Punheta tântrica
Ovni Cius
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 20/03/18 14:20
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 3min a 5min
Apreciadores: 1
Comentários: 3
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Palavras: 639
[Texto Divulgado] "A noiva" Com uma taça em mãos e olhar voraz, se flagrava confortável por não ter alguém ao seu lado prometendo o que não é capaz de cumprir. Observava a concentração do pianista, as velas agora já derretidas na bancada e o sorriso que iluminava o belo rosto da noiva.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Punheta tântrica

Cá estou, encurralado em meio a essa curriola de demônios, partes de mim, de minha personalidade, fragmentadas, loucas e perversas, saltitando pra cima e pra baixo em meu cérebro, impedindo que eu desfrute de qualquer paz, qualquer descanso que seja, enquanto o dia lá fora está fechado, cinza, a chuva ameaçando cair, o céu ameançando desabar, o futuro promotendo desgraças, indescritíveis moléstias, pior do que qualquer coisa que você possa imaginar, realmente uma multidão de misérias, e elas chegarão todas bem penteadas, trajadas a rigor, prontas para acabar com tudo, com tudo...

Ligo para M., esse meu amigo pernambucano; e papo vai, papo vem, ele me pergunta se segui o conselho dele, eu digo:

"Sim, sim, segui, absolutamente."

"E aí?"

"Bem, e aí que... enfim... punheta tântrica, bicho, é difícil isso, o goza ali na ponta do pereréu, do paticubaco, do penisvaldo, e não pode sair, e isso é tenso, rapaz, depois passa, sim, sim..."

"Sim, o tesão passa. É isso rapaz: é um treinamento... autocontrole..."

Papo vem, papo vai, e eu pensando cá comigo: deus, como sou estúpido, e limitado, e humano. Deus, como gostaria de ser outra pessoa. Quem sabe, hein? Um dinheirinho a mais cairia bem. Diabos, não me importaria de ser um bilionário, de estar acima do bem e do mal, de possuir uma fortuna e uma quase onipotência. Mas não, não; tive que nascer pobre, tive que calhar de ser um escritor, um péssimo escritor, um ranzinza pessimista, lambedor das próprias feridas, punheteiro tântrico, maconheiro nato, alcoólatra irreparável. Não, Deus, não estou reclamando, de modo algum. Não, só estou ruminando, sabe como é. Tentando entender a lógica da geografia. Sim, pois se trata de geografia: se eu tivesse nascido na Avenida Koeller, por exemplo, seria um rico, quiçá estaria estudando em Cambridge. E se eu tivesse nascido na Rocinha, seria um miserável, quiçá já teria morrido de bala perdida. Está me acompanhando? Trata-se de geografia. QUEM DECIDIU ISSO?

"Ninguém decidiu nada", diz M. quando eu contei o que estive pensando. E continua: "É tudo aleatório, o mundo, a porra toda. Uma cusparada de Deus e pronto: nasceu essa merda toda, e cá estamos, compartilhando memes no Facebook, afundados num país de merda, governados por loucos carniceiros e corruptos... É isso... E em breve as máquinas dominarão, e haverá cataclismas tenebrosos, continentes partindo ao meio, novas epidemias de PESTE NEGRA, e os poetas continuarão cantando a respeito do amor-próprio, o maldito amor-próprio, do tipo: ame a si mesmo antes de amar alguém. OK, POETAS, OK, EU JÁ ENTENDI. AGORA VOCÊS PRECISAM ME LEMBRAR DISSO TODO SANTO DIA ENQUANTO EU DESÇO A TIMELINE DO FACEBOOK DESEJANDO VER ALGUM FOGO, ALGUMA COISA TURBILHONANTE QUE ME ARRANQUE DESSE NADA, DESSA INAÇÃO, DESSE ABISMO, E ME LANCE DE CARA NUM OUTRO MUNDO, COLORIDO E ALUCINANTE, ONDE AS PESSOAS GRITAM, E FALAM EXATAMENTE AQUILO QUE SE PASSA NA CABEÇA DELAS, COM UM BRILHO DIAMANTINO DE HONESTIDADE E PUREZA E INSPIRAÇÃO????"

Bem, disse a M. que também estava farto e que iria sair pra comprar maconha, porque a certo ponto é preciso sair e comprar maconha — a realidade é simplesmente intolerável com toda essa lucidez que nos faz ver as horas passando e a proximidade inevitável da morte — a morte em todos os sentidos: o rompimento de laços, o afastamento de amigos, esse estar à parte do mundo, sozinho, babando, enlouquecendo em torno da própria órbita, egocentricamente talvez, mas afinal temos uma cabeça e afinal isso nos pesa e é natural que giremos em torno de nós mesmos, obsessivamente, procurando o fundo dessa existência, o fundo de si-mesmo, que é tão incompreeensivelmente obscuro como o ânus de um cavalo correndo furioso numa montanha longínqua na Dinarmarca ou a singularidade de um buraco negro que está lá na porra do espaço sideral sem nem sequer saber que está lá — ele apenas está.

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Apreciadores (1)
Comentários (3)
Postado 22/03/18 09:51 Editado 22/03/18 09:52

Quanta depressão, meu Deus! Recomendo ao personagem a procura de um psicólogo ou de um policial para se conformar com a vida e ser mais feliz.

Postado 09/06/18 21:43

Confesso que fiquei levemente chocada com a leitura. Eu apoio totalmente a ideia do personagem buscar um psicólogo.

Postado 20/10/18 00:59

vc é incrível.hum

eu venho encucando com esse negócio da geografia tb

a língua, o condicionamento etc , os "danos" ?nas estruturas cerebrais.

tanto faz. há muita coisa pra estudar e meus planos constantemente me afogam.