Carta para quem-for
Matheus Andrade
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 21/07/17 23:12
Editado: 27/03/18 01:20
Gênero(s): Reflexivo
Avaliação: 9.85
Tempo de Leitura: 5min a 6min
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Palavras: 833
[Texto Divulgado] "O gato de Schrödinger" Homem acorda e descobre que todas as pessoas sumiram.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Carta para quem-for

CARTA A QUEM-FOR

Prezado (a) quem-quer-que-seja,

Decidi que deveria registrar o que me houve, movido pela mesma prepotência de muitas outras pessoas deste mundo. Aquelas que consideram suas vidas interessantes o suficiente para se inscreverem em linhas que, no máximo, adiarão em algumas décadas o seu esquecimento. Quanto a mim, asseguro que a minha vida não foi divertida, porém nunca fui descontente a ponto de eu não suportá-la.

A vida neste sítio foi boa e tranquila durante a maior parte dos últimos cinco anos. Minha solidão me contemplava. Finalmente voltei a ter o que não tinha há muito: energia. O anonimato me deu lucidez. Mas chega. Tudo isto encheu o saco e preciso mudar algo.

Antes de chegar neste lugar eu morava em uma cidade grande, que me dava o mesmo anonimato da minha vida atual (que é um pouco isolada, mas nem tanto). Já adulto fiquei enfastiado da vida cheia de minúcias e dificuldades de lá, num lugar nem tão longe de onde moro hoje. Durante minha formação fui cheio de amigos, era até querido. Mas meus gostos e prioridades mudaram muito.

Pelos meus vinte anos, comecei a me afastar (em vários sentidos) da vida que anteriormente levava. Antes muito sociável, tornei-me taciturno e fugidio; o que era muito estranho pelo fato de serem mudanças involuntárias. Sem saber o porquê, sentia-me impelido a mudar, e mudar rapidamente. A independência da “vida adulta”, que eu um dia sonhara, me decepcionou.

Quando repentinamente me afastei, vez por outra algum — velho — amigo entrava em contato. Raríssimas vezes tive disposição para sair, e quando saía, achava desinteressante. Naquela época (e ainda hoje) sentia que o problema disso tudo era meu. Desanimei.

Mais ou menos sete anos após o meu desânimo, comecei a andar cansado, dormia sempre que podia, nas folgas que eu tinha da escola onde lecionava, só dormia; às vezes até quinze horas ao dia. Vivia fatigado. De brusco tomei uma atitude que, confesso, não foi longamente pensada.

Procurei alguém que me substituísse na escola, explicando apenas que não ia demorar muito. Eu não estava muito lúcido, não tinha muita consciência do que fazia. Arrumei alguns poucos pertences e parti com meu carro. Continuei errante por uns dois dias, até meu escasso dinheiro acender o alerta de findar.

Conversando com algumas pessoas na estrada, via novas possibilidades. Eu decidi naquele momento morar em outro lugar que tivesse condições bem diferentes. Até que de passagem numa cidade conheci Laura, uma mulher muito forte e engraçada e gentil. Ela comentou que estava à venda seu pequeno sitio mobiliado — que ela abandonara —. Situava-se a 20 km desta cidade. Ainda que pequeno, o espaço era muito barato. Senti-me irremediavelmente atraído.

Vivo aqui há cinco anos.

Inicialmente não sabia muito bem como ia me sustentar, apenas mergulhei às cegas em algo novo, e agora eu percebo: o novo sempre me fascinou. Depois de alguns dias de ócio e longos cochilos vespertinos, as finanças apertaram ainda mais. Eu sabia fazer algumas poucas coisas, decidi vendê-las: aulas particulares de violão e também reforço escolar. Com esse pouco eu ia sobrevivendo, não muito saciado da fome mas com muita serenidade. Neste lugar ainda não fiz amigos, bem mais por não querer do que por não conseguir. Escrevo para quem-quer-que-seja justamente por não ter para quem escrever.

De forma alguma pretendo ser thoreauano, não sou Walden. Não há uma só forma ideal de vivência. Na verdade, prefiro bem mais a coletiva. A verdade é que precisei fugir do modo que eu antes existia para conseguir continuar resistindo, e agora preciso mudar também o que estou vivendo agora.

Após cinco anos, percebo que a vida neste sítio foi muito boa. Contudo de novo o tédio fugiu do controle e me desanimou, e justo neste momento sinto pulsão forte de mudar de rumo, mesmo que não saiba bem qual irei tomar, mas isto já aconteceu e vê virei bem por meia década. Medo eu não tenho.

Ontem arrumei meus poucos pertences. Hoje pela manhã fui na agência rodoviária e comprei a primeira passagem que encontrei na lista. Há poucos minutos peguei um caderno, abri, coloquei uma caneta na mão esquerda e escrevi esta carta não-sei-para-quem. Daqui a pouco desocuparei minhas mãos, mas já tenho outros dois pesos para ocupá-las depois.

Uma dúvida me persegue a respeito de qual rumo assumirei.

___________________

Após largar este caderno, colocarei duas passagens em minhas mãos, uma em cada: cada uma, de formas diferentes, me trará o novo. Só posso escolher uma, mas não sei qual delas. Na mão esquerda, tenho a passagem que comprei mais cedo na rodoviária. Na mão direita, tenho um revólver que tenciono engatilhar. Preciso parar de escrever e me decidir.

Em cinco minutos escolherei; por hora, não tenho a menor ideia nem inclinação sobre por qual dos dois vou determinar. Certeiro é o fato de que ambos me levarão ao novo no final das contas. E é isso que me tem feito respirar nos últimos tempos, e poderá novamente fazê-lo...

Ou não.

Com confusão e conflito:

Ninguém.

❖❖❖
Apreciadores (3)
Comentários (4)
Postado 05/08/17 16:08 Editado 05/08/17 16:10

Simplesmente incrível Sr. Matheus!!!

Amei cada linha desse texto!!!

O título me fascínou por completo!!! *-*

Tudo no texto foi completamente perfeito!!! *-*

Acho que as vezes to do mundo acaba se sentindo assim, alguma vez na vida, com essa vontade estranha de necessidade de mudança...

E o final... uau!!!! Cara, que final ótimo!!!!

Realmente adorei muito!!!!

Um abraço! Meiling!

Postado 06/08/17 22:12

Muito obrigado de verdade por ter me dedicado tanta atenção! Fico tão lisonjeado que sem dúvidas ganhei o meu dia.

Este texto foi a minha primeira aventura no terreno da ficção (fiz alterações no passar do tempo).

Abraço! =D

Postado 09/08/17 17:33

Sabe de uma coisa, esse seu texto me fez lembrar de um livro, Sagarana, que eu li para o vestibular. O senhor conhece?

Na verdade são vários contos, todos com o tema central e primordial da viagem... As vezes nem precisa ser uma viagem longa, basta um caminho percorrido, e as vezes uma volta até o início, para que o personagem sofra por uma transormação...

Gosto muito desse tipo de pensamento, de que cada jornada nos transforma. Desde uma ida corriqueira até a padaria, até uma viagem a outro país completamente diferente...

Enfim, perdão pela confusão toda desse comentário, eu só quis dizer que como esse seu texto me lembro muito Sagarana, eu realmente senti muito carinho por ele! Minha vontade agora é imprimir e colar na parede hahahaha

Um abraço!!

Meiling!!

Postado 27/03/18 01:12

Você acabou de adicionar um livro em minha lista. Já escutei o nome, mas nunca li.

Obrigado por mais um comentário instigante, Melling :D

Abraços!!

Postado 14/11/17 23:03

Quem nunca escreveu uma carta destina a ninguém que atire a primeira pedra.

Quando, aos 14 anos, passei pela pior fase de minha vida, eu fiz algo parecido. Escrevi para ninguém apenas pelo prazer de escrever. Escrevi para ninguém, pois, ao meu redor, os ouvidos estavam ocupados demais com "problemas de adultos" para ouvir o meu simples "me ajude". Às vezes, escrever para ninguém é escrever para si mesmo. É expor a própria realidade à alma e apresentar todas as cartas na mesa para seu coração. E para a mente, resta apenas a escolha entre a morte como um novo começo ou a vida como um novo começo.

Tudo é tão incrível nesta obra, que simplesmente fiz uma viagem ao meu passado. Trouxe-me uma grande reflexão sobre tudo e todas as coisas. Me resta apenas lhe parabenizar por um texto tão real e maravilhoso, que descreve bem o que muitos passam.

Parabéns, Matheus!

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Postado 27/03/18 01:16

Eu encontro tantas interpretações geniais aqui que nem ao menos consigo responder à altura. Sei que vocês me motivam ainda mais.

Se você tentou expugar algo escrevendo para-quem-quer-que-seja com as verdades ditas em seu comentário, o meu conto é justamente para a sua leitura.

Um abraço!! Obrigado pela atenção. Demoro a retornar porque tenho dificuldades em usar o site.

Postado 14/11/17 23:04

Surpreendente. Nem mesmo a sinopse me fez imaginar esse Senário final! Estou encantada.

A quem-quer-que-seja aqui torce para que tenha escolhido a passagem que pudesse levar Ninguém o mais rápido possível para um novo lugar.

Parabéns!

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Postado 27/03/18 01:22

Agradeço, Yvi.

Abração :D

Postado 01/12/17 00:23

Caro remetente,

Estou silenciosa depois de receber sua carta, tão silenciosa que só ouço meu próprio coração e meus dedos martelando o teclado.

Toda a viagem, é um destino bom, mas cabe a nós fazer desta uma boa viagem, ou um caminho aonde nos perderemos. Nem sempre temos um mapa, mas a alma é que deve sempre ir á frente, guiando nossos pés, ou às vezes, nos levando arrastados por eles.

E, meu querido remetente, rogo para que a passagem tenha te feito pensar e passar por lugares mais belos do que a surdez e a falta de sensações que é a viagem proporcionada pelo revólver, ou, que neste revórver, tenha apenas um "bang" em uma bandeirinha, e que você a use para brincar maldosamente com alguém.

Viva suas memórias, se eternize através delas, beije seu corpo e sua mente linda.

E ande por lugares melhores, que se encontram dentro de você.

(Você achou que eles estariam tão perto assim? A passagem nem é tão cara!)

Com amor,

A destinatária, que talvez, escolheria a arma, mas não a recomenda nem para o pior dos malas.

E parabéns, meu coração te aplaude solenemente.

Postado 27/03/18 01:19

Que genial. É nessas horas que afasto a negatividade que me empurra uma horrível sensação de que não estou alcançando ninguém com os meus textos.

"E, meu querido remetente, rogo para que a passagem tenha te feito pensar e passar por lugares mais belos do que a surdez e a falta de sensações que é a viagem proporcionada pelo revólver" <3 <3

Só tenho a agradecer.

Um abraço!!!