Os Coelhos Tristes
Holzwarth
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 13/11/17 14:02
Avaliação: 9.9
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 5
Comentários: 4
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Palavras: 364
[Texto Divulgado] "Os momentos que precedem" Quando o ar gelar, o piso ranger e seu coração disparar, não se preocupe, caro amigo!
Não recomendado para menores de catorze anos
Capítulo Único Os Coelhos Tristes

O gato está no canto da sala, querida, a olhar-nos com seus olhos de diamante. O gato olha os coelhos tristes, olha para mim e olha para você e olha para todos nós com seus olhos de diamante, sacudindo a cauda diabolicamente. O gato, querida, olha para cada um e sacode a cauda, fitando-nos com seus olhos de diamante, fitando nossas vidas e nossa tristeza, fitando os coelhos tristes e sem alma.

Querida! veja os coelhos tristes! Tão brancos e tão pretos e tão cinzas! Todos eles são coelhos e todos nós somos coelhos, somos tristes e somos brancos e cinzas e marrons e rajados.

O cão está no canto da sala, querida, olhando-nos com seus olhos burros. Ele agita a cauda e late e bate o queixo e os dentes enquanto olha para nós. O cão nos olha e sabe que somos tristes e que não temos alma. O cão nos olha, querida, e sabe que a culpa é toda nossa. O cão tem olhos burros e nós temos culpa.

Querida! veja os coelhos tristes! Apavorados em seu canto perante a fuga de nossos corações! Eu sou um coelho e você é um coelho, querida. Não temos coração e a culpa é toda nossa.

A raposa está no canto da sala, querida, olhando para nós com seus olhos astutos. A raposa lambe os lábios, os dentes, o queixo, sem tirar seus olhos astutos de nós. A raposa olha os coelhos tristes e lamenta a minha culpa, lamenta a sua culpa, lamenta a nossa culpa, querida. Ela lamenta nossas almas perdidas e nossos corações fugidos e nossa culpa. A raposa tem olhos astutos e os coelhos são todos cegos.

Querida! veja os coelhos tristes! Acuados perante os sons de sua morte! Amedrontados pelo som dos ossos que se quebram e das vidas que se vão. Os coelhos tristes estão com medo, querida, porque suas vidas se esvaem nas presas do gato, do cão e da raposa. Os coelhos tristes estão com medo e eu estou com medo e você está com medo, querida, porque somos vermelhos e rubros e rubros e vermelhos, manchados pela nossa culpa e pelo nosso sangue e pela nossa morte.

❖❖❖
Notas de Rodapé

em comemoração ao retorno da academia de contos

Apreciadores (5)
Comentários (4)
Comentário Favorito
Postado 13/11/17 15:40

Eu não me surpreenderia nem um pouco se daqui a cinquenta anos, este delírio poético magestoso seu aparecesse naqueles livrões "Os 100 melhores contos Brasileiros dos anos 2000".

Você tem um espírito animal, percebi isto aqui e naquele teu conto dos cães na neve. Adoraria estar dentro da sua mente para saber o que te levou a escrever isso. Adorei, você tem uma forma peculiar na escrita, um sarcasmo dormente, uma melancolia risonha, é como se eu desse corda aos meus delírios quando eu leio esse seu texto.

Nós somos coelhos. Eu sempre soube.

Quando eu era criança, não que isso te interesse, eu tinha muitos coelhos, e eu sempre achei eles tristes, obrigada por este conto, obrigada por me lembrar dos meus coelhos.

Parabéns mesmo! Me identifiquei de uma forma engraçada com tudo isso.

Postado 14/11/17 21:23

Me sinto meio incapaz de responder esse comentário, sinceramente. É um elogio grandioso por si só, e mesmo que eu não o responda propriamente, gostaria que soubesse que eu o aprecio muito.

Tenho a mania de colocar animais em tudo, é verdade. Gosto de retratá-los e de personificá-los e de dar uma consciência para eles, é uma zona confortável para mim. Sempre que sinto muita tristeza, muita raiva ou quando estou muito desapontado, escrever textos assim é como uma terapia estranha, em que nem mesmo eu sei se estou falando sério.

Para mim, os coelhos sempre foram animais tristes, eu vejo a tristeza nos olhos deles, naquelas orelhas grandes e felpudas. Sempre quis ter um, mas minha família só se ateve aos cachorros e aos gatos — uma pena, eu diria.

Todos nós somos coelhos tristes, escondidos num canto da sala esperando que os predadores nos devorem.

Muito obrigado, de coração, pelos elogios e pelo comentário!

Postado 13/11/17 21:56

Eu leio, releio, leio de novo e sinto-me maravilhada pelo o que acabo de ler, reler e ler de novo. Realmente, as palavras que acabo de absorver são inebriantes, sarcásticas e magistrais, pois relatam bem o que somos na mais profunda essência: coelhos medrosos e cheios de culpa, apavorados com a morte.

As repetições das palavras tornam o texto rico em seus diversos eixos. São arranjos que tornam a leitura prazerosa e ressalta bem o tom irônico que revela, mas esconde, a verdadeira mensagem passada.

Lhe parabenizo por esta obra maravilhosa e pelo enorme talento que tens!

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Postado 14/11/17 21:50

Gosto de colocar os animais no meu texto, porque, em algum lugar da minha cabeça, ouvi dizer que eles representam a gente muito melhor do que nós mesmos. Temos medo dos predadores que não conseguimos enxergar, e que ganham formas medonhas em nossas mentes.

Agradeço imensamente pelo comentário e pelos elogios!

Postado 14/11/17 19:37

Olá Sr. Holzwarth!!

Fiquei com muito medo de você desaparecer, devido ao longo tempo que a Academia ficou desativada, e então eu nunca mais poder ler um texto seu...

Mas você voltou!! Fico feliz!!!

Agora vamos ao texto:

Fantástico! Incrível! Maravilhoso!

O seu jeito de escrever é completamente fascinante!!

Eu amo o modo como você envolve os animais nos seus textos! Você consegue transmitir tanta coisa com a sua escrita, que é incrível demais...

Acho que nada nunca vai superar a Baía dos Cães Mortos para mim, mas Os Coelhos Tristes chegou bem perto!!

"O gato, querida, olha para cada um e sacode a cauda, fitando-nos com seus olhos de diamante, fitando nossas vidas e nossa tristeza, fitando os coelhos tristes e sem alma." - Essa frase foi tão profunda e tão assustadora...

"Não temos coração e a culpa é toda nossa." - É uma horrível porém verdadeira sentença...

"Ela lamenta nossas almas perdidas e nossos corações fugidos e nossa culpa. A raposa tem olhos astutos e os coelhos são todos cegos." - Tanta tristeza e tanta amargura... Uma melancolia incurável, uma cegueira inevitável...

O gato com seus olhos de diamantes, o cão com seus olhos burros, e a raposa com seus olhos astutos... Três maravilhosas personificações, que irão me acompanhar como fantasmas, para me fazer lembrar do seu texto a cada vez que eu ver um desses animais...

Se eu conseguir ver...

Os coelhos são cegos...

"porque somos vermelhos e rubros e rubros e vermelhos, manchados pela nossa culpa e pelo nosso sangue e pela nossa morte." - A frase que eu mais gostei... A mais intensa na minha opinião...!

Parabéns pelo texto, moço!!

Um grande abraço,

Meiling!

Postado 14/11/17 22:11

Olá!

Esperei ansiosamente pelo retorno da Academia, acessando o endereço todos os dias, persistindo e tentando bravamente numa espera que parecia infinita até o site voltar, de repente [risca]não mais que de repente[/risca].

Aprecio seus elogios! Me sinto feliz que tenha gostado do conto e da forma como eu escrevi. Estava tomado por uns sentimentos ruins, daqueles que vêm do nada e vão se embolando e nos obrigam a cuspir fora ou a engolir para sempre. E eu fui lá e engoli e escrevi, aceitei o meu destino como um coelho triste no canto do quarto.

A figura do gato foi baseada em um dos meus bichanos, que balança a cauda como se quisesse cometer um crime a cada instante que passa. Digamos que eu o adoro, sinceramente.

A última frase, para mim, foi um grande desafio. Queria fechar o texto de uma vez só, acabar com ele por ali, e não diria que foi um parto, mas exigiu um pouco mais de mim. Fico feliz que essa frase, em especial, seja a sua preferida, porque ela é a minha também.

Mais uma vez, obrigado pelos elogios e pelo comentário!

Postado 19/11/17 21:56

Posso estar viajando feio agora, mas juro que ao ler este texto senti como se fosse algo na vertente de um dos poucos livros que li em minha miserável existência: "A Revolução dos Bichos" (não me recordo quem escreveu, perdoe minha eterna ignorância).

Como meu grau de interpretação de textos beira ao ridículo, prefiro mantê-la para mim. Todavia, deico claro que gostei bastante de sua obra (mesmo talvez tendo entendido tudo diferente/errado).

Parabéns e muito obrigado pela postagem, Sr Holzwarth!

Atenciosamente,

Um verme entristecido, Diablair.

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