Considerações Finais de Um Anjo Mau
MS Fernandes
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/07/18 14:01
Gênero(s): Terror ou Horror
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 12min a 16min
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Capítulo Único Considerações Finais de Um Anjo Mau

Pensativa, em sua suíte, Gladys encarava o espelho enquanto retirava os brincos de safira relembrando os sucessos e fracassos daquela noite.

Era impressionante. Mesmo após a festa haver terminado, ela ainda podia sentir-se tensa pelo discurso mal-acabado que fizera durante a premiação. Todo seu ensaio falhou no momento em que perdeu o papel de agradecimento e esqueceu-se de citar as pessoas que mais lhe ajudaram durante as filmagens do entediante O Puteiro.

Graças a Deus o ganhador da noite tropeçou no degrau e a roteirista quase quebrou a estatueta enquanto protesta a favor do feminismo. Aquelas gafes pareceram suficientes para abafar seu papelão no evento. Apesar de tudo, felizmente seu aniversário fora lembrado, e tendo encerrado a cerimônia, Gladys foi homenageada na festa pós-premiação, com um belíssimo bolo, champanhe da melhor qualidade e rodeada por estrelas do cinema que antes nunca tivera a honra de conhecer.

Agora, frente a frente com seu reflexo cheio de beleza e magnetismo, ela não conseguia se reconhecer. E aquilo a perturbou. Inclinou-se mais para frente, franzindo o cenho e tocando no rosto maquiado. Onde estava aquela garota que vivia no Brooklyn e que trocava qualquer coisa por um sorvete de casca e uma boa conversa? Gladys buscava encontrar algum traço da antiga pessoa que era, porém só conseguia enxergar uma mulher linda, admirada e inalcançável. Como estava mudada. Os dias a transformaram e ela nem havia percebido.

Levantou-se devagar empertigada com o espelho, e foi para a janela observar a noite. Ser Gladys Miller as vezes era extremamente cansativo, no entanto, compensador, pensou quando deparou-se com a vista encantadora. Poder ver a fonte de Bellagio em toda a sua performance de águas coloridas e altíssimas a enchia de um orgulho sem tamanho. Las Vegas brilhava mais do que o normal. Como brilhava. Gladys era agora uma estrela inalcançável, seus parentes, conhecidos e amigos deviam invejá-la mais que tudo. Eles nunca seriam o que ela era nem teriam o que ela tinha. O mundo estava na palma de sua mão.

Seus pensamentos então foram interrompidos quando o entregador chegou com mais uma pilha de caixas embrulhadas, aqueles presentes já lotavam a suíte inteira.

- Esses são os últimos, senhorita.

- Sim, Jean. Deixe-os aqui. Isso. Obrigada. – e deu-lhe uma gorjeta.

Quando o rapazinho finalmente saiu e fechou a porta, a atriz caiu sobre a cama, exausta. Até que notou uma carta em cima da pequena cômoda ao lado. A principio, achou ser alguma mensagem de boas vindas do próprio hotel, no entanto, viu que o remetente estava escrito com uma letra vermelha e borrada que cheirava a súlfur. “Tenebratus”.

Curiosa, Gladys arrancou a folha do envelope, e abriu.

Eis o que tinha escrito:

Oh querida Gladys, Filha Daquele Que Mata.

Será que voce ainda se lembra de mim?

Provavelmente não.

Se passaram tantas primaveras, verões, outonos e invernos desde a ultima vez em que me viu. Veja só tudo que conquistou. Há quem diga que voce foi muito abençoada por Deus, mas sabemos que não foi exatamente assim.

A propósito, eu não irei parabenizá-la, pois quem lhe deu tudo foi o meu Mestre. Devia agradecê-lo pela estatueta que ganhou esta noite, pelo lindo vestido de seda, pela estadia nesse luxuoso hotel, pelos convites que tem recebido de grandes diretores que dariam tudo para tê-la em seus projetos.

Ah...

Sinto saudades de quando voce agradecia meu Mestre, Gladys. Quando trancava a porta do seu quarto e acendia as velas, afinal tudo é mais bonito quando só há trevas ao seu redor. Voce desenhava minha marca no chão, vestia suas roupas mais escuras e abria os braços para chamar o Pai da Mentira, então eu e minha legião entrávamos e possuíamos a sua alma.

Era tão bom este momento, quase que libertador, pois eu rosnava e me manifestava com todo o ódio querendo sair para fora, afim de tumultuar. O único instante de prazer que eu tinha era quando eu estava sob a sua pele. Meus irmãos festejavam entre o fogo, enquanto eu urrava dançando dentro da sua alma. Sua alma, aquele lugar sujo e escuro que eu gosto de habitar, cheio de porcos, serpentes e dragões. Embora não tenha lembranças disso ou despreze nossa força, sua descrença só nos fortalece.

E eu ainda arrodeio a sua vida, querida Gladys.

Não sabia disso?

Voce não me vê, mas eu estou aí, perto de você e te seguindo como uma sombra. Tenho sussurrado idéias nos ouvidos de todos, é assim que faço sua vida prosperar. Aqueles teus amigos são meus também, te levam por caminhos de prazer e alegria, mas esta noite tragarei todos eles, um a um, como um bicho devorador, pois a hora deles é chegada.

E caso esteja curiosa, eles serão pegos numa estrada deserta para qual os guiei. São blasfemadores de Deus e assim, agradam meu Mestre, pois não há anjos de luz para protegê-los. O carro os arremessará direto para os braços da morte. E celebraremos juntamente com os corvos o seu fim.

Agora me diga, Gladys. Ainda não se lembra de mim?

É certo que eu não tenho nome, o perdi enquanto caía do céu juntamente com meus irmãos e Satanás, a vergonha ainda me assola e por isso não posso suportar os seres gloriosos, sua luz e beleza me fulminam, e eu fujo.

De qualquer forma, pode me chamar de demônio, pois sua alma é minha desde o momento em que a deu para o meu pai, em troca de riqueza, beleza e fama. Eu fui mandado para te conduzir, te dar o que me pediu. Contudo, hoje nosso acordo termina.

Lembra-se de quando fez essa escolha? Aquele dia em que entrou no terreiro e se arrepiou dos pés a cabeça? Estávamos todos lá e você começou a dançar como nós e a cacarejar como nós, soltou pragas e ofereceu objetos imundos ao meu Mestre, então pegou seu pequeno bebê que acabara de vir ao mundo e atirou-o entre as velas. Festejamos a morte da criança, e o sangue dela até hoje me embebeda. Outrora voce era chamada Filha de Deus, o Criador, o Ativíssimo, mas após aquela noite, entregou sua alma para meu pai, Satã e agora é filha do Diabo, o Tentador, Aquele Que Mata.

Porque não tem dado mais oferendas ao Príncipe das Trevas?

Quando fizestes bruxarias para teus inimigos, eu fui até eles e os machuquei em seu nome, quando tramasse feitiçarias para ter mais dinheiro, eu te cobri de ouro e milhões. Agora, está na hora de cumprir com a tua parte do acordo.

Eu vejo tudo o que fala e faz, Gladys. Não tem como fugir de mim. Voce já é do Diabo. Enquanto ri com seus colegas, distraída, acena para todos os seus admiradores e esbanja dinheiro, eu te observo o tempo inteiro, não saio de perto nunca. Até no seu quarto eu estou. Sei que andas chorando muito, pois nosso acordo nao incluía paz, é algo que está fora do alcance do meu Mestre. Não o interessa.

A Depressão tem te tomado, e eu gosto de vê-la assim, chorando aos borbotões, vulnerável a tudo. Vi quando ontem mesmo voce se mutilava no banheiro, fui eu quem te colocou na beirada do telhado àquela sexta-feira. Te persuadi com meu espírito, porque eu sou a própria desgraça. Todas às vezes em que se sente angustiada, ansiosa e numa tristeza sem fim, eu cruzo meus braços num sorriso largo. Isso me diverte.

Assuma Gladys, era para voce ter pulado daquele telhado ontem. Porque hesitou tanto? Eu estava em êxtase, pronto para te arrastar para o inferno e assim começar o grande martírio. Porém voce negou a vontade e se afastou. Mas eu não desisto facilmente, e continuei a tirar teu sossego.

Aqueles vultos que voce costuma ver? Os barulhos que costuma ouvir? Sou eu percorrendo as paredes da sua casa e rindo junto dos meus gênios do mal. Apareço principalmente enquanto voce dorme, e voce já me viu algumas vezes.

Certa feita, te fiz acordar numa madrugada e paralisei seu corpo inteiro, voce nao conseguia se mover. Ficou em pânico. Então eu me sentei no canto do seu quarto e te contemplei com olhos carcomidos. Pensaste que foi um sonho? Mas não, a criatura daquela noite era eu te observando.

Quando tu tens pesadelos e acorda em prantos, são meus gnomos perturbando seu sono, enquanto eu possuo o teu corpo. Voce nem desconfia, mas todas as noites em meio ao escuro, eu subo na sua cama devargazinho e abro suas pernas, porque teu corpo é agora morada do maligno.

Oh Gladys, hoje completa vinte e seis anos da tua vida, e o inferno está mais quente do que de costume, lagos de fogo ardem a sua espera, os cães querem te atormentar, posso ouvi-los gritando ‘Trazei a menina sem alma, trazei-a para o nosso festim!’.

O Satanás já marcou a data da tua morte.

Ele te deu tudo que você pediu e agora é o momento de retribuir com a sua parte do pacto.

Somente aguarda, menina. Virei ainda hoje buscar tua alma, descerei com ela até os confins do abismo, e a entregarei para o meu Mestre numa bandeja. Iniciaremos então teu tormento, o inferno é um imenso báratro. Repleto de escuridão, fogo, desolação e pranto. Tu vais lamentar e agonizar por toda a eternidade. Sem nunca parar.

Somente aguarda.

PS: O meu Amo dá, e em seguida recolhe, porque nada é dele.

Dê adeus ao mundo. Hoje o inferno te recebe.

Um calor febril começou a percorrer todo o corpo de Gladys, ela podia senti-lo insurgindo nas veias e sacudindo seu estomago. Mal conseguiu ter uma primeira reação, e seu íris já estava escurecido de tanto que fitava a carta.

Seria uma alucinação causada pelo desespero ou realmente a suíte havia ficado menor e mais fria? As pinturas de decoração pareciam se confundir nas próprias cores e ganhar vida, saltando das bordas em sua direção. Canções de ninar macabras de repente invadiram sua mente e logo Gladys estava rodopiando no quarto em busca de algo para se apoiar.

- Ele está aqui… Ele está aqui… posso senti-lo. – repetia num monólogo enervado.

E quando seu estomago finalmente parou de embrulhar e seus pensamentos se clarearam. A mulher encontrou-se afetada, num estranho estado de negação. Aquela carta era falsa, não poderia ser verdadeira. Apesar de todo o seu passado envolto por sortilégios e magia negra, ela de alguma forma não confiava plenamente na existência de um submundo ordenhado por seres caídos. Ou ao menos, naquele momento não queria acreditar. Não. Era impossível. Impossível! Rir daquela situação e tratá-la como uma grande brincadeira de mal gosto foi inicialmente sua primeira alternativa. Convenceu a si mesma de que em algum lugar, um perverso fanático escrevia empenhadamente aquelas palavras malditas para ganhar alguma atenção e significado na vida da atriz. Ele devia estar gargalhando e saltitando Àquela altura.

Sendo isto, Gladys foi até o telefone e de imediato ligou para o gerente.

- Venha aqui, agora! – esganiçou ainda tremula, quando o homem atendeu.

Durante o meio tempo em que o gerente estava a caminho de sua suíte, para Gladys foi como uma eternidade, a moça não conseguiu se acalmar e quando o Sr. Hupert bateu a porta e entrou no quarto, encontrou-a falando sozinha, numa espécie de autoterapia.

- Srta. Miller, está tudo bem? O que houve?

- Ah que bom que está aqui. Venha Sr. Hupert, veja isso.

E arrastando-o pelo braço, Gladys deu para ele a medonha carta e afastou-se novamente, pois não podia evitar o desconforto de vê-la.

- Recebi essa carta agora pouco. Não sei bem, mas deve ter chegado juntamente com os meus presentes de aniversário. Alguém está me ameaçando, não sei quem. Que zombaria é essa? Exigo que me diga quem enviou isto. Quero saber, agora! Chame Jean, ele com certeza sabe.

- Mas...

- Chame ele agora! Preciso saber quem fez isso.

Contudo, assim que calou-se, a mulher percebeu que o gerente a olhava estarrecido sem obedecer uma palavra.

- Mas que é que voce está esperando?

- Desculpe madame, mas é que eu não entendo. De que carta está falando?

- Como de que carta? Essa que está na sua mão.

Claramente atordoado, o Sr. Hupert então estendeu-lhe a folha:

- Mas senhorita... esse papel está em branco.

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