Nunca façam sushi em casa
Allen Silva
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 11/04/18 11:51
Tags: sushi
Avaliação: Não avaliado
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[Texto Divulgado] "Pisoteadores" Estou cansada, a vida é um eterno, grande e último suspirar.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Nunca façam sushi em casa

Sou apaixonado por sushi, tem gente que não curte muito e tem gente que não curte nada.

Bom o fato é que o sabor é diferente de tudo o que existe no mundo gastronômico, é só olhar pra mim pra ver que sou muito experiente nesse negocio de comida.

Conheço gente que não suporta sushi, mas nunca colocou na boca. Comer sushi é igual ser preso, lá pela terceira vez tu já tá acostumado e ai é só correr pro abraço.

Só que é o seguinte: é caro pra cacete comer sushi, eu e me filho vamos e gastamos no mínimo uns 80 conto. Lá no Meks, com 40 pila a família inteira janta e ainda é um baita de um X salada top de linha.

Mas tem hora que o corpo quer comer sushi e ai somos obrigados a matar a vontade. Mas a grana tava curta então resolvi comprar os ingredientes e fazer em casa.

Fui no mercado com uma receita que peguei na internet e me joguei nas compras.

O arroz tem que ser japonês, e pensa num arroz caro. Se só tivesse ele era mais barato comer camarão e feijão. Comprei um vidrinho de molho shoyu que é tipo um molho de farrapo deles lá, sem o qual o sushi fica simplesmente horrível. Pode tirar o arroz, o peixe , mas o shoyu tem que ter.

Aproveitei que estava na seção japonesa do mercado que se resume a uma prateleira menor que a minha geladeira e comprei um litro de saquê. Claro, já que o jantar era temático, a birita tinha que ser também! Vou dar uma dica, comprem acetona, tem o mesmo gosto e é mais barato.

Pronto, já tinha quase metade das coisas, agora precisava de uma esteirinha pra enrolar o bendito, ali já morre uns 10 pila, tive que comprar também folhas de alga, palitinhos e um potinho pra colocar o shoyu dentro.

Nessa pegada eu já tinha gasto o equivalente a dois dias de sushi, mas tipo, dois dias de comer até o mestre sushizeiro.

Ai partimos pro recheio, fui direto na prateleira dos peixes procurar o salmão. Gente do céu, o salmão é feito do que? Cacete, que bicho mais caro, tá mais caro que cachorrinho de raça. Juro, pra pagar 50 reais no quilo do bicho, ele devia pelo menos vir vivo pra gente aproveitar um pouco a companhia dele.

Nessa hora eu já tava pensando em fazer um sushi vegetariano com umas cebolinhas e tal, mas fui convencido pelo meu estomago a comprar o peixe.

O ideal é que seja peixe fresco, mas na nossa região eles tão tudo aposentado já. Comprei o bicho chorando e contando as moedas.

Cheguei em casa e montei toda a estrutura pra fazer o sushi.

Meus amigos, nunca tentem fazer isso em casa! Você cozinha o arroz que é igual milho de pipoca. Coloca um pouquinho e ele se multiplica, toma vida e quando você vê, ele tá tirando a tampa da panela e fugindo pela cozinha. O arroz japonês é assim.

Tive que correr e pegar outra panela pra dividir. Além do mais ele vira uma papa do tamanho do mundo. Aquilo gruda de um jeito que tu tenta tirar de uma mão e suja as duas. Dá pra levantar uma parede com aquela gororoba.

Deixei o arroz descansando e fui descansar também. A gente tava bem cansado depois de lutar meia hora um contra o outro, ele tentando fugir e eu empurrando ele pra dentro da panela.

Levantei e fui fazer o molho que dá aquele gostinho no sushi, não tem muito segredo não, o esquema é o seguinte.

Pega açúcar e coloca numa panela, leva pro fogo até ele derreter.

Não tem segredo pra uma pessoa normal, só nesse processo ai eu ganhei umas 4 queimaduras.

Depois que o açúcar derreter, coloca vinagre e sal e deixa ferver. Gente, isso forma uma nuvem química na cozinha que parece a vez que misturei cloro com um produto que chama limpa obra. A vizinhança inteira ficou sem respirar uma semana. Fica um cheiro de azedo que vocês não tem ideia.

Nessas alturas do campeonato a vontade de comer sushi já foi pro saco, mas sou brasileiro e não desisto nunca.

Deixei tudo prontinho, o salmão cortadinho, em fatias quase transparentes que é pra render mais. Separei o creme de queijo, que na verdade é um requeijão com outro nome pra ser mais caro, uns pedaços de cenoura, também pra render mais e umas balinhas MM´s pra inventar uma moda diferente.

Isso me lembrou uma vez que tinha visita lá em casa e eu falei que ia fazer um bolo. Fiz uma nega maluca com cobertura de queijo ralado com chocolate e servi para as visitas. A mãe quis me matar! Ô mais era massa ver o pessoal comendo, fazendo cara de nojo, mas dizendo que tava bom. Hoje essas mesmas pessoas comem pizza doce com queijo e não reclamam kkkk

Bom, voltemos ao sushi. Estiquei a esteira, estava com a mão molhada pra me livrar do arroz e ele não grudar nos dedos. Peguei a alga marinha e ai foi outra luta. Sabe quando você tá fazendo um trabalho delicado com fita adesiva e ela gruda numa mão ai você vai com a outra pra desgrudar e ela gruda na outra também? A alga na mão molhada é assim.

Depois de 2 minutos me resolvi com a tal da alga e comecei a espalhar o arroz, com muito custo, diga-se de passagem.

Coloquei os ingredientes, um filetezinho de peixe, muitaaaa salsa, cenoura pra imitar kani e fechei.

O sushi na verdade é um bastão de uns 30 centímetros, é tipo um mini rocambole, e depois você corta ele em pequenas fatias pra poder comer de uma vez só. Sim, sushi que se preze tem que caber inteiro na boca. Nãoooo, não o com 30 centímetros, mas o cortadinho já.

Gente, eu errei na medida do arroz e fiz uma camada um pouco exagerada de forma que meu primeiro sushi ficou parecendo uma roda de patrola de tão grossa. A galera lá em casa me olhou com uma cara de: Puta merda que negócio horrível, quero ver ele comer isso ai agora.

Eu não sou de fugir da luta, então tive que mostrar que sabia o que estava fazendo, abri a boca no máximo que consegui, tipo aquelas cobras que vão engolir um boi inteiro. Mirei a reta e fui aproximando. A distancia entre eu e o sushi ia diminuindo e já dava pra ver que não ia caber tudo numa viagem só, mas eu era homem macho e tinha que mostrar força.

Empurrando daqui e dali, consegui, mas o problema é eu fiquei sem espaço pra mastigar. A turma toda me olhando e eu naquela luta esperando o sushi se desintegra um pouquinho pra eu ir comendo ele.

Pra piorar o tempero que eu fiz, ficou horrível e quando misturou com o shoyu ficou pior ainda. Parecia que eu tava no dentista, com a boca aberta e aqueles produtos horríveis. Na verdade meu sonho era que alguém dissesse: Pronto, pode cuspir fora.

Resultado: ninguém comeu o sushi, o peixe comemos em 30 segundos, a salsinha ficou pro feijão do outro dia e o arroz que sobrou eu fiz uma casinha pro cachorro.

Ah, eu já estava esquecendo o saquê, só tem uma coisa que ele faz melhor que acetona: Tirar o esmalte da unha!

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