Formule ódio e perdão na mesma frase
Maria Vitoria
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/08/17 14:09
Avaliação: 9.84
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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[Texto Divulgado] "Fantasma" um sentimento com hábito de persistir - você arranha as margens do fim. 
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho
Capítulo Único Formule ódio e perdão na mesma frase

Reflito todo esse vazio que sinto com relação às mulheres, de uma forma que explique toda uma ausência afetiva, amorosa, zelosa e cuidadora da qual eu não obtive em minha infância. As mulheres que coloco hoje em minha vida e as quais eu deixei adentrar meu mundo foi um pedido de socorro, ou melhor, um tampa, para que toda a minha falta de um processo infantil burlado, fosse suprido à base de sexo, relações conturbadas, traição, mentiras, lágrimas, abandono e solidão.

Por anos me indaguei e ainda me indago, sou eu quem expulsa as mulheres ou são elas que saem da minha vida sem eu pedir? E perante essas questões, o que faço eu além de ter um coração partido quando uma novidade se vai e ter o ego corrompido quando uma novidade me nega carinho, amor, reciprocidade, respeito, fidelidade?

Temo o abandono e claramente isso se reflete em meu ego, isso nada mais é do que minha necessidade de tampar os buracos feitos pelas ausências afetivas maternas e paternas em meu peito. Quando uma garota se vai, choro por horas profundamente, mas sem levar em conta que o ultima adeus foi meu. Eu as culpo pelo abandono, eu desejo mortes lentas, eu desejo sua infelicidade, eu me martirizo, me flagelo, torturo-me cruelmente em minhas memórias, expulsando as emoções para que elas não amenizem todo o ódio que eu sinto.

Minha mãe nunca foi presente, em minha infância não tive quem contasse historias, quem curasse meus joelhos ralados ou me ajuda-se a vencer o medo do escuro. Cresci sem pai, isso me moldou, ajudou a ser quem eu sou: fria, vazia, abandonada, depressiva, insegura, tímida, fóbica, alcoólatra, rocha permanente.

Lembro-me de um dia em uma das sessões com minha antiga psicóloga que ela me perguntou sobre o que eu sentia em relação ao meu pai que eu nunca havia conhecido, e tudo o que eu pude lhe responder foi: vinte minutos de lagrimas incessantes e só. Numa outra sessão ela me perguntou o que eu sentia com relação a minha mãe, e tudo o que eu pude lhe responder foi: não quero ser como ela. Não serei como ela.

Reprodução, tudo o que somos esta classificado nesta palavra; reprodução. Nascemos, crescemos, aprendemos, vivemos, morremos, tudo em detrimento das reproduções familiares, escolares e sociais. É aquele velho ditado: “a vida ensina”, e eu sim, aprendi e ainda aprendo com a vida, somente com ela.

Não condeno meus pais pelo abandono ou pela falta de afeto, carinho, amor ou atenção, longe de mim condenar outro ser humano, logo eu, reles mortal pecadora. A única coisa pela qual me lamento aqui é por minha própria covardia, o meu medo de reagir, de dar o próximo passo, o medo de se olhar no espelho e se questionar: Quem sou eu afinal?

Lembre-se: a vida ensina, mas ela também cobra, e cobra caro.

A solidão sempre foi meu berço, minha manta, meu leite materno, minhas velas de aniversario, minhas reuniões de pais, minhas bonecas de louça, meus vestidos, meus cabelos embaraçados, meu excesso de peso, minha sexualidade, meu bulling, meus maltratos físicos e psicológicos, meu corpo tocado por um adulto aos seis anos de idade, meu primeiro beijo com uma menina aos sete, o racismo pedagógico aos treze, com as drogas aos quinze, com a primeira tentativa de suicídio aos dezesseis, com minha primeira relação sexual aos dezenove, com uma mulher, com minha segunda tentativa de suicídio aos vinte e seis, com meu tornozelo quebrado e reconstruído com placas e pinos que esfriam em dias frios.

A solidão, o ego, o abandono e a dança diária com a morte vêm daí, de grande parte disso tudo e um pouco mais. O não merecimento, o não pertencer, o fato de não poder ser você, isso é mais pesado do que a fome, do que a guerra, do que as doenças terminais. Uns vão dizer que o câncer e as atrocidades mundanas são bem piores do que a dor de não se reconhecer perante o espelho, mas questiono e rebato: alguém já se perguntou do “quê dos porquês?” Nunca, jamais, meça uma dor.

Levo meu corpo e meu coração pela vida esperando um dia encontrar saída para meus conflitos internos, almejo grandemente uma cura, uma poção mágica ou quem sabe uma salvação.

Pensei eu, enquanto enxugava duas lagrimas refletindo sobre o porquê algumas garotas se vão... Será que são os desencontros? Será que sou tão detestável e todas que disseram que me amavam, na verdade me odiavam? Será que eu sempre vou rastejar pelo amor e atenção das mulheres? Por que com algumas é mais fácil deixar partir e outras se tornam uma situação insuportável? Sei lá, penso agora que tudo tem a ver com perdão. Com saber se perdoar antes de perdoar o outro.

Escrevendo sobre essas questões agora, sinto meu coração leve, não sinto mais o ódio e a dor causados pelo abandono e pela necessidade de carinho e afetividade que eu estava sentindo há quarenta minutos atrás, e isso é bom, isso tem uma palavra, na verdade duas: “Perdão e Progresso.”

Quem sabe, um dia isso esteja estampado na bandeira de algum país...

Por fim, eu amos as mulheres, por mais que vez ou outra elas fodam com meu coração. Eu amo meus pais, por mais que eles tenham fodido com minha criação e minha sanidade. E eu ainda estou aprendendo a me amar antes que a vida me cobre, antes que a vida me ensine que já é tarde demais.

❖❖❖
Notas de Rodapé
Apreciadores (7)
Comentários (7)
Postado 28/08/17 14:24

"Uau!" Foi a primeira coisa que veio na mente quando terminei de ler. Estou tentando buscar palavras, mas me parece um pouco complicado de achar.

Eu meio que entendo parte desse sofrimento. Quer dizer, cresci se um pai, sofri bulling, não tinha amigos... essas coisas. Mas para mim funcionou diferente. Muitas vezes dizem que sou fria, ok, mas acho que com o passar do tempo eu aprendi a não me importa com essas coisas e apenas deixar tudo para lá.

O que eu mais penso é: Eu não preciso. Nunca precisei.

Esse é praticamente um lema na minha vida. Acho que torna as coisas mais fáceis. Um amigo uma vez me disse que as pessoas me tem, mas eu não tenho elas, pois assim, se algum dia eles me abandonarem, eu vou conseguir dizer para mim mesma que eu não me importava tanto assim e que está tudo bem ser abandonada por que não vai fazer diferença alguma na minha vida. Na época eu achei um exagero, mas agora, parando para pensar, é praticamente isso.

Eu não sei bem o que estou tentando dizer, então acho melhor parar por aqui antes que as coisas fiquem mais confusas... x.x

É um ótimo texto. Uma ótima reflexão. Parabéns.

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Postado 29/08/17 07:23

Não ficou nada confuso. Pelo menos pra mim. Me identifiquei muito...

Postado 29/08/17 07:24

Não tava esperando ler algo tão forte essa hora da manhã. Pelo título achei que seria um poema sobre família ou amizades... Uma grande surpresa.

Estou sem palavras para o seu conto.

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Postado 29/08/17 10:52

Moça...

Com toda certeza tivemos infâncias e vidas diferentes, completamente diferentes.

Amor da minha mãe nunca me faltou. Nem do meu pai. Nem mesmo quando os dois se separam faltou amor.

Apesar disso, sempre fui a criança que atraia as piores "amizades", no prézinho um moleque que fazia minha curta vida um inferno. Na primeira série a turma inteira que não dava bola pra mim, e me olhavam com nojo por causa de uma inflamação na pele perto da minha boca.

Mudei de escola. Estava tudo indo bem na segunda série. Quando do nada tudo ficou horrível na terceira. Eu nunca vou entender como que de um dia pro outro as crianças começaram a abrir meu estojo e jogar tudo que tinha dentro dele no lixo, pegar meus cadernos e rabiscar as folhas já escritas, e rasgar as em branco.

Mudei de escola. Quarta série e até que as coisas iam bem, e fiz uma amiga que ficou ao meu lado por muitos anos (até ela começar a namorar e esquecer todos os amigos).

Para a quinta série mudei de escola, e foi o maior inferno de todos. Uma menina por quem eu tinha me apaixonado fingiu ser minha amiga só para poder se aproveitar de mim. E como se aproveitava... No final foi um pandemônio no qual até a mãe da menina estava envolvida e ameaçava eu (uma criança) e minha mãe de morte.

Mudei de escola para terminar a quinta série. E foi tudo lindo até que umas meninas começaram a me chamar de sapatona e ninguém querer ficar ao meu lado. Menos uma menina, ela permaneceu por muitos anos, mesmo quando ela namorava com alguém ela não se esquecia dos amigos.

Sexta série foi mais de boa. Mas no fim do ano estava tudo insuportável e mudei de escola.

Sétima série foi a melhor do ensino fundamental... conheci minha melhor amiga e meu melhor amigo. Me apaixonei pelo primo dessa minha amiga. Obviamente deu errado por sermos tão crianças, mas tudo bem porque foi bonitinho.

Na oitava série entraram outras crianças na classe, e viramos um grupo de 5 amigos. Ainda somos amigos até hoje, mas sento falta da presença física deles.

Primeiro ano do ensino médio mudei de escola. E foi a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. Apesar de alguns contratempos chatos. Como uma menina que fingia ser minha amiga e só me fodia. A namorada dela que se tornou minha melhor amiga até hoje. O primeiro beijo com um menino e depois o primeiro beijo com uma menina.

O segunda ano foi o mais chato, pois por algum motivo eu tinha brigado com a minha amiga.

O terceiro foi tão bom! Somente uma amiga. Mas sempre e sempre, desde o primeiro ano, a amizade muito boa e reconfortante de professores e professoras. No terceiro essas amizades se intensificaram. Sou extremamente grata por isso...

Agora faço cursinho... espero ir para faculdade logo. Ou não. Tenho tanto medo de ser a excluída, a esquisita, a perseguida. Que horror.

Meus pais sempre estiveram do lado. Em tudo isso. Mesmo quando eu contei que também gostava de meninas. Sou muito grata por isso...

Enfim, perdão mas eu disse tudo isso simplesmente eu nunca tinha contado tudo isso pra ninguém antes... e do nada me deu uma vontade de botar tudo pra fora... desculpa viu...

Sabe moça, eu te admiro muito... Uma admiração ardente! Sinceramente eu espero que você encontre a felicidade. Espero que em meio a todas essas garotas que foram embora da sua vida, alguma algum dia permaneça, e te faça feliz, e você faça ela feliz! Você já se fodeu demais na vida... merece coisas boas... Eu acredito nisso Maria Vitoria! <3

Um abraço exageradamente gigantesco...

Meiling...

P.S for Diablair for Diablair #ad01-34

Postado 31/08/17 14:42

Confesso que a vontade que tive de ler essa obra surgiu pelo interesse no título, que convenhamos, é bem instigante. Pois se formos parar para analisar, são em casos extremos que podemos formular em uma mesma frase os dois sentimentos: ódio e perdão; afinal, palavras com esse significado tão forte não devem bater de frente com elas próprias, isto ocorre em casos fortes.

Casos como este que o narrador nos mostra, caso esse, inclusive, que é a realidade de muitas pessoas. O abandono têm como consequências justamente isso: moldar a pessoa a partir da situação que ela vive, por isso normalmente são aquelas que não demonstram facilmente seus sentimentos, todavia, são os que mais necessitam. E uma das morais que se pode extrair desse texto é: cada vida é uma vida; cada caso é um caso.

Não é todo abandono que gera uma criança insensível, não é todo âmbito familiar e carinhoso que gera uma criança de bom caráter, e compará-los é matar a criança em si, pois cada um tem a sua maneira de ver a vida, a própria maneira de lidar com suas próprias dores. Uns se isolam, outram sorriem, outros preferem chorar, e outros procuram se esquecer no prazer da carne. Estão errados? Não. Apenas lidam da maneira que lhes convém.

É como dito: a vida se encarrega de ensinar. E fica a critério de cada um como lidar, encarar e aprender cada lição.

Belo texto, moça. Uma reflexão infinita não sou do "eu", mas também da sociedade como um todo.

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Postado 31/08/17 20:59

Srta Vitória, sou um dos poucos autores que escreve, prefere e admira o terror/horror. Mas, como eu disse algumas vezes para algumas pessoas, nada é mais aterrorizante e/ou horrendo que a vida "real". Eu realmente não consigo formular um comentário digno de algo tão intimista, ainda mais depois das palavras das demais leitoras. É o tipo de obra cujo impacto ecoa na mente e na alma...

Realmente, me sinto imerso em reflexão e alguns tipos de sentimentos após uma leitura tão intensa... E tão pesarosa. Requer muita coragem expor a dor e as feridas desta forma e por isso a parabenizo e admiro muitíssimo!

Atenciosamente,

Um ser que se odeia e não se perdoa, Diablair.

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Postado 15/01/18 02:21

Texto incrível! Parabéns ❤

Postado 20/01/18 23:37

Ótimo texto! Meus parabéns, moça!