Breve agradecimento a quem nos fez sofrer por amor
Giordano
Tipo: Lírico
Postado: 27/05/17 10:49
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 3min a 4min
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[Texto Divulgado] "Espelho" Querido espelho, meu reflexo, meu lado mais perverso... apenas seja o tudo, tudo o que eu quero que seja.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Breve agradecimento a quem nos fez sofrer por amor

Há diversos tipos de amores:

Aquele que pedimos para que não seja breve,

O mesmo que pedimos que se propague baixinho

Numa inda e vinda branda

Construído por sussurros e suspiros

Para que não ouçam sequer os passarinhos

(ao menos era o que dizia o Quintana);

Há também o que afirmamos veementemente que não se acaba,

Ao menos, era no que o Leminski acreditava,

Torcemos para que não se torne raiva

Já que a poesia é, no mínimo, mais produtiva;

Tem aquele glorioso

Que não cabe em mundo algum,

Não cabe por não poder se contido,

É gigante e estrondoso,

Pode sentir-se por todos os lados,

Mas que graça,

É também deveras singelo

Cabe só no utopia de amar,

Em um breve intervalo,

Para o Drummond, um tão curto e desejado espaço,

De beijar;

Há os que o Moraes imortalizou em sonetos,

Os que serão, serão e serão,

Até o momento que não mais for,

Os que explodem dentro de ti

E, deles, não queres desperdiçar um segundo,

Viver todo e qualquer sentimento infame,

Inclusive os que o amor tenha trazido de agrado

Afinal, moradia é cara

E o peito é casa, apesar de apertada, aconchegante.

Mas, hoje,

Hoje não falaremos de nenhum dos descrito acima,

Todos já foram descritos dezenas de vezes,

Cada vez com sua peculiaridade,

Hoje vamos falar de um único amar,

Aquele que não há,

O que trouxe sofrimento,

Desgostoso,

Imprudente,

O infeliz que decidiu que o peito não era suficiente

E tomaria tudo que aparecesse, assim, repentinamente.

Eu sei, eu sei,

O Renato dizia que se o amor é verdadeiro não pode haver sofrimento,

Se for verdadeiro por todas vias, talvez o dito seja até uma realidade,

Mas são tantas vias e nem toda estradas são de mão dupla,

Algumas vezes a gente vai parar numa rua sem saída,

Certas vezes a única opção é dar meia volta

E tentar ser o que já fomos antes,

Antes de todo insaciável querer.

Mas o ponto aqui não é dividir as pessoas em quem ama e quem não,

Afinal, é só uma questão de quem,

Talvez não seja por você,

Mas o outro pode gostar de um outro alguém.

Somos seres imperfeitos

E cheios de indecisão,

Talvez por isso seja difícil lidar com algo como rejeição,

Mas, talvez, também,

Não ser amado por quem se queria

Seja apenas mais um aprendizado,

Talvez tenhamos, na verdade, que ter agradecido,

Não agradecer de dizer estou grato,

Mas, dentro de todo nosso cinismo

E egoísmo insano,

Entender que sentimento não se distribui

E querer definitivamente não significa poder,

Compreender que há de existir um momento certo,

Com a pessoa certa,

Com o emocional e psicológico intacto,

Para o querer poder, possivelmente se tornar ser.

O agradecimento não é pra agradar também,

É para podermos, talvez um dia, chegar a conclusão

Que gostar tão demasiadamente

E esperar, quase que imediatamente, uma aceitação,

Pode não ser um sentimento para o outro,

Mas com o intuito único

De ser amado.

Será que o agradecimento não deveria ser a si mesmo?

Talvez o Renato estivesse mais que correto

E não soframos de amor,

Mas da falta que exercemos sobre nós mesmos,

Talvez um pássaro engaiolado se machuque muito mais

Do quem um no céu limpo e azulado.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Após séculos sem escrever, espero que este esteja decente ^^

Apreciadores (7)
Comentários (5)
Postado 28/05/17 11:04

Ah, o amor!

Me lembra Camões: "É fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente". Como compreendê-lo com tanta complexidade?

Seríamos nós a base da incompreensão ou o sentimento por si?

Uma mescla produtiva dos amores, amados e incompreendidos...

Adorei poder ler sobre algumas formas de retratar "o amor" e refletir sobre minha forma de amar.

ótimo texto, parabéns :*

Postado 28/05/17 15:19

Obrigado, Ana! ^^

Fico feliz que tenhas gostado! :D

Pois é, como pensar racionalmente sobre algo que nos torna tão irracionais? Talvez seja por isso que escrevemos tanto sobre o amor.

Postado 30/07/17 13:36

Olá moço Giordano! Quanto tempo!

Que poema mais lindo! Dolorosamente lindo...

Realmente, eu gosto muito de ler poesias sobre o amor! Drummond é meu preferido...

Também gosto muito de Camões, ao mesmo tempo que sinto uma raivinha dele, não sei porque rsrs

Cecília Meireles tem poemos bem tristes e muito lindos também!

O trecho que começaem ''Somos seres imperfeitos / E cheios de indecisão'' e vai até ''Para o querer poder, possivelmente se tornar ser'' , foi o que eu mais gostei, foi o que mais me deixou triste, pensativa, emocionada de verdade...

Você usou belas palavras para expressar essa coisa tão triste, o amor.

Meu pensamento pode ser um tanto estranho, mas é o que eu penso... Assim, o amor é o sentimento mais triste de todos. Independentemente de qual tipo de amor seja.

Amor de mãe e pai para com o filho é muito bonito, mas é muito triste também. Amor de irmãos também é bonito, e também é triste.

Amor de amigo. Amor de namorados. Amor de casados.

Todos esses amores citados são extremamente lindos quando existem, mas extremamente triste...

Sei lá. Perdão por toda essa coisa estranha que eu escrevi...

Só sei que esse seu poema foi maravilhoso demais...!!!

Um abraço!!

Postado 15/11/17 19:50

Eu estava com uma puta saudade de ler seus poemas. De me deparar com uma obra singela, porém carregada de emoções, e por consequência própria uma mesclagem de interpelações e reflexões. E como não o fazer quando o tema é uma das coisas que mais faz o ser humana se indagar? Ahh, o amor, em todos os seus n aspectos, em todas as suas x formas.

Um dos pontos que mais gostei foi o fato de você referenciar grandes autores e suas principais - e direta - forma de pensar; um resumo daquilo que todos nós passamos mas quase nunca compreendemos. E por falar em compreender, a maneira como você redigiu o poema e deu vida a ele é encantador.

Como citei acima, o amor em seus n aspectos, todavia, o que interliga a tudo é o fato do eu-lírico descrever o porquê do agradecimento. Não como um agrado, como bem disse, mas como algo maior. Algo para si próprio.

Algo que o faz ver o passado e agradecer pela lição aprendida, pelo conhecimento adquirido... Principalmente, pelo momento vivido.

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Postado 30/11/17 22:55

Há amores que nos matam, há amores que queremos matar, há amores que morrem, há tantos amores, mas são todos amores. Quem pode negar?

Adorável como sempre, Gio <3

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Postado 25/05/18 03:26

Ah, sim! O amor e suas diversas formas é tema de poético desde que o mundo é mundo. Em O Banquete de Platão, Aristófanes discorre sobre a origem do amor e no fim entende-se que: cada um de nós é um complemento de um outro, procurando incessantemente esse próprio complemento. A idealização desse amor romântico já era discutida desde o primórdios, mas nesta singela obra feita por ti, conseguimos ver um visão pessoal do amor.

O eu-poético começa fundamentando sua fala e, em seguida, joga no leitor um balde de água fria e diz:"Não é por esse caminho que andaremos". Essa quebra de expectativa ajuda a absorver com clareza o que vem a seguir: o amor não é isto que idealizamos. A explicação sobre o agradecimento, fechou com chave de ouro toda obra.

É impossível ler algo teu e não aprender algo, assim como é impossível amar sem ser marcado, de forma boa ou ruim. Termino dizendo que Drummond estava mais do que certo quando disse: "Daqui estou vendo o amor/ irritado, desapontado,/ mas também vejo outras coisas:/ vejo corpos, vejo almas/ vejo beijos que se beijam/ ouço mãos que se conversam/ e que viajam sem mapa./ Vejo muitas outras coisas/ que não ouso compreender…"

Sim, esses contrastes amorosos não nos cabe compreender, apenas tentar esclarecer na poesia de alguma maneira, os diversos pontos de vista deste sentimento tão abstrato.

Parabéns, Gio!