Amor, um substantivo difícil de definir.
Scheffer
Tipo: Lírico
Postado: 15/04/18 10:19
Editado: 09/09/18 13:50
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Capítulo Único Amor, um substantivo difícil de definir.

Como é que se descreve aquilo que não se vê? Que apenas sentimos? Podemos generalizar o amor, ou ele aflora dos mais variados modos, das mais variadas formas? Existiria um ponto em comum, o qual todos pudéssemos abordar?

Na obra “O Banquete”, Diálogo entre Diotima e Sócrates, Platão consegue tornar o amor em um Deus: Eros. E o descreve de modo inteligentemente peculiar:

“Não sendo de natureza mortal nem imortal, floresce, vive no próspero, morre e revive num mesmo dia, graças a natureza do pai. Escapa-lhe, entretanto, sem demora, o que alcança, da sorte de Eros jamais empobrece nem enriquece. Ocupa o lugar entre o saber e a ignorância.” Platão

Outro exemplo literário que pode ser citado, na tentativa de descrever e compreender o amor é o soneto de Camões:

“Amor é um fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca se contentar e contente;

É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luis Vaz de Camões

Com estas duas referências, já podemos sentir que o amor, não é lá um sentimento que se descreve simplesmente: é complexo, complicado e instável. Mas, tentarei deixar aqui, minha percepção sobre este tema, vamos lá:

O que é o amor, e por que você ama alguém? Ao menos para mim, amor é um sentimento de cuidado e desejo. Acredito que se traçássemos uma linha, analisando todos os nossos amores (abordando aqui o amor romântico, eros) durante toda a vida, possivelmente, encontraríamos algumas características semelhantes, as quais poderíamos apontar como propriedades, que nos fazem sentir atração por alguém.

Caetano Veloso apresenta uma música que pode contribuir para este comentário, chamada Sonhos, que diz assim:

“Tudo era apenas uma brincadeira

E foi crescendo, crescendo, me absorvendo

E de repente eu me vi assim,

Completamente seu.”

Caetano Veloso

Analisando a música, parece que neste caso, o amor surge de um sentimento irracional, ou seja, de uma brincadeira sem motivo. A questão que desejo apresentar é que o fato que faz Caetano se apaixonar, acredito ser sim, fatos com motivos. Por mais que o amor derive de uma consciência, digamos, mais primitiva, arrisco dizer que sempre existe um porquê, mesmo que inconsciente ou ainda não decifrável para se amar uma pessoa. E ainda ouso aconselhar, que se por acaso você deseja escolher uma pessoa para compartilhar grande parte de seus momentos: primeiro, esgote suas energias conhecendo a ti mesmo (como diria o oráculo dos Delfos), pois, longe da Lei de Coulomb, onde os opostos se atraem, o amor, está mais para a teoria da física quântica da geração espontânea (partículas e antipartículas surgem todo o tempo no vazio do universo, e acabam se anulando!) O amor neste caso, quando existe muitas características opostas, acaba sendo anulado! Falo por mim, não conseguiria viver uma vida com uma pessoa que pensa e gosta de coisas opostas, com toda a certeza, eu brigaria mais do que o amaria e consequentemente me separaria.

O filósofo Schopenhauer, conceitua o amor, como um sentimento primitivo fundamental a conservação da espécie, ou seja, é necessário existir o amor para que o ser humano consiga criar laços afetivos, procrie e assim, conserve a espécie. Bem, hoje sabemos que as pessoas não necessariamente se amam para ter relações e o que acaba conservando a espécie, parece ser mais a falta de precaução na hora de se divertir (Lembre-se: quase 8 bilhões de pessoas). Mas, fora esta pequena observação irônica, acredito que Schopenhauer tem sim um fundo de razão em tratar o amor deste modo...

O mais engraçado nisso tudo, é que parecemos buscar alguém com semelhanças as pessoas que amamos, tanto nas características fenotípicas, por exemplo o olho castanho do seu pai, quanto nas características de personalidade, como por exemplo, o amor e zelo de sua mãe. Isso não é necessariamente uma regra, mas, eu realmente acredito que essa relação tenha lá um fundo de verdade.

Entretendo, vale ressaltar que amamos pessoas que mudam. Sim, os seres humanos são uma constante mudança, vamos amadurecendo e inclusive perdendo a maturidade com inúmeros fatores de nosso dia a dia, lembremo-nos de Heráclito e sua "fluidez": "O sol é novo todos os dias"

Novamente, a importância de conhecer o que você gosta mesmo de seu parceiro e o que você odeia facilita na hora de observar se ele mudou e se realmente vale a pena continuar com ele (vale ressaltar mais uma vez a importância de se conhecer e conhecer o outro!). Infelizmente, além de você achar que encontrou a pessoa certa, terás que torcer para que ela não mude no decorrer dos anos, ou não mude muito...

Mais, não serei toda Schopenhauer (pessimista) e concordar que o amor não é eterno, na verdade, se pensarmos que um dia morreremos, nada mesmo é eterno. Lembrando o Soneto da Fidelidade de Vinicius de Morais:

"Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure."

Vinicius de Morais

O amor pode ser eterno sim, em cada momento que nos fazemos presente e valorizamos as pessoas que amamos. Sabe, as vezes me pergunto se meus avós nascessem nesta década, será mesmo que eles completariam 65 anos de casados? A resposta talvez seja não. Constato que não estamos mais acostumados a aturar nosso companheiro, no mundo de hoje, é tudo muito efêmero, volátil. O casamento, antigamente, era uma via só de ida. Ainda mais para a mulher, não se cogitava a separação, mesmo que você compreendesse que aquela não era a pessoa, a qual você desejaria viver o resto de sua vida. Hoje, olhando para eles, vejo um pouco de vantagem em ter se aturado este tempo todo, pois, eles possuem o apoio dos filhos e o mais primordial, o apoio um ao outro. Não sei se ainda chega a ser o amor “romântico” que eles ainda sentem, mas um sentimento de amizade e respeito que eles construíram e que acho digno de nota.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Ah, o amor!

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