Histórias noturnas
Jorge Miranda
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 17/07/18 23:13
Gênero(s): Sobrenatural
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 14min a 19min
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Palavras: 2396
[Texto Divulgado] "A noiva" Com uma taça em mãos e olhar voraz, se flagrava confortável por não ter alguém ao seu lado prometendo o que não é capaz de cumprir. Observava a concentração do pianista, as velas agora já derretidas na bancada e o sorriso que iluminava o belo rosto da noiva.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Histórias noturnas

O pôr de sol inundava a paisagem com os últimos resquícios do dia. Em pouco tempo a noite chegaria e mergulharia tudo em seu véu de escuridão.

O automóvel do tipo utilitário cruzava com segurança a estrada. Os quilômetros se acumulavam no velocímetro. Dentro dele quatro jovens rindo e conversando.

- E aí, Fernando, foi muito difícil para o seu velho liberar o carro? – Alfredo, já conhecia Fernando desde o ensino médio, eram parceiros e confidentes, mas no fundo tinha uma certa inveja do sucesso do amigo. Ele seria médico e Alfredo continuaria tomando conta da pequena mercearia que herdara do pai.

- Que nada! Em um ano serei médico e é a coisa que ele mais quer na vida. Ele está liberando tudo com mais facilidade agora. Sabe aquela história do cara que gozava pelo pau dos outros? É o meu pai. – Deu uma gargalhada sonora enquanto falava isso.

Martha era aquilo que poderia ser considerada a-ficante-do-momento-de-Fernando.

- Neném, falta muito prá gente chegar nesse fim de mundo?

- Umas duas horas ainda mais ou menos. E pare de me chamar de neném! Faz eu parecer um idiota todo meloso.

- Você é o meu neném e pronto! E é meloso também.

- Ah, para de falar merda.

Aline olhava a cena e tinha dificuldade em decidir quem era mais tolo: Fernando todo convencido dirigindo um carrão e se sentindo a cereja do bolo ou Martha que de cada três coisas que falava quatro eram bobagens. Só aceitara o convite para o fim-de-semana no sítio da família de Fernando porque também não queria ficar tomado conta da sua avó inútil e entrevada em uma cama.

********

O crepúsculo já cedia lugar para a noite quando o utilitário perdeu potência e terminou parando.

- Mas que merda foi essa agora? So faltava isso!

- O que houve, neném? Você não tinha colocado gasolina? Poxa vida ...

- Essa bosta de carro roda com diesel. Não foi merda nenhuma de combustível porque o tanque está quase cheio. E, não me chame de neném!

- Puta que pariu! Será que foi bateria? A Parte eletrônica?

- Porra, Alfredo, não sei. Bateria não foi. Não entendo porcaria nenhuma de carro, só sei dirigir essa merda e mais nada.

A noite já espalhava seus braços pela paisagem. A estrada estava deserta e para piorar eles estavam fora da área de sinal para telefonia móvel.

- Gente, o que vamos fazer agora? – Aline, já imaginava os quatro andando em uma estrada escura e deserta ...

- Neném, fala prá mim que o carro vai funcionar. Eu não quero ficar aqui, dá um medo desgraçado só de olhar para a escuridão lá fora.

Mesmo após várias tentativas o carro simplesmente não funcionou mais.

********

- Acho que só temos duas saídas, gente. Ou ficamos aqui e esperamos passar algum carro ou saímos e vamos atrás de ajuda.

- Aline, tem razão! Vamos decidir logo. – Alfredo falava isso sentindo que no fundo já sabia qual era a sua preferência: ele não iria nem a pau andar naquela estrada a noite.

E assim foi. Decidiu-se que eles passariam a noite ali no carro e que de manhã iriam atrás de ajuda.

Ficar parado em uma estrada no meio do nada era algo que despertava uma sensação estranha e no fundo todos sentiam algum receio. Apenas Martha deixava claro que estava com medo os demais fingiam que tudo estava bem.

Para passar o tempo os quatro conversavam, contavam fofocas e piadas. O tempo parecia avançar a passos de tartaruga. Lá fora a noite era uma cortina escura e intransponível.

- Eu proponho que cada um conte uma história picante sua. Tenho umas bem interessantes. – Sugeriu Martha.

- Ah, não. Ninguém merece escutar história de sacanagem sua. De última essa. – Aline torceu o nariz na hora. Aguentar as conversas com Martha já eram um suplício imagine escutar ela falando de trepadas e mais trepadas.

- Tenho uma ideia. Que tal cada um contar uma maldade que já tenha feito com alguém? – Sugeriu Alfredo.

- Humm ... isso é valendo? – Perguntou Fernando – O que a gente falar aqui, fica aqui?

- Sim, sim. O que acontece em Vegas fica em Vegas. – Alfredo falou já dando uma gargalhada.

- Gostei disso. Eu topo. Mas me digam o que Las Vegas tem a ver com isso?

Aline sentiu uma vontade danada de dar um beliscão bem forte em Martha ...

Todos aceitaram a sugestão de Alfredo. Que coisas doidas não iriam surgir? A verdade é que a proposta de Alfredo terminou suscitando uma terrível curiosidade em todos. Por medida de segurança decidiram fazer um pacto de que tudo que fosse dito naquela noite ficaria em segredo e nunca mais seria comentado.

Para deixar a coisa mais interessante Alfredo sorteou quem seria o primeiro que contaria a sua maldade.

********

Aline

- Todos vocês sabem que minha avó tem sequelas de AVC. O que vocês não sabem é que eu sou a culpada pela doença dela. Não sou culpada por tudo é claro, mas dei uma certa contribuição.

- Ela sempre teve a língua solta e tudo o que eu fazia ela corria e contava prá mamãe. Isso me irritava terrivelmente. Acho que ela sempre foi fofoqueira. Lembro que uma vez ela me viu pegando dinheiro na bolsa de mamãe. Quando eu cheguei em casa minha mãe me esculhambou e me deixou sem sair de casa por duas semanas. Outra vez ela simplesmente falou para minha mãe que eu não estava indo para as aulas. Resultado: minha mãe me tirou o celular.

- Que velha desgraçada! – Martha falou provocando gargalhadas nos demais.

- Quando ela apareceu com essa coisa de pressão alta passou a tomar umas pílulas todo dia. Aí tive uma ideia para me vingar dela. Eu mandei fazer uns comprimidos de miolo de pão e substitui os que ela usava. Era igualzinho, ninguém ia notar a diferença.

- Aconteceu que ela um dia passou mal, disse que estava sentindo uma dor de cabeça muito forte e aí começou a enrolar a língua e sei lá mais o que. Eu sabia que ela estava tendo um derrame e mesmo assim deixei ela ali. Fiquei olhando ela caída por um bom tempo. Não senti uma urgência em socorrer, fiquei só olhando ela ali no chão da sala. Só depois é que liguei prá minha dizendo o que tinha acontecido.

- O resto vocês já sabem. Hoje ela é toda entrevada e vive dando trabalho em cima de uma cama.

- Porra! Não sabia disso. Você não tem medo de ir para o inferno, garota? – Perguntou Alfredo dando um risinho.

********

Fernando

- Vocês se lembram de uma história que contei sobre uma colega minha de curso que alguém tinha aprontado algo feio para cima dela? Isso já deve ter uns três anos, lembram?

- Sim, sim. Eu lembro, neném. Você disse que deram algo para ela dormir e que gozaram no rosto dela enquanto ela estava apagada.

- Pois é ... fui eu que fiz isso.

- Foi um momento de raiva, até me arrependi depois. Ela era metida a sabichona e eu sabia que ela com certeza ia ganhar a bolsa de iniciação cientifica que eu tanto queria. Ela era bem próxima a professora que coordenava a pesquisa e eu não. Enfiei na cabeça que não adiantaria nada eu estudar porque a vaga já era dela.

-Eu já tinha dado em cima dela umas vezes. A doida sequer olhava prá mim. Certo dia eu entrei escondido no apartamento que ela dividia com uma colega e chumbei ela com um sedativo. Dei uma gozada na cara dela e filmei. Depois dei um jeito que fosse divulgado. Porra, foi um escândalo. A coitada tentou o suicídio tamanha foi a vergonha. Soube que ela terminou abandonando o curso. Ninguém nunca soube quem tinha feito aquilo. Fiquei com pena dela depois ..., mas o tempo passou e terminei esquecendo isso.

- Puta que pariu! Isso foi nojento. Você vai ser médico e ela não. Isso foi muita sujeira da sua parte.

- Ah, legal! Deixar uma velha ter um derrame e ficar vendo ela estrebuchar é uma limpeza? Me poupe!!

********

Martha

- A minha maldadezinha é meio picante! Tinha um vizinho meu que não tirava o olho de mim. Ele já era velho. Ele sempre me olhava disfarçadamente, dava para ver que ele tinha o maior tesão em mim. Eu passava e ele ficava todo ansioso.

- Vem merda por aí ... – Falou Aline com um certo desdém.

- Eu gostava de mexer com o pobre do velho, passava na frente dele usando roupa colada no corpo, shortinho bem curto. Achava superdivertido imaginar ele me querendo e eu dando um fora nele. Gente, eu nunca nesse planeta que iria me agarrar com um velho caindo de podre. – Não deu para Martha segurar um risinho sarcástico.

- Fiquei sabendo que ele era viúvo há muitos anos e que morava sozinho. Confesso que sentia um certo prazer em maltratar o velho. Ele nunca me teria mas decidi dar corda prá ele.

- Certo dia eu inventei de tomar banho na casa dele. Disse que estava sem água em casa e perguntei se poderia me emprestar o banheiro dele. Ele todo nervoso me ofereceu o banheiro. Lá pelas tantas eu me enrolei na toalha e fui maltratar o coração do velho. Perguntei se ele tinha uma escova de cabelos e deixei cair a toalha. O pobre ficou com os olhos do tamanho do mundo quando me viu nua. Sua respiração começou a ficar ofegante e aproveitei para maltratar mais ainda. Comecei a me tocar e a fazer cara de quem estava para gozar. Ele foi respirando com mais dificuldade. De repente ele caiu. O rosto dele estava todo roxo. Acho que ele tinha problema do coração. Fiquei meio sem saber o que fazer. Terminei ligando para o 192.

- E que fim ele teve? Pergunta Alfredo

- Ah, o velho babão se recuperou, mas também nunca mais olhou prá mim.

- Posso lhe garantir que o diabo não quer você. No inferno eles não querem gente da sua laia. – Fernando falava tentando fazer cara de seriedade.

- E nem gente nojenta que droga os outros só porque é um frouxo, neném!

- Ah, vai tomar no cu que é melhor.

- Que bom, pensei que você fosse também armar prá cima de mim, neném frouxo!

********

Alfredo

- Acho que minha maldade não é tão ruim quanto a de vocês. Todo mundo sabe que meu pai passou a sofrer de depressão após um assalto e eu não estava lá para ajudar ele quando aconteceu. Só isso.

- Para com isso, santinho! A ideia foi sua e se você sugeriu é porque estava doido prá falar algo. Desembucha[ka1] logo! – Eu fui sincera quando falei da minha avó então conta qual foi a merda que você fez.

- Certo, certo. Vocês venceram. A verdade é que eu estava envolvido com drogas. Eu vendia e cheirava direto. Comecei a pegar pó na boca prá vender e não vendia. Só fazia cheirar e mais nada. Claro que os traficantes iriam cobrar ...

- Comecei a pegar dinheiro do comércio do meu pai. Nunca era o bastante. Quando a gente cheira nunca há dinheiro que baste. Terminou que meu pai descobriu e foi o inferno em casa. Ele começou a regrar as coisas e a me vigiar. Imaginem eu devendo para os traficantes e papai pegando no meu pé.

- E o que você fez?

- Fui até os traficantes e negociei minha dívida: falei que meu pai tinha muito dinheiro escondido e que eles podiam ir lá pegar. O problema é que eles me levaram junto. Chegando lá eles destruíram todo o comércio e ainda tocaram fogo. Tudo isso na minha frente. Meu pai terminou dando para eles todo o dinheiro que havia juntado com muito sacrifício. Papai nunca mais foi o mesmo e é depressivo até hoje. Aí inventei a história do tal assalto.

- Então você acha que a sua merda é menor que as nossas? Só rindo da sua cara, mesmo! Você fodeu com seu velho. – Fernando falou isso e caiu na gargalhada.

********

A noite avançava e o carro continuava parado. A escuridão envolvia o veículo onde quatro pessoas contavam segredos e dividiam maldades.

- Achava que o único que não prestava aqui era eu. Agora vejo que eu sou o mais santo dentro desse carro. – Fernando solta uma gargalhada sonora.

- Está falando besteira, cara. Aliás, sempre sai muita merda dessa sua boca. Eu jamais faria o que você fez para ficar com uma simples vaga.

- Merda fedorenta é o que sai da sua boca!! Quer dizer que deixar sua avó ter um derrame é algo bem levezinho? Conta outra que essa não fez efeito. Com certeza eu não sou pior do que você. Você ganha de todo mundo aqui.

- Se é para levar o título de malvado do ano eu voto na Martha. Provocar um infarto em um velho doente só para provar prá si mesma que é a megagostosa e superfodona é coisa de gente sem-noção.

- Vou pedir para lhe canonizarem, feioso! Você cheira todas, deixa seu pai na falência e todo fodido de depressão e vem prá cima de mim dizendo que eu é que sou a campeã? Se eu for para o inferno quando eu chegar lá você já será morador antigo.

********

Os quatro jovens naquele carro parado em uma estrada deserta despertaram para algo.

- Vocês repararam que já era para ter amanhecido? Já estamos aqui há horas e não passa um mísero carro e nem o sol dá as caras também ...

- É Verdade, neném. Alguém sabe dizer que horas são?

- Não sei dizer. Meu celular descarregou, mas já era para ter amanhecido. – Alfredo olhava pela janela do carro e não conseguia ver nada. Observou que a luz interna do carro iluminava apenas o interior de onde eles estavam e que lá fora a escuridão era impenetrável.

Com o rosto grudado no vidro da janela Aline se perguntava porque eles não tentavam sair do carro e ir embora. Era tão simples. Mas, no entanto, eles permaneciam ali.

- Gente, porque não saímos daqui e vamos procurar ajuda? – Aline falou e já foi abrindo a porta do veículo para sair, colocou logo uma perna para fora e parou de repente. Sentiu que seu pé não tocava em nada, não havia um chão aonde pudesse pisar...

A escuridão lá fora era densa e parecia diferente, de um tipo que os quatro não conseguiam compreender.

Uma sensação indizível atravessou o corpo e a alma de cada um. A estranha noite avançava e todos se perguntavam porque o dia não amanheceu.

A noite eterna fez morada naquele carro parado em uma estrada deserta.

[ka1]

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