Peça
True Diablair
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/08/17 12:28
Editado: 26/08/17 12:57
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 4min a 6min
Apreciadores: 8
Comentários: 8
Total de Visualizações: 483
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Palavras: 750
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Dedicado exclusivamente à Garota de Heidelberg, a quem traí e abandonei. Sim, eu fiz isso. Não há outra denominação para tais fatos.

Música inspiracional: MMM MMM MMM MMM (é sério, o nome da canção é esse), da ancestral banda Crash Test Dummies.

Capítulo Único Peça

Eu nem me lembrava mais quando tinha ido parar lá, naquela espécie de teatro obscuro cheio de cadeiras quebradas, fétidas e vazias. Não existia iluminação alguma ali, exceto a do ardor malevolente que queimava em minhas retinas e me permitia enxergar um palco que havia muito além dos assentos, do outro lado de um extenso e profundo buraco de onde saía uma melodia taciturna, baixa e depressiva. A música parecia escavar o coração com uma picareta enferrujada nas mãos de um maníaco e enterrar a alma na mais intensa desolação como se faz com os indigentes no final do dia.

Ah... Era magnífica, simplesmente magnífica... Ouví-la era o mais elevado dos sadismos, a mais rara das provações. Provavelmente o próprio Diabo a tenha composto e a regia, os demais demônios fazendo as vezes da orquestra enquanto os torturados seguiam como um coral.

Entretanto, havia algo mais: uma garota encenava algo que mais parecia um pesadelo como que acompanhando o amargo compasso do som abissal. Seu movimentos fracos e sem cadência pareciam uma dança misturada com tentativa de suicídio confome rodopiava e sangrava em meio a um piso de madeira podre infestado de destroços, fantasmas e gelo. Ela própria era um arauto da auto-destruição; um tanto delgada como se estivesse doente, vestida em andrajos, com os pulsos rasgados e cabelos desgrenhados. Sua maquiagem eram olheiras no lugar de sombras, sujeira ao invés de rímel e sangue tingindo os lábios feito batom.

Era tão miserável que chegava a ser bela aos meus olhos vidrados.

Na escuridão daquele lugar onde poucos conseguem chegar e menos ainda permanecer, ela exibia seus espasmos e soluçar para mim enquanto prosseguia com aquele espetáculo deprimente e, à seu próprio modo, encantador. Vê-la se desfazendo era como assistir o lento falecimento de uma borboleta envenenada por alguma flor contaminada. A apatia de sua performace chegava a ser palpável e me atraiu feito as chamas do Inferno sugam as almas dos condenados.

E era isso que éramos: dois malditos condenados.

Vez ou outra ela falava ou mesmo sussurrava algo, mas era em outra língua de sonoridade refinada aos meus ouvidos ignorantes. Não a compreendia, mas podia sentir uma espécie de tristeza misturada com mensurável nojo. Parecia falar de si mesma. Talvez fosse do mundo. Ou de mim, pois por vezes apontava em minha direção com seu dedo esquálido e escarlate, gotejante. Depois voltava à performace doentiamente soturna, ignorando-me. Mas, eu não conseguia fazer o mesmo: na medida em que a garota se afastava, eu me aproximava mais e mais, contornando o Abismo entre nós dois sem sequer dar-me conta do que estava fazendo.

Meu olhar injetado vez ou outra fitava aqueles inóspitos olhares vazios. Uma ligação improvável e um tanto forte se formara a cada ato da exibição de modo grotesco e gradual. Era impensado. Era imprudente. Era inevitável.

Quando percebi, já não estava na platéia: estava nos bastidores. As cortinas empoeiradas tinham baixado, contudo de onde eu estava podia ver a artista ainda atuando. E ela vinha devagar em minha direção, tão vagarosamente que parecia ser seu ato derradeiro. Frente a frente, cada qual na sua beirada de Abismo, nas trevas, no silêncio, na expectativa de uma tragédia (ou apenas de um salto), permanecemos por muito, muito tempo.

Para a minha surpresa, em um dado momento ela gesticulou para mim, com um parco filete de lágrima escorrendo pela face bonita e cansada, convidando-me para participar daquela peça que ambos julgávamos saber como iria terminar. Mas, covarde como era, logo neguei o chamado: sabia que não estávamos no mesmo patamar do que quer que fosse necessário para pisar ali. Ela sorriu. Por Lúcifer, como era bonito aquele sorriso, mesmo tão infeliz e manchado de vermelho...

Senti meus olhos ardendo, como que excessivamente marejados. Então comecei a gargalhar, expondo todo o meu desespero conforme o som hediondo advindo de meu âmago necrosado estragava a canção que ululava pelo recinto sombrio. Ela apenas maneou a cabeça positivamente e continuou a sua dança, flertando com a queda enquanto injeria algo de um frasco e vomitava sobre si mesma. Enquanto isso, me sentei e voltei a assistir tudo de longe e calado, perdido em meus próprios e perigosos anseios.

E desde então tudo ficou ainda mais escuro, para mim e para ela. Mas, a música e a peça continuariam. A dor, a tristeza, o remorso e tudo o mais de ruim que nos permeava e nos manteria isolados e, ironicamente, unidos... Também.

Ao menos até que a Morte enfim encerrasse tão pesaroso espetáculo.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Quanto lixo. Haha.

Apreciadores (8)
Comentários (8)
Postado 26/08/17 13:02 Editado 26/08/17 13:05

Não há lixo algum aqui. Talvez, a garota que esteja a dançar, sim. Mas fora isso: outra vez releio - e com certeza o farei mais - e recosto minha cabeça nestas palavras. Fizeste-me recordar uma música que dependurou-me em suas notas nos momentos mais desoladores. (https://www.youtube.com/watch?v=cklAulDyuow). Os movimentos, as luzes, o desespero, a decadência -- tudo isso está aí transcrito de uma forma surpreendente. As mesmas palavras as quais um dia foram usadadas para descrever a banda, uso-as aqui: " a decadência nunca teve um aroma tão doce."

Muito obrigada por tudo.

Postado 27/08/17 08:00

Se há algo que não é lixo aqui, é justamente a garota...

Ademais, sou eu quem agradeço encarecidamente. Ainda mais depois... Do que houve antes destas linhas serem postadas...

Postado 26/08/17 21:12

Eu realmente amo toda essa aura sombria. É muito fácil ler e me encantar por textos com uma temática mais "pesada" que o normal aqui desse site todo carinhoso.

A descrição dos atos é maravilhosa e torna tudo ainda mais mágico e encantador (mesmo que de forma assustadora para alguns).

Sobre o título da música inspiracional: Eu ri. Não sei o motivo e não sei se deveria, a única coisa que eu sei é que ri e ri muito. '-'

Parabéns pela obra que você chamou de lixo e eu chamo de obra prima. (É como eu vivo dizendo: Tudo depende do ponto de vista).

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Postado 27/08/17 08:06

Estou praticamente sozinho em todo esse oceano de sentimentos amorosos e apaixonados (que muitas vezes arremetem a perdas e decepções; ainda assim, são coisas sentimentais), um Crusoé doentio em sua ilha maldita...

Fico muito satisfeito que estas linhas miseráveis tenham sido de seu agrado, Srta Flávia. É uma das poucas usuárias deste antro que consegue (ab)sorver da mesma fonte malevolente que eu, com algumas diferenças/ressalvas...

Muitíssimo obrigado pelos elogios e parabenizações! Gratíssimo!

Postado 27/08/17 19:34

Sr. Diablair, tu nunca se cansa de me surpreender com obras maravilhosas, não é mesmo?! Você sempre diz estamos de lados opostos em questão de compreensão sobre as coisas e é verdade. Porém, é inegável não falar sobre o talento que tu possui. A beleza é constituída nos olhos de quem vê, mesmo um tema mórbido e sangrento, pode se tornar belo. E você bem sabe que eu procuro ver o lado bom em todas as coisas. Tua escrita não é lixo, mas sim, uma forma de expressão diferenciada e surpreendente. Gosto e admiro muitos teus escritos. Enfim, não me mate por isso rs.

O narrador no texto praticamente nos convida para assistir a essa peça tão macabra, excêntrica e magistral. É algo fora dos padrões comuns, por isso cativa rapidamente a atenção do leitor e tudo o que queremos é saber como este feito será concluído.

A cada parágrafo, um banho de sangue é derramado sobre nossas cabeças e o ritmo da perfomance nos toma de maneira inebriante. É como se cada palavra e pontuação fosse uma nota de música sendo tocada, revelando assim uma agressiva, mas ao mesmo tempo, bela harmonia. Através da descrição, tudo torna-se palpável e fácil de se visualizar por tamanha riqueza de detalhes.

O desempenho da garota, a expectativa e sentimentos crescentes do narrador pelo o que vê e a história sendo contada como se fosse apenas o início de tudo, é verdadeiramente sensacional.

Lhe parabenizo por essa obra digna de palmas e mais palmas, Diab.

Postado 27/08/17 22:33

Pedir para não matar uma garota e autora tão adorável quanto a senhorita me soa quase como um pedido de execução ao invés de misericórdia, a oferta da Maça feita pela Serpente à pobre Eva... Bem sabe o quanto adoraria (aliás, adoro) eviscerar os membros deste site... Especialmente os que mais estimo (e deste grupo a senhorita faz parte)!

Roubaste minhas palavras com um comentário tão excelso! Satan, como não ficar admirado e agradecido por palavras tão enaltecedoras? Eu é quem fico cada dia e vez surpreso com o fato de um ser como eu conquistar o apreço e entusiasmo de uma autora tão talentosa e cativante!

Eu agradeço encarecidamente por este review tão bonito e grandioso quanto a pessoa que generosamente o inseriu neste capítulo! Muitíssimo obrigado! Gratíssimo!

Postado 29/08/17 14:02

Lixo? Grrrr

Caríssimo senhor Diablair,

Que diabos tu faz com meu coraçãozinho?! ISSO FOI DIVINO.

Um último beijo em vida, a última música, a luz azul e quente que quebra a sala fria... Tudo isso pinta tão bem o cenário da destruição, isso me deixa perplexamente entusiasmada pela complexidade da quase morte! Me senti bem próxima a eles e ao mesmo tempo pairando entre os abismos... A morte cálida, sedutora, canibal... É mesmo bonita.

Te parabenizo por mais uma obra inigualável, inspiradora e simplesmente FODA! Você é sempre ilustre, um mago, um ser supercalifragilisticexpealidoucious, maravilhoso, impressionante e todos os adjetivos ótimos que houverem.

Da próxima vez que chamar alguma master piece sua de lixo, serei obrigada a te colocar num barril rolando morro abaixo.

Parabéns, mais uma vez e obrigada por este conto incrívelmente mórbido e pacificador.

Postado 29/08/17 21:27

Srta Janeiro... Eu...

Muito obrigado... De tudo o que me resta... Muito obrigado...

Postado 02/09/17 18:51

Os detalhes que se propos a colocar na obra, atrairam-me e muito a imaginar algo meio torto, HAHAHAHAHAHAH. Acontece. Porém não posso falar somente dos detalhes fisícos, tenho que falar desses maravilhosos detalhes sentimantais e dizer que são "adoráveis".

Por fim, posso afirmar que gostei da sua obra, mesmo que a denomine como "lixo".

Agradeço por compartilhar sua obra conosco, me ajudou a refletir sobre um assunto: Obrigado.

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<3

Postado 07/09/17 02:42

Ah, Srta Shizu... Simplesmente encanta-me! Adoraria saber (via MP, obviamente) qual foi esse "algo torto" bem como, se possível, acerca de quê uma obra tão dantesca fê-la refletir...

Gratíssimo, uma vez mais! Gratíssimo!

Postado 07/09/17 23:20 Editado 07/09/17 23:25

Eu brisei lindamente nesse texto. Aliás, que espetáculo macabro foi esse? É uma sucessão de detalhes extraordinário, que permite o leitor visualizar totalmente as descrições redigidas, como se também fôssemos um espectador também. Me senti como se de fato estivesse em um teatro abandonado, e ouvesse uma mulher em sua última dança, em seu último apelo, tão linda e ao mesmo tempo tão mórbida.

Uma contraversão ótima. Além disso, o interessante é perceber que apesar de ser um tema macabro, há contido uma pitada de lirismo, ouso dizer que chega a ser lindo. A maneira como descreve cada situação, cada passo nessa dança incessante é explêndido, não poderia imaginar nada melhor do que o que presenciei.

Muito bom, Manu!

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Postado 09/09/17 18:21

Srta Pam, ler um comentário desta magnitude vindo de uma das autoras que mais admiro neste site é simplesmente recompensador! Gratíssimo! Gratíssimo!

Postado 10/09/17 10:22

Olá Diab!!

Essa foi, com certeza absoluta, a obra na qual você mais usou palavras carregadas de uma lindeza tangível, e sanguinolentamente brilhante... de uma beleza profunda e sensível, e horrivelmente amarga e melancólica...

Sim, esse texto foi o ápice! E a garota foi a personificação de todas essas carregadas palavras!! A garota foi o que de mais lindo e triste você poderia criar e descrever!

E por falar em descrever... cara...

Tudo o que foi descrito com tanta intensidade nesse texto, me fez marejar os olhos... Foi tudo tão intenso! Tão intenso!! Tão lindo!! E tão triste...

Parabéns senhor Diablair...!!

Você superou todas as suas barreiras e todos os seus limites com tal obra!! <3

Um abraço...

Srta. Yukari...

Postado 10/09/17 16:12

Srta Yukari, se por um lado estou profundamente orgulhosoe feliz pela honra de tão intenso feedback, por outro, sou obrigado a discordar da senhorita no quesito superação (ao meu ver, logicamente).

Nada que fiz ou farei vai superar uma certa obra que postei há séculos aqui... Nada.

Muitíssimo obrigado, de todo o meu maldito e vazio coração! Gratíssimo! Gratíssimo!

Postado 20/12/17 11:29

Olá, Diab.

Primeiramente, estou muito "descontento" com vossa pessoa por ter introduzido nas minhas faculdades mentais tal música, a qual a muito não a tinha como chiclete em minha cabeça. Lamentável, hahaha. Felizmente, é uma boa música.

Segundo, que bela obra! Novamente, com uma analogia muito apropriada para o texto e para a mesnagem, você trouxe ao leitor de forma contudente a depreciação humana acontecendo em nossas frentes. É impossível não viver a cena enquanto narrador nos conta como ela, a garota, se via triste e buscando o fim de tal angustia.

Por fim, agradeço à oportunidade por ler tal texto e parabenizo-te pela qualidade da obra. Está demais!

Postado 20/12/17 14:39

Muitíssimo obrigado pelo feedback tão positivo, Sr LEcrivain. Gratíssimo!