paraiso ou tortura no inferno, ou talvez seja apenas o fim de tudo.

Muito boa sua obra, gostei mesmo!

Postado 15/11/17 23:39

Concordo plenamente!

Obrigada <3

Postado 30/11/17 14:51

Antes de desistir de sua vida, esteja preparado para o vazio infinito, ou a súplica eterna. Dizer que sua vida é uma merda talvez não seja tão profundo quanto a eternidade que talvez exista após a morte.

Aceitar morrer é muito mais que apenas cometer o ato de se matar.

Muito bom!

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Postado 30/11/17 21:10

E pensar sobre as decisões que se toma na vida, também é um bom começo. O inferno tá aí, e ele não recusa ninguém mermo.

Obrigada <3

Postado 28/02/18 20:28

Meu Deus! Eu achei muito interessante seu texto ♡

O modo que você descreveu a pós-morte, os sentimentos agonizantes da personagem e a cena como um todo é simplesmente sensacional!

O tema mórbido está totalmente incrível nesse texto!

Parabéns ♡♡♡

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