Madrugada de um trabalhador qualquer
Matheus Andrade
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 11/07/17 22:24
Editado: 13/07/17 01:29
Gênero(s): Crônica Drabble
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 1min a 2min
Apreciadores: 5
Comentários: 5
Total de Visualizações: 481
Usuários que Visualizaram: 9
Palavras: 313
[Texto Divulgado] "réquiem for me" estou me dirigindo a várias pessoas nesta passagem. todas elas de mãos dadas comigo no espelho. 
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Madrugada de um trabalhador qualquer

Esta curta história trata-se, em última análise, de um desperdício para quem procura por inícios, meios e fins, por superações edificantes ou mesmo por leve entretenimento. Falaremos sobre uma história real, vivida não só por uma pessoa, por um trabalhador em específico, mas sim, entretanto, por milhares deles.

É três horas da madrugada e num ímpeto ele acorda. Viver nunca foi tão difícil quanto de repente se tornou. Para dizer a verdade, é num ou noutro momento que a pessoa se dá conta do poço no qual, sem escapatória, repousa. Mas o que aconteceu exatamente? pergunta-se, sentado na mesa da cozinha. Distraído, acende um cigarro, esperando que da mesma forma que com a fumaça, o ar também se encarregue de levar a sua imensa dor.

Ele olha para a parede, e esta parece também observá-lo – e nisto entram os dois em um jogo. A parede se dissolve em imagens que formam um tipo de filme um tanto difuso, cujo conteúdo são as lembranças que possui, que ora são de passagens coloridas ora são de vultos que o trazem para dolorosos sentimentos que o sufocam.

Num piscar de olhos acaba com este jogo.

Apaga o cigarro. Levanta e anda desequilibrado, cambaleante, detém-se por um momento nas estantes para examinar sua coleção de canetas, teus poucos livros, suas fotos com recordações de uma época em que não precisava vender o seu conhecimento como mão de obra, duma época em que não precisava ensinar as pessoas que o único caminho a se tomar é manter o status da sociedade em que vive; duma época em que não tinha que vender o próprio pensamento, na qual não precisava ensinar o que não acreditava pela necessidade de sobreviver.

E de novo recupera a sonolência que o anestesia da sua rotina massacrante. Adormece sempre com o sonolento espectro do dia seguinte a perpassar, ainda que vagamente, por sua mente.

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Apreciadores (5)
Comentários (5)
Postado 12/07/17 01:20

Eu sempre me surpreendo com o quanto esse texto é real.

"Adormece sempre com o sonolento espectro do dia seguinte a perpassar, ainda que vagamente, por sua mente."

Quem nunca foi dormir pensando no que tinha que fazer no dia seguinte? Eu mesma to indo fazer isso agora kkkk

Parabéns pelo texto maravilhoso

Postado 12/07/17 01:42

Tem muitas épocas em que esse sentimento se torna rotineiro, e tenho certeza de que você o conhece

Valeeu :D

Postado 05/08/17 16:17

Ótimo texto!!!!

Tão horrivelmente verdadeiro...

E é muito triste...

(Por favor, me tire uma pequenina dúvida: nas últimas linhas acabei imaginando que esse personagem é um professor? É isso mesmo? Ou eu entendi errado?)

Enfim, um texto incrível, Sr. Matheus!! *-*

Meus parabéns!

Um abraço!!! Meiling!!

Postado 06/08/17 23:44

Entendeu de forma certíssima!

Novamente, obrigado!

Abraços :D

Postado 15/11/17 20:29

Essa crônica de tão realista chega a ser sufocante e, por vezes, agonizante. Como diriam vários poetas: a madrugada foi feito para se pensar, refletir e se indagar. E de fato, quando vivemos no "piloto automático" criando-se uma máscara tornar-se difícil viver. Afinal, como viver de maneira satisfatória uma vida que, digamos, não é a sua?

Deixar os próprios princípios e ensinar algo que não acredita é uma das normalidades existente atualmente, piora um pouco quando a profissão é o de ensinar, quando se é um professor.

É aquela história, afinal, você vive ou sobrevive? Belo texto, rapaz!

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Postado 27/03/18 01:25

E foi justamente a madrugada, musa de vários poetas, que me entregou estas palavras.

Agradeço muito.

Abraçosss! :D

Postado 27/11/17 05:30

Satan... Às vezes é impressionante como uma outra pessoa que desconhece completamente o leitor parece visualizar a existência, os sentimentos e pensamentos daquela pessoa e transcreve em uma obra de tal modo que nem ela mesma poderia/conseguiria/saberia fazê-lo tão precisamente!

Ah, a velha e devastadora consciência do desperdício vital(ício)! O entorpecimento da alma, semelhante ao que ocorre com um membro ferido demais! A tortuosa trilha das memórias e reflexões que, como vermes e farpas, revolvem a mente!

Excelente texto, Sr Andrade! Tão mordaz e verdadeiro que perfura o âmago tal qual a Lança de Longnus trespassando o Filho do Homem!

Atenciosamente,

Um ser no leito do Abismo, Diablair.

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Postado 27/03/18 01:30

A quem devo a honra da sua estimável e sinistra visita?

Eu me lisongeio quando recebo as agradabílissimas palavras de um ser oriundo das profundezas abissais.

Um abraço infernal!

Postado 11/12/17 00:17

Como não há nada que eu possa dizer que os meus colegas/amigos já não tenham dito, vou apenas me ater a lhe parabenizar por essa obra real e incrível!

Postado 27/03/18 01:31

Muito obrigado por mais uma leitura, Yvi.

Abraçosss :D